sexta-feira, 15 de setembro de 2017

EU FALO DE... ENRIQUECIMENTO DA LÍNGUA


Na sequência da minha participação no 2º Festival de Poesia de Lisboa (organizado pela Helvetia Edições) e tendo em consideração o acolhimento que as minhas palavras tiveram juntos da plateia, decidi escrever sobre um dos assuntos que abordei, mas de forma muito sintética, e que merece uma reflexão mais aprofundada.

Em determinado momento da palestra, quando falava de benefícios da era digital nas criações poéticas, mencionei a adição de novas terminologias no léxico e, para aligeirar um pouco, dei o exemplo a palavra upgrade. Todos nós já lemos em algum momento esta e outras palavras, relacionadas com as tecnologias, num ou noutro "poema".

Abro aqui um parêntesis para dizer que coloquei a palavra "poema" entre aspas pela simples razão de mais facilmente identificar o objecto de análise, porquanto muitos só serão poemas na cabeça de quem escreve.

Retomando o fio à meada; usei o termo upgrade como poderia ter usado muitos outros que surgiram com a evolução informática e tecnológica.

No entanto, apesar da minha tolerância ao modo como cada um cria os seus textos, e porque o tempo disponível não me permitiu aprofundar mais este aspecto, sou apologista que, sempre que possível, nós autores, devemos evitar os inglesismos (e outros ismos). No caso concreto do exemplo dado, a língua portuguesa tem palavras que podem muito bem ser utilizadas em detrimento de upgrade... (actualizar, actualização, melhorar, melhoramento, incrementar, incremento, etc).

Eu acredito, e defendo, que aos autores cabe a tarefa de enriquecer o seu próprio idioma, mas também acredito que não existe maior enriquecimento do que evitar estrangeirismos e dar primazia aos termos equiparáveis e já existentes. O enriquecimento não se faz apenas com a adição de novas palavras ao léxico; o enriquecimento faz-se, sobretudo, com o uso rigoroso, regular e constante, da riqueza e diversidade já existente na nossa língua.


MANU DIXIT

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... TACIANA VALENÇA

Acidente

Na curva da estrada um tombo. Todo o carregamento espalhado pelo caminho. Eram só poesias. Apenas poesias. Certo, estava lotado, abarrotado de sentimentos, deve ter sido o peso, o peso dos versos entonelados. Estavam agora largadas no asfalto. Algumas voaram morro abaixo, outras subiram aos céus. Foram tantos grudados na pista molhada!

Um acidente apenas, um trágico acidente numa BR. Mas o pombo ciscou e sapateou em cima de um deles, achando pouco deixou marcado seu excremento esverdeado. Nossa, isso é que é zombrar de sentimentos. Uma delas, talvez a mais leve e romântica estava presa a um galho. Lembro bem dela porque havia um coração mal desenhado à mão.

As demais seguiram caminhos diversos pelo céu aberto. A menina que no parque chorava sentiu algo cair em suas mãos, seriam palavras vindas do infinito? Mas enfim as palavras tornaram seus sonhos mais bonitos. Ao mesmo tempo um casal sentado num banco, que brigavam sem nem mesmo saber o porquê acabou lendo juntos a mensagem do além e sem demora eram um só bem.

Tantas foram as mensagens que agora de nada me serviam. Eram mesmo destinadas ao vendo, ao acaso, ao relento…

Agora me despeço dos versos, esses bipolares amigos das horas. Nem sequer mais um deixarei escrito em vagas memórias.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO

 "Outros Cantos" e a estética da sobrevivência.

