quarta-feira, 9 de outubro de 2019

IN-FINITA APRESENTA... - AGARRAR O TEMPO, DE CARLOTA MARQUES CANHA

Às vezes o melhor que podemos fazer por um livro, e respectivo autor, é dar a conhecer a primeira impressão. Assim sendo, aqui fica a introdução que CARLOTA MARQUES CANHA escreveu para o seu livro Agarrar o tempo - pensamentos sem tempo.


A vida apresenta-nos desafios e obstáculos que, por vezes, são penosos de serem ultrapassados. Mas são esses desafios e obstáculos que levam a que nos atrevamos a posicionar-nos em caminhos mais certos e a rumarmos para futuros que nos fazem sair do nosso pensamento limitado para descobrirmos soluções e fazermos escolhas que, sobretudo, nos levam a ver portas, onde apenas víamos muros intransponíveis.

A coragem e determinação para vencer as vicissitudes que a vida nos apresenta é das mais estimulantes sensações quando somos postos à prova perante desafios futuros e fazemos acontecer os ideais e sonhos que comandam a nossa mente, onde o insucesso ou o medo não devem encontrar lugar. É nesse encontro com o nosso eu mais profundo que damos a nós mesmos um voto de confiança e tomamos a decisão imediata sobre aquilo que queremos fazer e sobre o caminho que vamos percorrer dali em diante.

Foi com essa convicção e experiência pessoal que – após ter arrumado a escrita num passado longínquo da minha juventude, em que as minhas vivências e experiências pessoais eram ainda pouco significativas, em que os receios de avançar e alguma insegurança não me deixavam dar o passo seguinte – vinte anos depois renasce e surge uma vontade enorme de transcrever pensamentos, sentimentos e emoções, soltar ideias e acreditar que o projeto de escrever saiu do papel e toma uma forma a que dou asas: a um sonho real e não apenas de papel.

Sinto que estou num novo ciclo da minha vida em que me questiono sobre muita coisa e em que a escrita de poemas surge como um ato de expressão de sentimentos, sensações, palavras que soltam emoções para quem lê e me deixam pensar que estou a reinventar-me na minha criação que me conduz a escrever aquilo que os meus olhos percecionam e sentem e a estar em paz comigo própria e com o mundo.

Nesta chamada reinvenção, dou-me a oportunidade de criar e seguir um novo caminho de esperança, de convicções, de confiança e fé que, corajosamente, me põem à prova. E não fosse eu uma mulher de gostar de desafios, a vida não teria o encanto que encontro e no qual acredito, e, seria, certamente, um desencanto com o qual não teria tempo a perder.

CARLOTA MARQUES CANHA

BIOGRAFIA
Nascida e natural de Lisboa é licenciada em Tradução económica-jurídica na vertente francês e inglês pela Universidade Europeia e com uma Pós-graduação em Gestão Comercial e Marketing pelo ISTE Porto.
Iniciou o seu percurso profissional em Assessoria de Direção em diversas empresas multinacionais onde se mantém em funções na área de legal no Grupo Jerónimo Martins.
É escritora com o lançamento do seu primeiro livro de poesia “Agarrar o Tempo” - Pensamentos sem tempo. Para além do género de poesia gosta de escrever prosa, crónicas, contos e letras originais de músicas.
Gosta de desafios e fazer coisas diferentes, o teatro e o gosto da representação acabaram por surgir ligados à vontade de compor personagens, compor histórias para um romance que pretende escrever a médio longo prazo. Nos seus tempos livres, para além da escrita, leitura, danças latinas, gosta de fotografia, captar momentos que servem de inspiração para a sua escrita, para a criação de pensamentos, ideias.

