quarta-feira, 5 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... CRISTINA LEBRE



LACUNA

Sonho com você por toda a noite
e acordo, plena de nós dois;
travas se soltam
correntes se arrebentam,
madrugada exala
amor.
E diante do nosso beijo lento,
imagem de um momento intenso,
toda uma gente
se cala.
Acordo, percebo meu corpo
ele emana a energia do desejo
e se alimenta do capítulo de uma história
que não fecha,
não fecha.
Um dia há de concluirmos
a pecha dessa energia
que até parece insana
despertar te lembrando na cama
a cana, ainda não quebrada
a torcida, de forma alguma esmagada,
uma luta interna, te amar, te esquecer,
uma causa ainda não julgada
um delírio a entorpecer.
Decerto a única trave
que ainda fecha meus olhos
e pela qual gastaria
minutos densos
do meu precioso tempo.
Cada um deles seria
pérola, diamante, esmeralda
até tocar o seio dessa alvorada
em que o sonho invoca
o até agora não resolvido
sentimento.

@Cristina Lebre - 21/01/17

mini-Biografia: Cristina Lebre


Formada em Jornalismo pela UFF, e pós-graduada em Letras, Cristina Lebre escreve desde criança, mostrando sempre uma sensibilidade aguda para o drama do ser humano e da natureza, enquanto toca os corações de muitos com seus versos livres e cheios de grande emoção. Possui dois livros publicados, “Olhos de Lince”, lançado em 2008, e “Marca d’Água”, de 2014.  Sua poesia transporta o leitor ao mundo lúdico, lírico e belo da geração atual de poetas brasileiros.

terça-feira, 4 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO



Não me lembro de ser uma mulher comum sem o rude exercício de aprender as lições da vida - ali - cotidianamente com "a faca nos dentes". Com horas pequenas, dias efêmeros dentro de outros longos e limitadores dias de pouca estima. Aprendi a viver? Inevitável aprender a viver e fazer da vida algo transformador quando se tem a pedra como lição e companhia. Com o passar dos anos e da convivência aprende-se muito sobre as pedras. Aprende-se sobre o afeto que nos foi negado, sobre as falhas do trajeto, sobre as desigualdades dos caminhos mais do que das origens. Aprende-se sobre a condição de ser, a situação de ser, de ser quando se está realmente sendo. E ser mulher, a mulher do dia, a mulher, como diz Cora Coralina: “a minha irmãzinha”, requer a sabedoria das pedras. Preparar a vida do amanhã, aninhar no braço sonhos destruídos, abraçar causas desperdiçadas, amar os retalhos sem concessões e na solidão que não é bonita, requer desdobramentos do corpo e da alma.

Eu também sei o que é ter asas e ser impedida de voar. Ou ser daquele tipo que não chia nem canta. Isso talvez seja das violências a que mais nos atinja, a violência silenciosa das grades construídas com a ajuda de nossas próprias mãos, a construção pelo desperdício do raro, pelo silêncio instalado entre o jantar e as coisas sujas que se amontoam nas pias da vida. No universo dos pequenos detalhes e das sutis delicadezas a alma de desdobrada pode tornar-se um vulto, uma sombra do que se é realmente. Presa na torre que a confunde entre a espera e o desejo de mudança, a mulher que veio das pedras, precisa ter a audácia de roubar a chave do seu fiel carcereiro para enfrentar o desafio da liberdade.

A mulher das pedras que se liberta de seguir um padrão rígido qualquer ou a grande expectativa do carcereiro, corre o risco de se tornar a flor sedenta de sol, a flor teimosa que nasce vertiginosamente entre as pedras, até porque belíssimas flores nascem de solos difíceis. Zelar pelos novos fios que nascem da vida, tecer mitologicamente a sua própria natureza recém-descoberta, fará dessa mulher a vasta existência entre tudo o que lhe foi negado de história e tudo que virá a ser projeto de futuro. A mulher que nasce entre a peleja e a beleza de sua sede de vida - quase um clichê, corre um risco imenso de despertar - incompleta, feliz.


mini-Biografia: Patrícia Porto

Graduada em Literaturas Brasileira e Portuguesa, Doutora em Políticas Públicas e Educação, professora e poeta, publicou a obra acadêmica "Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura” e os livros de poesia "Sobre Pétalas e Preces" e "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos". Participou, ainda, de coletâneas no Brasil e no exterior, integra o coletivo Mulherio das Letras e é colaboradora do portal da ANF (Agência de Notícias das Favelas).


segunda-feira, 3 de julho de 2017

DEZ PERGUNTAS A... SIMONE MARTINS

Agradeço a disponibilidade de Simone Martins, autora do livro TOQUE DA ALMA, cujos poemas têm estado a ser divulgados no TOCA A ESCREVER, desde Abril.

1 - Na nota de apresentação que encontramos na badana do TOQUE DA ALMA ficamos a saber que a escrita sempre a acompanhou. Quais as motivações? Mero prazer criativo ou ferramenta de desabafo?
Foi ferramenta de desabafo, as frustrações de uma adolescente, tristezas, desamores...

2 - Ao longo da leitura do livro fiquei com a sensação, mais do que ler um livro de poesia, estava a ler passagens de um diário. Sente que entrega muito de si no acto de escrever?
Sim, entrego-me…! Falo de um sitio em mim… nem faz sentido para mim o contrário. Não quer dizer que são todas vivências minhas o que escrevo… a maior parte são vivências hipotéticas, são outras simones

3 -No seguimento da questão anterior, a maternidade apurou-lhe o sentido poético do que escreve? 
Sim! A sensibilidade aprumou bastante

4 - Na mesma nota refere que o gosto pela leitura é posterior e apareceu depois de contactar com a escrita de Pablo Neruda. De alguma forma essa descoberta influenciou a sua forma de escrever?
Não pensei muito, mas após a questão… Muito! Pois permitiu não ter medo de escrever, permitiu soltar-me, permitiu-me aventurar-me mais em mim… descobrir a forma de sentir o mundo à minha volta e escrever como sinto a vida.

5 - Que outros autores descobriu entretanto, e com quais mais se identifica?
Osho – Tem mais haver com a espiritualidade, com o EU, com as subtilezas da vida e como nos é apresentada a vida, uma outra abordagem de viver, de amar, um novo olhar sobre a natureza.
Sophia de Mello Breyner Andresen – a forma como esta senhora escreve e sente o mar e tudo o que o envolve.

6 - Sabendo que a edição do TOQUE DA ALMA aconteceu de forma inesperada, quais as primeiras sensações ao ver os seus escritos em formato de livro?
Senti estranheza, fora da minha zona de conforto, uma responsabilidade.
Como se estivesse nascido para um mundo diferente daquilo que estou habituada…

7 - O que mais a surpreendeu, tanto pela positiva como negativamente, nos primeiros contactos com o universo da escrita, pós editar?
Ainda não me habituei ao nome de poetisa, escritora… pois não me considero assim… não será falta de respeito para comigo mesma!
Positivamente: O carinho com que me tratam.
Negativamente: O facto de não ser conhecida no mundo literário… mas tudo tem o seu percurso…

8 - Partilha, com assiduidade, os seus textos em diversos grupos de Facebook. Sente que essas partilhas têm ajudado na divulgação do TOQUE DA ALMA?
Sim, bastante!

9 - Explique quais os seus critérios na hora de escolher as imagens para acompanhar os textos que partilha.
Vários, o poema em si, a imagem e outras vezes a junção dos dois
Exemplos:
O poema Lisboa… falo em ruas nauseabundas tirei uma foto em Lisboa de uma rua com lixo
O poema 25 de abril de qualquer ano… fala do policiamento da moral… pedi permissão a 3 policias e tirei uma fotos de costas e alterei a foto
No toque do Mágico – Fala em: primaveras perfumadas de narcisos amarelos… tirei umas fotos a narcisos amarelos
Tinha uma foto a uma árvore desfolhada num dia cinzento e frio, associei ao  poema Inverno

10 - Este TOQUE DA ALMA foi o início de uma caminhada? Quais os próximos passos?
Sim, foi o inicio de uma nova etapa.
Escrever outro livro. Mas ainda é cedo... talvez mais 2 anos.

domingo, 2 de julho de 2017

ADRIANA FALA DE... ABRIL SITIADO



As andanças e navegações pelas águas da literatura são infinitas e atemporais.

Rios que desaguam em oceanos infindáveis de prosa e rima, poças que retêm o real/imaginário do poeta e do que quis ocultar, mas que se revela, sutilmente no deslizar pelas entrelinhas.

O prazer de mergulhar nesse universo tão amplo, particular e ao mesmo tempo exposto da alma de quem escreve, é para mim, uma satisfação que chega ao extremo da admiração e embevecimento pela arte de unir letras.

E O TOCA A ESCREVER, desperta isso na gente. Aquele momento do dia que surge do espaço virtual, o colírio, o arco-íris, o bálsamo que por instantes, nos tira um pouco os pés do chão, e faz flutuar nas vivências de cada um que aqui se mostra.

A vontade de colecionar palavras que nos identificam , comprar  livros e guardar na estante e no nosso banco de memórias, folhear, sentir o cheiro e abraçar aquele que despertou em nós os sentidos semelhantes, ou nos fizeram repensar, é um momento tão especial, como o inicio de um namoro, cheio de descobertas.

E de alguma maneira, a poesia nunca se faz indiferente. É uma via de mão dupla, mesmo que olhares e palavras nunca se encontrem.

O poeta e o leitor comungam, no mesmo espaço do tempo, de afinidades.

E é por causa delas, que estou aqui, apresentando Frederico Spencer e seu livro Abril 
Sitiado, recém chegado a Biblioteca do TOCA A ESCREVER, agora, com a contribuição mais assídua dos poetas brasileiros.

Um poeta contemporâneo, autêntico e que deixa sua marca no tempo, ao cantar o amor e suas contradições, expressando nas paisagens da sua terra natal, o Recife, o sentimento de adoração, e com talento e sutileza, nos conduz para assuntos do cotidiano revestidos de lirismo.
Acompanhe-nos.

Um abraço tropical,
Adriana Mayrinck

DRIKKA INQUIT


sábado, 1 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ANDREA SANT ANNA

sangrar faz parte
"Devia ter lá meus quatorze anos, adorava jogar queimado na escola, e talvez fosse dessa escola o que mais gostasse! Queimado com os amigos todos, o papo na escadinha da capela, as paqueras nos bancos do jardinzinho que tinha poemas do Gastão Neves ,um poeta local, as zoeiras com as meninas, os conselhos amorosos que dava por conta do que lia nas revistinhas Carícia, onde explicavam tudinho, mas eu mesma nem nunca tinha dado um beijo que fosse... sabia de nada, nem me interessava muito pelos meninos... até parecia um... E ae, numa tarde perdida, solta e vadia, percebi que meu corpo sangrava. Ooo, que merda, pensei. Comuniquei ao Superior Conselho Feminino Familiar, (SUCONFF), importante órgão regulador vigente, (mama,manas, avós, tias e amigas). Notícia correu e tarde seguinte lá vinham elas, já idas daqui agora: - minha Tia Cassinha, cor de jambo, carnes fartas, doçura absoluta, toda toda só cuidados e vó Zariff, jeitão e nome de árabe, gênio de Amazona, ariana retada, mas brasileira mesmo, filha dessas nossas deliciosas misturas e temperos que ''nem nós tudo"... e muitíssimo atenta aos movimentos da netarada... e ae me chamaram para a sala e pediram que eu me sentasse... tcharam... pensei: - ihhhh, lá vem... Sentei em frente 'as duas, com meu jeito né, desconstruído, despoluído, descontraído, pernas abertas e um ar de "que saco hein"... ae firme e direta, como era de seu costume, Zariff diz: - Muito bem Dona Andréa (chiiiii), agora você já é uma mocinha (sic) e não pode ficar por ae sentando de pernas abertas, brincando o tempo todo com os meninos, falando palavrão, tem que se comportar mais, se dar o respeito... agora, mais ainda, tem que tomar muito cuidado com os beijinhos, essas coisas, porque pode dar problema... juízo Dona Andréa, juízo!... rs... e veio um tremendo tratado de "não podes", que no fim, basicamente dizia "não fodes"... de modess, que eu, fiquei toda bolada, e só fiquei pensando nos perigos dos beijinhos... e olha que nem pensava tanto nisso, mas depois de tudo isso, era só no que pensava... rs... ai ai... mulheres "...

mini-Biografia: Andrea Sant Anna

Mãe, avó, contadora de histórias, arte-educadora, ceramista, oficineira, Terapeuta Corporal


Expressar-se é curar-se. Me interessam coisas de cura e expressão. Arte e saúde. Coisas de dentro e de fora. Coisas com as próprias mãos , como desenhar, tocar, escrever, modelar, massagear, comunicar, acarinhar, cuidar, acolher, nutrir.  Me interessam as pessoas, sobretudo, as crianças , melhor momento dos humanos!