sábado, 12 de agosto de 2017

FALA AÍ BRASIL... BÁRBARA LIA

fotografia: Marcelo Elias

Skyleros Dermis
Bárbara Lia


Fotografia de Klee: Revista Médica Carriónica - PAUL KLEE: UN PINTOR CON ESCLERODERMIA.
  
Carnaval neste país tropical. Não dançarei. Nunca vivi a folia. Eu sou das distâncias, das meditações, da suavidade da bossa nova, da poesia de Chico Buarque e da irreverência de Caetano Veloso. Vou passar o carnaval contigo, Klee. Por puro amor.
Pudesse sentar ao pé de ti nesta fotografia, neste verão inacreditável, eu te daria um dia de belas canções. Distrairia tua dor de pele dura.
Esta fotografia, um ano antes da tua morte, estampa em teu rosto uma dor que me aniquila. Uma lâmina fina descasca meu coração diante de ti, que amo desde que vi teu universo de estrelas vermelhas dentro de uma romã.
O meu olhar foi tocado por um amor abissal na primeira vez que cortei ao meio uma romã no quintal da infância. Foi assim nosso encontro a sós, Klee. O sumo banhou meus dedos e estrelas saltaram diante dos meus olhos. Era da cor vermelha o ninho das estrelas e havia ali todo o universo explodindo. O aroma, a calda espessa entre os dedos e o sabor incomparável de estrelas entre os dentes. Lembro que havia sol. Lembro que eu senti que algo pulsava em minhas mãos. Lembro que pensei, pela primeira vez, que a vida era bem mais do que supunha toda gente. Era a primeira vez que meu olhar pousava na escandalosa assimetria da beleza, por isto, eu te amei ali. Demorei em saber que a primeira pintura tua que eu vi foi ali, no quintal. Sempre te amei, Klee, me casaria contigo. Comeria teus olhos grandes e profundos. Angustiados olhos de quem entende o mundo. Sofro teu triste olhar dirigido a um ponto cego, como quem interroga como muitas vezes eu mesma interroguei: é minha esta dor? A mim coube esta rara escolha, entre tantas criaturas o anjo da deformidade se volta, meio estranho e triste, ainda que cínico, lentamente ergue os braços e aponta para nosso esqueleto sonhador, perdido no mundo sem saber o que fazer com tanta energia de Amor.
Dizem que é a dor que molda a Grande Arte. A dor é uma das ferramentas, apenas isto. Sei disto ao te ver exímio gênio antes da esclerodermia.
Teu semblante me aniquila, e choro. Tuas mãos de dedos engrossados e o teu rosto sem ruga alguma como se fosse uma escultura. Tua dor de pele dura, de quem não mastiga e não processa dentro o básico do que é humano. Lindo, ainda que assim, triste. Belo homem, querido Klee. Teu terno de linho branco, tuas mãos duras a enlaçar-se – como prece, talvez – em teu colo. Em teu mundo desabado, quanta dor, amor! Amor! Amor!
Se soubesses o encanto de luz que derramastes pelo mundo. Quantos poetas navegaram na tua luz de alma. Quantos dissecaram teus anjos e tuas telas de peixes, estrelas, estalactites desordenadas. Tua doçura nas horas com Felix – seu amado filho – a produzir fantoches.
Há um céu de outras estrelas depois de ti para uma infinidade de artistas. As tuas mãos, deformadas nesta fotografia, são as mais belas do Universo. Elas criaram rosas ao vento e todo o azul de peixes e pássaros.
Toco, na tela, tua fotografia como quem rompe a membrana do tempo e te toca em 1939. Quiçá por um segundo a flor dos meus dedos derrama uma sutil caricia na tua dor.
Amo tanto o teu rosto triste, Paul. Penso nisto, meu rosto molhado de lágrimas e o meu pé tão deformado e caloso quanto tuas mãos.
Aferro-me a ti, e sigo.
É só mais um dia de dor, amor.


