terça-feira, 15 de agosto de 2017

DEZ PERGUNTAS A... ANAPUENA HAVENA



Entrevista conduzida por Adriana Mayrinck, correspondente de autores brasileiros.

1 - Quem é a Anapuena Havena? Como você se define como autora e como se dá o processo criativo?  

Sou uma autora que apenas deseja difundir o conhecimento e a nossa cultura. Este é o motivo de todos os meus livros terem temática histórica, incluindo o infantil. 

2 - De estudante de medicina para mãe e finalmente escritora, seu sonho de infância. O que te impulsionou para assumir-se autora e publicar o seu primeiro livro? 

A maternidade me apaixonou em todos os aspectos, é meu dom natural. Participar integralmente de todas as etapas do desenvolvimento dos meus filhos é algo que verdadeiramente me completa. Eu não estaria em paz se não tivesse feito esta escolha. E foi por meio da dedicação exclusiva aos meus filhos que resgatei o meu sonho de escrever, um sonho que esteve anos perdido no tempo. Meu filho mais velho queria um novo livro para ler, prontamente escrevi o início de uma história para ele. Ele gostou tanto que me encorajou a transformá-la num livro e assim nasceu O príncipe que não sabia brincar. O lançamento aconteceu na Feira do Livro Infantil de Fortaleza e, claro, todos os meus pequenos estavam ao meu lado. Na ocasião, apresentei o livro aos alunos da escola Walter Marinho e todos os exemplares do lançamento foram doados. Num país que pouco lê, temos que incentivar o hábito da leitura e formar novos leitores.

3 - Conviver com esse universo infantil, com o nascimento dos filhos, foi fator determinante para dar o primeiro passo para a literatura infantil, ou já existia essa ideia anteriormente? 

A minha vivência diária foi determinante. Meus filhos são a minha fonte de inspiração.  

4 - Escrever para crianças e depois passar para romance histórico são caminhos bem diferentes e que exigem uma linguagem diferenciada.  Como você trabalha o tempo de cada um? 

Crianças e histórias são as minhas paixões, então tudo flui muito naturalmente. Tenho o hábito de criar historinhas para os meus filhos e a maioria delas são transformadas em contos.
Assim como tenho como lazer  estudar história. Então é natural que eu transmita ao papel minhas vivências e paixões.

5 -Você mudou o foco ou vai continuar com publicação infantil ? De onde veio a temática e inspiração dos seus livros? 

Bem, eu simplesmente gosto de  escrever e não sou presa a nenhum gênero literário. Minha primeira publicação foi um livro infantil, depois escrevi um romance histórico, em seguida fui selecionada para participar de três antologias poéticas. Enfim, simplesmente escrevo, não importa o gênero. 

6 - Como você processou essa diversidade de temas em um período tão curto, publicando a obra infantil “O príncipe que não sabia brincar” em 2016, depois publicou o romance histórico “Descobrindo a nobreza do amor” em 2017, além de ter participado da antologia poética “Além da Terra, Além do Céu”. E agora o livro “Encantos do Café” também em 2017O que te levou a publicar seu primeiro livro e seguidamente os outros, e um espaço de tempo tão próximo? 

Escrevi os dois primeiros livros no final de 2014, mas o processo de aprovação por editora até a publicação é um processo lento. Acabou que tudo aconteceu de uma só vez!

7 - Falar sobre o ciclo do café, a imigração, em um romance, é uma temática que exige pesquisa e dedicação, o que te conduziu ao tema ?E como será a continuidade dessa obra, dividida em três volumes ?  

Sou uma amante de história e adoro estudar registros históricos. Fico impressionada como nosso país não tem a cultura de preservação de seu passado e como um período tão importante para o desenvolvimento do Brasil é desconhecido pela maioria da população. O livro surgiu dessa minha inquietação. Então decidi escrever o Encantos do café para enfatizar o ciclo do café, com uma linguagem leve para fazê-lo acessível para toda a população brasileira.  
O livro está dividido em três volumes. Haverá uma passagem de tempo, contando a história de três gerações. 

