sexta-feira, 1 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO

Ainda é cedo, Amor.
Sobre o Ato Terrorista em Campinas.

Ainda é cedo, amor...
           Assim como na bela música do Cartola diria que "ainda é cedo, amor...". Há muitas camadas neste caso. E essas camadas revelam muito do que nós já éramos e do que estamos excretando como sociedade. Relacionamentos abusivos estão na ordem do dia. Não se restringem aos casais, mas se ampliam às pessoas em geral, às relações como um todo, num complexo. No nosso trabalho mesmo, quantos relacionamentos abusivos são mantidos - e por décadas? Quantas doenças nos causam? E o excesso de informação? A enxurrada cotidiana de notícias manipuladas? Todo o barulho e mal estar causado pelas mídias sociais que pouco acrescentam. E se tivermos uma arma na mão? Nossa história é uma história de escravidão, humilhações constantes, opressão, de subserviência, de ódios reprimidos não trabalhados, de ressentimentos e não-diálogo com os divergentes. 
           Há um grande abismo, um grande vazio de significados entre o discurso intelectual acadêmico e o movimento feminista real, o movimento social feminista. Então é muito estranho ler textos que dizem sempre o mesmo do mesmo, mas são incapazes de representar o que é a vivência da mulher com a violência doméstica cotidiana, a vivência da mulher que sofre abusos contínuos, abusos de classe, abusos étnicos, os de gênero, todos os abusos. As mulheres da Maria da Penha, as Mães de Acari e de Manaus... Creio que esteja faltando um trabalho de campo bem direcionado, que desvele as experiências e as narrativas singulares dessas mulheres. Está faltando solidariedade, porque empatia é palavra para alguns entrarem em consenso, talvez vender sabonetes. Está faltando, principalmente, diálogo. E sobre as pílulas morais que andei lendo, é preciso ir mais fundo, escavar, olhar para todos os dentros, fazer palimpsestos. O que aconteceu em Campinas não deve cair nesse mar de banalidades do mau discurso midiático, mesmo o de "boa" intenção.

             Neste momento, o zelo pela história alheia é imprescindível. Fazer as velhas emulações morais-intelectuais-cívicas não é de grande ajuda. O silêncio já seria bom para refletir antes. Um silêncio respeitoso de quem não sabe tudo ou não consegue dar conta de toda pós-verdade.

Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

*
(Oswald de Andrade)

Ainda é cedo, amor...
Mal começastes a conhecer a vida.

*
(Cartola)


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

EU FALO DE... UM PORQUINHO CHAMADO FACEBOOK

Ainda a propósito da recente onda de castigos/interdições/restrições provocadas pelo anonimato que é outorgado aos denunciadores, e depois de ter visto algumas fotos que, segundo os parâmetros do Facebook, não são abrangidas pelo mesmo critério punidor, fiquei a pensar que, entre os responsáveis desta rede social, talvez esteja o porquinho Baby.

Para quem não conhece o personagem, se é que ainda há alguém que nunca tenha visto, pelo menos, um dos filmes, este porquinho tanto escondia o rosto ao ver os cachorrinhos mamarem nas tetas da cadela, como ficava a olhar concentradamente para o rabo das ovelhas.

E o facebook faz exactamente isso. Coloca em acção o seu lado censor para castigar aqueles que ousam ilustrar os seus escritos com fotos meramente de cariz sensual e admite a utilização de fotos de cariz erótico, quase pornográfico, com o argumento: os primeiros mostram mamas e os segundos não, apesar do sugestionamento que as mesmas encerram.

Mas não é só nisto que o Facebook é igual ao porquinho Baby. Tal como a meiga criatura que, para além da ingenuidade, tinha as ideias trocadas e pensava ser dotado de características que a natureza não lhe deu, os responsáveis desta rede social também sofrem desse distúrbio e têm noções erradas sobre o que é prejudicial. Tanto castigam, por "spam", aqueles que partilham apenas cultura, sem verificar a culpabilidade, como permitem a utilização abusiva de verdadeiros spam's e ainda patrocinam descaradamente alguns perfis que nada mais fazem do que criar e difundir vídeos corrompidos e que ao serem visionados, e/ou partilhados, se apoderam das senhas dos utilizadores naífes, que ainda são muitos.

À estupidez do porquinho Baby eu até acho piada, à do Facebook... nem por isso.