Tela de Paul Klee: Rose Wind


Bárbara Lia nasceu em Assai (PR). Poeta e Escritora. Professora de História. Publicou os livros: O sorriso de Leonardo (Kafka edições baratas), O sal das rosas (Lumme), A última chuva (ME), Constelação de Ossos (Vidráguas), Paraísos de Pedra (Penalux), Solidão Calcinada (Imprensa Oficial do PR), Respirar (Ed. do autor), Forasteira (Vidráguas), entre outros. Integra várias Antologias, entre elas: O que é Poesia? (Confraria do Vento / Cáliban), O Melhor da Festa 3 (Festipoa), Amar - Verbo Atemporal (Rocco), Fantasma Civil (Bienal Internacional de Curitiba), A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua (Maputo).


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

FALA AÍ BRASIL... SILVIA SCHMIDT

PERFIL
I
Muitas em uma morte súbita
[movimento uniforme retilíneo]
nenhuma em comando-sério
no meio do ninho
um amor de menino
um passo em falso , iria ao fundo
era o cadafalso ou quase-número
havia uma brecha eu juro 
parte de mim em fuga 
câmera lenta sob vaga memória
um sorriso labiata rosa 
os olhos em penumbra fria
houve um suspiro profundo na hora
a ponte vazia e o cansaço 
sob a pele morna de um corpo esguio
restou no plano raso deste tempo 
um quarto em labirinto 
roupas sujas soterradas pelo caminho.

II
Não era o fim 
era a contramão a chance segunda
dentro da manhã girassol que se abria
O menino foi ao pai 
a mulher , entre paisagens secretas ,
perdia-se no calor do horizonte em novos destinos
de repente uma escada- caracol
o desterro dos heróis em alteridade
a fertilidade recebida e mais um ninho
a mancha que se fixou lá trás 
ficaria ali mesmo resguardada 
nas letras do romance - chave
PORTAIS de uma mente aberta
fluxograma fractais flutuantes
nomes de muitas miragens -tema

III
congratulamos

IV
Personas se reconstroem 
energia - volatilidade que se refaz
agora , o ontem e o amanha sinalizam paz
Uma cor poliu dentro 
violeta é o signo em astral 
sigo catalizando oxigênio:
es/cre[ver
m[editar] 
em des]contínuo movimento

V
o menino está um rapaz

Poços de Caldas 19/20 de agosto de 2016.

EMERGIR – depoimento: esta oportunidade que presentifiquei junto à curadoria do Instituto Tomie Otake dia 01 de abril a 21 de maio dentro de uma das instalações da artista Yoko Ono – em São Paulo - Brasil foi um momento ímpar em minha vida - porque senti – experimentei já que era esta a proposta da artista contemporânea o acolhimento - ao lado de inúmeras outras mulheres - para trazer à tona - e com coragem - aquilo que muitas de nós não sabemos lidar, ali em nosso dia a dia – o machismo - isto que nos rodeia e que como uma praga consentida - apregoada - e cultural levam-nos a situações quase irreversíveis, muitas perdas traumas e à morte. Quando me deparei em 1997 – em litígio - eu sinceramente não me via envolvida no que hoje eu posso afirmar ser questão de gênero – por mais que eu tivesse informações e senso crítico, minha situação ali e naquele momento era unicamente de foro íntimo e emocional - a tal crise na relação como falávamos entre nós mulheres profissionais e de classe média. Eu mulher independente, mãe independente em plena conquista de espaço profissional e econômico - para o casal não faltava nada a princípio. Não era portanto questão de ordem material. Daí que ter passado por tamanha humilhação e perdas culminando quase com a própria vida, ter feito desta experiência dolorida - o quase feminícido – tema em parte do meu trabalho artístico é porque também tive minha família por perto como suporte - inclusive apoio de profissionais da área de direito e psicologia neste tempos de dor - antes ainda da lei Maria da Penha - um suporte essencial no sentido de me fortalecer e me reestruturar novamente, eu tão produtiva – era ali uma ave abatida e em falência pessoal por anos a fio.

Chamar “aquilo” de machismo não estava a meu alcance – havia afeto envolvido - havia intimidade envolvida e cumplicidade - e não somente “dados frios” dados estatísticos - a matemática do caso - a realidade. No momento do possível crime hediondo - estamos sós - em nossos leitos - em nossos quartos e portanto vulneráveis, absolutamente vulneráveis. Em horários de responsabilidades e de seguirmos a rotina de trabalho e das tarefas diárias - a roupa na máquina a comida no fogo, a faxina da casa, a saída a chegada do mercado – a troca de roupas de cama, no banho desnudas na parafernália das multifunções. A criança por perto. 
Sitiadas. ''Vivo no quase, no nunca e no sempre. Quase, quase - e por um triz escapo.'' A Cidade Sitiada - Clarice Lispector
Daí que "aquilo" passa uma vez passa a segunda vez até que num certo dia nos sentimos frágeis inseguras e com medo e vergonha, a indescritível vergonha da exposição – à família, aos amigos e aos colegas. O medo dentro deste contexto é que faz com que evitemos denunciar, cobrar e punir – nossos companheiros nossos amores pai de nossos filhos. Algo impossível - denunciar – o homem com quem dormimos dividimos tarefas contas e afetos - quase impossível. Estive sete vezes em denúncia nas delegacias de mulheres todas as vezes aterrorizada e vulnerável ao retornar para casa já em separação de corpos mas não de bens - estes que ainda procuro em segunda instância no estado de Santa Catarina – estes anos de luta e resistência.
Eu não sei como eu sobrevivi às chantagens e às milhares de ameaças de morte ao assédio pós separação que continuaram – eu não sei. Havia ali e no momento de ruptura alguma e qualquer outra coisa que eu não consigo nomear ainda: Deus? Sorte? Energia? Aquele segundo - o quase – que nome eu daria, minha gente que nome?  O fato é que sobrevivi - e de lá daquela noite de muito ódio e quase morte - talvez um dia eu consiga detalhar friamente – daquele dia muitos anos se passaram – escrevi Duty Free-2000 – lugar narrativo onde exponho através da onisciência o que poderia ter sido e não foi. Na ficção o algoz recebe o veredicto merecido.  Passados 20 anos é fácil agora - EMERGIR – nesta oportunidade junto de dezenas de outras mulheres que apoiadas no evento puderam narrar – significar os fatos ocorridos e por isso procurar respostas e principalmente soluções. Compreender dados – os números e perguntar o porquê, sempre e mais o porquê de tantos homens cada dia mais matarem e de modo assustador suas mulheres, de onde vem este sentimento - contramão de tudo que se quis lá no início - não era amor? Quem são os culpados: Estado – o sistema do ter e não ser? A História da Humanidade? A Moral? A Escola?  Como lidar - na lei esta elaborada por homens - na estrutura social dominada por homens em clubes de homens, como lidar com este que penso hoje- ser no Brasil-nossa guerra, o 5 país em feminicídio. Se eu como toda a formação que tenho não percebia a resposta e principalmente não me via em um caso clássico de machismo e misoginia que dirá grande parte de nossa sociedade - intrinsecamente imersa no problema e reativa a encarar de frente esta questão... pergunto-me, eu ainda aqui, a sobrevivente. Precisamos sim continuar o debate, e este dentro de um contexto coletivo social economicamente justo histórico e democrático. Debate entre as diversas formas de representatividade. Eu não desisti da vida na verdade tudo que me aconteceu deixou-me potencialmente alerta pró-ativa e com carga suficiente de compaixão por todos nós os envolvidos machos fêmeas e transgêneros. Relatos que li nesta exposição foram de cortar o coração, porque muitos deles aconteceram em plena infância destas mulheres: estupro seguido de morte - assédio moral no trabalho – perdas de seus filhos ali mortos a seus lados a pior de todas as vinganças – Seus algozes eram muitas vezes seus irmãos, amantes e pais, muitos casos de parentes próximos - e por fim seus maridos e companheiros. Precisamos chamar a sociedade para um debate sério que nos leve a educar estes cidadãos seus cúmplices sociais e as mulheres passivas, “as do não é comigo” as do “devem ter feito por merecer” soluções para um novo tempo. Muitas sociedades que passaram por estas dores encontraram saídas - se não via lei - e punição - via educação emocional e inclusiva penso eu que juntas, lembrando-nos em tempo que precisamos reverter estas dores - como quem coloca a mão na pasta grossa de dejetos pútridos – o machismo - este que nos impede de prosseguir e para o bem-estar de todos. A união de nós mulheres e gêneros será para mim como foi em EMERGIR – sinalizador - potencial de transformação. Demais será chover no molhado, atacando indivíduos o político o ator o machista da esquina - um a um - milhares milhões em sua inconsciente incapacidade de respeitar o outro em especial a nós mulheres - é chover pingo a pingo também o sangue que estes nos cobram historicamente. Basta.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

ADRIANA FALA DE... FORASTEIRA

Puro lirismo. É assim que pensamos Bárbara Lia, autora de Forasteira, ao abrir a primeira página do livro. A alma da poeta que traduz o inconformismo pela desumanidade e que também mergulha nos sentimentos mais íntimos, revela-se a cada estrofe.

Com uma identidade peculiar na escrita e uma personalidade marcante que fica bem pontuada em cada frase, a autora nos conduz por todos os caminhos que a visão da alma poética é capaz de levar. A inquietação infantil do mundo a descobrir, o florescer dos sentimentos, o compreender-se mulher na totalidade dos sentimentos e percepções, o entusiasmo pela vida e os dissabores pelas vivências que deixam marcas, são os reflexos que por entre as palavras que dançam nas páginas bem elaboradas, dessa menina-mulher.

Que fez a travessia pelo mundo e pelo tempo, sem perder a docilidade e o sonho de menina, mas ao mesmo tempo, acumulando no olhar, a experiência e as marcas de quem percebe o ser humano na sua mais dura vertente. Forasteira da vida e de si mesma, segue por vários caminhos, na arte da escrita e mantém inalterado o poder transformador de não se conformar com o feio, o distorcido, o desumano, seja na poesia ou na vivência, e revesti-lo de encanto , beleza e compaixão.

O Livro é o retrato fiel da alma da autora, relatado por Fernando Koproski no prefácio, traduzindo com perfeição o que encontramos na vivência poética de Bárbara Lia: filha de Florbela Espanca com Vinícius de Moraes. E isso já revela tudo.

Um abraço tropical

DRIKKA INQUIT


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES

O poeta comenta –

PENSAMENTO E POIESIS.

A partir do século cinco antes de cristo o discurso adquiria uma outra roupagem sendo direcionado para o seu conteúdo, a sua forma. O efeito mágico, a força do discurso mítico poderoso e de forte impacto era enfraquecida pela necessidade de encadeamentos lógicos
O pensamento ocidental se organiza em sentenças e na maioria das vezes as sentenças obedecem à sintaxe tradicional, representadas pelo sujeito, predicado e objeto

Importante salientar as nossas raízes pensantes como sendo gregas por excelência.

A predicação é fundamental nos moldes da racionalidade ocidental. É precisamente ela que garante a concretude do pensamento enquanto tal. Ela é projeto e também promessa de sentido na medida que na raiz significa apregoar, informar sobre.

O sujeito e objeto se tornam símbolos através da predicação.Toda e qualquer enunciação precisa da mediação deste elemento para existir enquanto tal.

O deslocamento de um eu penso colocado a partir da dúvida metódica cartesiana, próximo que estou do pensamento de Flusser, para um campo no qual esse eu é diluído apontando para uma região na qual pensamentos possam ocorrer independentemente num espiral infinita quando em dado momento um deles possa prevalecer sobre todos e desaparecer igualmente com todos, sugerindo um esvaziar da mente que também duvida de si novamente ao se deparar com o nada num estado por definição temporário.A dúvida primeira que remete ao movimento oposto ao do cogito.

A dúvida segunda que remete ao esvaziamento da mente onde nada é o que é e nem o que poderia ser.

Tanto o poeta quanto o filósofo voltam agora os olhos para esta clareira, para este caos que se insinua de forma lancinante.

Uma necessidade essencial nos leva a representar, está em nós é nossa essência, aquilo que garante o nosso estar-no-mundo.

Este ser aí traz do caos variedades, reflexões condenado que está a ser corruptível em palavras e imagens e chamar este caos e conversar.

Entendo que a raiz de nosso pensamento se encontra na physis, lá onde as derradeiras conexões nervosas desencontram-se de si mesmas.

Ao invés de um eu penso, teríamos um lugar no qual pensamentos ocorrem...

Roland Barthes aponta para o fato de que as linguagens orientais sugerem um interessante caminho em nível de apreensão deste estar aqui.

Tratarei desta questão oportunamente.

In Arte, Palavra e Pensamento João Ayres

mini-Biografia:

Poeta, ensaísta, romancista, compositor, cantor de samba,jazz e blues.
Parceiro e biógrafo de Delcio Carvalho.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

EU FALO DE... O QUE É SER POETA, HOJE

A propósito da palestra, que me convidaram a fazer, no próximo dia 9 de Setembro, no CCB, em Lisboa, sobre o que é ser poeta nesta era digital, e enquanto meditava sobre o que falar nesse evento, dei por mim a pensar que nunca antes o termo "poeta" me soou tão depreciativo.

Longe vão os tempos em que ser poeta significava algo de distinto, digno de admiração. Ser poeta era um estatuto outorgado pelos outros e não era toda a gente que merecia ser reconhecido como tal.

Hoje toda a gente chama poeta a torto e a direito sem ter em atenção, sequer, se o que é escrito é realmente poesia. E as redes sociais vieram, também, potencializar essa banalização generalizada que hoje se observa.

Pior ainda é constatar, cada vez com mais frequência, que qualquer um se auto-denomina poeta só porque espartilha meia dúzia de frases, mal escritas e sem conteúdo algum (muito menos poético), em excertos que chama versos e "aqui vai disto que sou poeta".

Pobres mestres, da arte de poetar, que tanto deram e tanto contribuíram para a cultura e para a definição do que significa ser-se poeta. Hoje andam às voltas, perdão, às cambalhotas nas suas tumbas devido à ousadia destes cus mal lavados que se dizem poetas, sem saberem o que a palavra quer dizer nem a importância que outros, em tempos de engenho, lhe davam.

Pobre poesia que nasceste marginal e ganhaste o teu espaço e importância para hoje seres marginalizada na tua essência em detrimento dos intelectuais de vão-de-escada que, em vez de te honrarem e enriquecerem, te vilipendiam com imundície e te popularizam com verve falaciosa que vomitam dos estros secos e vulgares, onde nem a originalidade ocupa lugar.

Sim, longe vão os tempos em que ser chamado poeta era motivo de orgulho. Sim, longe vão os tempos em que se chamavam os bois pelos nomes e não era qualquer um que era considerado vate. Sim, longe vão os tempos em que ser-se poeta era um estatuto ganho pelo reconhecimento dos outros e pelos outros outorgado.

Hoje não entendo esse epíteto com a conotação original. Vejo-o quase como uma ofensa. E não creio que os verdadeiros poetas, que esta língua já deu ao mundo, se sentissem orgulhosos de ver a patente de poeta ser ostentada sem critério e serem ladeados pelos que hoje se auto-intitulam poetas. Desconfio que não lhes agradaria, nem um pouco, verem-se equiparados com quem não sabe distinguir o artigo definido com acento “à” com a conjugação do verbo haver “há”. Tenho uma ligeira desconfiança que não lhes seria fácil digerir estarem acompanhados por quem confunde “disse-se” com “dissesse”. Não me custa prever que não se sentiriam felizes por terem a companhia de quem escreve “caiem”, “saiem”, ou quem “cose” batatas e “coze” meias.

Mas tudo isto sou eu que digo porque não sou poeta... tenho é muito mau feitio. 


MANU DIXIT