8 - Como foi elaborado o livro“Encantos do café”, um romance histórico, por entre as atividades com os filhos e publicações infantis ?  
 
Escrever cuidando integralmente de três crianças não é fácil, na verdade, é bastante cansativo. Meus dois filhos mais novos possuem alergia alimentar múltipla e precisam de uma série de cuidados. Para escrever, tenho que recorrer às madrugadas. É cansativo, mas não impossível (risos). E agora, graças a Deus, estou colhendo os frutos deste esforço. 

9 - Qual o seu vínculo com Portugal e por que foi o país escolhido para lançar seus livros? 
10 - E no Brasil, o mercado editorial atendeu as suas expectativas? 

Tenho por Portugal um carinho bem especial. Tudo começou quando decidi pesquisar a origem de minha família, chegando a Porto. Então quis conhecer Portugal e foi surpreendente! Os portugueses muito receptivos, a preservação da história e cultura; senti um ar diferente! Aliás, muito da nossa história está lá: o Palácio de Queluz, lugar onde nasceu e morreu nosso imperador D. Pedro I, Palácio Nacional de Mafra, onde vivia D. João VI, na cidade de Porto faleceu nossa imperatriz Teresa Cristina, rumo ao exílio na França, e na igreja da Lapa encontra-se o coração de D. Pedro I (Pedro IV para os portugueses), dentre outras inúmeras ligações existentes entre os dois países.
Fiquei tão encantada, que meu esposo e eu planejamos nos mudar para lá; estamos apenas melhor nos organizando para podermos ir. Então, enquanto organizamos a nossa ida, resolvi enviar o original do livro para uma editora portuguesa, ele foi aprovado e já está sendo comercializado lá.  
Aqui no Brasil, o livro tem previsão de publicação para novembro e espero ter também um retorno positivo.


o nosso agradecimento à autora pela disponibilidade em conceder esta entrevista...

podem saber mais sobre a autora e o livro encantos do café neste link


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

FALA AÍ BRASIL... LÚCIO MUSTAFÁ

EPOPÉIA VERDE E AMARELADA de um singelo homem-eterno-menino.

Quando a gente nasce, se depara com o mundo nos sorrindo, acha tudo lindo, um amor in-findo se aprochega do nosso âmago, lindas pessoas, tão amorosas a nos ensinar a arte da prosa; depois é flor, depois é rosa e margarida, depois é céu, é nuvem é vida, depois é alegria de ser carregado no colo, depois é beijos, depois abraço, depois nosso sentimento é envolvido num doce laço de fita e é presente é aniversário, e é escola é bê-a-bá, é São João e é Carnaval e é Natal e é alegria e é fantasia e é religião, é um Deus no céu e um anjinho branco com duas asas lindas e grades para nos proteger. E chega você e me dá o peito e é um deleite e lá tem leite e depois papinha na colherinha eu vou tomando na cadeirinha e até chupeta me dão na boca que coisa louca de tão gostosa assim é a vida que a gente acha quando eclode da mãe da gente. A coisa vai se desenrolando e vão me embalando na cadeirinha e o eu no bercinho que é cheirosinho, cheira a talquinho e a roupinha é tão fofinha que chega fico todo dengoso, todo bobinho. A mim doaram uma babá de nome Laurita, mulher bonita, acarinhadora, aquela pessoa que me namorava e eu gostava do colo dela e os peitos delas eram tão cheirosos e os alimentos que ela me dava eram tão gostosos. E eu fui crescendo, me deliciando com aquela vida feita de amores, e até as dores eram passageiras, pois me parecia que Deus existia e de mim cuidava e minhas feridas ele sarava num belo passe de mágica. A vida era, então só comédia, não era triste, não era trágica, só existia, no meu horizonte perspectivas de seres mágicos, de mulheres divas, de festas encantos. E até meus prantos eram passageiros, sempre consolados por belas palavras, umas inspiradas patro-maternas, outras retiradas das escrituras, e as criaturas que a mim cercavam só de amor tratavam e as cores do arco-iris logo me enfeitiçaram e se encontraram nos gizes de cera e na merendeira na que eu levava para a escolinha minha merendinha. E cantar, cantava, e dançar, dançava e até recitava tanta poesia que eu decorava de uma coletânea em forma de livro que tinha me sido dada pro uma amada tia. Ai! Que tempos lindos, quanta lindas coisas, quantas doces cenas, quantas gentes boas, todas me cercavam e me prometiam que a vida ia ser somente bela, e minha bandeira, verde e amarela era asteada às segundas feiras no pátio da escola e eu cantava o hino e eu era menino e até o noivo da quadrilha eu fui, e ganhei o prêmio de melhor aluno, e em um segundo me vi nas estrelas, quantas coisas belas, quanta lembrança boa... Mas o tempo voa e daquele piso, feito só de flores, feito só de amores, vai rolando aqui e acolá algumas rachaduras e alguns vazamentos fazendo jorrar uma água escura... E aparecem homens, todos engravatados, junto a seus soldados, todos bem armados, com seu ternos bem engomados, nada amarrotados encenando um filme de guerra, virou minha terra, na vida real. Um odor nauseabundo em fitas circula naquele ar puro que até então eu respirava. E dava a sensação que nem era verdade, que fosse só um sonho mal, só um pesadelo, daqueles que faz o pêlo da gente eriçar. E a partir daí foi-se ouvindo gritos, notícias de morte, de gente forte perseguindo meninos magricelas, de celas de cadeia, de tanta coisa feia que foi sendo misturada no meu mundo lindo, de desconfianças na minha bonança, de agressividades e maldade, enfim e eu fui aos poucos sendo informado que o país estava todo dominado por um pelotão de homens fardados, ditatorizado e que o jeito era abaixar os olhos e ficar calado pra não, de repente, terminar implicado em alguma trama de uma intriga intrincada que eles costumavam colocar em pé. Aí me disseram que tinha sido golpe, aí me disseram que tinha sido um monstro da lagoa que havia emergido e andava por ali engolindo toda gente boa que àquela maldade fosse resistindo. O pior foi que quiseram me engajar, me rasparam a cabeça estilo Jack Demi, me tentaram incutir o amor à uniformização, à farda, a de repente virar um guarda com a arma na mão ou da artilharia, manobrando um canhão. Ah não, ah não, ah não! Isso não dá pra mim não. Foi aí que eu me fiz artista, fui pegar papel de revista pra fazer colagem e tomei coragem e dispensei a sociedade dúbia e fui pro acampamento hippie transar à luz das estrelas e ao som do rock in roll. Foi aí que eu rejeitei aquela condição contraditória, aquela glória abusada, aquele tudo que era nada, aquela traição das promessas de beleza que me tinham feito no leito natal. Foi aí que eu fui dando um jeito de me afastar de quem queria me enquadrar e foi aí também que eu percebi que um outro mundo seria possível mas se faz impossível pois nem todos são como eu e muitos aceitam ver a beleza da infância se desvanecer. Mas mesmo assim eu continuo o mesmo menino que só gosta de denguinho, que só gosta de carinho, de céu azul e de beijinho, que se afasta do que não presta que gosta de desenhar uma pomba da paz na testa, que gosta de ser uma pessoa boa e que voa nas azas do vento, só com o pensamento quando usa aquele bê-a-ba, aprendido na infância, aquela capacidade de prosa poética, para lançar uma mensagem estética e pedir a gentileza das pessoas que se tornem de más em boas, para fazerem o mundo prestar, só na paz e no amor, no mais amor por favor, sem fardas, sem gritos, sem malvados mitos, sem estouro de bombas, sem apitos, sem globos nos fazendo de bobos, sem Robertos Marinhos, só amores, só carinhos, só carinhos, só carinhos...

mini-biografia: Lúcio Mustafá

Nascido em Barbacena (MG) em 20 de maio de 1961, passou a infância em Brasília e a juventude e vida adulta na Cidade do Recife. Viveu entre hippies, mendigos, favelados, numa fase na qual aderiu à teologia da libertação tendo participado do grupo de Don Helder Câmara. Viveu em Roma de 1994 aos albores do século XXI. Poeta, escritor de contos, de crônicas, artista plástico, filólogo pelo Institutum Altioris Latinitatis Romae e filósofo pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Lúcio Mustafá, que foi um dos fundadores do Movimento dos Realistas Urbanos, é criador da filosofia Panamorista, que se propõe a corrigir um detalhe esquecido por todas as outras filosofias que vieram antes dele, que é o detalhe de mostrar a possibilidade de Amor Incondicional do Ser Humano consigo mesmo e com toda a natureza. As influências de Lúcio Mustafá são várias e vão desde da literatura regionalista nordestina, às teses do Círculo Linguístico de Praga, à literatura e arte italianas.


domingo, 13 de agosto de 2017

EU FALO DE... DIFERENÇAS QUE NOS UNEM

Já muitas vezes escrevi sobre o quão aberrante, e sem sentido, é o acordo ortográfico. Já rebati, e continuarei a fazê-lo, muitos argumentos que pecam pela escassez de lógica. Já contestei a vassalagem e falta de resistência de muitos que, devido às suas ocupações e responsabilidades inerentes, deveriam ter sido os primeiros a opor-se mas, pelo contrário, foram os que mais rápido aceitaram e ajudaram a implementar este disparate.

No entanto, desta vez não venho rebater nem contestar. Desta vez venho provar o grau de razão que me assiste, e no qual sempre baseei as minhas dissertações sobre esta temática.

E venho provar com os textos que nos últimos tempos temos divulgado neste blogue. Textos escritos por autores lusófonos, que não portugueses, e que todos têm entendido na perfeição, independentemente das diferenças que sempre existiram e sempre existirão.

E não precisarei de dar muitos exemplos para provar que as diferenças que nos separam não são de grafia mas sim de vocabulário.

Os "atos" serão sempre "actos", as "ações" e "reações" serão sempre "acções" e "reacções", "contato" é "contacto", "atual" é "actual".

Quem tem lido os textos encontrou certamente mais diferenças mas sabe que "cotidiano" é "quotidiano", que "ónibus" é "autocarro", que "metrô" é "metro", que "sutil" é "subtil", que "celular" é "telemóvel", que "trilha sonora" é "banda sonora", e por aí fora.

Como digo, as maiores diferenças são de vocabulário, e mesmo essas podem ser facilmente entendíveis se estivermos atentos às leituras... assim temos: "sebo" que é "alfarrábio", "fusca" é "carocha", "pimbolim" é "matraquilhos", "cardaço" é "atacador", etc.

Sejamos sinceros... que maior prova podemos ter, sobre a falta de importância ou influência da grafia no entendimento dos diferentes países de língua lusófona, quando todos, sem "exceção" ou "excepção", nos entendemos perfeitamente nas redes sociais, com ou sem "c", com acentos circunflexos ou tremas, com hífens ou sem eles.

MANU DIXIT

sábado, 12 de agosto de 2017

FALA AÍ BRASIL... BÁRBARA LIA

fotografia: Marcelo Elias

Skyleros Dermis
Bárbara Lia


Fotografia de Klee: Revista Médica Carriónica - PAUL KLEE: UN PINTOR CON ESCLERODERMIA.
  
