sexta-feira, 10 de novembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO - XVIII

Imagem: jacqueline secor
#erotismofemininoeliteratura

A querida Luciana Hidalgo fez um convite - sensacional - para que postássemos textos, poemas, trechos de livros de escritoras que dessem visibilidade ao erotismo feminino na literatura. E aproveitando a oportunidade, escolhi um trecho de um dos meus contos: "Barrocas".

...E lembro que eu e Rose, debruçadas sobre a janela, ficávamos juntas fumando um baseado. Rose sim sabia onde escondê-lo. Ríamos do cheiro, porque passado pela revista das guardas, fumávamos outras tantas intimidades. A pele, erva doce, cabelos pubianos. Fumávamos uma cigarrilha e íamos para o disfarce, a cigarrilha que eu comprava como criminosa ao invés do pão. A pele e osso como deboche para as propagandas de alimentação saudável. Brincávamos as duas de trocar palavras, como "nada, nós fumamos apenas umas cigarrinhas", era como um tapa nos que nos condenavam por sermos mulheres da cidade baixa, nós ali brincando de jardins nos ralos da periferia, preservando os reinos vegetal, mineral e animal - para que as mais fortes crescessem robustas, rosadas. Nossos corpos de cigarras, nossos pelos pubianos, os cheiros crespos de nossos corpos, sabor de boca na nuca, o clitóris na boca um botão entumecido para ser chupado, e na língua o delicado se abrindo e fechando em grandes, pequenos lábios de nossa linguagem de mistérios marinhos, molhados, molhadas, liquefeitas. Era tudo tão fundo que gargalhávamos das pequenas transgressões como loucas sedentas uma da outra. O salgado do abismo nos unia, a solidão das migrantes, a ousadia das putas, a insensatez dos homens que nos batiam e pagavam cervejas no fim do expediente. Sonhávamos em ser mulheres barrocas como as da igreja onde não íamos rezar, porque éramos a escória contagiada por todo tipo de subversão sem perspectivas de nada.

Ela arrancou um hibisco e colocou no meu cabelo, suave na brutalidade do corte. Arrancou um hibisco em pleno dia e o sol ainda iluminava nossas caras! Éramos barrocas.


Leitura complementar:





quinta-feira, 9 de novembro de 2017

FALA ÁFRICA... MACVILDO PEDRO BONDE - XI

TEMPO

Regresso ao meu quintal, o mundo onde os meus amores florescem. Regresso a infância da minha solidão porque encontro nela a porta aberta para a sopa da mãe, o sermão do meu pai, as travessuras dos mais novos. Na varanda do quarto há bailes doces de que aprisionam à minha boca; o peixe seco ofusca o sol que cai no chão do silêncio. O sofá massageia os corpos regressados do trabalho, encanta os rostos com a maciez do aconchego, abre as suas cores para os sorrisos que sofrem dos horrores na hora do jornal; tristes, os olhos cessam o brilho.

Regresso ao meu quintal porque a luz da madrugada perdeu as estrelas, o soalho é friorento e as bochechas engordam sem o mastigar das ervas que brotam do cansaço. Reparo que a mesa nasce triste no olhar do tempo e as mordaças penetram na angústia da liberdade. Regresso ao meu quintal? Compreendo que as vozes são sempre solidárias, os carros de arrame sobrevoam nos calos da mão, as fisgas escondem no burilar do tiro o fim do verão e a alegria esgota na cor do dinheiro.

Hoje regresso desterrado com a ausência do calor fraterno, o aconchego dos meninos que se riem das rugas no berço da vida. O meu quintal é um seio cheio de ouro e leite na boca; um sopro que invade a solidão.

As borboletas pousam no pólen das palavras e as flores brilham no coração da língua. Os verões nascem nos gomos da laranja, azedam as mãos de maldade, amarram às costas a fórmula do suicídio.

Regresso como quem janta rebuçados na colmeia do abraço, como quem dorme com Deus no labirinto do abismo. Hoje aceno a vizinha que tem uma ponte na boca e lágrimas nas mãos. Regresso a chave da felicidade porque danço no asfalto o sonho que soneca no bolso.

Regresso ao quintal como quem já emigrou dentro de si, procurando nos lábios dos filhos a essência do amor. Ah! Que aromas abundam na casa do meu pai?


Breve biografia
M.P.Bonde nasceu a 12 de Janeiro de 1980 em Maputo. Foi membro do projecto (JOAC) e do colectivo Arrabenta Xithokozelo. Em 2017 lançou a sua primeira obra literária “Ensaios Poéticos” pela Cavalo do Mar.
Vencedor da 1.ª edição do Prémio Literário Fernando Leite Couto.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... CRISTINA LEBRE - II

Muito se fala sobre os relacionamentos atuais, diante do tão grande apelo que esse bichinho chamado Smartphone nos traz. É impressionante a solidão que vivemos hoje. Solidão a um, a dois, a três, a milhões. As pessoas podem estar juntas fisicamente, mas as mentes se separam de forma instantânea quando se liga os aparelhos. Não é mesmo muito esquisito hoje em dia ficar sem luz, sem bateria, sem wifi? Parece que não temos mais o que fazer, ou como viver.

E o que dizer dos posts? Há pessoas que não veem o pôr do sol porque estão ocupadas fotografando-o, ou pior, fazendo uma história sobre ele no Instagram. Gente, fazer história no Insta é, na maior parte das vezes, completamente inútil! E o snap, então? Coisa mais besta! Mas tanta gente adora, e se preocupa com isso o tempo todo. Não curte o que está fazendo, curte postar o que está fazendo! É totalmente bizarro.

As redes sociais nos devoraram. As pessoas não conversam, não namoram, não se olham. Fazem tudo pelo Face. Pelo Face a gente consegue até encontrar um amigo que não via há anos, mas e depois? Vamos, efetivamente, vê-lo, tête-a-tête? Ou ficamos somente na conversa virtual? Triste admitir que quase sempre é o que fazemos.

Pelas redes sociais o povo brasileiro vocifera contra os poderosos corruptos. Mas cadê que vamos às ruas? O que está faltando para irmos? Lideranças? Talvez. Mas onde estão os possíveis novos líderes? Será que não estão em casa, bradando através das teclas de um celular?

Não sou contra o smartphone. É uma geringonça efetivamente maravilhosa, possui inúmeros recursos, facilita tremendamente a vida. O problema não é o celular, é a gente. O problema é que nos rendemos a ele e o tratamos como o nosso ídolo, nosso cônjuge, nosso familiar. A questão central é o nosso desequilíbrio em relação à essa tecnologia tão importante.

Chegará o momento em que a humanidade vai olhar para trás e comentar como o ser humano do início do século XXI foi insensato. Até lá, nosso vício atual custará milhares de relacionamentos, entre nós e com a natureza. Que a gente pare um pouco pra pensar, e ler sobre o assunto. Ele é vasto demais para uma simples coluna. E perigoso demais pra gente deixar de abordar.

  

Cristina Lebre é autora dos livros Olhos de Lince e Marca d’Água à venda nas Livrarias Gutenberg de Icaraí e São Gonçalo, pelo portal da editora, www.biblioteca24horas.com, ou e-mail lebre.cristina@gmail.com

terça-feira, 7 de novembro de 2017

EU FALO DE... CONSUMO DE LIVROS


A sempiterna questão do fraco consumo de livros em Portugal foi um dos temas discutidos no LiterAl - 2º Encontro Literário de Alenquer.

Jaime Rocha e Isabel Stilwell (que compunham este painel comigo) expuseram as suas opiniões, as quais subscrevo na totalidade, no entanto, tal como referi no evento, sendo válidas e importantes na abordagem da temática, não deixam de ser reflexo do que é habitual em Portugal, onde se discutem as consequências e não as origens dos problemas.

Nesta matéria, creio que, mais que discutir o pseudo-fraco consumo de livros e o que dai pode advir, seria bem mais produtivo e útil entender o que dá origem a essa ideia ou a esse facto. Mais do que perdermos tempo a encontrar culpa no uso abusivo das novas tecnologias, deveríamos centrar o nosso foco nas questões essenciais. E neste meu texto tentarei responder a algumas delas.

1 - Será que há efectivamente um fraco consumo do objecto livro?Sinceramente custa-me acreditar que isso corresponda inteiramente à verdade. Usando da minha percepção enquanto divulgador e adicionando dados concretos a este respeito - por semana são editados mais de 60 novos títulos - custa-me acreditar que estes números existissem se não houvesse quem os leia. 

2 - Mas, se estes são os números reais, como se explica o baixo nível de consumo nas livrarias? Diz-me também a experiência que, hoje em dia, a maioria dos livros são vendidos nas sessões de lançamento e apresentações. Os exemplares vendidos nas livrarias são uma percentagem residual e, talvez por isso, haja essa ideia do fraco consumo de livros.

Levando em consideração estas duas questões, chega-se facilmente à conclusão que os únicos que se queixam sistematicamente do fraco consumo de livros são os livreiros.

Mas, perante esta minha afirmação, muitos podem contrapor que também há muitos editores e autores a queixarem-se. Sim, é verdade. No entanto temos que analisar bem que editores e autores se queixam e do que se queixam realmente. E quando fazemos essa análise concluímos que os "queixosos" são precisamente aqueles que pouco ou nada fazem pelo que editam (sejam editores ou autores) e, por norma, queixam-se sem argumentos que possam ser levados a sério. Como posso eu levar a sério alguém que se queixa de vender poucos livros quando:

a) não fazem divulgação do livro - assim, como podem as pessoas saber onde podem adquirir o livro?

b) se queixam da fraca afluência de autores nos lançamentos e apresentações - afinal os autores escrevem para outros autores ou para o público?


Perante tudo o que escrevi, só posso concluir que o fraco consumo de livros é uma falsa questão. Então, sendo uma falsa questão, como se pode alterar essa percepção errada? Não sei qual a solução mais acertada mas posso sugerir uma primeira via... Passem as editoras (ou os verdadeiros editores) a serem mais criteriosos no que editam e não o façam apenas e somente com olhos nos cifrões. Se começarem a agir dessa forma talvez os leitores que compram gato por lebre deixem de o fazer e tenham poder de compra para adquirir livros de outros com mais valor, aumentando assim as vendas daqueles que realmente fazem da escrita uma arte que vale a pena ser consumida. Se isso acontecer e existir uma menor dispersão dos leitores, talvez os números se alterem em favor dos que se queixam... mas com razão...

MANU DIXIT

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK


Em 2012 um livro chegou em minhas mãos com um convite para ser agente literária daquele autor, um poeta português. A minha caminhada na lusofonia tinha começado em 2010 e desde 2009, Portugal estava bem próximo, embora eu estivesse do outro lado do oceano. Achei curioso, mas aceitei o desafio. Outros convites aconteceram mas, dedicando-me a outros segmentos, recusei e deixei que o tempo conduzisse para retornar em outra época.


Agora, chegando ao final de 2017, e com muito mais experiência, sapiência e maturidade profissional e crítica, resolvi novamente abraçar a ideia de divulgar o trabalho de autores que tenho admiração, pela obra e pela trajetória de vida, e principalmente pela escrita bem trabalhada, pesquisada, elaborada, beirando a arte das palavras, que são manipuladas em um exercício alquímico e envolvente, muito além do que consideramos como poesia, conto, ou romance. No momento em que vivemos no setor editorial , não quero vestir o título de agente literária, até porque acredito que o autor deve ter total autonomia na escolha da editora e de como conduzir sua obra, fujo um pouco da ditadura e das normas pré-estabelecidas para exercer na totalidade essa função. Como também tenho o meu lado extremamente perceptivo e com a experiência de longos anos nesse mercado, acredito que não sendo parte integrante de uma grande cadeia de editoras, as chances dos meus autores venderem mais de 3000 exemplares para entrarem em outros mercados europeus, ficam bem reduzidas, embora nada impossível, se as ações forem menos utópicas e mais pé ante pé. Prefiro usar a minha habilidade em caminhar com firmeza e sempre, do que mergulhar em areia movediça. A In-Finita, assessoria literária, abre as portas para esse novo momento, contando com o apoio e a confiança dos autores. Agradeço a Emanuel Lomelino (Portugal), Macvildo Pedro Bonde (África), Patrícia Porto e Bárbara Lia (Brasil), que de imediato aceitaram caminhar lado a lado.

DRIKKA INQUIT