Há narrativas-correntezas tão fortes que nos fazem mergulhar no outro que também somos. Parece algo muito fora de nós a princípio, dada a vertigem do encontro, mas vamos entendendo no percurso da leitura que é realmente da nossa intimidade que se alimenta, da nossa imediata identificação, dessa afinidade aguda que pode até mesmo nos interrogar e que se lastreia para dentro, nos investigando os porões, revirando os guardados, revelando vozes segredadas, aquelas que não cuidamos de registrar e que vão se misturando ao chão da vida, trajetórias de leituras que nos escapam... E é partindo deste princípio, do meu lugar de leitora e educadora, ambas encantadas, que ofereço uma modesta contribuição de olhar a "Outros Cantos" de Maria Valéria Rezende. Porque, se nos encantamos e ainda não fomos castrados nesta habilidade, é pelo olhar curioso, visitado por outros sentidos, que nos deixamos reconhecer no texto lido e amado. 
              Em "Outros Cantos", ao me deparar com Maria, as Marias que habitavam em mim ressoaram. Dentro de mim uma nova jornada mítica: significar o que compreendo como estética da sobrevivência. Algo de delicado e outro de doloroso me ocorrem para tentar descrever esta estética de histórias que se assemelham às minhas e recriam pela cultura este diálogo permanente e polifônico. Como recebo Maria a partir de minhas Marias? As Marias que não deixei vingar, as que calei de saída, por medo e resposta antecipada contra o que parecia destino? Perguntas teimosas me fazem companhia pelo trajeto da leitura, às vezes estreitando a vista a fim de enxergar melhor esses jogos de perder e achar. Não sei se alcanço o todo de dizeres que vão brotando da pedra, a minha é a mais bruta. Procuro aqui e ali um desvão, um atalho que nos una, e que me faça encontrar Maria, a educadora, a nordestina, a viajante, a corajosa - num feito de matriochka. Um engenho elaborado entre escrita e significação que vou costurando junto à cartografia do sertão. O sertão que se biparte em geografia e sentimento. Patuá de sertão é para sempre esse carregado de memórias no peito. 
                  Mas eis que surge a imagem que persigo: a viagem. O caminho sensível pela alma de minha leitura amorosa, alma porosa, cálida e dedilhada pelo risco e invento dos sobreviventes. Tento sintetizar minhas percepções e palavras como "denso, perturba-dor, delicado" são os melhores qualitativos que encontro. Ouso trazer Maria e "Outros Cantos" para minha coleção de imagens. Guardo este segredo de quem escava histórias em mil camadas e que se instaura na convergência da leitura com a educação: dois amores e uma espécie de circuito inacabado que encarna no mundo como aliança quixotesca, subversiva, desviante. "Outros Cantos"  acende em mim a tradição das almas velhas. Dou rendas à escritura: cheia, vazia, entrelaçada, torcida - que não guia, mas nos torna cúmplices da narrativa, sujeitos clandestinos, desejantes e sonhadores.


Maria Valéria Rezende é ganhadora do prêmio Jabuti e do prêmio Casa de Las Américas.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK


Ando pelas ruas do Recife com olhar de distanciamento, recolhendo na memória relíquias. Com uma certa saudade das ruas em que crianças corriam e brincavam e hoje passam carros barulhentos com as suas buzinas apressadas. As casas com seus pés de jambo e azeitonas que hoje transformaram-se em prédio colados um ao outro e pouca sombra. Os apitos dos vendedores ambulantes que perderam-se nas lembranças infantis. Ainda ouço passos, vozes, da família reunida na varanda, na casa do meu avô, misturando-se com a melodia das folhas dos coqueiros a dançarem no vento, o cheiro do queijo coalho derretido com mel de engenho, aquele sabor do café com bolo de rolo, o suco de graviola, o sorvete de mangaba e tantos sabores que só encontrava nesse pedaço de mim.

Deixo esse Recife de Manuel Bandeira, Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto. Alberto da Cunha Melo, Clarice Lispector, e tantos outros imensos escritores e poetas, referências da minha trajetória de vida e caminhos, retidos em um lugar especial, do lado de dentro.

Hoje a palavra saudade chega com leveza e sensação de um tempo muito bem vivido e desfrutado em cada instante. E no encontro com amigos e família, constatei as alegrias que deixamos no coração e nas memórias daqueles que partilhamos vivências. E nas marcas do tempo, ficam ali, guardadas a serem resgatadas quando um olhar, um sorriso, uma palavra se reencontram. Voltei a Recife, como o fiz, inúmeras vezes, após abraçar o Rio de Janeiro como parte de mim. Mas nesses cinco meses, regressei como quem se despede a cada dia. E essa percepção de “talvez não passe mais por aqui”, faz com o que o olhar, o sentimento, sejam mais atentos aos detalhes e até mais carinhosos com aqueles que cruzam o nosso caminho.

E fui tão acarinhada nesses dias que a palavra saudade transformou-se em gratidão envolvida por um sorriso de alegria e aconchego. Foram tempos de incertezas, trabalho árduo e muitas conquistas. Foi como se o ninho estivesse preparando o pássaro para um voo maior pelo céu sem limites. E em uma manhã de sol intenso, ouço no vento... “Vai... voa!”

Recife, local onde nasci e criei laços, e pouco permaneci. Mas é aquele lugar de abrigo, de sol, de sabores e docilidades. E é o local onde retornei, várias vezes para respirar e me inspirar. O ar abafado dos dias ardentes e a brisa refrescante das noites enluaradas. 

O cheiro de maresia e a sede saciada com água de coco. E palavras, encontros, leituras, poesias, luminosidade.

O ponto inicial, o ponto de partida.

Recife que me abriga e me liberta.

Para um novo olhar, um novo tempo, um novo voo.


DRIKKA INQUIT

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

EU FALO DE... LIVROS VERSUS E-BOOKS

No outro dia alguém me disse, e com muita graça, que um dos factores que levam tanta gente a querer ter um livro editado está no que foi profetizado há alguns anos sobre o tempo de vida dos livros em formato de papel.

Lembro-me perfeitamente que, com o aparecimento e rápida expansão das redes sociais, alanvancados pela evolução tecnológica, muita gente achou que o fim do livro, tal como o conhecemos, estaria perto e seria inevitável.

Não sei se esse dia chegará. Sei é que ainda não chegou e não creio que isso venha a acontecer a breve prazo.

Seja como for, e pegando um pouco na importância/influência das tecnologias no objecto livro, gostaria de tecer algumas considerações.

Em primeiro lugar, como afirmei diversas vezes, em momentos distintos, creio que há mais benefícios que prejuízos com a introdução das novas tecnologias, ao dispor dos autores.

Enquanto autor, sou a favor da utilização de todos os meios que permitam uma maior e melhor divulgação do meu trabalho. Não me choca ver os meus livros também disponíveis em versão e-book.

Já enquanto leitor, perdoem-me os menos conservadores, não consigo ser fã dos suportes digitais que vieram tentar substituir o livro físico. A minha paixão pelos livros surgiu não só pelos conteúdos mas também pelo toque e pelo cheiro. E isso não há e-book que nos consiga proporcionar.

Neste aspecto sou um leitor à moda antiga mas, como nem tudo em mim sofre de conservadorismo, vou fazer uma analogia entre duas actividades que gosto muito: ler e sexo.

Tal como no sexo, o prazer de um bom livro está também na possibilidade de juntarmos, à emoção, os toques e sentirmos o cheiro. Nos livros, tal como no sexo, há a emoção de tocar as páginas imaculadas de um livro novo ou as páginas envelhecidas de um muitas vezes lido. Tal como no sexo, os livros permitem-nos sentir diferentes texturas, diferentes emoções... e tudo isso proporcionado pelos toques e pelo cheiro.

O e-book está para o livro como alguns gadgets estão para o sexo... os aparelhos até podem ser bons e proporcionar momentos de prazer mas convenhamos, não é a mesma coisa. Os e-books, quanto muito, são frios ao toque e cheiram a plástico. Falta-lhes textura. Não há diferença entre um e-book novo e um lido imensas vezes, nada os diferencia.

Tal como no sexo, também nos livros, eu prefiro o original e não a versão tecnológica.

MANU DIXIT