quarta-feira, 15 de novembro de 2017

FALA ÁFRICA... MACVILDO PEDRO BONDE - XII

COR DO CHÁ

Quando vagueamos inferno as vozes solidárias ofuscam toda a força negativa com um suspiro no olhar. Há uma complexidade dentro de mim: o anjo passeia nas ruas do meu quarto. Traz consigo umas calças de ganga atada ao vento que se arrasta nas folhas caídas. Todos escutam a voz do céu, elevam os braços para que as côdeas maiores que o bolo de arroz, beijem os beiços famintos ao anoitecer.

Tenho saudades do prego no pão, e o cheiro a maresia que abarcava o quintal da infância. Não me arrependo das coisas fúteis; elas alimentam o coração ferido.

Como a dor da perda se esvai no esgoto dos olhos, a felicidade esbarra na quantidade de sonhos ofuscados na cor do níquel. Brinco com os talheres que secam na brevidade da fome onde as flores invisíveis arrastam o seu odor nas chávenas. A cor do chá é negra e os olhos do meu cão azuis, no reflexo da parede.

Macvildo Pedro Bonde
Breve biografia
M.P.Bonde nasceu a 12 de Janeiro de 1980 em Maputo. Foi membro do projecto (JOAC) e do colectivo Arrabenta Xithokozelo. Em 2017 lançou a sua primeira obra literária “Ensaios Poéticos” pela Cavalo do Mar.
Vencedor da 1.ª edição do Prémio Literário Fernando Leite Couto.



terça-feira, 14 de novembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES - VII

O poeta comenta:

Há pessoas que por completo desconhecimento de causa se intitulam artistas, poetas, compositores e coisa e tal. Tenho visto trabalhos ruins ou fracos ou ainda piegas sendo publicados com status de arte de primeira qualidade. Alguém precisa conversar com estas pessoas para que elas não passem por situações constrangedoras em locais frequentados por intelectuais sérios.
Tive durantes anos a orientação crítica de um grande psiquiatra que não mais faz parte deste mundo. Ele foi o responsável pelo meu aprofundamento na prosa e na poesia. Grande intelectual, crítico severo e amigo eterno. Hoje sou publicado na América Latina, na Europa e brevemente estarei nos Estados Unidos. No samba fui parceiro do mestre Delcio Carvalho, outro crítico severo que me ajudou muito e que não mais está entre nós. Artistas que se dizem artistas, leiam mais, muito mais, sofram mais, vivam mais e depois encontrem alguém com experiência para orientá-los. A verdadeira arte e a cultura agradecem.

João Ayres
mini-Biografia:

Poeta, ensaísta, romancista, compositor, cantor de samba,jazz e blues.
Parceiro e biógrafo de Delcio Carvalho.


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

EU FALO DE... MAIS PROJECTOS


Nem um mês se completou após ter feito um pequeno balanço de 2017 e, aos projectos e compromissos já agendados, até final do ano, tive de adicionar mais dois. A organização do II Concurso Literário Edições Vieira da Silva, dedicado à poesia, e a coordenação de uma nova colecção de sete livros - esta de contos.

Estes dois novos convites, para lá do acréscimo de trabalho e ocupação extra de tempo, provam que valeu a pena todo o esforço feito nos últimos meses, na elaboração, organização e coordenação, de vários projectos similares.

Estas mais recentes solicitações dizem-me que, apesar de todo o ruído que faço, ou para além dele, as pessoas reconhecem-me competências no que vou realizando e, assim sendo, não hesitam em continuar a depositar confiança em mim, no que faço e na forma como faço.

No entanto, e apesar de quatro destes últimos trabalhos terem sido delegados pela mesma entidade (Edições Vieira da Silva), não trabalho em exclusividade, como provam a palestra feita no CCB, a convite da Helvetia Edições, e a participação no 2º LiterAl, a convite da Biblioteca Municipal de Alenquer. E assim vai continuar a ser.

O facto de executar alguns trabalhos, seja para quem for, jamais me impedirá de fazer outros, para outras entidades, sejam editoras, bibliotecas, etc.

Como já fiz questão de expressar numa outra ocasião, chegou a hora de deixar de lado o romantismo e dedicar-me às causas (que é como quem diz: ao trabalho) retirando alguns dividendos. Para trás ficam os tempos em que emprestava os meus serviços a troco de nada recebendo falsas palmadinhas nas costas.

Pouco a pouco, os editores, autores, promotores e demais agentes do universo literário, vão conhecendo a minha forma de trabalhar através das obras produzidas e dos eventos realizados.

Se ao percurso feito, ao rasto de competência que tenho exibido e à coerência que tenho demonstrado, juntar a crescente e continuada procura dos meus serviços, fica claro que o caminho pode e deve ser trilhado de forma distinta.

Posto isto, venham mais convites porque ideias não faltam e há espaço para mais trabalhos.


MANU DIXIT

domingo, 12 de novembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK


"Vamos tomar um café?"

Essa pergunta cheia de significados no Brasil, é o ponto de partida, a porta que se abre, para uma aproximação, seja ela pessoal ou de negócios. Um cafezinho quente e reconfortante acompanhado de um sorriso, é sempre o primeiro passo para se iniciar qualquer assunto. Em Portugal, surpreendi-me ao perceber, entre conhecidos e amigos, o nosso tradicional e tão querido hábito, que particularmente me deixou bem satisfeita e sentindo-me em casa e abraçada.

Mas para falar de negócios ou tentar aproximação para expor uma ideia, percebi que a pergunta fica bem difícil atingir o interlocutor. Como trabalho com eventos, e acostumada a esse jeito brasileiro de aproximação, tenho percebido a grande  dificuldade, quando o assunto é espaços culturais.

Ao telefonar o responsável nunca está disponível e a palavra de ordem é: "envia-nos um e-mail". Que na maioria das vezes não se obtém respostas. Não vou estender-me muito, pois tenho conhecimento de outros empecilhos e exigências, mas prefiro acreditar que fiz ainda poucos e nem tão insistentes contatos. Enfim...quem disse que seria fácil?

Acostumada a ter as respostas de imediato, sejam elas em locais públicos ou privados, facilidades nos agendamentos, disponibilidade de apoios e parcerias, sempre acompanhados de um cafezinho forte e adocicado, ando pisando em flores por aqui, com alguns espinhos pelo caminho. Mas se atravessei o oceano, com o propósito firme e irrevogável de permanecer e fomentar a poesia, literatura e cultura lusófonas, mesmo que cheia de arranhões continuarei incansável nas minhas tentativas, com ou sem café.

DRIKKA INQUIT

sábado, 11 de novembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... BÁRBARA LIA - V

#erotismofemininoeliteratura - prosa
fragmento nº 2


Apaguei o passado. Em um segundo, como quem apaga texto em um computador, seleciona tudo e tecla - delete. Deletei. Fiz um giro de noventa graus e me deitei no corpo dele, corpo inteiro dele, como uma súbita onda. Deitei na areia suave, salpicada de sol. Como a pele dele ali no peito, salpicada de ferrugem, como a pele de seu falo com mínimos pontos de ouro. Isto também é passado, pensei. O meu pensamento de um segundo atrás. Vou descartando o passado como quem se livra de casacos sobrepostos ao avançar o caminho. Isto é passado, o momento que comparei o passado a casacos atirados ao chão. Não há chão, há uma areia ardente, pele de Igor e um céu bordado que é o futuro, Meu medo varrido para a galáxia mais distante. As nossas peles nuas no orvalho cobertas de um vendaval múltiplo; lágrima, sêmen, suor, saliva e a garoa da manhã que faz com que ele cubra meu corpo de ninfa, branco, único, dele, apenas dele.

Ninguém nunca antes tocou esta pele. Gozou entre as pétalas róseas. Apenas Igor, este que me inaugura. O sol sacode o silêncio, desperta os pássaros. Igor se vai depois do café. Mas, não se vai.

Bárbara Lia
- Constelação de Ossos - página 74 (Vidráguas/2010)


Mini-Biografia:

Bárbara Lia nasceu em Assai (PR). Poeta e Escritora. Professora de História. Publicou dez livros, entre eles: O sorriso de Leonardo (Kafka edições baratas), O sal das rosas (Lumme), A última chuva (ME), Constelação de Ossos (Vidráguas), Paraísos de Pedra (Penalux), Solidão Calcinada (Imprensa Oficial do PR) e Respirar (Ed. do autor). Integra várias Antologias, entre elas: O que é Poesia? (Confraria do Vento / Cáliban), O Melhor da Festa 3 (Festipoa), Amar - Verbo Atemporal (Rocco), Fantasma Civil (Bienal Internacional de Curitiba), A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua (Maputo). Vive em Curitiba.