quarta-feira, 26 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO

Sebos: a resistência com todas as letras

A livraria no Brasil, de uma forma geral, é hoje uma boutique de livros. Lembrando a ironia tão peculiar de Nelson Rodrigues, que tão bem dizia que “toda unanimidade é burra”, esta é uma constatação, de fato, quase unânime. Claro, sem ofender às boas livrarias que resistem bravamente à avalanche das novidades, cada vez que entro em certas duas ou três livrarias de shopping e olho aquelas mesas-vitrines com aquela quantidade enorme de livros que já foram vendidos aos milhões mundo afora, sou convidada a sentir certa náusea.
Não vejo diferença entre esse tipo de estabelecimento e a sapataria do andar de baixo. O sujeito olha, sente aquele já conhecido comichão do consumo e acaba levando para casa o mais recente título, sem que isso faça muito sentido pra ele. “É o último lançamento, você não pode perder essa oportunidade de colocar na sua estante”. E o sujeito, mais consumidor que leitor, mais colecionador que leitor, compra mais um para não ler, ou para ler enviesado, achando inclusive que se perder aquele título ficará out do “mercado fresco dos livros contemporâneos”, formado por celebridades editoriais, youtubers, apresentadores de TV, atletas… Afinal, não é mais necessário saber escrever para lançar livros.
O que nos resta para além das livrarias e do consumo sem freios? O que resta para os que não têm acesso a esse consumo? Bibliotecas? Como formar o leitor que não participa desta festa do consumo, no tempo em que se fecham boas bibliotecas e não há investimentos nas escolas públicas?
Sei, à flor da pele, que nas escolas públicas, pelo menos, naquelas onde estudei e trabalhei, biblioteca sempre foi um depósito de livros didáticos desatualizados, vigiados por professores afastados de suas salas de aulas, provavelmente por problemas de ordem mental e emocional.
E a internet? Tem porcaria, é claro, mas tem também muita gente boa no desconhecimento parcial ou total. Dá uma alegria ao entrar em blogs e sites e ler gente escrevendo bem por aí. Então, viva a sinestesia e o café, que nos mantêm firmes e alertas! Viva a capacidade de alcance transversal do ciberespaço, que não nos deixa mais isolados na morte – quase literal – do autor.
Mas voltando ao fio dessa meada e às livrarias, gostaria de exaltar a existência e a persistência dos sebos. Aquele lugar aonde os verdadeiros viciados em livros não se cansam de ir, mesmo que o nariz fique todo esfolado de tanta renite. Ah, um viva imenso aos sebos! Deveríamos abraçar coletivamente os sebos assim como fazemos com árvores e lagoas. Faria um bem danado à natureza humana, tão saturada de clichês. A cidade agradeceria e as crianças, sedentas por leitura, também.
Vou parar de escrever para aplaudir agora mesmo – de pé – o bom e velho sebo com seus bons e velhos clássicos, verdadeiras adegas centenárias de literaturas finíssimas, como Camões, Dante, Dostoiévski e tantos mais, assim como os brasileiros de ótima safra, Machado, Guimarães Rosa, Lima Barreto, Sousândrade, Manuel Bandeira, além do tanto de literatura infanto-juvenil que encontramos no caminho.
Eu sou realmente um bicho de sebo. Sempre me perco e me encontro na minha garimpagem particular por iguarias de letras pequenas e consumo difícil. Os da Tiradentes e do Catete são ótimos. Sou capaz de tirar a fórceps um velho exemplar de Graciliano Ramos ou José Lins do Rego entre um amontoado de tesouros. Como pirata ou fantasma, escavo títulos e me confundo com velhas assombrações. Mergulho no absurdo em direção oposta. E saio de lá sempre confortada.
Precisamos levar as crianças aos velhos relicários do mundo da leitura, antes que o último deles encerre nossas buscas por preciosidades. E torcer para que novos tempos e novas oportunidades de leitura surjam nas tantas imprevisibilidades do cotidiano.
Patrícia Porto
mini-Biografia: Patricia Porto


Graduada em Literaturas Brasileira e Portuguesa, Doutora em Políticas Públicas e Educação, professora e poeta, publicou a obra acadêmica "Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura” e os livros de poesia "Sobre Pétalas e Preces" e "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos". Participou, ainda, de coletâneas no Brasil e no exterior, integra o coletivo Mulherio das Letras e é colaboradora do portal da ANF (Agência de Notícias das Favelas).

terça-feira, 25 de julho de 2017

FALA ÁFRICA - MACVILDO PEDRO BONDE

MOMENTO CULTURAL
Ao Luís Carlos Patraquim, Maputo, 13 de Julho de 2017
Entrei sala a dentro e as cadeiras reclamavam a aclamação de quem transporta entre os alvéolos a poética. Dos meus passos tremidos sacrifiquei os ruídos do silêncio para não despertar a malta que escutava as palavras embargadas do dono de Ualalapi. Lancei meus olhares aos assentos para acomodar meus ossos. Tropecei na varanda onde as amizades constroem sonhos diante da margem, onde o verso e a prosa se cruzam.
O sítio continuava com algumas clareiras porque a cidade anda entre homenagens e lançamentos. Parece que o “demónio” do nosso tempo não estava presente “ali” para marcar o seu território nas prateleiras que estendem a sua vasta produção. Khossa na sua parcimónia sangrava episódios de outros carnavais.
Entre conversas e expectativas chegou o momento “cultural”. O trovador junto a seus acólitos cantou na simplicidade do acto a trajectória de um Luís que se metaforiza ao sabor do vinho. Chamo à fala o dono da Rabhia. Que momento é este? Rimos porque já andamos a ouvir, algures, estas sandices.
Do Xipamanine às memórias da urbe, estão as acácias em flor. Os sorrisos fazem-se presentes e esquecemos o episódio ao sabor do discípulo do velho A. Machavele. Meus olhos não deixam de fitar o Luís. Ali estava o poeta calçando os óculos, a idade já a pesar na armadura dos dissabores.
Como cantou o declamador afamado da pérola do índico “morrer é viver, viver é morrer”. Enquanto destilava suas memórias, os papéis iam a conta-gotas assinalando a hora do mestre. Andarilho do mundo, preso às suas convicções, caixeiro-viajante ou viageiro entre os hemisférios, pousou sua boca no microfone como quem abraça os gelados da infância.
Com a erudição que atravessa a língua declara que toda a poesia é de circunstância. A plateia ávida deixa-se embalar pelo ensejo. Com a peculiaridade com que sorve o papel evidencia que as coisas surgem por acaso. Agarrado ao meu telemóvel, rio comigo porque ando aos alaridos na busca desse elixir que me escapa entre os dedos.
Quando dei por mim, a sala bailava com outro olhar, porque os verdadeiros leitores estavam ali compondo os degraus, como disse o poeta “…para fazer chorar as pedras da calçada”.

Breve biografia
M.P.Bonde nasceu a 12 de Janeiro de 1980 em Maputo. Foi membro do projecto (JOAC) e do colectivo Arrabenta Xithokozelo. Em 2017 lançou a sua primeira obra literária “Ensaios Poéticos” pela Cavalo do Mar.

Podem reler o texto que José Manuel Martins Pedro, o nosso correspondente de autores africanos, nos escreveu sobre este autor neste link



segunda-feira, 24 de julho de 2017

EU FALO DE... COISAS QUE DIZEM E PERGUNTAS QUE FAÇO


Sempre que, em conversa entre pessoas ligadas ao universo da escrita, independentemente do envolvimento de cada um, alguém fala sobre as motivações deste/a ou daquele/a, dá-me uma tremenda vontade de rir; umas vezes pela inocência demonstrada, outras pela efervescência acusatória, outras até pela incoerência entre o que se diz e o que se faz.

Quando me dizem que "este editor faz a coisa por dinheiro", surgem-me sempre duas perguntas:

1ª - O propósito principal de um negócio não é fazer dinheiro?
2ª - Se estão preocupados com o dinheiro que os editores fazem, por que razão continuam a pagar aos editores para editar?

