sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES (XVI)

Tagédia número 9
É hora de darmos nomes aos bois. O pai da adúltera que foi morta por envenamento chamar-se-á Armando. O marido da adúltera em questão chamar-se-á Matias e a adúltera em questão chamar-se-á Aparecida, filha do senhor Armando.
O amante ou o comedor de mulheres casadas chamar-se-á Freitas.
Bem, Armando o pai da adúltera nunca se conformou com a morte da tal filha. Ele está agora com um revólver nas mãos.
Ele que fez um curso de tiro com profissionais de alto gabarito com o intuito único de acabar com a vida de Matias.
Armando que ficou viúvo precocemente quer acabar com a vida de Matias.
Armando que sempre desprezou Matias devido ao fato de que este tinha origem humilde. Armando que sabia de alguns deslizes da filha, mas que se negava a discutir isso com quem quer que fosse.
Armando e o tal 38 nas mãos. Ele e a lembrança da filha todas as manhãs naquela caneca com os dizeres – LOVE YOU DAD.
Ele a esbarrar com o rosto de Matias espelhado naquele café amargo todas as manhãs. Ele em quem mata, mata alguém em algum lugar e por algum motivo.

Ele tomado pela palavra vingança. Ele que sabe muito bem que vingança deriva do latim vindicare, relacionado entre outras coisas ao movimento de desforra.


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

ADRIANA FALA DE... IN-FINITA

Em junho de 2017 com a parceria IN-FINITA, ainda no Brasil e TOCA A ESCREVER, em Portugal, começamos a perceber imensas possibilidades de projetos em comum e se nos primeiros tempos eram possibilidades, agora, seis meses depois, temos a convicção de que são necessários dentro do que queremos realizar.

E como tudo na vida, é construído e de preferência com atenção, calma e firmeza, a IN-FINITA ao aterrar em Lisboa, passou três meses analisando o mercado, ponderando e buscando preencher lacunas dentro da filosofia de ambas as parcerias , que sempre foi fomentar a poesia lusófona, divulgar autores e suas obras.

Em 2018, nossos planos foram traçados e com a habilidade de ambas as partes dentro da expertise que cada um possui, unificamos nosso trabalho. IN-FINITA Lisboa, coordenada por mim e por Emanuel Lomelino, oferece um segmento de prestação de serviços para que autores e editoras tenham o suporte necessário para criar, produzir, editar e divulgar.

O TOCA A ESCREVER e o TOCA A FALAR DISSO, passaram a ser ferramentas importantes de apoio e divulgação para tudo o que nos propomos a fazer. Unimos vivências e experiências e oferecemos ao mercado, uma empresa que tem como missão manter um padrão de qualidade, eficiência e bons resultados, e principalmente com respeito e comprometimento ao autor ou a editora que nos contrata.

Em breve, um dos nossos projetos sairá do papel e com certeza, será mais um passo, para concretizar, na prática, nossas ideias e possibilidades de expandir o que achamos ser de grande valia para o trabalho que realizamos até aqui.

E é com a certeza do caminho certo, e o entusiasmo da realização, que desejamos a todos um FELIZ ANO NOVO e agradecemos o apoio e a confiança em nosso trabalho.



quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

FALA ÁFRICA... MACVILDO PEDRO BONDE (XVIII)

Estou a pensar nos anos de seca, de trabalho e esperança, na geração que pouco a pouco vem se afirmando nas artes. Parece que a cada degrau que dispo nas artérias da urbe salta a crença de que nada há de tão especial que ver o nosso esforço recompensado.

Agora que os dedos não estremecem como nos primeiros anos, o sol desvenda o nosso segredo: trabalho e paixão.

Estou a pensar nas tardes de domingo com Milton Chissano, Terêncio Tovela, Elcides Carlos, Vitor Chibanga, Anselmo Bule, Sérgio Mudjidji, Vido Frias, Celso Ouane, Queirós Júlia, a Wanyah Xavier e mais gente que não cabe nessas linhas, entre a bossa nova e música clássica, entre intervalos e o metrómano deitado no chão.

Estou a pensar nos anos dourados do Arrabenta Xithokozelo. Nos diversos movimentos literários que corporizaram a nossa caminhada. Deixo-me ficar distante e chega-me a memória de Adolfo Saphala, um dos primeiros laureados que sonhou com estes momentos de alegria. Abro um livro na estante e vislumbro o Leo Sidónio, Salésio Massango, Benilde Egista, Urraca Zulima, Flávio Chongola, Sérgio Muiambo e mais tarde, Poeta Militar, ancorado na pasta do Verme. 

No Modaskavalu desbravei o lirismo de Virgílio de Lemos e White, tacteei o hermetismo do Luís Carlos Patraquim. Nas noites anteriores ao sarau deambulei nas costas de Knopfli procurando na cor das estrelas a essência da palavra.


Craveirinha lançou as bases como porte-parole de um país que ainda não existe, Noémia de Sousa trouxe a verticalidade da poesia. Mas, não ficamos ancorados na prata da casa. Com Pessoa cantarolamos a poesia do modernismo português, em Rimbaud e Baudelaire a bela poética francesa.

Breve biografia
M.P.Bonde nasceu a 12 de Janeiro de 1980 em Maputo. Foi membro do projecto (JOAC) e do colectivo Arrabenta Xithokozelo. Em 2017 lançou a sua primeira obra literária “Ensaios Poéticos” pela Cavalo do Mar.
Vencedor da 1.ª edição do Prémio Literário Fernando Leite Couto.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO (XXIII)

Seu vizinho, pai de todos, fura bolos

Ser filha bastarda da classe média alta maranhense me deu um ganho extra - logo de entrada: saber-se inconveniente na vida. E este não ter lugar me deu um lugar ímpar no mundo. Ter sido pobre por escárnio da classe que me pariu foi de um salto extraordinário de experiência. Algo raro. Ter trânsito entre mundos paralelos. Porque são mundos paralelos e se ilude quem se desconhece neste quinhão, quem espera caridade, quem confia seus dedos sem ter anéis. Daí lembro que aos dez anos fui convidada para um chá por minha avó, uma mulher fina, mãe de seis médicos bem formados, aquele orgulho de classe, entre eles - meu pai, o gastro. Eu era neta bastarda de uma pedagoga que discursava sobre Anísio Teixeira. A vida é realmente cíclica no recalque. Mas o chá não. Foi único, breve e inesquecível. Primeiro porque ela me fez entrar pela porta dos fundos e no quintal ficava a arena de rinha de meu pai - com os galos aprisionados, agitados, cucuricando... Não senti medo. Senti mais pena dos bichos, mas entendi a lição. Segundo porque o outro ato da peça foi ainda mais digno de impressionar. Ela me serviu chá num jogo de porcelana limoges. Colocou cubos de açúcar na minha xícara enquanto me olhava entre asco e cinismo. Peguei a xícara com as duas mãos sem tirar os olhos dela, levei até perto da boca. Ela se assustou porque sabia que eu me queimava de propósito. Bem na altura da boca, o líquido quente e pálido fazia círculos numa boa metáfora familiar. Então deixei cair solenemente sobre a mesa a porcelana fina feito minha avó. Um estrago de peças quebradas e água quente respigando no colo dela. Cacos de chá pra todo lado. Ela levantou terrivelmente irritada, sem máscaras, e eu fugi pelo quintal, correndo entre os galos. Daquele dia em diante desenvolvi gastrite.


Mais um teaser do meu próximo livro: "Que se come frio". E que venha 2018!


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

FALA AÍ BRASIL... BÁRBARA LIA (VII)

Vovó Magnólia nota minha presença. Apenas ela. Cansada de tentar alcançar Caio, eu me afasto. Breve o coração dele vai se cobrir daquela camada espessa, uma camada que sela. Estranho pensar nesta camada como uma cobertura de bolo como aquela pasta americana. É bem assim a vida. Dor a dor as pessoas vão cimentando o coração com uma espessa camada que não quebra, para não vazar o ontem dolorido. O ontem dolorido fica sufocado, e em alguns dias, conforme a gente respira a dor raspa a massa americana e dói. Apenas a minha avó consegue sentir-me. Apenas ela entre amigos e família. No entanto, conheci uma escritora triste que sempre fica na Livraria Ponte de Tábuas, tomando um cappuccino e escrevendo. Ela me vê. Conversamos telepaticamente. Ela diz que gostaria de ver Proust e não eu. Eu pergunto. Quem é Proust? Passo horas ouvindo sobre Proust. Ela o admira. E ela diz que adoraria que eu fosse Proust, pois eu poderia dizer se os escritos dela são Literatura ou desabafo. Poesia ou nada. E ela lê para mim e eu ouço e acho lindo. Ela diz que achar lindo não significa muito. Ela diz que as pessoas choram com propaganda de margarina e gostam de axé. Eu não sei bem o que é axé. Digo que meu avô ouve umas óperas italianas belíssimas e que minha avó adora Chico Buarque. Ela sorri e diz: — Berço de ouro o teu, Mel. Eu sorrio. Nasci em berço de ouro. Sim. Eu nasci. Ela diz que tem nome de escritora: Virginia. As minhas tardes ganham nova alegria. Sento-me diante de Virginia e tenho aulas de Literatura. De vez em quando ela se queixa por eu não ser Proust, mas, com o tempo deixa de humilhar-me por causa de Proust e começa a ser mais amiga.

As filhas de Manuela - página 133.

Bárbara Lia


Sinopse:

As Filhas de Manuela trafega pelo realismo mágico. É um romance de fôlego, inicia em 1839 em plena Guerra dos Farrapos e segue até os dias atuais.  O enredo acompanha a vida de todas as descendentes de Manuela, uma garota simples de Paranaguá que, ao encontrar um oficial da Armada Nacional, muda totalmente de direção a sua vida pacata em uma busca e esta busca pelo homem amado a levará ao encontro de alguém cruel.  Este homem, rejeitado por Manuela, amaldiçoará Manuela e as futuras gerações. Esta maldição acrescentará dor e perdas e o adendo de levarem, todas as mulheres da estirpe de Manuela, uma sombra da cor do sangue.
Como cada mulher viveu esta peculiaridade e os desdobramentos deste encontro de Manuela com o amor e o ódio vai definir os passos futuros em um  ciclo de perdas e superações.



As filhas de Manuela - Bárbara Lia
Romance
Menção Honrosa na Primeira Edição do "Prémio Fundação Eça de Queiroz" - Portugal
Capa: Félix Nadar (1820-1910)
Edição Triunfal (SP) - abril de 2017
ISBN 978-856117566-6

**para adquirir o livro contato via e-mail barbaralia@gmail.com ou neste link
***o livro custa R$ 39,00 (já incluído o custo da remessa)