quarta-feira, 1 de novembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK

Noites Brancas. E foi como se eu fizesse parte desse fenômeno que acontece no início do verão em um lugar, onde nunca estive, Petersburgo, que caminhei durante algumas horas pelas palavras de Dostoievski. A luminosidade daquelas noites em que não escurece, fazia os meus olhos brilharem e bailarem pela leitura em que mergulhei com imensa satisfação e total cumplicidade pelo sentir do personagem, no qual identifiquei um tempo da minha vida em que, achei, só eu vivia. Surpreendi-me ao ler o mesmo sentir e procura, descrito por um autor russo em 1848. E como tantos bons livros que me chegam às mãos, ao acaso, em épocas que eram necessárias as leituras, para confirmar, despertar ou sacudir elementos que precisam ser observados mais atentamente em nossas vidas, começo a acreditar que há algo mágico nesse universo da escrita. Autor e leitor vivem uma fusão momentânea, onde todo o cotidiano deixa de existir e passamos a viver em outros corpos e lugares, simplesmente porque decidimos abrir um livro e nos deixar envolver por palavras, que vão conduzindo, seduzindo e quando percebemos ocupou totalmente o nosso ser, nos levando para uma viagem e, ao regressarmos, voltamos com um sentimento, um pensamento, ou uma ideia, como refrigério ou alimento para saciar ou preencher alguma sensação de incomodo inconsciente. Genialidade na simplicidade e lirismo ao escrever uma história, justificam e separam o joio do trigo e, talvez por isso, não existam tantos Dostoievski’s, disponíveis a perambular pelas redes sociais ou lançando livros.

Mas o que sei, é que adormeci com a alma aquecida pelo tempo em que estive em outras paragens e feliz constatei, ao regressar, que não estive sozinha nessa busca, enquanto amanheço acalentada pelas presenças que me aquecem. A cumplicidade com o autor que jamais imaginou que, cento e sessenta e nove anos depois, teria uma pessoa com o seu livro em mãos compactuando com o mesmo sentir e pensamento e com um desfecho diferente, para a minha alegria (na vida real) e infelicidade do personagem, que percorre a existência condenado a viver em total solidão.

E tudo isso é apenas para reafirmar o quanto uma boa obra atravessa as intempéries da existência e que a nossa responsabilidade como autores é de extrema importância para a história de um lugar, como sempre divulgo,  na contribuição da vida de um leitor ou significativa nos registros do tempo.

DRIKKA INQUIT

terça-feira, 31 de outubro de 2017

DEZ PERGUNTAS A... EMANUEL LOMELINO

Entrevista conduzida por Adriana Mayrinck

1 - Quem é o autor Emanuel Lomelino? E como a poesia reflete na sua forma de estar na vida ?

R – O autor Emanuel Lomelino é uma entidade que se distanciou do cidadão Emanuel Lomelino, após a edição do segundo livro, e que se rege por conceitos muito próprios e todos direccionados para a criação. Tem o mesmo grau de exigência e rigor mas apenas se preocupa com o que cria. Já o cidadão é mais opinativo e intransigente, e não tem problema algum em falar o que pensa. Se há alguma influência da poesia na forma de estar na vida, essa será apenas pelo tempo e dedicação empregues. Por isso acho que a vida influencia mais a poesia do que o contrário.

2- Seus títulos são marcantes e remetem a fases da sua caminhada poética. Auto-retrato ou criação independente do homem?

R – Pode-se considerar que os dois primeiros títulos, ainda tocados pela inocência ou, dito de melhor forma, pelo estado ainda imberbe do autor, têm doses elevadas de autobiografia. A partir daí, com a aprendizagem, entretanto adquirida, nasceu uma maior consciência de autor e todos os trabalhos posteriores passaram a ser menos pessoais, mais criteriosos e alvo de maior grau de auto exigência.

3-  Conte-nos um pouco da sua obra e de suas expectativas como autor.

R – A obra nasceu, primeiro pelo concretizar de um sonho, depois por mera conjugação de oportunidades. Neste momento o sonho está mais que realizado e, enquanto as oportunidades forem aparecendo, cá estarei para acrescentar mais alguns trabalhos. Não tenho expectativas porque nunca as crio e porque, mesmo que as oportunidades um dia deixem de aparecer, não me incomodará em nada deixar de editar pois o que me move é escrever. Eu edito porque escrevo… não escrevo para editar.

4- Percebemos a sua versatilidade e facilidade de adaptação poética em linguagens diferenciadas. Heterônimos?

R – Não! A minha esquizofrenia é una e indivisível. Mais a sério, é apenas uma característica que junto a outras e que servem de ferramentas de criação. Por outro lado, até me convém ter essa versatilidade pois sou muito avesso a rotinas e gosto de me desafiar enquanto autor.

5- O poder criativo é ilimitado. Previsão para novas publicações? Comente sobre essas possibilidades, há um planejamento ou os livros acontecem?

R – Existe uma ideia central, fruto da tal consciência de autor que mencionei noutra questão, mas que é susceptível de alterações motivadas pelas oportunidades que vão surgindo. Dou um exemplo: seguindo essa minha ideia inicial, o meu terceiro livro não seria o LICENÇA POÉTICA – DUETOS LOMELINOS… eu tinha um outro livro pronto para ser editado, no entanto na mesma altura foi-me oferecido um contrato editorial, que dificilmente poderia recusar, e que consistia na elaboração desse projecto de duetos. O outro ficou na gaveta esperando decisões. Quanto a trabalhos futuros… há um em fase de pré-edição, que também não estava programado mas é uma oportunidade que não podia deixar passar. Para além deste há muito material pronto, somente à espera de interessados. 

6 - O TOCA A ESCREVER, seu blogue, criado há sete anos é um projeto de relevância e a cada dia acrescenta novos autores e leitores. É um trabalho de dedicação, persistência, disciplina e sem retorno financeiro. Ideologia, sonho ou utopia?

R – O TOCA A ESCREVER nasceu motivado por uma lacuna que detectei no universo da escrita: a falta de divulgação dos livros editados. Mais que um trabalho, e apesar de dar mesmo muito e consumir muitas horas, é uma paixão que, felizmente, tem vindo a crescer com o patrocínio de editoras e alguns autores. E agora, com a parceria da IN-FINITA, e a junção de forças por um objectivo comum, esse crescimento foi mais acelerado.

7- No TOCA A FALAR DISSO  você expõe a sua opinião de forma clara, transparente, nua e crua. O mercado literário é um meio bem delicado em se conviver, como é a receptividade do leitor , autores e editoras na sua espontaneidade de se mostrar sempre autêntico e firme em suas opiniões. Te impulsiona ou te freia para  novas ações e interações?

R – o TOCA A FALAR DISSO tem mais o cunho do homem do que do autor. Enquanto o autor se dedica a criar e a tentar fazer obra, o homem é mais crítico e, tendo a possibilidade de expressar a minha opinião, jamais deixarei de o fazer. Isso não quer dizer que estejas sempre certo no que escrevo. As minhas opiniões são fruto das minhas verdades e nunca foi minha intenção impingir aos outros as minhas ideias nem o faço para arranjar seguidores para elas. Limito-me a lançar os temas para debate e depois cada um que pense pela sua cabeça. Dito isto, não me preocupo nem um pouco com a sensibilidade de quem está no meio literário. Ter isso em consideração obrigar-me-ia a censurar o meu pensamento e a não o expressar. E o livre pensamento e a liberdade de expressão são dois direitos que não abdico.

8-  Uma vida dedicada a arte da escrita, e uma caminhada permanente, ininterrupta e consolidada. Há um objetivo ou desejo ainda não realizado ?

R – Como disse anteriormente, o objectivo era editar e isso foi alcançado. Depois o objectivo passou a ser ter três livros editados e parar. Entretanto as oportunidades foram aparecendo e esse objectivo cumpriu-se pela metade e tudo o que tenho feito desde aí já não faz parte de nenhum objectivo delineado. Neste momento tenho-me limitado a ir na onda. Já fiz de tudo no universo da escrita, já vivi algumas coisas que, se não fosse a escrita, nunca as teria vivido. A minha certeza é que continuarei a escrever e o que vier será bem vindo e se deixar de vir não tem problema porque, como também disse, eu edito porque escrevo… não escrevo para editar.

9- Como é o profissional Emanuel Lomelino, seja como organizador de coletâneas e antologias, prefaciador ou palestrante. Há uma linha de conduta ? Mistura-se com o autor ou são vertentes distintas?

R – O autor é a extensão criativa e tudo o resto é responsabilidade do homem. É evidente que existem pontos de contacto mas apenas em alguns aspectos de conduta. Quando estou envolvido nessas actividades mencionadas sou, tal como o autor, exigente e rigoroso, mas muito mais intransigente e faço tudo para que os resultados finais estejam o mais próximo possível da perfeição. Apesar da tremenda realização que essas tarefas me proporcionam, é muito raro ficar totalmente satisfeito com o resultado final.

10- Um desabafo. O que mais te incomoda? Uma alegria. O que te move? 

R – Não sou homem de me incomodar. No entanto, há alguns assuntos que não me deixam ficar sossegado, nomeadamente a questão do plágio e a incompetência consciente. Quanto ao resto… sou demasiado desligado. Para mim o mais importante de tudo é chegar ao fim de cada dia e ter consciência que fui fiel a mim e aos meus princípios, encostar a cabeça no travesseiro e adormecer tranquilamente.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

AOS OLHOS DE PAULA OZ - III

Antero Jerónimo é um autor que escreve a sua própria existência.
O seu pilar é a escrita, escrita essa que é possuída por quatro elementos.
- Água, Terra, Fogo, Ar
O autor é a fonte de energia que vive no seu íntimo, respirando-a, vive-a.
Essa arte nunca esteve ausente, apenas guardada no baú do coração.
A chave da liberdade aconteceu com o abraço do tempo e desenraizar a poesia do Homem.
Surgiu então a vida do mesmo e dos elementos que o fazem romper os muros da timidez escrevendo concertos empíricos numa união de sentimentos e alma camuflados por estrelas metafóricas.

Percorrendo as páginas desta obra, fiquei encantada e vestida do seu perfume, o autor procura acima de tudo a felicidade plena, o amor sem grades, a essência do ser e em liberdade, um jardim de poesia onde o seu odor voa livremente:

“De nada vou abrir mão, que não me basta a metade
De forma indelével ousei fechar esta cicatriz
Vou inebriar-me desta seiva, este rio feito vontade
Hoje vou libertar-me, quero apenas ser feliz.”

Criar a magia através de palavras e com elas conseguir que o leitor as sinta, é um dom muito especial, esse é o caminho poético.

Palavras não são somente palavras.
Palavras compõem o universo das pessoas, Antero Jerónimo ampara esse desafio e atinge a intemporalidade nesta obra.
A analogia dos segredos é a emoção e vivacidade com que o autor nos abre a porta:

“É entrar meu povo, é entrar…
Estão abertas as portas da imaginação!”

Antero Jerónimo oferece-nos nesta obra a existência do amor universal, a arte da sua realização espiritual, a palavra em conformidade com o estado de alma.
Neste livro identifico o contexto sentimental e metafórico, que dá lugar à vontade e ao desejo de abrir a janela do tempo e descobrir a mente e o carácter do autor:

“Existem capítulos felizes
De livros que já não lemos
Mas que guardamos religiosamente
Na biblioteca da nossa existência.”

Ao plantar uma flor, visualizo a sua linguagem.
Ao sonhar com uma paisagem, respiro a sua coragem.
A metamorfose do tempo...NUNCA o impedirá de crescer para escrever:

“Arquitecto de sensações me construo e nelas preencho os alicerces onde
edifico a coragem de me questionar.
Onde começa o nosso verdadeiro mundo?”


Uma obra de arte, rica e unicamente TUA
Universalmente NOSSA
Valeu a pena esperar por este horizonte poético que nunca esquecerei.


“Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta.”

Carl Jung



Para a obra:


A JANELA DO TEMPO


ANTERO JERÓNIMO




Seguro nas mãos essa força, a força com que a palavra me torna corpo e me faz sentir um todo infinito.

Antero Jerónimo

domingo, 29 de outubro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO - XVI

Para alfabetizar letrando 2

Embora na década de 70, ou até mesmo antes, fosse comum o uso de palavras como “pessoa letrada”, “ser letrado”, “iletrado”, foi  a partir da década de 80 que o verbete “letramento” passou a fazer parte dos estudos e agendas de pesquisas, o que, sem dúvida, se deu no campo da investigação teórico-metodológica de forma emergente e substantiva, gerando com isso novos campos de debate e novas linhas de trabalho. Muitas dessas pesquisadas foram divulgadas e socializadas na década de 90. Entre eles os estudos e registros de Magda Becker Soares e de Angela Kleiman.

Nos dias de hoje, já familiarizados ao termo, é também nas plataformas políticas, que encontraremos o largo uso do verbete – por vezes desacompanhado da prática. Atualmente “letramento” tornou-se “palavra-chave” em muitas propagandas governamentais e nos pacotes e kits destinados às práticas escolares de leitura e escrita que são encaminhados para as escolas públicas, inclusive com a parceria de grande empresas. E isso torna ainda mais claro que por mais que saibamos que há muito a ser feito em termos de políticas públicas que realmente enfatizem de forma indissociável os processos de alfabetização e letramento num país de 9% de analfabetos (18 milhões), e de milhões de analfabetos funcionais, os dois processos que andam juntos, creio que devido à evidente importância e grandeza política, “figuram”, ou melhor, fazem figuração no cenário político nacional. O que seria dizer que sendo os dois processos veículos de transformação e mobilidade social, alfabetização e letramento são temas do presente, do cotidiano, são processos essenciais para qualquer começo de pensamento e ação que tenha como construto as mudanças e as reformas educacionais no país. E esta reflexão nos remete à prática docente e ao cotidiano escolar, tecido social composto por tantas vozes e tantas singularidades.

Leitura: tecendo saberes no singular e plural.

Disse Monteiro Lobato, bem antes do pré-sal, “um país se faz com homens e livros”. E para se fazer um país de homens e livros, como desejou Lobato, nosso melhor investimento começa mesmo é na educação infantil, no “pré-escolar”, onde, talvez pela primeira vez, a criança terá contato com os livros e com as estórias infantis. E ter contato com os livros é ter contato com a palavra escrita, com os sons da palavra escrita e se esse livro for um livro de estórias e se uma professora, um professor ler, contar o que estiver escrito, a escuta da palavra unida à leitura de mundo da criança pequena, poderá criar um novo repertório de palavras-mundo, palavras que geram outras palavras. E se esse livro for ilustrado, a criança também poderá compreender que as imagens também criam narrativas. 

Em contato com os diversos gêneros textuais as crianças são incentivadas a pesquisar, a escrever e a desenvolver práticas diferenciadas de leitura e escrita. É possível ainda, a partir da combinação das leituras e escutas dos diversos gêneros textuais, construir ambiências facilitadoras para a produção de textos individuais e coletivos. Daí a importância dos professores leitores, dos professores pesquisadores e reflexivos. A leitura pode até não chegar arrebatadora como uma paixão de ler ou crença na mudança futura, o que pode, à primeira vista, gerar certa incredibilidade, certa desconfiança, mas a leitura pode e deve chegar às salas de aula como direito e lavor, lavore, trabalho constante de ação e reflexão. Para a criança pequena - ou para a criança  que habita o adulto - as leituras, principalmente as dos livros infantis, estão cheias de vidas, estão grávidas de descobertas, de levantamentos de hipóteses, de possibilidades de sons,  de intertextualidades, de novas lógicas textuais. E a leitura da  literatura infantil  é mais uma possibilidade entre tantas outras possibilidades textuais. Lembro-me de participar de um congresso que, terminada a minha apresentação, um jovem estudante universitário se aproximou e pediu: _ você pode me mandar por e-mail uma lista de livros literários para eu começar a gostar de ler?  E a fala dele, naquele momento, foi capaz de redimensionar a minha fala anterior sobre “o prazer de ler na escola”.

Ser professor leitor não significa ser leitor apenas de livros literários ou ter que começar o gosto pela leitura através deles. É preciso estar aberto às leituras do mundo. Paulo Freire já havia dito, mas há  um despertar que só se vive pela experiência à flor da própria pele. Por isso Paulo Freire nos diz que saber ler ameaça, pelo seu potencial transformador,  capaz de provocar rupturas no estabelecido. Mas não se trata de uma leitura esvaziada de sentidos ou uma leitura imposta. Para provocar reflexões, questionamentos, inquietações,  é preciso que se faça da “leitura de mundo”, uma leitura de possibilidades com o texto literário, o texto jornalístico, o texto cientifico, com as notícias das revistas, com os gibis, os textos vinculados na internet. E principalmente com os livros de literatura infantil, professores e alunos podem vir a descobrir juntos, pelo “gosto”, uma multiplicidade de vozes externas e internas, uma dimensão multifacetada da linguagem.

sábado, 28 de outubro de 2017

DEZ PERGUNTAS A... TACIANA VALENÇA

Entrevista conduzida por Adriana Mayrinck 

1. Taciana Valença, produtora cultural, editora da Revista Perto de Casa, diretora social da União Brasileira de Escritores em Recife, poeta e cronista, faça um breve resumo das suas atividades e como consegue conciliar o seu tempo?

A pergunta mais difícil: como consegue conciliar? Realmente não é fácil quando se faz a opção de ser autônoma.  São muitos afazeres diferentes, acrescentando, de quebra, ser mãe, esposa ,dona de casa e trabalhar com vendas. Dureza, não é?  Realmente só sendo poeta ou um ser considerado estranho ao mundo.
Na verdade algumas manhãs tiro para casa e textos, alguns dias  para vendas de anúncios, outros para vendas da representação. No mais administro o tempo para a UBE, projetos junto com a Letrart, da qual sou sócia também, organizar o Conversando Perto de Casa (uma vez ao mês) na Livraria Jaqueira, o site da revista e exercitar a escrita. Mas estou sempre envolvida em outros projetos que surgem. Tenho grande vontade de fazer teatro e retomar minhas entrevistas.
Só não me pergunte que tempo terei para isso.

2. Como começou a escrever poesias, há uma temática, alguém que lhe inspirou, segue uma rotina de criação ?

Sempre fui uma criança que prestava atenção nas coisas mínimas, ou seja, que ninguém mais prestava. Lembro que saí de uma escola muito pequena para outra enorme, tinha lago, peixe elétrico, macaco e muitas joaninhas no jardim. Na época eu não escrevia, mas imaginava histórias. Depois me envolvi nos esportes e também não sobrava muito tempo.  Só aos 12 anos comecei a rabiscar algo, coisas simples que colocava em um caderno. Certo dia meu pai levou para o trabalho para mostrar aos amigos e depois disso eu rasguei o caderno. Nunca entendi o porquê e até hoje tenho curiosidade para saber o que escrevia naquela época. Talvez eu tenha ficado sentida pela invasão. Depois muito esporadicamente até os 19 anos, quando escrevia algumas coisas. Na verdade nunca me considerei poeta, faço da escrita um passatempo que gosto, mas, como dizem que sou, tudo bem.

3. Há planos para um livro? Poemas ou crônicas?

Sim, pretendo ainda esse ano lançar o de poesias. Faz tempo que está quase pronto, mas sempre saio mudando, achando que precisa amadurecer mais e tal. Porém, dessa vez acho que sai mesmo. Na realidade quero muito lançar o de crônicas, mas será o próximo passo.

4. Faça uma analogia do início da sua vida como autora e os dias atuais. Houve mudanças consideráveis?

Sim, houve. Existe um site chamado Recanto das Letras, onde registro alguns escritos, pensamentos, poesias, crônicas, frases, etc. Vez por outra vou lá e vejo algumas coisas escritas, digamos, em 2008. Nossa, tem muita coisa ruim, imatura, boba até, mas não tiro, serve justamente como termômetro. Uma época eu estava com mania de rima. Meu Deus, eu rimava tudo! Depois fiquei completamente enjoada de poesias rimadas. Gosto dos versos livres, sem compromissos com rimas. Não quer dizer que não rime mais, mas procuro não exagerar. Mesmo assim tenho vontade de fazer um curso de cordel, pois acho legal um cordel bem feito. As mudanças são consideráveis sem dúvida.

5. Na União Brasileira de Escritores, como diretora social, quais os projetos mais importantes desde que tomou posse e quais as perspectivas parta 2018?

Na verdade tomei posse em março deste ano, durante as reuniões estamos reanalisando desde os estatutos até os programas. Ultimamente me envolvi na Flipo e só agora retomo o que venho amadurecendo como inovação para a UBE. Quero levar estudantes de escolas particulares e até crianças para eventos literários, como tardes debatendo autores ou poetas. Existe já um programa muito bacana coordenado pelas escritoras Bernadete Bruto e Ivanilde Gusmão, que leva estudantes das escolas públicas para debaterem contos de grandes autores e conhecerem autores da própria UBE.  Não tem preço ver que os estudantes estão interessados, envolvidos. O projeto chama-se Filosofando sobre o amor na literatura. Minha intenção é trazer mais e mais jovens, estimulando e os envolvendo no mundo literário. Esse ano também farei a Semana da Arte na UBE, provavelmente em Novembro, no intuito de divulgar artistas e deixá-los mais próximos da literatura, pois ambas são na verdade expressões artísticas.

6. Como você se define, como profissional e como ser humano ?

Como profissional eu gosto de desafios. Sempre acho que vou conseguir. Como ser humano gosto de ser prestativa, amiga, tenho grande instinto de cooperação. Gosto de divulgar o trabalho das pessoas, principalmente quando relacionadas à cultura e literatura. Gosto de fazer amizades, conversar, ajudar. Admiro muito as pessoas discretas, sinceras e que se unem por uma causa comum. As que me conquistam geralmente é para sempre, caso contrário é porque tem algo no caráter que naturalmente me afasta. Isso não administro bem, sou muito sensível para reconhecer as verdadeiras faces e facetas das pessoas.

7. Como iniciou a revista Perto de Casa e quais os projetos agregados?

A Revista Perto de Casa começou em maio de 2008, quando, junto com uma amiga, fizemos um projeto para uma revista de bairro que divulgasse o comércio, a arte, literatura e turismo locais.
O nome surgiu da nossa mania de dizer: é ali, perto de casa.  A minha sócia era designer gráfica e eu ficava com as vendas. Depois entrei na TV SABER (Canal fechado-SIM TV) com o Programa Perto de Casa na TV, na intenção de entrevistar artistas, escritores e profissionais liberais, seguindo a linha da revista, porém, com largo espaço para divulgação. Antes mesmo de completar dois anos fiquei só na revista e no programa, pois minha sócia resolveu tomar um outro rumo.
O programa durou mais ou menos 3 anos e terminou quando a TV fechou. Depois comecei o Navegando em Poesias (2010), projeto onde reúno poetas num passeio de catamarã pelo Rio Capibaribe. O objetivo é estimular os poetas a desengavetarem suas poesias.  Durante o trajeto, além das declamações há música, vinho e petiscos. Também surgiu o Conversando Perto de Casa na Livraria Jaqueira, seguindo a mesma linha da TV, porém, com várias homenagens aos artistas locais. O projeto acontece sempre nos quartos sábados de cada mês, da 17 às 19h na livraria e  hoje faz parte de um projeto maior, o Multivercidades, que agrega mais 4 projetos, um a cada sábado.

8. Qual a sua opinião sobre o meio literário e cultural, por onde transita em Recife?

Acho o meio cultural e literário em Recife bem efervescente. Artistas, escritores e músicos muito bons e criativos. É claro que existem os medíocres, mas há muita gente boa. A dificuldade é sempre financeira para que bons projectos saiam do papel. Apesar dos incentivos, como o Funcultura, onde muita gente fica de fora pela grande quantidade de detalhes a serem observados, é tudo muito difícil no meio cultural.

9. Um sonho. Um desafio. Um obstáculo. Pode descrevê-los?

Não sou muito de ter sonhos únicos, também não alimento sonhos impossíveis até mesmo porque não os tenho.  Meus sonhos são palpáveis e dependem muito de mim. Sempre há algo a fazer, sempre melhor, então há uma realidade a ser trabalhada dia após dia. Sou impulsiva e isso ajuda a não temer obstáculos.

10. O que te move e o que te desanima?

Sou movida pela paixão pelas coisas que gosto de fazer. Sonhos e novos projetos me movem, da mesma forma o amor pela família, especialmente pelos meus filhos, presentes divinos.
Não acredito que nada possa desanimar a não ser o meu próprio estado de espírito. Já me envolvi politicamente, já fui ao fundo do poço da decepção pelas coisas que não posso mudar, mas mudei um pouco nesse sentido. O que vivemos nesse país hoje é um grande salve-se quem puder! Vivemos hoje uma grande farsa nesse país. Você escolhe continuar ou ficar parado se indignando. Eu escolho continuar e lutar pelo que gosto e pelo que acredito.Nada que venha dos outros me desanima. Acredito que o desânimo está em nós mesmos. Fiquemos  então atentos para que não nos abata.