Quando me dizem que o valor que pagaram por uma antologia foi demasiado, surgem-me mais duas perguntas:

1ª - Por que as compram?
2ª - Por que continuam a pagar para participar em antologias?

Quando me dizem que, este/a ou aquele/a, é um vendido/a porque entra em antologias de várias editoras, apetece perguntar:

1º - Então, mas eles receberam para participar?
2º - Desde quando os autores têm obrigação de participar apenas nas antologias de uma só editora? 

Quando me dizem que, este/a ou aquele/a, troca de editora como quem troca de camisa, dá vontade de perguntar:

1º - Desde quando um autor assina contratos vitalícios?
2º - A ser verdade que trocam editoras como quem troca de camisa, isso quer dizer que trocam de camisa poucas vezes ao ano?

Quando me dizem que os autores não compram os livros dos outros autores, pergunto sempre:

1º - Mas os autores escrevem para outros autores ou para leitores?
2º - Já compraste algum dos meus livros?

Quando me dizem que o livro, deste/a ou daquele/a poeta, nunca deveria ter sido editado porque escreve mal, dá vontade de perguntar:

1º - Por que compraste o livro?
2º - Se escreve assim tão mal por que o/a chamas de poeta?

Quando me dizem que é preciso ter cuidado com este/a ou aquele/a porque anda muito próximo da concorrência, dá vontade de perguntar:

1º - Não seria mais proveitoso apoiarmo-nos uns aos outros em vez de andarmos em disputas que só prejudicam?
2º - Mas afinal, os autores andam nisto por paixão ou por quererem ser melhores que os restantes?

Eu podia continuar com muitos mais exemplos mas já está suficientemente fastidioso.

A verdade é que estas pessoas nem se apercebem das lacunas e incoerências das suas próprias contestações e continuam a barafustar pelo simples acto de o fazer e porque “toda a gente o faz”, sem pararem um pouco para pensar e analisar convenientemente todas as situações que as incomodam.

Quanto a mim, as minhas opções são claras e públicas e não é por as dizer com frequência e acreditar nelas que vou julgar nem condenar as opções dos outros.

Eu recuso-me pagar, seja em livro individual ou colectivo, mas aceito que outros pensem de forma diferente e, por isso, continuo a dar várias alternativas sempre que me pedem uma opinião sobre em que editora devem publicar. Já me ofereceram dinheiro para direccionar autores para determinadas editoras, sei quem o faz, mas se aceitasse estaria a ser incoerente comigo mesmo e eu prefiro dormir de consciência tranquila. Para além disso, como acredito que cada um deve pensar pela sua própria cabeça, limito-me a apresentar as diversas possibilidades. Também continuarei a divulgar projectos antológicos de modo a dar conhecimento deles, deixando aos autores a tarefa de decidir por si mesmos o interesse, ou falta dele, em participar.

Do mesmo modo, e pelas mesmas razões, não me choca quando um autor decide editar por uma chancela diferente, do seu livro anterior. Muito menos me choca que participem em múltiplas antologias de diferentes editoras porque, diz-me a razão, desse modo alargam a sua esfera de público.

E, o que acabei de defender anteriormente, também se aplica a colaborações em outros projectos. Dentro da minha disponibilidade, tento participar sempre que sou solicitado para integrar projectos relacionados com literatura. E nem me preocupa minimamente se alguma dessas minhas colaborações afecta ou choca outros com quem tenha colaborado anteriormente. Tampouco me interessa se existem conflitos de interesses entre os mentores e/ou promotores de diferentes projectos. Eu não defino as minhas colaborações pelas amizades ou inimizades dos outros.

Eu não digo para fazerem como eu faço. Eu afirmo e reafirmo que cada um deve agir de acordo com as suas convicções e ideais. Posso não concordar mas tenho que aceitar, por questão de coerência. Pode parecer um paradoxo, no entanto, ao contrário do que algumas pessoas já disseram e continuam a fazê-lo, não sou paladino da verdade, bem pelo contrário. Tenho é esta mania de defender a minha mas, ao contrário de outras vozes, isso não implica, da minha parte, falta de respeito pelas verdades dos outros. Tanto mais que debater as coisas só é possível se existir divergência.

Eu vejo o universo da escrita como um só corpo e acredito que todos os projectos são importantes na difusão da nossa língua e não concorrência porque os autores não devem competir mas sim unir esforços para benefício de todos. Depois cabe aos leitores decidir sobre a validade dos trabalhos de cada um dos autores. E menciono os leitores porque esses devem ser sempre o foco principal dos autores. Se não existirem leitores não faz sentido continuarmos a editar o que escrevemos.

Só que existe muito boa gente (digo, boa, no sentido irónico do adjectivo) que ainda não percebeu que ser autor não é vender mais que os outros; não é ser mais bajulado ou bajulador que os demais; não é ser parte de um rebanho nem vitimar-se. Ser autor é contribuir para o fortalecimento da nossa identidade cultural; é apoiar e, havendo possibilidade, colaborar no máximo de iniciativas que elevem e promovam a nossa língua e cultura. Enfim, ser autor é muito mais que olhar o próprio umbigo. Ou será que estou errado?

MANU DIXIT

domingo, 23 de julho de 2017

FALA ÁFRICA... SOBRE HELENA CENTEIO

 (José Manuel Martins Pedro - correspondente de autores africanos)

Hoje, venho apresentar-vos uma escritora e amiga que conheci recentemente, mas que a sua escrita cheia de sentires, desde o início me prendeu pela forma sensível como flui de dentro dela e se projeta nas “stórias” que conta.

Falo da autora Helena Centeio e do seu livro “Stória, Stória” (Contos tradicionais de Cabo Verde – Ilha do Fogo).

Helena Centeio, nasceu em Cabo Verde em 1971, na Ilha do Fogo. Filha de Carlos Eugénio Centeio (Carlitos) e Ernestina Centeio (Auzina) ambos da Ilha do Cabo, sendo a mais velha de 7 irmãos. Helena tem dois filhos Wilson Barbosa e Eduardo Menezes. Em 1980 emigrou para Portugal onde tirou o curso de animadora socio-cultural, auxiliar de educação e frequentou também a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Trabalha pontualmente como Produtora de eventos de cultura africana, audiovisuais e spots publicitários. Atualmente é contadora de “stórias” em várias escolas, bibliotecas e universidades séniores. Coordena o caboverdesite.com e a página do Facebook “Cabo Verde Portal”

Ler e interagir com este “Stória Stória” é deveras gratificante e intenso, perante tudo o que nos vai sendo apresentado, por isso, antes de falar do seu livro, vejamos o que é a tradição oral

Tradição oral
é a transmissão de saberes feita oralmente, pelo povo de geração em geração, isto é, de pais para filhos ou de avós para netos. Estes saberes tanto podem ser os usos e costumes das comunidades, como podem ser os contos populares, as lendas, os mitos e muitos outros textos que o povo guarda na memória (provérbios, orações, lengalengas, adivinhas, cancioneiros, romanceiros, etc). Também são conhecidos como património oral ou património imaterial. Através deles cada povo marca a sua diferença e encontra-se com as suas raízes, isto é, revela e assume a sua identidade cultural.

E conforme a autora escreve no seu livro (Stória, Stória), no tempo em que era criança em Cabo Verde, não havia eletricidade e como não tinha televisão, sobrava tempo na noite para gastar, ao luar ou na escuridão quase absoluta. Lembra também que chegavam pessoas vindas de longe só para ouvirem “stórias” contadas pelos mais velhos, como sua mãe e que algumas vezes, ela recebia até umas moedinhas! Formavam-se as rodas no chão misturadas por miúdos e graúdos. Os contos eram como o abrir de uma janela na mente para um mundo lindo e maravilhoso, cada um à sua maneira e onde na tela da noite se pintavam cenas mirabolantes e fantásticas que maravilhavam a todos. De conto em conto se passava assim um espólio inesgotável de tradição e uma mensagem rica que misturava os continentes Europeu e Africano, como sempre acontecera de geração em geração. Na amálgama de sentires e interiorizações, Helena Centeio quantifica tudo quanto de relevante se possa dizer sobre as palavras e de tudo quanto as mesmas envolvem. E foi assim que pensou em escrever as “stórias“ para preservar a cultura tradicional, testemunho para as gerações futuras. A sua herança cultural foi-lhe contada em crioulo Caboverdiano, língua que une esse povo em todo mundo.

José Manuel Martins Pedro
  (correspondente de autores africanos)
  

Lisboa, 23 de Julho de 2017

sábado, 22 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK

A chama invisível queimava e crepitava em meu pensamento por horas seguidas, enquanto eu ardia no inconformismo do meu ser. Percorro pelo espaço de egos e ecos, desde quando me fiz pertencer ao mundo das artes, seja produzindo, participando ou observando.

E a incoerência nisso tudo, é que no universo, em que a sensibilidade e o ser são a expressão máxima para a criação, seja ela na poesia, pintura, música, ou qualquer outro movimento literário ou cultural, é onde a banalidade, a pequenez e a futilidade do humano, se expandem de forma nem sempre óbvia, mas crescente.

Donos do mundo e da verdade, por terem o dom divino do encantamento, creditam e ditam aos pobres mortais que apreciam e se deixam envolver, a ditadura do EU.

Há décadas atrás, a vida pública daquele que detinha esse dom de professar a arte, era certificada ao ultrapassar o limite das fronteiras, do tempo, e só dominava outros espaços com talento comprovado por obras avaliadas pela crítica especializada, fã clube presencial, e análise de mercado.

Sigo por anos intermináveis, artistas de diversas formas, acreditando na eternidade da boa arte e aprecio esses gênios que foram capazes de superar o limite do tempo, com o esforço, inspiração, transpiração e talento para hoje fazerem jus ao título e nome que carregam.

Mas a era da comunicação invadiu o intervalo entre a coerência, a construção, a obra, a criação, e transformou qualquer palavra em poesia, qualquer livro em bestseller, qualquer músico em personalidade, qualquer pessoa em autor, qualquer artista em famoso, e qualquer pintura em obra de arte.

Sou aberta a todas as formas de expressar o que transborda da alma, e acho que o ser humano tem todo o direito de fazê-lo, e defendo isso, dentro dos limites que esse novo tempo não determinou. Mas cá entre nós, essa janela para o mundo não é para “todos”.

Uma postagem nas redes sociais e todos são venerados e aplaudidos nos bastidores invisíveis do quem tem mais curtidas e seguidores. E intrinsecamente legitimam, sem critérios, quem é ou não senhor do universo artístico ou literário, pelo menos naquele espaço que circula e dá voltas por todos os continentes.

E nos bastidores, ah, o circo é montado e por todos os lados, tapetes estendidos, também são puxados, em um piscar de olhos, na cadeira reservada para que o amigo menos talentoso, mas vantajoso, possa ocupar para o segundo de flashes e postagens firmarem a notoriedade daquele instante. Alguns olhares mais atentos e éticos observam silenciosamente, o burburinho que se alastra igual rastilho de pólvora, no disse-me-disse que circula, no ar que sufoca e abafa verdades.

Academias de letras aceitando semianalfabetos, autores despreparados, atores inexpressivos, exposições fotográficas registradas por celular, livros mal editados, compositores desacertados, cantores desafinados, jornalistas então... nem comento. Postam um vídeo aqui, um texto ali, e são aclamados. Produtores que fazem qualquer evento, superlotando o espaço, sem a responsabilidade com as vidas humanas, sem certificação e vistoria.

E por essas e outras, nessa era digital, caminha-se para a banalidade da expressão artística e cultural, onde todos são o que desejam, só porque se olham no espelho e decidem, e aquele amigo solidário curte e partilha, e assim nasce, quando menos se percebe, um deus ou deusa crepitando nas brasas da suposta e momentânea fama, criada para ser extinta minutos depois... ou não.


Até onde vai o limite do ser criador... E nós, até onde permitimos conduzir a perpetuidade do belo, do legítimo, da arte, nesse clicar de curtidas instantâneas, jogando mais lenha na brasa que surgiu para ser apenas... cinzas.

DRIKKA INQUIT