quinta-feira, 18 de abril de 2019

DA CEBOLA À HORTELÃ - CARMEN LÚCIA DE QUEIROZ PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Hoje servirei um banquete...
Vou fazer a minha melhor receita!
Usarei cebolas, manteiga, pimenta branca
e hortelã...
As cebolas servirão como desculpas caso
as lágrimas rolem,
A manteiga ajudará a amolecer os corações endurecidos,
A pimenta cairá como uma provocação à
indiferença que há entre nós,
E a hortelã dará ao ambiente o aroma
e o sabor do reencontro!
Vou colocar apenas dois pratos à mesa para não correr o risco de ter mais alguém no nosso jantar!
As taças darão um toque refinado e o som baixinho repetirá a nossa canção preferida!
Vou me arrumar com muito esmero sem esquecer o batom vermelho e o perfume que tu me deste!
Te esperarei ansiosa, pois assim eu sou! E como ansiosa estarei a te esperar bem antes da hora combinada!
Diferentemente de mim chegarás atrasado como sempre, com a voz mansa e olhar arrependido!
E eu ficarei sem graça!
Mas hoje foi diferente, chegaste antes da hora, trouxesse a bebida que tanto gosto e achasse graça na comida que te fiz!!
Sem acanhamento falasse da alegria do meu convite, do tempo que passava fora e da falta que eu te fiz!
Timidamente seguras a minha mão e me lembras do tempo que fomos felizes, do que construímos juntos e da vida que ainda nos espera...
Não me contenho e me torno transparente!
Perguntas:
- Por que teu choro?
E eu falo das cebolas!
- Por que te calas?
E eu falo da manteiga!
Dizes:
- Estais estonteante...
E te falo da pimenta...
Ao roubar-me um beijo me dizes:
- Tão cheirosa...
E eu? Eu, com o coração aos pulos, te falo da hortelã!

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

quarta-feira, 17 de abril de 2019

LINHA DO TREM - CAMILA NOBILING

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Ouvi o apito. Posicionei-me na fila. Sempre espere os outros passageiros saírem, depois entre. O andar de cima costuma ter mais lugar do que de baixo. Vá direto para lá.
Eu ainda não digeri o peru do fim do ano que se chamava ganso e tinha gosto de pato. Não digeri a massa, a desgraça da morte da ave, não digeri o prato.
Fico brincando com meus pensamentos e pensando nos “omens” ruins.
Se se começa o ano com estresse significa que ele será inteiro assim? Assim ruim? Há algum tempo tenho a sensação que os anos são como brincadeira de bem-me-quer, mal-me-quer, só que em forma de ano-bom, ano-ruim. Será mesmo assim?
Escrever em primeira pessoa é muito mais pessoal que em terceira. Esta pessoa, contudo, é muito mais verdadeira que a primeira.
Ela está falando russo atrás de mim, não estou entendendo nada. Nunca entendo nada, somente o que quero.
Preferia esse caminho quando saltava na Friedrichstrasse para ir de encontro ao futuro, agora desço na Alexanderplatz para ir de encontro à estagnação.
Se pudesse embarcaria hoje também naquele avião e iria para longe do momento que não quero viver aqui.
Sinto sono, muito sono, um sono que se espalha por cada célula do meu corpo e não me deixa dormir.
Que dia feio! Cor de cinzeiro sujo.
“Jetzt Chance zu aufsteigen nutzen. Ab 1.Januar...” li no cartaz. Aí o trem se foi... que chance seria essa? A do moço no alto do trampolim que aparecia na foto ao lado? Chance de se atirar desse agora?
Tocou, era mensagem. Li só o começo e uma lágrima ficou enroscada no canto do meu olho.
Deu uma vontade de voltar para o futuro quando o vi lá fora, pela janela do trem!
Nunca reparei antes no que estou reparando agora.
Próxima estação, vou descer!
Eu queria estar indo, indo com todos.
Eu queria estar diminuindo, diminuindo as distâncias.
Aqui e ali, lá e acolá. Eu só queria...
O avião está subindo. Eles estão partindo.
Um pedaço do meu coração está indo junto. Um pedaço sempre vai junto.
Fim da linha. Alexanderplatz.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

terça-feira, 16 de abril de 2019

IN-FINITA APRESENTA... A QUEDA, DE MARCELO PEREIRA RODRIGUES

Conheçam um pouco do romance A QUEDA do autor MARCELO PEREIRA RODRIGUES
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A Queda

Capítulo 1

Lançamento de Livro

Uma chuva torrencial cai sobre Belo Horizonte. Estacionado em frente ao Palácio das Artes, um táxi espera impaciente a descida do passageiro, que, mesmo portando um guarda-chuva, tem no bagageiro duas caixas pesadas de livros para carregar. O taxista não parece disposto a auxiliar. Pelo menos, desliga o taxímetro. No banco de trás, Gregório, constrangido, tenta entabular conversa, mas nada que passe do trivial sobre o tempo.
— Não quero tomar o seu tempo. Uma estiadinha e prometo descer. Veja só, parece que está diminuindo...
O taxista sorri e compreende a situação. Gregório torna:
— Até porque dentro de quinze minutos começa o evento. Preciso chegar uns dez minutos antes para dispor os livros. De qualquer forma, daqui a cinco minutos saio.
O taxista se prontifica a ajudar:
— Se é assim, damos uma corrida juntos e cada um pega uma caixa.
Quatro minutos depois, as portas do automóvel se abrem e, apressadamente, os dois pegam suas respectivas caixas. Gregório ainda leva um banner e uma pasta executiva, mas longe de ser de couro legítimo. “Chuva de molhar bobo”, a verdade é que as costas do escritor estão bem molhadas e os pés entraram em cheio numa poça d’água. Um guarda do Palácio auxilia pegando uma das caixas e deposita-a num banco em frente a uma vidraça. Gregório paga o taxista, dando a ele uma gorjeta de dez reais pela espera, o taxista agradece e deseja sorte no evento que o cliente irá fazer. O guarda é solícito, auxilia na descida das duas caixas (bem pesadas, por sinal) e, no andar térreo,
uma mesinha disposta e cadeiras ao redor estão preparadas para o lançamento do livro de Gregório Mendes, 40 anos, filósofo, palestrante, agitador cultural, dono de uma coluna comportamental em um jornalzinho de bairro (O Vigilante!) e professor de Literatura e Redação num renomado colégio da cidade. Estreava o seu primeiro livro, numa seleção de textos que haviam sido publicados pelo jornal. Como o jornal abrangia cerca de 500 leitores no máximo, e dentro de uma associação de bairro, Gregório vislumbrava um alcance maior com a publicação desse compêndio. Por isso vendera um Gol e juntara suas parcas economias para publicar a obra, negociando diretamente com uma editora de autopublicação, que não tinha muitos critérios nas avaliações dos originais, atendo-se apenas à questão comercial dos pagamentos sempre antecipados. Mas se tivessem adentrado a obra, observariam nela concepções e formas de pensamento bem originais e ideias filosóficas que passavam longe de especulações metafísicas.
(continua)


SINOPSE

A Queda é um romance psicológico e moderno que aborda as relações interpessoais com construção bastante elaborada de seus personagens, cada qual com a sua respectiva dose de estranheza referente a modos comportamentais e, se vale a máxima de que “de médico e louco cada um tem um pouco”, é sintomático nos enxergarmos no pensador em um mundo irrefletido; na adolescente viciada nas redes sociais; na adolescente antissocial e leitora voraz de Nietzsche; na grã-fina consumista e desejosa de ser publicada nas colunas sociais; na feminista lésbica e ortodoxa; no professor que tem vergonha de ser brasileiro e que almeja a Europa; no radical defensor do Movimento Negro e mais uma série de personalidades que, se num primeiro momento poderão se caracterizar pelo aspecto caricato, poderá, na metáfora de um espelho, fazer enxergar a todos a nossa cotidiana intolerância e doses de radicalismo. Marcelo Pereira Rodrigues (MPR) como um excelente contador de histórias, nos apresenta este enredo corajoso, reflexivo, mas deliciosamente divertido.

BIOGRAFIA

Marcelo Pereira Rodrigues (MPR), 44 anos, é escritor (cronista, romancista e biógrafo), filósofo e palestrante. Publicou há pouco, em Portugal, o aclamado “Corda Sobre o Abismo, o Elogio da Desesperança”. É editor-chefe da Revista Conhece-te, periódico mensal que persiste de forma ininterrupta há 18 anos. Tem 14 livros editados e o seu último romance, “A Queda”, está sendo traduzido para o inglês e o espanhol com vista a ser difundido na américa latina e em Espanha.

A BRUXA E O MASSACRE DE RUANDA - CACAU NASCIMENTO

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Nas aldeias de Kigale, um massacre aconteceu
Nessa guerra de etnias, parte do povo morreu
Mas Zura Karuhimbi, muita gente protegeu
Com sua fama de bruxa, um bocado ela salvou
Na aldeia de Musano, as milícias enfrentou
Com a cara e a coragem a idosa se armou
Uma simples anciã, porém, muito perspicaz
Foi uma grande guerreira, serena e amante da paz
E nos deixa essa história, de alguns anos atrás
Cada um que ela acolheu, teve a vida estendida
Graças a sua fé e a lenda atribuída
Pois até os mais ousados, temiam a bruxa aguerrida
Escondeu pra lá de cem, mas afirmou não saber
Vivia muito ocupada, não podia se entreter
Contando quantos salvava, em vez de lhes proteger
E assim Zura poupou, mais de cem desse evento
Entre Tutsis e Hutus, um massacre tão sangrento
Usando a sua fé e o seu discernimento
Numa casa com dois quartos, esse povo acomodou
Terminado o episódio, até Zura se espantou
Onde coube tanta gente? Foi Deus quem multiplicou!
Pelas mãos de Paul Kagame, fora homenageada
Mal sabia o presidente, que sua vida foi salvada
Pela mesma velha bruxa e a história foi contada
Na década de cinquenta, com uma mãe se deparou
Trazia no colo um menino, então Zura orientou
Do colar faça um enfeite e por menina passou
Não o coloque no chão, ou logo, irão perceber
Que se trata de um menino e seu filho irá perder
Cortava-lhe o coração, ver um inocente morrer
Que assim caminhe o mundo, com mais Zuras e Irenas
Essas bruxas perigosas, que partem da vida terrena
Deixando suas canetas, grafando as próximas cenas.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

segunda-feira, 15 de abril de 2019

OITAVO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Às vezes levo-te para sítios onde nunca estiveste e para onde me
voas...

Palavras! São palavras onde eu também... te voo...
Sabes que são só palavras ou talvez um respirar de vocábulos
libertados nestas folhas para alguém vir ler e conhecer! Ou então
ninguém...

Palavras! São palavras! São só palavras!

Palavras ou beijos e “rebeijos”, escritos e reescritos e rebuscados...
por vezes tão somente levados e “relevados”, trazidos de outras vidas
que se fizeram corpo nesta vida. São tudo... são este abraço, este
beijo, é tudo... tudo o que me dás sem nunca realmente me dares, é
tudo sem que nunca tenhas estado aqui porque, por vezes ou sempre
ou só agora... estiveste longe ou aqui comigo, ao destino em destino,
aqui ao lado e aqui em fado...

Palavras! São palavras da demência! São só... demências!

Abraço-te! E é tanto! E é tão tudo o que a respirar a dois nos
trás! Partilhar tudo no mundo só para ele também perceber porque
passaste a ser o oxigénio deste corpo suspenso!

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA