sábado, 4 de maio de 2019

O REALEJO - MARIANA VIRGÍNIA MORETTI

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Fui logo cimentando os degraus da escada, tarefa que me deram desde menina nova. Parei no desmazelo do cansaço e sentei lá no alto, que ainda era baixo. Lembrei. Começou desde o dia que me consultaram o realejo. Eu era pequena demais para contestar, e a música melancólica do velho triste me hipnotizou assim, de repente. O bichinho saiu, arqueou o corpo esguio cheio de pena (que tipo de pena?) e trouxe o papel amarelado, dobrado, ressentido. Era o certificado oficial pra dar continuidade a ela, a existência. Eu, ali, esperando alcançar um lugar que nem sabia o que era considerando que existisse. Aonde chegaria? Lá longe. Levanta e põe esse degrau mais para o alto, menina, e mira ali, por obséquio, em lugar nenhum! Mais pra direita, mais pra esquerda. Aí está bom.
Mas eu queria mesmo era saber se esse lugar, se eu tinha que construí-lo ou se já vinha pronto e era só arrombar a porta. A imagem do realejo se desfez e se misturou à música infantil do mesmo tempo e espaço: a vida era isso, “era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”. Não tinha nem porta pra arrombar. Era o alto, sim, e era a casa que eu tinha que dar um jeito de chegar. Só que os caminhos, ninguém me falou qual pegar. O caminho pra se chegar era a mesma trágica Rua dos Bobos, bem na entrada do número zero.
Aqui está, disse o velho triste, entregando a sorte ressentida escolhida a bico pelo periquito magro e cheio de dor. O animal, debaixo de toda a pena que o recobria, sabia que deveria escolher o papel certo ou o destino da pessoa não se cumpriria. O peso de sua responsabilidade era tamanho que o bicho se arqueara com o passar do tempo, pois vivia seus dias repleto de angústia. Cheio de pena. Peguei o papel e o abri com a mesma coragem ingênua de uma criança que abre a porta de casa sem autorização, sem saber quem ou o que esperar. A vida vinha sem olho mágico.
Eu via todos os degraus que havia construído e praguejava contra o realejo. Maldito velho! Ensinou-me a dançar sua música, a abrir o bico quando necessário, e, sobretudo, a carregar na minha alma penada a esperança de que um dia a jaula se abriria. Era a ilusão da liberdade assentada com cimento e disfarçada de melodia infantil. Nada de novo para quem tem asas, mas não aprendeu a voar.
Eis que sem me dar conta do motivo, sentia a dor que já não era minha. O velho sorria com maldade enquanto o bicho se encolhia no canto da jaula, como se fosse culpado por toda a trama de acontecimentos que resultaram no exato momento da queda. Além da dor do corpo havia a dor da alma, e além da revolta, havia a dúvida.
Olhei ao redor e constatei assustada que o que eu mais temia havia acontecido: eu deixava de ser o que era. Bem ali, no começo do trabalho de uma existência inteira, traduzido por uma escada infame e sem a utilidade de outrora, estava minha triste figura, coberta de pena. Pena, penas grandes, verdes e lustrosas que se espalhavam por toda a extensão de meu corpo, recobrindo todas as partes que meus olhos incrédulos eram capazes de alcançar. Eram tão grandes e petulantes, que mal me deixavam enxergar. Foi então que a plumagem carnavalesca abria alas a repentina e sombria constatação: minha existência enquanto construtora da própria, havia acabado.
Mova-se, ordenou o velho. Eu já não precisava mais da escada, muito menos dos degraus que eu havia construído.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sexta-feira, 3 de maio de 2019

SOLISTA (excerto) - MARI VIEIRA

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Pés na areia, carinho. Em busca do farol vai ao mar uma solista navegante. Gestos de suprema festa encontram espumas largadas pelo mar. Toca-se do umbigo ao púbis, das areias às ondas do mar. Silenciosamente, põe a canoa para beber das vagas densas e límpidas. Só... mais sal, mais toque. De dedo em dedos assume o leme uma capitã pronta a remar. Vai, depois de uma cambiante solidão, içar a vela. Lençóis? Ondas do mar? Tudo velado; farol sua rota pelos intrigantes segundos do desabitar.
Desejar. Tocar. Sentir. Caçar. Achar. Despe-se de medos ingênuos, joga-se pelo úmido caminho do mar. Queria aqui, sentir cheiros, toques e fremir meus olhos ardentes, fazendo pios no silêncio e deixar pra lá o que faz a vida, as vertigens, os medos, a bobeira intensa. Deito-me longamente no silêncio. Aninho-me. Uma mão invasiva acha meu corpo condescendente.
─ Há um vizinho te olhando pela janela do prédio ao lado.
─ Levanta-te, cobre-te. Não se doe tão facilmente. Feche a janela; quem quiser que te ache, que te ganhe.
Impudica. Devassa. Indecente. Calor intenso, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Medo de perder-se ante aos conservadores da moral e dos bons costumes. Foi, feito santa antiga, comungar-se diante de um padre carnal demais para não notar as faces rosadas e trementes e o total frenesi do seu corpo.
─ Acalme-se minha filha, coisas da vida, coisas da carne. Acalme-se, já isso passa.
─ Pago penitência, padre?
─ Bobagem, compre uma camisinha!
Foi-se lambendo o desejo feito cão de rua, escondendo-se feito moça de antigamente com medo do sacrilégio, do olhar do chefe, das maldições e dos descaminhos da vida.
Olhar-me? Ver-me? Ante a cegueira que me esconde, luz pra quê? Vejo-me com o toque, com o tempero ocre doce que me arde. Saio das areias e entro no mar. Há, lá longe, uma pequena canoa, remos soltos, rumo ao farol que faz o caminho brilhar.
─ Acha-te. Feche os olhos e guie-se. Seja cálida, intensa e festiva.

