quinta-feira, 7 de novembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto VIII) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Quando acordou deviam ser perto das sete horas, o sol começava a sorrir e decidiu tomar o seu duche e ir preparar o pequeno almoço para Isabella que ainda dormia.
Mas era cedo. Muito cedo e foi passear um pouco pelo jardim, sentindo os aromas das flores que já acordavam. Tinham sido uns dias cinzentos os que viveram, mas acreditava que a bonança chegaria com muita tenacidade e amor.
Entrou na cozinha e logo sentiu aquele inconfundível cheirinho a café acabado de coar. Era o que mais gostava. O pão fresco era a delicia que faltava, com o doce de amoras que a avó fazia como ninguém.
Olhou o relógio de cuco e reparou que já eram quase nove horas e nem se tinha apercebido.
Subiu para espreitar Isabella, dormia!

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

O CONTO DAS MOCAS (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Miguel, diz Poesia: dos contos do Ti Reinaldo, o Conto das Mocas é talvez o que melhor reflecte a amizade que tinha pelas crianças, sobretudo as que, como ele, tiveram uma infância com necessidades.
“Era uma vez um menino a quem morreu a mãe. O pai casou segunda vez e a partir daí a vida do menino passou a ser um inferno. A madrasta obrigava-o a trabalhar em serviços pesados, sem lhe dar de comer. Valia-lhe a madrinha para não morrer de fome. As madrinhas são como segundas mães. O menino andava triste e não sabia o que fazer à vida.
Um dia, mais desesperançado, resolveu fugir e correr mundo. E se assim pensou, melhor o fez. Aproveitou a saída do pai e da madrasta, que tinham ido para a feira da vila, e juntou a pouca roupa que tinha, colocou-a no alforge e aí vai ele a correr mundo.
Ao fim do dia, já ele tinha corrido cinco léguas, quando começou a cair a noite. Então é que se lembrou que não sabia onde dormir. A fome começou também a sentir-se, mas lá encontrou uma espécie de toca, debaixo de um penedo, onde dormiu toda a noite. Na manhã seguinte, cheio de fome, continuou o caminho, mas a cada passada que dava a fome ia sendo mais forte e as pernas iam ficando mais fracas. Até que a meio da manhã, cheio de fome e sem saber o destino, o menino sentou-se no chão a chorar. O desespero era maior que o choro. O sofrimento aumentava e a esperança rareava.
Mas de repente o menino sentiu um grande arrepio e olhando em frente viu uma senhora, raiando uma luz prateada, que de súbito lhe pareceu a madrinha que lhe dava de comer. E a senhora perguntou: Menino, porque choras?
O menino respondeu: Eu fugi de casa por causa dos maus tratos que me dava a minha madrasta e agora estou perdido e cheio de fome. Então a senhora deu-lhe um anel de ouro e disse-lhe: Pega este anel e sempre que quiseres, basta dizeres ao anel: “anel faz o teu dever”, e logo terás uma mesa, farta de comer. Dito isto, a senhora desapareceu. Era Nossa Senhora, mãe de Jesus, assim pensou o menino.
O menino quis experimentar e, ditas as palavras santas, logo apareceu uma mesa farta de comer... Comeu tudo o que quis, do bom e do melhor. Parecia que o céu se tinha aberto para ele. Estava neste mister quando lhe apareceu um viajante. Tratava-se de um homem de aspecto pobre, com um saco às costas, que, quando chegou ao pé do menino, perguntou-lhe porque estava ali a mesa. O menino explicou o milagre do anel.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

domingo, 3 de novembro de 2019

MORRER EM VIDA, NUNCA! (excerto) - SÓNIA CORREIA

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E será esta a definição de insanidade? Será esta a hora em que se deslaçam os cordões do colete de forças quase costurado por nós mesmos, em todos os anos que a vida nos prometeu serem de liberdade?

De que adianta esta viagem sem cumprir os destinos do desejo? O que mais fazemos nesta terra do que não seguir padrões e vestir imagens hipócritas que pareçam bem à sociedade?

Não estamos senão mortos sem ter havido funeral, em todos os dias, meses e anos que reprimimos a vontade de enlouquecer e gritar em uníssono todos os desejos escondidos, nos cantos secretos de nós. Vamos sendo cada vez menos nós, inertes, máquinas.

E se a cumplicidade demente, subitamente, respirasse ofegante por aí com o nosso nome? Se o estado constante de subir paredes desfuncionasse a monotonia e implodisse constantemente em chama ardente? E se a tesão da mente escorresse no corpo enquanto a alma cerrava todas as grades de aço ao redor de uma existência seca de emoção, haveria coragem?

O impensável existe, seja onde for. Ele vive e respira preso ao colete e internado num relógio onde os ponteiros apenas passam pelos minutos. Anda por aí, perdido nos caminhos, mas certo da minha morada que lhe pertence como jamais a alguém pertenceu.