Carnaval neste país tropical. Não dançarei. Nunca vivi a folia. Eu sou das distâncias, das meditações, da suavidade da bossa nova, da poesia de Chico Buarque e da irreverência de Caetano Veloso. Vou passar o carnaval contigo, Klee. Por puro amor.
Pudesse sentar ao pé de ti nesta fotografia, neste verão inacreditável, eu te daria um dia de belas canções. Distrairia tua dor de pele dura.
Esta fotografia, um ano antes da tua morte, estampa em teu rosto uma dor que me aniquila. Uma lâmina fina descasca meu coração diante de ti, que amo desde que vi teu universo de estrelas vermelhas dentro de uma romã.
O meu olhar foi tocado por um amor abissal na primeira vez que cortei ao meio uma romã no quintal da infância. Foi assim nosso encontro a sós, Klee. O sumo banhou meus dedos e estrelas saltaram diante dos meus olhos. Era da cor vermelha o ninho das estrelas e havia ali todo o universo explodindo. O aroma, a calda espessa entre os dedos e o sabor incomparável de estrelas entre os dentes. Lembro que havia sol. Lembro que eu senti que algo pulsava em minhas mãos. Lembro que pensei, pela primeira vez, que a vida era bem mais do que supunha toda gente. Era a primeira vez que meu olhar pousava na escandalosa assimetria da beleza, por isto, eu te amei ali. Demorei em saber que a primeira pintura tua que eu vi foi ali, no quintal. Sempre te amei, Klee, me casaria contigo. Comeria teus olhos grandes e profundos. Angustiados olhos de quem entende o mundo. Sofro teu triste olhar dirigido a um ponto cego, como quem interroga como muitas vezes eu mesma interroguei: é minha esta dor? A mim coube esta rara escolha, entre tantas criaturas o anjo da deformidade se volta, meio estranho e triste, ainda que cínico, lentamente ergue os braços e aponta para nosso esqueleto sonhador, perdido no mundo sem saber o que fazer com tanta energia de Amor.
Dizem que é a dor que molda a Grande Arte. A dor é uma das ferramentas, apenas isto. Sei disto ao te ver exímio gênio antes da esclerodermia.
Teu semblante me aniquila, e choro. Tuas mãos de dedos engrossados e o teu rosto sem ruga alguma como se fosse uma escultura. Tua dor de pele dura, de quem não mastiga e não processa dentro o básico do que é humano. Lindo, ainda que assim, triste. Belo homem, querido Klee. Teu terno de linho branco, tuas mãos duras a enlaçar-se – como prece, talvez – em teu colo. Em teu mundo desabado, quanta dor, amor! Amor! Amor!
Se soubesses o encanto de luz que derramastes pelo mundo. Quantos poetas navegaram na tua luz de alma. Quantos dissecaram teus anjos e tuas telas de peixes, estrelas, estalactites desordenadas. Tua doçura nas horas com Felix – seu amado filho – a produzir fantoches.
Há um céu de outras estrelas depois de ti para uma infinidade de artistas. As tuas mãos, deformadas nesta fotografia, são as mais belas do Universo. Elas criaram rosas ao vento e todo o azul de peixes e pássaros.
Toco, na tela, tua fotografia como quem rompe a membrana do tempo e te toca em 1939. Quiçá por um segundo a flor dos meus dedos derrama uma sutil caricia na tua dor.
Amo tanto o teu rosto triste, Paul. Penso nisto, meu rosto molhado de lágrimas e o meu pé tão deformado e caloso quanto tuas mãos.
Aferro-me a ti, e sigo.
É só mais um dia de dor, amor.


Tela de Paul Klee: Rose Wind


Bárbara Lia nasceu em Assai (PR). Poeta e Escritora. Professora de História. Publicou os livros: O sorriso de Leonardo (Kafka edições baratas), O sal das rosas (Lumme), A última chuva (ME), Constelação de Ossos (Vidráguas), Paraísos de Pedra (Penalux), Solidão Calcinada (Imprensa Oficial do PR), Respirar (Ed. do autor), Forasteira (Vidráguas), entre outros. Integra várias Antologias, entre elas: O que é Poesia? (Confraria do Vento / Cáliban), O Melhor da Festa 3 (Festipoa), Amar - Verbo Atemporal (Rocco), Fantasma Civil (Bienal Internacional de Curitiba), A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua (Maputo).


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

FALA AÍ BRASIL... SILVIA SCHMIDT

PERFIL
I
Muitas em uma morte súbita
[movimento uniforme retilíneo]
nenhuma em comando-sério
no meio do ninho
um amor de menino
um passo em falso , iria ao fundo
era o cadafalso ou quase-número
havia uma brecha eu juro 
parte de mim em fuga 
câmera lenta sob vaga memória
um sorriso labiata rosa 
os olhos em penumbra fria
houve um suspiro profundo na hora
a ponte vazia e o cansaço 
sob a pele morna de um corpo esguio
restou no plano raso deste tempo 
um quarto em labirinto 
roupas sujas soterradas pelo caminho.

II
Não era o fim 
era a contramão a chance segunda
dentro da manhã girassol que se abria
O menino foi ao pai 
a mulher , entre paisagens secretas ,
perdia-se no calor do horizonte em novos destinos
de repente uma escada- caracol
o desterro dos heróis em alteridade
a fertilidade recebida e mais um ninho
a mancha que se fixou lá trás 
ficaria ali mesmo resguardada 
nas letras do romance - chave
PORTAIS de uma mente aberta
fluxograma fractais flutuantes
nomes de muitas miragens -tema

III
congratulamos

IV
Personas se reconstroem 
energia - volatilidade que se refaz
agora , o ontem e o amanha sinalizam paz
Uma cor poliu dentro 
violeta é o signo em astral 
sigo catalizando oxigênio:
es/cre[ver
m[editar] 
em des]contínuo movimento

V
o menino está um rapaz

Poços de Caldas 19/20 de agosto de 2016.

EMERGIR – depoimento: esta oportunidade que presentifiquei junto à curadoria do Instituto Tomie Otake dia 01 de abril a 21 de maio dentro de uma das instalações da artista Yoko Ono – em São Paulo - Brasil foi um momento ímpar em minha vida - porque senti – experimentei já que era esta a proposta da artista contemporânea o acolhimento - ao lado de inúmeras outras mulheres - para trazer à tona - e com coragem - aquilo que muitas de nós não sabemos lidar, ali em nosso dia a dia – o machismo - isto que nos rodeia e que como uma praga consentida - apregoada - e cultural levam-nos a situações quase irreversíveis, muitas perdas traumas e à morte. Quando me deparei em 1997 – em litígio - eu sinceramente não me via envolvida no que hoje eu posso afirmar ser questão de gênero – por mais que eu tivesse informações e senso crítico, minha situação ali e naquele momento era unicamente de foro íntimo e emocional - a tal crise na relação como falávamos entre nós mulheres profissionais e de classe média. Eu mulher independente, mãe independente em plena conquista de espaço profissional e econômico - para o casal não faltava nada a princípio. Não era portanto questão de ordem material. Daí que ter passado por tamanha humilhação e perdas culminando quase com a própria vida, ter feito desta experiência dolorida - o quase feminícido – tema em parte do meu trabalho artístico é porque também tive minha família por perto como suporte - inclusive apoio de profissionais da área de direito e psicologia neste tempos de dor - antes ainda da lei Maria da Penha - um suporte essencial no sentido de me fortalecer e me reestruturar novamente, eu tão produtiva – era ali uma ave abatida e em falência pessoal por anos a fio.

Chamar “aquilo” de machismo não estava a meu alcance – havia afeto envolvido - havia intimidade envolvida e cumplicidade - e não somente “dados frios” dados estatísticos - a matemática do caso - a realidade. No momento do possível crime hediondo - estamos sós - em nossos leitos - em nossos quartos e portanto vulneráveis, absolutamente vulneráveis. Em horários de responsabilidades e de seguirmos a rotina de trabalho e das tarefas diárias - a roupa na máquina a comida no fogo, a faxina da casa, a saída a chegada do mercado – a troca de roupas de cama, no banho desnudas na parafernália das multifunções. A criança por perto. 
Sitiadas. ''Vivo no quase, no nunca e no sempre. Quase, quase - e por um triz escapo.'' A Cidade Sitiada - Clarice Lispector
Daí que "aquilo" passa uma vez passa a segunda vez até que num certo dia nos sentimos frágeis inseguras e com medo e vergonha, a indescritível vergonha da exposição – à família, aos amigos e aos colegas. O medo dentro deste contexto é que faz com que evitemos denunciar, cobrar e punir – nossos companheiros nossos amores pai de nossos filhos. Algo impossível - denunciar – o homem com quem dormimos dividimos tarefas contas e afetos - quase impossível. Estive sete vezes em denúncia nas delegacias de mulheres todas as vezes aterrorizada e vulnerável ao retornar para casa já em separação de corpos mas não de bens - estes que ainda procuro em segunda instância no estado de Santa Catarina – estes anos de luta e resistência.
Eu não sei como eu sobrevivi às chantagens e às milhares de ameaças de morte ao assédio pós separação que continuaram – eu não sei. Havia ali e no momento de ruptura alguma e qualquer outra coisa que eu não consigo nomear ainda: Deus? Sorte? Energia? Aquele segundo - o quase – que nome eu daria, minha gente que nome?  O fato é que sobrevivi - e de lá daquela noite de muito ódio e quase morte - talvez um dia eu consiga detalhar friamente – daquele dia muitos anos se passaram – escrevi Duty Free-2000 – lugar narrativo onde exponho através da onisciência o que poderia ter sido e não foi. Na ficção o algoz recebe o veredicto merecido.  Passados 20 anos é fácil agora - EMERGIR – nesta oportunidade junto de dezenas de outras mulheres que apoiadas no evento puderam narrar – significar os fatos ocorridos e por isso procurar respostas e principalmente soluções. Compreender dados – os números e perguntar o porquê, sempre e mais o porquê de tantos homens cada dia mais matarem e de modo assustador suas mulheres, de onde vem este sentimento - contramão de tudo que se quis lá no início - não era amor? Quem são os culpados: Estado – o sistema do ter e não ser? A História da Humanidade? A Moral? A Escola?  Como lidar - na lei esta elaborada por homens - na estrutura social dominada por homens em clubes de homens, como lidar com este que penso hoje- ser no Brasil-nossa guerra, o 5 país em feminicídio. Se eu como toda a formação que tenho não percebia a resposta e principalmente não me via em um caso clássico de machismo e misoginia que dirá grande parte de nossa sociedade - intrinsecamente imersa no problema e reativa a encarar de frente esta questão... pergunto-me, eu ainda aqui, a sobrevivente. Precisamos sim continuar o debate, e este dentro de um contexto coletivo social economicamente justo histórico e democrático. Debate entre as diversas formas de representatividade. Eu não desisti da vida na verdade tudo que me aconteceu deixou-me potencialmente alerta pró-ativa e com carga suficiente de compaixão por todos nós os envolvidos machos fêmeas e transgêneros. Relatos que li nesta exposição foram de cortar o coração, porque muitos deles aconteceram em plena infância destas mulheres: estupro seguido de morte - assédio moral no trabalho – perdas de seus filhos ali mortos a seus lados a pior de todas as vinganças – Seus algozes eram muitas vezes seus irmãos, amantes e pais, muitos casos de parentes próximos - e por fim seus maridos e companheiros. Precisamos chamar a sociedade para um debate sério que nos leve a educar estes cidadãos seus cúmplices sociais e as mulheres passivas, “as do não é comigo” as do “devem ter feito por merecer” soluções para um novo tempo. Muitas sociedades que passaram por estas dores encontraram saídas - se não via lei - e punição - via educação emocional e inclusiva penso eu que juntas, lembrando-nos em tempo que precisamos reverter estas dores - como quem coloca a mão na pasta grossa de dejetos pútridos – o machismo - este que nos impede de prosseguir e para o bem-estar de todos. A união de nós mulheres e gêneros será para mim como foi em EMERGIR – sinalizador - potencial de transformação. Demais será chover no molhado, atacando indivíduos o político o ator o machista da esquina - um a um - milhares milhões em sua inconsciente incapacidade de respeitar o outro em especial a nós mulheres - é chover pingo a pingo também o sangue que estes nos cobram historicamente. Basta.