MANU DIXIT 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

FALA ÁFRICA... MACVILDO PEDRO BONDE

FILHOS DO VENTO
À cavalo do Mar
Maputo, trinta e um de Julho de 2017
“ (…) Não sei se trouxe a chave”, finalizou o poeta. Seguiu-se a sessão de autógrafos entre beijos, iguarias e fotografias, como é o costume entre os confrades. Diante dos meus olhos estava o banner sorrindo para a multidão que se acotovelava na fila com os títulos dos livros lançados.
Eu ali encostado ao pilar onde inicia a escadaria para o andar de cima do Centro Cultural, apreciava os sorrisos, enquanto segurava a taça e o telemóvel nas mãos. Não sei bem o que dava mais gozo: o vinho que adocicava a língua ou as mensagens que faziam vibrar o telemóvel atado à mão.
Uma certeza: roubou-se a jóia da coroa! Entre os apertos de mãos e acenos, na galeria que albergava os habitantes da palavra, o mestre baila a sua pena.
A verdade é que quis o destino que paríssemos entre os perfis das acácias outras margens, outros sonhos amordaçados pelo tempo. Cavalgamos na colecção dos astros, desposando a quietude da sombra à bola amarrada na cintura da baía dos incautos.
Agora, sinto distante a timidez no sopro. O cavalo navega como um quebra-ondas, desbrava a avalanche pendurada na margem, suga nos labirintos da cidade os olhares sem sal, para que as páginas que teimam em brotar nas colinas do desespero sejam assombradas no hálito do mar.
Há um fardo esquecido nos ombros onde as mangas verdes com sal sentenceiam toda a pretensão de grandeza? Chegou-nos vespertino o Deus restante. De repente as ruas que viviam acomodadas à opacidades acordaram engasgadas pelo carnaval matinal, viram-se obrigadas a bailar no despropósito do verbo. Somos iguais debaixo dos olhos no monte Sião?
Cogito, percorro, por instantes, os vácuos: a pena sem o arrasto de uma língua aberta aos cânticos nas ruas. Folheio os “rostos bafientos e medrosos dos poetas novatos”. Não me fico na memória do click inesperado. Somos formigueiros? Bebo nos gomos da laranja, na distância dos andares onde se ergue o prédio Lopes, para que a infância deixe sorrir apenas seus sonos nos botões na boca.
Então? Certo de que da paisagem agreste pintam-se desdenhos na inocência da idade, bebo dos riscos e uma estrela caída no asfalto já que “da consciência descalça/sem as botas” abre-se uma vaga onde as geografias do rio amotinam os olhares. Entre Maputo e Lisboa a paisagem do poeta. Desperto.
A palavra ajusta-se ao sol que dorme na abóbada do silêncio. Sou um vaga-lume! O poema vertical finge chegar ensaiado na tristeza do olhar e a cor de sangue prende, em si, a imensidão do mar.
Os filhos do vento teimam em viver na extremidade da saudade? Voamos na cadência nocturna para a casa onde todos os sonhos serão materializados. A cerveja e o vinho despertam a magia que flui nos compartimentos da casa. Entre telas e telas, a amizade.
Sei que mais tarde chegará triunfante o saltimbanco, porque dos mesmos barcos ficou-nos a ilha na destreza nos lábios. Mas, não se pode deixar morrer o outro, que aguarda os ventos de Lisboa trazendo da orla do Tejo a sua lavra. No entanto, no seu cordel azul-marinho endeusa o pastor de que deixou escapar o gado nas traquinices da infância.
Hum! Acaloro a minha mão gelada pela garrafa e autografo mais um ensaio. O estudante das terras de Vera Cruz ata às costas uma porção dos filhos do vento. Cansado de mim, abandono a casa com um sorriso nos lábios.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

ADRIANA FALA DE... WAGNER MARTINS DOS SANTOS


Um menino chamado amor

Adotei de Vinícius de Moraes como tatuagem de alma:
“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.” A minha tem sido de grandes encontros e a cada dia fico mais feliz com as pessoas imensas que cruzam o meu caminho, que vão se chegando e quando percebo, instalaram-se no cantinho do coração. Começou com a idéia de uma entrevista, que virá em breve, mas quando recebi a apresentação do autor, achei melhor, publicar na íntegra a biografia. E como tive a honra de sua presença em um evento produzido pela In-Finita, fiquei encantada pela beleza poética, na árdua tarefa em deixar a alma exposta, quando o corpo não permite a mobilidade.
D. Maria, é a voz, os braços e as pernas do filho, e além de emocionar, encheram o ambiente de luz.
Esse menino, fã de Cora Coralina, tem muito o que brilhar e tocar diversos corações. E essa dupla, mãe e filho, não só apresentam poesias, eles irradiam amor.

Sou Wagner Martins dos Santos, nasci no ano 1993, tenho paralisia cerebral desde nascença. Na adolescência descobrir a literatura, assim em 2014  lancei meu primeiro livro de poesias, daí em diante participo de vários saraus, eventos voltados a literatura, e cultural, já fui o escritor homenageado na primeira FLIPE - Feira Literária da Periferia, faço várias palestras, sou integrante da ONG Deficiente Eficiente que atua em minha cidade, e no mês de setembro/2016, eu fui um dos ganhadores do PRÊMIO DE RECONHECIMENTO CULTURAL "MESTRE SAÚBA." Enfim, o escrever me completa! Nasci, em 17 de abril de 1993 e resido até hoje em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco. E por causa da negligencia médica adquiri a deficiência nomeada: Paralisia Cerebral, a qual atingiu muito a minha coordenação motora, e por causa da ausência dela, eu tenho pouco controle para me equilibrar: ficar de pé, andar, essa me faz falar com muita dificuldade, e me impede de pegar em vários objetos... Às vezes sinto-me bastante oprimido dentro do meu próprio corpo, minha limitação me castiga sem cessar; mas esse empecilho me estimula a fazer algo que os demais que estão ao meu redor não fazem. Comecei a criar textos depois que ganhei um livro de história infantil, então nesse momento brotou dentro do peito o prazer da literatura, eu nem sabia ler direito, e ditava para um amigo escrever, ele mesmo ilustrava as nossas pequenas historinhas, era essa a nossa diversão!... Passaram-se os anos, e adquiri o computador, esse me auxilia bastante, foi aí que senti de verdade tudo ao meu alcance para fazer um livro, e fiz vários, mas não publiquei nenhum deles. Apresentaram-me a poesia de forma rapidíssima, quando estava fazendo o 1º ano na escola, foi o bastante para me cativar. Fui atrás dos livros que infelizmente a minha cidade não supriu a minha sede pela literatura, eu e a minha mãe sempre íamos à outra cidade a fim de pegar emprestado alguns livros, me tornei mais um fascinado por eles, e de tanto ler poesias, resolvi escrever as minhas com o intuito de expressar algo de dentro, de bom, as pessoas que estão ao meu redor, a minha página no facebook e o meu site, são a minha forma de interagir e transmitir a quem vai ler, a nossa vida, o nosso coração.


BAILARINA DE ALMA

Vi Uma folha
Dando piruetas,
E mais piruetas
No ar,
Numa performance
Suave,
Improvisada pelo vento
A lhe guiar,
No palco da minha vista,
Assim eu apreciei
O espetáculo da natureza!...
Lembrei de você,
Bailarina de alma:
Com espírito solto,
Bailando por aí, aonde tocar
A festiva canção da alegria,
A sua pessoa a dançar,
e a vibrar como uma criança,
na leveza da tal folha,
numa performance da vida,
no palco do meu coração...
 E eu fico encantado contigo,
cheio de emoção,
assistindo o jeito de você,
ser você
nesse espetáculo de improvisação!

- Wagner Martins

Até breve!
Adriana Mayrinck

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

CARTA À POETA PATRÍCIA PORTO

Carta à poeta...

Patricia Porto, quando os poetas se dão palavras, as mãos vão junto. Atitude nada fácil nesses tempos de recuos, de olhar o mundo através das frestas e se julgar participante da gira.

Sorte nossa, poeta, você seja oposta a tudo isto. Seu verso pega pelo pescoço, tanto esgana quanto afaga. Traz pra vida. Me arrisco afirmar que a alma de “Diário de viagem para espantalhos e andarilhos” esteja na página 18, mais precisamente no verso: “Viajar é ser estrada’.

Me arrisco porque é imprudente prever seus caminhos, que vão do acalanto – o poema “Maria Judite”, à página 35, não me deixa mentir – ao hard punk rock: “Transberro”, na 124,comprova o que digo.

Patrícia, te penso música sempre que te leio. Tantã, telecoteco, coco, carimbó, curimba:

“Se o tempo é fraco eu bato
faço da madeira um barco
se o tempo é forte eu danço
vestido de temporal...”.
Taí a prova no poema “Gira”, página 165.
E quando me julgo refeito dos espantos da viagem você me oferece um poema: “Janela IV: das conversas com Teobaldo”. Ora, poeta, justo eu, de falar pensativo, tão rápido e pouco? Você abre o meu poema coma a palavra “abismos” e fecha com “invisível”. No coração do poema os versos: “A vida é curva / É pingo de sal na ferida acesa...”

Sei muito bem como é isso, poeta, esse não se dar pausa no sonho nem na carne, que nos aguardam (e lá vamos!) aos encantos das outras viagens...

Admirado e agradecido abraço 

Délcio Teobaldo