Somos monumentos estáticos de hipocrisia, mentiras, veias entupidas de tanto reprimir a verdade, cínicos automatizados em estereótipos sem coragem de assumir a realidade, e muitos de nós nascem, crescem e morrem sem sair da cápsula desse tempo emprestado e veloz, mas que um dia acaba.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

sábado, 2 de novembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto VII) - MARIA MAGUEIJO

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– Desculpa, mas fui requisitar uns livros à biblioteca e dei de caras com alguém que te mandou um abraço e um beijo. A Anabela, da aldeia e imagina dei-lhe tamanho encontrão que deixei cair os livros todos. Enfim, isso agora não é o mais importante. Apenas o bem que disse da tua pessoa me interessou. Que foste o exemplo que deixou regras de conduta até hoje. Vês? Missão do Universo, mais que perfeita! Agora vamos jantar!
– Já reparaste que ainda não te calaste um segundo, Maria? Respira! E sim, fico feliz. Agora quero dormir.
– Não, não... primeiro o jantar.
– Tu és muito chata! Pior que quando nem te reconheci. Aí estavas calada!
– Menina Isabella fique sabendo que aprendi consigo esta beleza de ser uma verdadeira chata! Come e cala-te.
Isabella comeu e mesmo antes de adormecer perguntou a Maria porque queria ler para ela, se dormia?
– Para te lembrares que consegues fazer a diferença, agora serei eu a contar-te histórias lindas e enriquecedoras! E vais ouvindo a minha voz. Para não te esqueceres dela.
– Estou assim tão mal? Parece-te que me irei esquecer de tudo? Diz-me a verdade.
– Que grande tolice, tu dizes cada coisa, sabes... dorme! Eu vou ler um belo romance para me animar.
– Hummm, doida. Que vais ler? Balbuciou Isabella já meio adormecida.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

OS TOCADORES DE RABECA - ERNESTO FERREIRA

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Miguel, o Ti Reinaldo vai contar-te hoje o primeiro conto do seu reportório. É um conto em que a Rabeca é um elemento importante. Era um dos instrumentos musicais mais prestigiados nos tempos que já lá vão. É um instrumento de origem árabe, antecessor do violino e de muito menor qualidade sonora. Na região do Alto Minho raramente se vê, mas era muito popular no sec XVIII. Sobre este instrumento há um belo trabalho feito por Giaccometi, artista que fez várias recolhas etnográficas na aldeia e que até hoje, infelizmente, não teve ainda a merecida homenagem. Daqui por diante ouve o Ti Reinaldo.

“Era uma vez uma aldeia que muito se questionava e o povo dividia-se na apreciação da qualidade de dois tocadores de rabeca, que aí viviam.
Um chamava-se Venâncio; o outro Valentim. Na realidade onomástica, para o povo nessa aldeia do Alto Minho, eram o Benâncio e o Balentim. Numa faceta, eram por todos igualmente apreciados: eram amigos e se alguma adversidade havia entre os dois, era desejo de cada um ser mais perfeito tocador que o outro.
Porém, uma concorrência sádia, que se traduzia no incómodo que ambos sentiam nas paixões por vezes menos doces que os respectivos apoiantes interpretavam.
Até que Venâncio encontrou uma forma de acabar com a dúvida sobre quem era o melhor artista: se ele, se o Valentim. Assim propôs a Valentim o seguinte desafio:
– Oh, Balentim, desafio-te a que seja o Senhor dos Passos a dizer qual de nós é o melhor. Para isso cada um de nós vai dar três voltas à capela, a tocar uma rabecada. Finda essa, entra na capela, ajoelha-se em frente ao Senhor dos Passos e toca uma rabrianada (assim chamavam a peça musical tocada em arraial). Ajoelhado espera pelo julgamento do Senhor dos Passos. Valentim aceitou o desafio e calhou ser Venâncio o primeiro a cumprir a sua demonstração musical.
Deve saber-se que nessa altura o Senhor dos Passos, além de ser o Padroeiro da aldeia, era tido por todos os aldeões como Santo de bons ofícios e milagres, e senhor de opiniões e sentenças como nenhum juiz de fora seria capaz.
Verdade que nenhum dos aldeões alguma vez ouviu o oráculo do Senhor dos Passos na presença de testemunhos. Era sempre uma conversa a dois.
Mas ninguém se atrevia a duvidar que alguém mentisse invocando o santo nome do Senhor dos Passos em vão. Pelo sim pelo não, era conveniente aceitar.
Bom, no dia aprazado para a resolução da contenda, todos os aldeões se juntaram no adro de capela para assistir ao mais belo momento musical e alguns, desconfiados, para aquilatar da justiça do Senhor dos Passos. Já havia alguns “pedreiros livres” dissimulados, como era mais seguro.
Até que chegaram os dois contendores, alvos do maior respeito dos presentes.
Começou então o Venâncio que iniciou a primeira das três voltas à capela e dando desde logo azo a que os seus adeptos se mostrassem confiantes no melhor resultado. Findas as voltas entrou na capela e perante o Senhor dos Passos deu início ao tema que melhor sabia interpretar. No final ajoelhado em frente ao Santo esperou o seu veredicto. Como disse, este acontecimento era tido sem testemunhos. Após uns momentos, Venâncio levantou-se e tomou a saída da capela. No adro e perante a curiosidade de todos, e ansiedade dos seus adeptos, disse: O Senhor dos Passos ouviu-me
tocar e não disse nada, mas as lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo, tão maravilhado estava com a minha actuação.
Seguiu-se o Valentim. De igual modo tocou a sua rabrianada, dando as voltas à capela e entrou na dita. Aí, em frente ao Senhor dos Passos, sozinho, como era de preceito, fez valer os seus dotes de tocador.
Cá fora a multidão esperava as palavras de Valentim para todos ficarem a saber a opinião, que seria lei daí em diante, do Senhor dos Passos.
Num silêncio sepulcral, Valentim disse:
– Oh, Benâncio, o senhor dos Passos para ti chorou, mas para mim até falou e disse: Ah Balentim, Balentim, podes ir tocar prá casa (dependia do ouvinte) que nunca ouvi tocar assim!
Opinião que passou a valer não só por vir de quem vinha, mas ainda pela força dos palcos onde podia actuar Valentim, na opinião do Senhor dos Passos.”

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA