segunda-feira, 10 de julho de 2017

ADRIANA FALA DE... CLARANÃ

A poesia das raízes, da terra semi-árida, do sertão, do interior, dos sonhos de se ser além do que o destino reservou. É terra de chão batido, de sol que arde nas entranhas, que pincela de um colorido especial a vida ingrata e que canta ao vento as maravilhas do amor e do tempo.

Claranã, de Cida Pedrosa é poesia tipicamente regionalista e puramente brasileira, aquela que enaltece os muitos artistas das palavras que, como ela, sangram suas dores e amores, usando o sentimento real e concreto nas letras que se juntam, tão bem colocadas em verso.

E é essa claridade, essa luz que ilumina cada página desse livro tão cuidadosamente construído, o chorar que se transfigura desaguando nas águas da vida renhida, o cantar que enobrece a alma sofrida, e as histórias de vida. A referência poética, que também superou as barreiras da dislexia, desabrocha, despida dos preconceitos da cidade grande, canta as belezas do seu interior, como poeta e como mulher da terra.

Um trabalho precioso, de métrica e rimas, que embala e convida a olhar o outro lado da vida, um pouco mais sofrida, com o que se tem de mais precioso, a fé e a arte da escrita.

Um abraço tropical,
Adriana Mayrinck

DRIKKA INQUIT

domingo, 9 de julho de 2017

EU FALO DE... PARCERIA TOCA A ESCREVER/IN-FINITA


Passado que está mais de um mês da parceria TOCA A ESCREVER/IN-FINITA, é possível fazer um pequeno balanço do que foi conseguido e perspectivar o que os autores podem esperar de nós.

Os objectivos que nortearam a criação de ambos os projectos tinham muitos pontos de contacto e, coincidentemente, iniciaram-se no ano 2010 quase em simultâneo; o TOCA A ESCREVER em Portugal; o IN-FINITA no Brasil.

Foram sete anos de dedicação a causas comuns até ao dia que a mentora do IN-FINITA, reconhecendo as semelhanças e antevendo a possibilidade de melhores resultados, decidiu propor a parceria.

Foram esclarecidas algumas dúvidas, limadas arestas e depois de acordada a continuidade dos parâmetros iniciais de cada projecto e manutenção das ideias génese, nasceu por fim a união de esforços, vulgo parceria.

A primeira iniciativa foi a ampliação de ferramentas, nomeadamente com a criação das páginas de Facebook e Instagram. Ficando combinado desde a primeira hora que o blogue continuaria sob a minha responsabilidade, a página de Instagram sob alçada do IN-FINITA, e a página de Facebook gerida por ambas as partes.

Efeito imediato foi o interesse demonstrado por muitos autores do Brasil em verem os seus trabalhos divulgados pelas plataformas TOCA A ESCREVER, contribuindo com a oferta dos seus livros.

Este interesse efectivo, que não palavras de circunstância, aliado aos compromissos assumidos com as editoras, que têm patrocinado o projecto, e outros autores, obrigou a uma reestruturação logística no blogue: a partir de Agosto, passaremos a divulgar três (3) poemas diários.

Juntamente com a súbita adesão de autores de poesia, fomos contactados por autores de outros géneros e perante as questões colocadas, decidimos acrescentar este blogue, TOCA A FALAR DISSO, ao projecto TOCA A ESCREVER/IN-FINITA, com a missão de alargar o âmbito das nossas divulgações.

É nossa intenção alargar as contribuições fixas com artigos de opinião e/ou crítica literária... para esse efeito já contamos com o autor JOSÉ MANUEL MARTINS PEDRO como correspondente de autores africanos, que mensalmente nos/vos dará a conhecer um autor da África lusófona.

Para quem sempre acompanhou este blogue não é estranho eu dizer que o mesmo continua à disposição de todos os autores que queiram contribuir com textos literários... Aliás, o número de autores, que já viram textos seus publicados aqui, só não é maior porque os autores assim entenderam.

Continuaremos a divulgar a lusofonia escrita e esperamos continuar a receber o apoio, não só dos autores e editoras que já abraçaram o projecto, mas também todos aqueles que quiserem juntar-se a nós, independentemente do género literário e do seu papel no universo lusófono (autores, editores, comunicadores, promotores de eventos, etc). Temos as portas abertas para todos aqueles que quiserem entrar.

Posto isto, e em jeito de balanço, a parceria começou a todo o gás, sempre em prol da maior visibilidade dos autores lusófonos. Com o tempo iremos limar as arestas tentando melhorar este serviço de divulgação que se manterá nos mesmos moldes que lhe deram vida.

MANU DIXIT

sábado, 8 de julho de 2017

ADRIANA FALA DE... LIVRO DOS SONETOS, DOS PRIMEIROS AOS PENÚLTIMOS



 José Luiz Melo é um daqueles poetas que reveste de alegorias e cores, situações simples que passariam despercebidas no cotidiano. Com belos versos, passando da suavidade à densidade, convida o leitor para um passeio no imaginário. Um certo apego ao passado e as lembranças de juventude, pinceladas de rebeldia e sentimentalismo, marcam os versos bem pontuados e que caracterizam a sua escrita. 

Poesia pura, daquelas que a imagem figurativa salta dos olhos e escorre pelo nosso imaginário, como em um filme que se apresenta ao mergulharmos em sua forma tão particular de expressar as diversas formas de contar um sentimento.

Em especial, o Livro dos sonetos, dos primeiros aos penúltimos..., conta a história do seu passado, dos vínculos afetivos que o tempo não apagou, e que se repetem na dança da vida, pelo menos nas memórias registradas com o cuidado de quem guarda o que lhe é caro.

Um abraço tropical,
Adriana Mayrinck

DRIKKA INQUIT


sexta-feira, 7 de julho de 2017

DAMOS VOZ A... GEORGINA CAÇADOR



DIFERENÇAS
   
Vou chamar-lhe Diniz. Como o Rei sepultado em Odivelas. Ou Afonso, como o primeiro Rei português e o meu tio por afinidade, ou o que foi de Portugal e dos Algarves. Como se um e outro, não fosse tudo e a mesma coisa.
   
Hoje, o suposto estado islâmico quer o Al- Andaluz com sede em Córdoba e isso está para o mundo, como a vida que deram ao Diniz, ou Afonso e ele não foi capaz de mudar. Nos meus 14, 15, 16 anos, convivi e fomos amigos. 
   
Eu vivia na charneca, mas o seu lugar era na charneca profunda. De manhã cedo a sua ânsia de viver, ter uma vida melhor e à sua medida, fazia-o levantar antes das 6 da manhã. Andava vários km de bicicleta, para apanhar a camioneta, no meu lugar, que passava às 7,10 da manhã. 
     
Fizesse chuva, gelo, ou um vendaval medonho, o caminho fazia-se todos os dias, pois todos os dias eram de escola. 
   
Tinha uma alma sensível ligada ao belo e à arte. Enquanto os outros jogavam à bola ou se atiravam aos namoricos, ele adorava ver as flores, as revistas, ouvir o canto dos pássaros na Primavera. Abominava as suas roupas, a que não tinha direito de escolha, compradas pela sua mãe. À homem.
   
Tinha um humor calmo e hilariante, uma língua afiada que não entrava muito no riso. Era mais de fazer rir e ver o efeito. E que efeito. O meu riso feio e alto ecoava pelas ruas e pelos caminhos. Não resistia às boas gargalhadas que a sua afiada língua provocava. Caramba, eu chorava a rir perante a sua passividade satírica. 
   
Por vezes percebia-se uma real preocupação. E não nos riamos. Pelo contrário. A sua mente realista fazia-nos ver os horizontes curtos que a sociedade nos estava a dar. O pai, dizia-lhe que não lhe pagava mais que o 11º ano. Universidade era para poucos e o 12º ano, só na capital do distrito. Muito longe de nós. Isso preocupava-o e falava amiúde algumas poucas palavras. Que nos faziam pensar a todos.
   
A vida acabou por nos separar. Soube muitos anos mais tarde, que de facto o pai não lhe pagou mais os estudos. Ficou no 11º ano. Com a vinda de tantos retornados das ex-colónias, nem todos os que chegavam, mas a maioria, ocuparam os postos disponíveis com os quais eu, ele e tantos outros contávamos. 
   
Os retornados eram pessoas muito bem preparadas e instruídas, tinham uma visão do mundo muito mais larga que a nossa. Eram preferidos até pelo estado, que em parte se sentia culpado pelo seu destino.
   
A nós restou o mesmo, o igual. O igual para ele eram as motosserras da charneca, nos cortes de lenha. A apanha das pinhas e a tiragem da cortiça. Trabalhos brutos, para o seu corpo franzino. Como convívio a taberna, a cerveja e uma certa brutalidade de palavras e atos. Foi uma tragédia. 
   
Era repudiado pelos outros, porque a sua sensibilidade pedia poesia, não asneiras, música e beleza, não as grosserias de quem o não entendia. Os tecidos belos e nobres eram muito mais apetecíveis que os pulloveres, calças castanhas e sapatões todo o terreno. Mal comparado. Era uma expressão muito usada por ele, mas que se adequa muito bem à circunstância. 
   
Ele era um narciso do campo, que foi colocado num jarro de barro bruto.
   
Reencontrei-o no cemitério. 
   
Um dia não suportou ter nascido mulher num corpo errado, ser apontado e rejeitado na sua essência. Comprou o prémio dos desgraçados e bebeu-o. 605 Forte. Quase instantâneo. Ali, aos meus pés estava ele. Olhava o seu rosto e lembrava o meu riso nascido das suas palavras e pensava ser mentira. 
   
Hoje ele poderia ter psicólogos, mudança de sexo e até casar. Teria uma vida normal. Mas viveu num tempo que não tinha portas nem janelas.
   
Às vezes ouço o preconceito e a ignorância subirem de tom e de forma, as palavras grosseiras a pairarem no ar. Mas ninguém me diga que Afonso ou Diniz, tanto faz, não era uma pessoa maravilhosa, linda, que ele não sofreu, ou que fez o que tinha que fazer. Porque isto diz-se, por quem nunca teve a felicidade de ter um amigo como ele, nem a tristeza de o saber morto. 
   
Preconceito mata. 
   
Quem lhe chamava nomes e o aviltava, continua ou não por aí. Come, bebe, vive, respira e nem sente culpa. Fez o que tinha que fazer. Como se a vida no seu todo fosse privilégio apenas de alguns e as diferenças só mereçam a foice, a ceifa, o não existir.
   
Nos dias quentinhos de Primavera, porque os de Inverno só traziam o frio e o encolhimento até das palavras, lembro-me das flores que ele gostava, das montras que mais via, dos cantos dos pássaros. Penso que eu saí da charneca e fui viver para Odivelas e nunca me adaptei, e que para ele teria talvez, sido a vida. Aos meus pés, estava o seu sorriso de mentira, sepultado num frasco de veneno que a sociedade lhe ofereceu e que ele bebeu até à última gota.

em - Vozes Portuguesas 1ª Antologia do Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa - editora Literarte.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

ADRIANA FALA DE... PARAPHOESIA

A poesia nem sempre vem para nos fazer sonhar ou adoçar momentos com palavras suaves e românticas. A poesia brota do íntimo do poeta como uma enxurrada de signos que na satisfação ou insatisfação do que se vive, grita nas palavras que marcam as folhas do papel.

Claudio Portella apresenta-se assim. Despido de adjetivos ou sentidos que possam encobrir suas sombras. Oculta o lado lírico, e mostra a outra face, irônica e, por vezes, de um humor mordaz. Para despertar, incomodar e, sutilmente, agradar.

O autor revela, em cada verso, a sua verdade visceral. O olhar mais intimista, a palavra crua e a realidade de suas experiências.

Paraphoesia é um livro que incomoda e atrai. E com a sutileza, nem sempre perceptível, o autor revela sua vertente poética, com dureza e sensibilidade de um universo cotidiano intensamente concreto e rico de significados.

Convido o leitor a passear pelas ruelas, becos e esconderijos desse livro, tão cotidiano, tão real e sensível.

Um abraço tropical
Adriana Mayrinck

DRIKKA INQUIT