Sentir e escrever sobre a vida, os outros, as aprendizagens e experiências recebidas são o que mais a movem na sua busca constante de evoluir como pessoa, como mulher.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto II) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Naquelas ruínas em que se deixaram as memórias, houve tempos em que não sabia onde ficava a cor, o cheiro, o abraço. Perdia-se nas noites onde o vento era tão forte que a levava, na sua inquietação desmedida, a encostar-se devagarinho ao canto do quarto e escorregava pela parede aconchegando-se nos próprios joelhos, mantendo o rosto tapado com as mãos como se tudo isso a eliminasse da face da terra e a esquecesse.
O bramir do vento forte do norte, entretanto, acalmara, ficou um silêncio ensurdecedor.
Era preciso acordar do letargo do corpo, dos sentidos e acordar principalmente a vontade de rever a casa de lilás pintada.
Tentava dormir, descansar, já que o pensamento atormentava todos os minutos daquela existência. Nem as estrelas, que conseguia ver e tentava contar, eram suas aliadas nos seus sonhos.
Altas horas, o cansaço vencia e quando chegava o amanhecer, o cedo erguer, o rosto inebriava-se de um sorriso contagiante que a defendia.
Seria o sorriso da avó?

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

domingo, 6 de outubro de 2019

A POESIA - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Conforme dissemos, os fenómenos atmosféricos e outros menos usuais caíam em catadupa sobre a mente do Miguel.
Porém, o acontecimento mais determinante e estranho surge de seguida. Saída não sabe Miguel donde, aparece uma figura de rara beleza, que pedia meças a qualquer Helena troiense ou egípcia
Cleópatra que assim se apresenta:
– Miguel, não te assustes! Chamo-me Poesia e estou aqui para te agradecer teres tido a coragem de passar além do nevoeiro, desafiando o desconhecido. Bem hajas por isso, e gostaria de te desafiar
a uma tarefa sublime a que só têm acesso os Homens de Coragem, para quem a Verdade é incompatível com o Egoísmo.
Estás numa aldeia com um passado nem sempre fasto e conseguido e que tu podes tornar verdadeiramente Feliz. Meu Pai chamado Universo tem o dom de permitir a Felicidade e Harmonia, mas também o Poder de querer ou não, evitar a desgraça. Pois meu pai encarregou-me de te transmitir o desafio que tu podes aceitar ou não. Terás a Liberdade de escolher e no caso afirmativo terás acesso a testemunhos e documentos que te ajudarão a levar a tarefa a
bom termo, o que significa que, a partir do momento de aceitação, o Povo desta aldeia viverá uma Felicidade incomum, pese embora, com parcos recursos financeiros.
Pois o desafio será a tarefa de demarcar todo o limite da aldeia baseado, como te disse, em testemunhos e documentos que investigarás livremente.
Iniciada a demarcação, percorrerás toda a linha indicativa e determinativa sendo que o ponto final dessa linha será exactamente o ponto de início.
Tens todo o tempo para o fazer e conhecer a aldeia e seus habitantes, e com eles gozar a felicidade que só a Verdade permite.
Felicidade que está em tudo que se semeia e em tudo que se colhe.
Se falhares, a aldeia cairá numa depressão e infelicidade até que meu pai Universo aceite outro personagem a quem será colocado o mesmo desafio.
– Entendeste Miguel? Aceitas o desafio?
– Entendi Poesia, mas só posso aceitar se tiver a tua ajuda.
– Sim Miguel, vejo que percebeste lindamente, pois sabes que só comigo podes dar a Felicidade a um Povo.
– Poesia, sou eu agora a fazer-te o desafio. Aceitas?
– Claro. Sempre que precisares, eu aparecerei para que me transmitas o fundo do teu coração. Verás como te sentes feliz com a interacção com o meio rural, em todas as suas vertentes. Mas primeiro vou identificar-te com o meio em que vais viver.
Começa aqui a tarefa. Miguel e Poesia trocam um grande abraço.
Poesia desaparece como por encanto deixando Miguel entregue a si próprio, sem que essa situação o afecte negativamente.
Amanhã será o dia 1 do trabalho. Acrescente-se que a partir daqui, os dias e as noites não tem sequência: são apenas um Tempo.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto I) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Lilás é uma cor agradável, serena e que convida ao silêncio. O alpendre é de madeira. Os bancos e a mesa de um branco imaculado e a porta convidam a entrar. Tem flores dentro de um cesto pendurado mesmo por cima dela.
E se estiver a sonhar?
Tem vidros que deixam antever o seu interior.
Espreitei.
Bati devagar, como se tivesse medo de quebrar o silêncio.
Ninguém respondeu ao meu chamado. Senti uma tristeza invadir o meu estado, o corpo ficou dorido e decidi sentar-me num dos bancos e esperar.
Mas esperar o quê? Ou quem? Pouco importa. Apenas decidi esperar.
Devo ter adormecido porque, assim de repente, senti um sopro bem junto do meu rosto, como se fosse o vento, uma brisa suave. Abri os olhos e lá estava ela. Uma silhueta em sépia, devido ao reflexo do sol. Um sorriso enternecedor fez-me sentar convenientemente no banco, ajeitar as vestes e olhar esta senhora do olhar sereno, a tez clara, os olhos da cor das esmeraldas, e o cabelo como as nuvens, em dias de algodão doce.
Sentou-se ao meu lado e começámos a conversar como se não houvesse amanhã, como se tivéssemos todos os dias das nossas vidas para confidenciar e foi tão tranquilo, emocionante, revelador.
Ficámos sentadas e assim, de repente, apareceu uma jovem com uma bandeja com chá e biscoitos.
– Mas eu bati na porta e ninguém respondeu... de onde apareceu esta jovem tão delicada, como se chama, deve ter aproximadamente a minha idade, quem é?
– Tanta pergunta fazes, Isabella...
Caí em silêncio e percebi que a minha avó me olhava.
Engoli as palavras e pedi desculpa.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

terça-feira, 1 de outubro de 2019

INÍCIO - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Seriam aí pelas três da manhã e o pequeno Miguel dormia profundamente o sono dos cinco anos, sono bem fundo, mas que paradoxalmente permite sonhos. Sonhos fantásticos livres de recordações de dor. Sonhos puros como a mente que os suportam.
Mas de repente, um trovão enorme suou e estremeceu a casa e cama onde dormia. Como criança não despertou completamente, mas o suficiente para começar um sonho que só as crianças podem ter.
Mas tão forte era o sonho que o Miguel, hoje com idade de juízo, pergunta-se se realmente foi sonho, tão nítidas são as imagens e as pessoas na sua memória e no seu presente.
É no suposto que foi mesmo sonho que tudo o que se segue tem a sua origem.
Começa no sonho do Miguel, por sentir-se algures vindo de um Alto que desconhece e ver abaixo dele um espesso e bonito manto que parecia lã, da mais elevada pureza e brancura. Repara que esse manto branco é algo de móvel e sensível a qualquer força, pois movimenta-se dançando ao som de uma ligeira brisa. Miguel soprou e reparou que o manto branco não era mais que nevoeiro
que se desfazia por acção do ar quente da sua respiração. Miguel soprou mais ainda e um buraco se abriu mostrando que sob o nevoeiro havia terra. E à medida que soprava mais se abria o manto
e se viam mais casas, mais caminhos, mais flores. Apareciam aves voando e até conseguiu ver um policromado pica-peixe que voava ao longo de um rio. Rio em que uma cascata de água límpida
cantava como uma sereia que estivesse aí encantando e seduzindo homens para o mar.
Miguel achou-se num paraíso perante tanto encanto. Mas de todas as maravilhas que viu uma viria a ter importância especial, pois deu nome à aldeia. Vários bandos de Astures pequenos, acompanhados pelas mães, ensaiavam os seus primeiros voos. Que quadro magnífico! Subiam, desciam, rodavam, planavam e esvoaçavam, tudo numa sincronia própria de bailarinas profissionais, tais eram as mães a ensinar os pequenos astures a voar. Ora bem: A junção do Asture com Mães veio dar o nome a esta aldeia ou, se quisermos, a este paraíso: ASTURÃES, assim dizem os mais velhos habitantes.
É nesta aldeia e freguesia que se passam as coisas extraordinárias que o sonho do Miguel criou.
O seu sonho não se passa num dia, mês, ano ou geração: ocupa várias e indefinidas gerações.
Este sonho é apenas a circunstância da época vivida.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA