domingo, 27 de outubro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto VI) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Saibam da autora neste link
Conheçam a In-Finita neste link

– És tu, Maria? Sabes, eu não fui tremendamente infeliz lá naquela aldeia. Apenas corrói a minha mente e vou enlouquecer. Receberam-me como um ser do Além... gentes de tantos lugares, de tantas raças, de tantas culpas e de tantas inocências... mulheres que apenas precisavam de uma ajuda Divina, uma ajuda de alguém que não pertencesse ali, que fosse a “anormal”, fora do contexto. Eu fui tudo isso. Com tanto esforço, com tanta convicção, com tantas lágrimas escondidas e mesmo assim, eu acreditava que podia criar um Mundo melhor para aquela gente tão revoltada, cheia de remorsos, ou não... Isabella era o nome mais ouvido naquele espaço e isso alegrava a minha existência. Era eu para ajudar alguém que se sentia mal, era eu porque alguém durante a noite precisava ler e de um conforto verbal. Era eu que sabia todos os segredos, alguns que me rasgavam por dentro sem o demonstrar, sempre no silêncio, na ausência de perguntas e tratava todas as gentes de igual modo.
– Isabella, querida, estás a cansar-te. Precisas dormir. Já passou! Quem sempre te Amou, continua a Amar-te. Quem não o faz... esquece essas pessoas. Foca-te em seres a Isabella que todos conhecem como um ser do Além, com feitio por vezes agreste, resmungona, mas, na realidade, isso é só máscara. Tu és de essência doce e assim serás sempre.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

sábado, 26 de outubro de 2019

AS ESTÓRIAS DO TI REINALDO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Saibam do autor neste link
Conheçam a In-Finita neste link

Miguel, fixa esta frase: Reinaldo, um Artista que devemos recordar, diz a Poesia.
Os mais novos da aldeia não o conhecem como tal, mas todos sabem que é moleiro e sabe contar contos fantásticos. Os mais velhos, aqueles que com ele convivem, têm-no na conta, mais das vezes, de um pobre diabo que se sustenta das parcas maquias que são a moeda de troca pelo trabalho de moagem. A dura vida da aldeia, na época de carência, não deixa tempo para apreciações mais cuidadas. Cada um vale pelo seu poder económico, que no caso em apreciação se aproximava do zero. Felizmente que os jovens da minha época ouviram dezenas de vezes as suas estórias, contos e peripécias, sempre com a emoção de quem as ouve pela primeira vez. O que de todo não era falso já que o Ti Reinaldo, cada vez que conta um conto, lhe empresta uma nova tonalidade e emoção. Como qualquer artista doutra área da cultura. Esses jovens, hoje já na 3ª idade e com uma formação mais cuidada, recordam o contador de histórias e menos o moleiro. Tenho a sorte de ainda pertencer a esse grupo etário. Ao escrever algo sobre o Ti Reinaldo quero pagar-lhe em memória, para todo o sempre, os fantásticos momentos que me deu e dá, de exaltação do imaginário.
Um imaginário por vezes assustador, pois alguns dos seus contos metem figuras sinistras e situações em que Satanás é a mais santa das entidades envolvidas. Mas não é apenas um contador de estórias. Tem uma voz maravilhosa que, aliada ao familiar dom da música, o torna um expert do cantar seja ao desafio, seja a cantar as Janeiras, seja nas “ramboiadas” que adorava e adora.
Uma das manifestações mais apreciadas são as “tainadas”, normalmente aos domingos, depois do terço, ou no dia de S. Martinho, a 11 de Novembro, quando o provérbio, “no dia de S. Martinho,
vai à adega e prova o vinho”, está sempre presente. Eu aí nunca estou presente, diz a Poesia. Os viticultores juntam-se para, pela primeira vez, apreciar e qualificar o vinho da colheita de Setembro/Outubro. A prova dos vinhos é “aconchegada” com a ingestão de umas tapas (broa e chouriça) e com facilidade a euforia se torna desafiadamente sonora.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

terça-feira, 22 de outubro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto V) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Saibam da autora neste link
Conheçam a In-Finita neste link

Alguém que não identificava aproximou-se, sentiu um suave sentar na sua cama e uma voz que lhe fazia perguntas. Ficou em silêncio, tentando reconhecer aquele timbre que afinal lhe era familiar.
Era a sua prima. Lembrou-se do chá e biscoitos naquela tarde que visitou a sua avó, confidente de tantos, bons e maus, momentos.
Tentou sorrir e escorregou a sua mão trémula até sentir o quente daquela que se lhe estendia.
– Conheces-me? Consegues ver-me? Já te lembras do meu nome? Sente apenas a energia da minha mão. Eu estarei aqui. Não fales se não conseguires.
– Eu sabia que estarias aqui perto de mim. Senti o teu coração bater perto do meu. A ternura da tua voz. Foste sempre tão delicada. Cometi muitos erros de forma ingénua e tonta. Tudo podia ter sido diferente. Mas o medo! Estou consumida e preciso dormir! Nem me lembro de me ter deitado. Quem terá sido? A verdade é que aqui estou de pijama e tudo. Foste tu! Só tu te lembrarias da minha cor de pijama favorita. Do suave aroma, que aqui se faz sentir, a alfazema. Obrigada. Mas eu urjo de uma paz interna. Pedes para me adormecerem durante um tempo?
– Para que queres tal coisa, Isabella? Com o tempo, uma vida nova, e vais conseguir esquecer.
– Eu preciso Maria, peço-te.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

O MOINHO DE ASTURÃES (excerto) - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Saibam do autor neste link
Conheçam a In-Finita neste link

Miguel, disse a Poesia, para melhor te identificares com o Ti Reinaldo, é necessário que conheças locais e factos, que ele possa recordar.
Um deles é o moinho, provavelmente o símbolo mais valioso da freguesia.
Não se sabe exactamente o ano de construção, mas pensa-se que teria sido nos meados do século XVII.
Sabe-se, isso sim por documentos e escrituras existentes, que foi adquirido por Ana Joaquina da Rocha, antepassada (pentavó) de Miguel, aos senhores Viscondes de Bertiandos em três de dezembro de mil oitocentos e quarenta e nove, cuja escritura se plasma em parte:
... uma azenha e engenho de serrar e uma insua, pelo fôro anual de dez mil reis em dinheiro, uma galinha de lutuosa e laudémio de vintena etc, seguido de condições de garantia.
Este moinho tinha duas funções: moer cereais, especialmente milho, e serração de madeira. Por essa razão tinha duas rodas verticais, sendo que, após cessação da serração, este equipamento motriz foi utilizado na produção de energia eléctrica.
A função “serração”, que cessou no final do século dezanove, era interessante e ela obrigou à existência de uma porta com acesso à ponte românica. Assim os toros de madeira entravam pela porta virada à ponte e saíam para o eido pela porta do lado sul onde as tábuas eram encasteladas para promover a sua secagem e arrumação.
A função moagem terminou no século passado, existindo ainda em condições de funcionar. O Ti Reinaldo trabalha aí há uns bons 40 anos.
O moinho tem cerca de 100 m2 e, enquanto morada do Ti Reinaldo, tem uma cozinha, um galinheiro, a sala do equipamento e um quarto, este de piso elevado em relação ao salão da mó para defesa das cheias do rio, que são vulgares.
Como podes ver Miguel, o moinho e a ponte parecem gémeas, pese embora terem sido construídos em épocas bem distantes.
E com o conjunto das duas ilhas, a jusante e a montante da ponte, mais a corrente de água límpida, constituem um quadro que qualquer pintor não resistirá em gravar. Com o privilégio raro de, sob qualquer posicionamento, sempre ter em frente de si, quadro de infinita beleza.
(Miguel não conseguiu comprovar, mas dizia-se que a Poesia teria nascido aqui. Verdade ou não, assim o afirmam os aldeãos).
No rio, nadando ao seu modo e conforme as épocas do ano, podemos ver lampreias, enguias, barbos, escalos, trutas, bogas e solhas e fugidiamente o seu predador “pica-peixe” pássaro, com penas de múltiplas cores e o seu principal predador, as lontras. As trutas constituem a espécie mais procurada pelos pescadores desportivos e pelos visitantes, cada um com seu interesse. Os primeiros
para disputa de troféus; os segundos para observar os saltos espectaculares das trutas, na caça aos insectos que sobrevoam a água do rio.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

sábado, 19 de outubro de 2019

IN-FINITA APRESENTA... EDSON MENDES



Edson Mendes, professor, escritor, malino, filho de Pedro Mendes, pernambucano do Limoeiro, e de Eva Rita, baiana do povoado Juá, nasceu na cidade de Pa, Bahia, em 16/09/1952. Em 2018 recebeu o Prêmio Edmir Domingues, da Academia Pernambucana de Letras, por sua obra inédita Quase Poesia. Se você lhe perguntar, vai se declarar um perguntador, mas como sabemos que isto não é profissão, como não o foi para Borges, que se dizia um leitor, pode ser que acrescente mais outras algumas coisas. Por exemplo, caminhar sob o sol, ou a chuva. Cinema nas manhãs de domingo. Ler. Qualquer coisa. Tudo. Uisque com coca-cola. Viajar de carro com a música no volume 40. Discutir filosofia. Dar aulas. Ver e rever todo mundo. Tem opinião sobre quase tudo, mas certeza mesmo só tem sobre quase nada... Ultimamente vem dizendo que o tempo urge ruge. Está preparando uma playlist para ser tocada no próprio velório. E aconselha, citando Horácio: carpe diem! Aproveitem o dia! E Paul Valery: Il faut être léger comme l’oiseau, et non comme la plume”. É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma. E Tonho, seu primo vaqueiro, acima de todos: “todo aquele que pode impedir um malefeito e não impede é um malfeitor, e do pior tipo”; Há três lugares onde se sente bem para escrever, beber e fumar: o apartamento no Poço da Panela, a casinha em Tamandaré e o oitão de seu Bilinho e dona Reco, na Fazenda Coração Aberto, povoado Barroca, em Paulo Afonso. Na alegria e na tristeza, sempre esteve com as cores branca do Santos FC e tricolores do EC Bahia. E avisa todo mundo: se não me acharem, procurem Pepa. Onde ela estiver, lá estará meu coração. E o mais? O mais é cinza...


Prólogo ENQUANTO AGONIZO 
O que realmente importa, e por quê Um olhar sobre o sentido e o propósito da existência, com apoio de W. Faulkner, Manoel Bandeira, Mauro Mota, André Gide, Carlos Pena Filho, Sócrates, Galileu, Vieira, Cartola, Nelson Cavaquinho, Heidegger, Bach, Batatinha e outros Trilha musical 6 meias-músicas e 1 frase musical Conferencia. Palestra. Aula Ensaio 60’

Lançamento dos livros Quase Poesia Memorial do Raso da Catarina A Regra do Jogo Londres 19/10/2019, 19h Paris 26/10/2019, 16h Lisboa 8/11/2019, 19h