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quinta-feira, 2 de maio de 2019

DEZ PERGUNTAS A... MANUELA DINIZ


Agradecemos à autora MANUELA DINIZ a disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Escrever é uma necessidade ou um passatempo?

Por ambas as opções

2 - Em que género literário se sente mais confortável?

Poesia

3 - O que escreve é inspiração ou trabalho?

Inspiração

4 - O que pretende transmitir com a sua escrita?

Emoções, sentimentos

5 - Qual o seu público alvo?

Público em geral

6 - Em que corrente literária acha que a sua escrita pode ser incluída?

Realismo intimista

7 - Quais as suas referências literárias?

Vítor Costeira, Fernando Pessoa, Graça Aguiar, Rute Pio Lopes e Alexandrina Pereira

8 - O que costuma fazer para divulgar o que escreve?

Partilhar nas redes sociais e ler publicamente  nos encontros poéticos

9 - O que ambiciona alcançar no universo da escrita?

Percorrer a estrada e saborear cada passo

10 - Que pergunta gostaria que lhe fizessem e como responderia?

Como surgiu a escrita? Surgiu com a convivência e o contacto com outros autores

DA IDIOSSINCRASIA FEMININA - LUZIA COSTA BECKER

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Ela acordou e sem se dar conta de que dia da semana era, sentiu um desejo enorme de domingo. De levantar o mais cedo possível só para ver o dia durar a eternidade dos seus desejos. Quando criança, acordava às seis horas da manhã. Depois de uma conversa despretensiosa com os bichos no quintal, vinha a jornada exploratória dos recantos da sua imaginação, interrompida apenas por uma ou outra regência materna.
O aroma do café a avisa que ela não é a primeira a acordar. O rebento da manhã ganha gosto de infância e o calorão do corpo, sentido de realidade inexorável. Permite-se demorar um pouco mais na cama.
O cochilo prolongado na penumbra do quarto incita a lembrança de uma cobiça reprimida. Tesão de puberdade explorando lençóis molhados de tensão hormonal. Um gozo leve percorre o corpo da menina que encontra nas linhas de expressão do rosto da mulher, o desejo ardente da maturidade. Dos diacrônicos aos sincrônicos espasmos emocionais, ela busca a lucidez. Da vontade de jogar a castidade na cara da Igreja à complacência feminina, a certeza da instabilidade do ânimo e o pranto.
Ela não entende as lágrimas e muito menos o turbilhão de emoções. Como em um mar revolto de sentimentos nunca antes experimentados em concomitância, seu corpo e sua mente seguem à deriva ora afetados pela transmissão adequada de serotonina potencializadora, ora pela sua transmissão inadequada e despotencializadora, numa busca desesperada pela disposição juvenil perdida.
O aroma do café invade o quarto expulsando de vez o delírio pubertário quando ela, ao invés do beijo materno, sente os lábios quentes do marido.
Resgatados pela promessa de amor eterno, corpo e mente se fixam na potência das mãos que abrem as cortinas da vida para dar forma ao cheiro de morangos frescos levados à boca da mulher amada. Afetos alegres que lhe abrem o apetite para mais um café da manhã de domingo na estação do climatério.
As afecções alegres serenizam o mar revolto e após uma longa e atribulada experiência de desassossego, ela se aconchega novamente no mundo, dando-se conta de que o climatério, diferente da puberdade, é prelúdio de uma criativa e idiossincrática fase da vida feminina, livre das perturbações que lhe vinham distorcendo as emoções.

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quarta-feira, 1 de maio de 2019

SER MÃE É FATAL - LIZ RABELLO

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“O que usa de engano não ficará dentro da minha casa; o que profere mentiras não estará firme perante os meus olhos!” Salmos 101:7
“A barata diz que tem sete saias de filó... É mentira da barata, ela tem é uma só...” Este era o refrão predileto do meu filho mais novo. Cantava para o Ro, enquanto o colocava sentado em cima da mesa, eu em pé, para a gente poder trocar beijinhos de pertinho, abraços intermináveis e carícias com os olhos. Ele adorava sentir meus cílios tocando os dele, em sintonia com nossas piscadinhas. Quando parava de cantar para ele e lhe dizia que seu nariz já estava crescendo igualzinho ao do Pinóquio, era o momento certo para que me contasse mais um pouquinho da sua louca aventura. Aos poucos, ia costurando os fatos mais doidos de minha pior e mais fascinante experiência materna. Por Deus, como é difícil ser mãe! E eu cutucava as memórias daquele menininho apronta quieto, esperto, amoroso e muito falante! – “Quer dizer, então, que a baratinha pegou um ônibus” – E ele continuava a história... “O home disse pra mim: Cuidado, menino, você vai cair!” Em outros momentos, frases curtas: “O onbus abria a porta e fechava, cansei, desci”. Certa vez, ao voltarmos das compras, passei embaixo do viaduto que ligava meu bairro à Vila dos Remédios, o carro atrás de um veículo, quando meu filho falou: “Mamãe, meu onbus passou daqui, tinha aquele dois ali e era verdinho”. A despeito de minhas ansiosas indagações, respostas chegavam só quando bem entendia. Uma tarde, no clube que frequentávamos, quando passávamos pela catraca para entrar na piscina, ele gritou: “É igualzinha do meu onbus!” Eu jamais o levara para passear de ônibus, embora meu filho sempre pedisse.

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