sexta-feira, 30 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... PAULO DE CARVALHO

PAZ E LIBERDADE! Estes são os MONSTROS que precisam ser exterminados, apregoam os que se alçam como representantes dos Homens.
E o extermínio deve se dar de forma silenciosa para que não deixem lastros, rastros, pegadas...
As instituições semeiam alpistes em pistas sobre chãos de visgos. Abrem seus portais de céus para a segurança tanto da matéria - seus corpos repletos de medos e arrepios -, quanto para o espírito dilacerado pelas homilias de seus sacerdotes que apregoam o enxofre eterno. Tornam-se simultaneamente, diante de tais prédicas, o lugar de refúgio e janelas para o salto pleno rumo ao voo para a serenidade e tranquilidade. Enganos... Engodos... São, em verdade, seus algozes.
No pórtico de seus templos ostentam em reluzente e bem polido bronze a imagem e semelhança: o ALBATROZ. Acolhem os indivíduos em teias as quais denominam:
SUCESSO! REALIZAÇÃO! PATRIMÔNIO!
TUA LIBERDADE É A EXTENSÃO DE TEUS ÓBULOS!
DE CONCRETO TUA PAZ!
O ENGODO, A CLAUSURA E O VENAL são os instrumentos para ludibriar o MONSTRO...
PAZ E LIBERDADE!
Inscritos sejam nos livros dos desterrados. A tênue ironia reluzente como gume do aço.
Proscritos sejam para o bem social, perpetuam os códices dos portentosos próceres.
e homens e mulheres... e jovens e crianças... e velhos e velhas adoram seus cárceres como as ovelhas sabem seus currais.
[paulo de carvalho. 01/03/2017 - uma quarta-feira de cinzas]

Sobre o autor:
Paulo de Carvalho, escritor e poeta, com dois livros publicados.
Nascido no ano de 1955, na cidade de Niterói, RJ, iniciou desde cedo suas incursões no cenário artístico-cultural.

Atualmente dedica-se ao seu trabalho como Designer Gráfico/Diagramador e editor.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO



"Outros Cantos" e a estética da sobrevivência - Patricia Porto

Há narrativas-correntezas tão fortes que nos fazem mergulhar no outro que também somos. Parece algo muito fora de nós a princípio, dada a vertigem do encontro, mas vamos entendendo no percurso da leitura que é realmente da nossa intimidade que se alimenta, da nossa imediata identificação,dessa afinidade aguda que pode até mesmo nos interrogar e que se lastreia para dentro, nos investigando os porões, revirando os guardados, revelando vozes segredadas, aquelas que não cuidamos de registrar e que vão se misturando ao chão da vida, trajetórias de leituras que nos escapam... E é partindo deste princípio, do meu lugar de leitora e educadora, ambas encantadas, que ofereço uma modesta contribuição de olhar a "Outros Cantos" de Maria Valéria Rezende. Porque, se nos encantamos e ainda não fomos castrados nesta habilidade, é pelo olhar curioso, visitado por outros sentidos, que nos deixamos reconhecer no texto lido e amado.

              Em "Outros Cantos", ao me deparar com Maria, as Marias que habitavam em mim ressoaram. Dentro de mim uma nova jornada mítica: significar o que compreendo como estética da sobrevivência. Algo de delicado e outro de doloroso me ocorrem para tentar descrever esta estética de histórias que se assemelham às minhas e recriam pela cultura este diálogo permanente e polifônico. Como recebo Maria a partir de minhas Marias? As Marias que não deixei vingar, as que calei de saída, por medo e resposta antecipada contra o que parecia destino? Perguntas teimosas me fazem companhia pelo trajeto da leitura, às vezes estreitando a vista a fim de enxergar melhor esses jogos de perder e achar. Não sei se alcanço o todo de dizeres que vão brotando da pedra, a minha é a mais bruta. Procuro aqui e ali um desvão, um atalho que nos una, e que me faça encontrar Maria, a educadora, a nordestina, a viajante, a corajosa - num feito de matriochka. Um engenho elaborado entre escrita e significação que vou costurando junto à cartografia do sertão. O sertão que se biparte em geografia e sentimento. Patuá de sertão é para sempre esse carregado de memórias no peito.

                  Mas eis que surge a imagem que persigo: a viagem. O caminho sensível pela alma de minha leitura amorosa, alma porosa, cálida e dedilhada pelo risco e invento dos sobreviventes. Tento sintetizar minhas percepções e palavras como "denso, perturba-dor, delicado" são os melhores qualitativos que encontro. Ouso trazer Maria e "Outros Cantos" para minha coleção de imagens. Guardo este segredo de quem escava histórias em mil camadas e que se instaura na convergência da leitura com a educação: dois amores e uma espécie de circuito inacabado que encarna no mundo como aliança quixotesca, subversiva, desviante. "Outros Cantos" acende em mim a tradição das almas velhas. Dou rendas à escritura: cheia, vazia, entrelaçada, torcida - que não guia, mas nos torna cúmplices da narrativa, sujeitos clandestinos, desejantes e sonhadores.

*Maria Valéria Rezende é ganhadora do prêmio Jabuti e do prêmio Casa de Las Américas

mini-Biografia: Patricia Porto

Graduada em Literaturas Brasileira e Portuguesa, Doutora em Políticas Públicas e Educação, professora e poeta, publicou a obra acadêmica "Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura” e os livros de poesia "Sobre Pétalas e Preces" e "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos". Participou, ainda, de coletâneas no Brasil e no exterior, integra o coletivo Mulherio das Letras e é colaboradora do portal da ANF (Agência de Notícias das Favelas).


quarta-feira, 28 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... CRISTINA LEBRE



LACUNA

Sonho com você por toda a noite
e acordo, plena de nós dois;
travas se soltam
correntes se arrebentam,
madrugada exala
amor.
E diante do nosso beijo lento,
imagem de um momento intenso,
toda uma gente
se cala.
Acordo, percebo meu corpo
ele emana a energia do desejo
e se alimenta do capítulo de uma história
que não fecha,
não fecha.
Um dia há de concluirmos
a pecha dessa energia
que até parece insana
despertar te lembrando na cama
a cana, ainda não quebrada
a torcida, de forma alguma esmagada,
uma luta interna, te amar, te esquecer,
uma causa ainda não julgada
um delírio a entorpecer.
Decerto a única trave
que ainda fecha meus olhos
e pela qual gastaria
minutos densos
do meu precioso tempo.
Cada um deles seria
pérola, diamante, esmeralda
até tocar o seio dessa alvorada
em que o sonho invoca
o até agora não resolvido
sentimento.

@Cristina Lebre - 21/01/17

mini-Biografia: Cristina Lebre


Formada em Jornalismo pela UFF, e pós-graduada em Letras, Cristina Lebre escreve desde criança, mostrando sempre uma sensibilidade aguda para o drama do ser humano e da natureza, enquanto toca os corações de muitos com seus versos livres e cheios de grande emoção. Possui dois livros publicados, “Olhos de Lince”, lançado em 2008, e “Marca d’Água”, de 2014.  Sua poesia transporta o leitor ao mundo lúdico, lírico e belo da geração atual de poetas brasileiros.

terça-feira, 27 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... SÍLVIA SCHMIDT



Sonho

Mas o sonho é mais completo que a realidade esta me afoga na inconsciência” C. Lispector
“Ai esses sonhos que não terminam nunca, sempre me trazendo quem na realidade não pode estar comigo”, pensava Maria ainda deitada entre coberta por lençóis 170 fios, limpinhos, e cheirosos como as lavandas de Provence. Esticou os pés alongando-se e permaneceu mais um pouco imóvel, querendo as sensações que vinham de seu mais profundo.
“Encontravam-se no meio da noite, isso lá era hora”, pensava em si, mas não perdia a oportunidade sagrada de amá-lo.
Ele chegava-lhe quase sempre esbaforido, trazendo uma pasta de projetos na mão direita... Casaco de nylon na outra. Era um hiperativo sem tempo pra nada, amante das artes visuais, o notebook a tiracolo. Feliz a procurava em busca de algum aconchego, tempinho espiritual sem questionamento, quando deitavam-se juntos.
Certa noite, Maria estava em trânsito na mesma mega cidade, portanto próxima fisicamente de João, nessa noite ele apareceu-lhe em espírito , apenas usando a roupa de baixo.
“Que surpresa”, Maria limpou os olhos, sentiu o coração pulsando-lhe forte entre os seios... ele amável a empurrava afetivamente mais para perto da parede num colchão de solteiro colocado ao lado da cama do sobrinho que generoso, emprestara-lhe o quarto, e sem que ela sequer ou ainda mal tocasse o seu corpo denso, quente... João desapareceu subitamente nos segundos que se seguiram. Maria ficou sobressaltada e atônita. Ela o percebeu ansioso nessa aparição. Não viria assim em cuecas visitar-lhe, se não fosse por tanto desejo, pensava consigo ao relembrar, no dia seguinte, ao despertar, toda nítida sensação que tivera durante esse encontro, até porque não havia intimidade para eles nas agruras do cotidiano. Sentiu-o ali e isso era afinal o que importava e voltou a dormir. Querendo-o inquestionavelmente.
Vez por outra viam-se em astral , ele como era: alto, corpo delgado em musculatura firme, sorriso largo , movimentos rápidos e afetuosos, barba por fazer cabelos escorridos na testa, tez clara.
“Venha, deitar-se ao meu lado”, chamando-a para mais uma noite de amor, relaxado numa rede de fios rústicos.
Maria deitou-se com gentileza, podia sentir- lhe o tempero o cheiro, algo quente tomava conta daquele momento quase virtual. Sabiam que seria rápido e intenso. Ele um poeta, um poeta icônico.
Maria firmou a cabeça em seu ombro largo, e isso bastava, ele ainda em seu terno e gravatas, não desnudo como apareceu a ela em encontros anteriores. Veio-lhe para descrever-lhe poses homossexuais que tirariam o fôlego de Maria, incrédula com demonstrações que seguiam aos gestos:
“Assim, veja”, dizia ele, “é uma penetração gay: eu abro as pernas, encostado num apoio e ele me penetra, eu sou o passivo”.
Ela olhava e ouvia-o com a certeza de que a verdade vinha a tona, e sem medo ela o sentia mais do que nunca em sua intimidade revelada com sublime coragem, eram mais que namorados eram amigos confidentes. Maria o respeitou sem tocá-lo naquela noite, numa das mais reveladoras onipresenças.
Parece que essa verdade jamais se anunciaria no plano das densidades reais não com tamanha exatidão. Algumas verdades só podem acontecer no instante da inconsciência, nas sincronias da alma, assim seguiram firmes em seus sentimentos.
Não se viam muito no dia a dia, mas sentiam-se no plano do etéreo, contavam um com o outro e revelavam-se a cada noite. Mais se viam, mais se declaravam.
“Eu te amo”, e se beijavam como seres que tinham a certeza de que um era para o outro, amantes perfeitos.
“Eu quero me casar com você”, e continuavam a se beijar, inclinados naquela poltrona de um voo que transitava entre as nuvens brancas de uma Ilha no Atlântico Sul, bem conhecida de ambos...
“Olha João, veja pela janelinha... ali, bem ali... ta vendo entre aquele campo de futebol e a plantação de eucaliptos, era minha casa, casa onde morei por dez anos.” Maria apontava tomando o assento de João, como que querendo vazar espaço aéreo... João recebeu-a novamente em seus braços, beijando-a com paixão.
O tempo_ espaço desse romance era este mesmo, inconstante, ainda assim Maria seguia todas as noites para seu quarto sempre com a mesma incógnita... Estaria ou não com seu amor onírico? Não sabia. Nada era previsível no sentido do cronológico, o último deles se dera em uma quadra de uma cidade colonial desconhecida, de casas baixas e coloridas, ele vindo de viagem como sempre... Ela andando sem objetivos definidos pela calçada desuniforme quanto mais caminhavam, mais sintonia com os passos que despontavam a sua frente. Sabiam estar ali, viram-se e aproximaram-se... João a tomou nos braços, ela quis resistir ele insistiu. Aproximando-a mais de si enquanto aos poucos ela cedia... Saudade, era saudade... Ela não tinha dúvida e também não saberia explicar o que pulsava em seu pensamento, suspirava baixinho o abraço forte recebido naquela esquina de um lugar qualquer nos interstícios de um plano vago, que volatilizava pelos sentidos carregados e dormentes, aos poucos vivificados pela presença de sons, aromas da manhã de primavera, brilhos solares que presentificavam-se para mais um dia que insistia em despertá-la do evanescente, roubando-os para outra dimensão.
in Encontros - uma cartografia do tempo.
Silvia Schmidt, 2017

mini-Biografia: Silvia Schmidt

Sílvia Schmidt nasceu em São Paulo mas morou no Nordeste e Sul do
Brasil. Desde que deixou Florianópolis em 2000 transformou-se em uma verdadeira
nômade digital, explorando novas cidades, países e culturas, sempre em busca de
liberdade, independência e inspiração.
É graduada em Letras- Português Inglês e respectivas Literaturas ,
Comunicação e Semiótica na PUC/SP , Sociologia e Política/ USP, e
Ontopsicologia em SC.
Ministrou aulas de Literatura Brasileira por quase 20 anos mas precisou
ir além:
“Com mais maturidade e intensa criatividade, hoje, busco na carreira de
escritora e editora, o mesmo resultado obtido em sala de aula, e meu foco
principal é trabalhar numa linguagem multimidiática e
contemporânea (concretismo), uma psicologia revolucionária (ontológica).
Busco na realidade vivida (auto ficção) e nas trocas culturais o público jovem e
feminino em transcendência.” Comenta a autora ,Sílvia.
Abaixo projetos em processo para lançamento que serão realizados através
do selo Símbol@Digital , editora sob sua concepção e direção desde 2014.

Duty Free : romance ( 2000)
Start:poesias concretas (2000)
Papo Intimo: diálogos( 2009)
Empadão Goiano: romance ( 2011)
Cobalto: poesias selecionadas( 2012)
EnCONTrOS: contos ( 2012)
UNO: romance em progresso (2014)
Des voyageurs infatigables: ensaio ( 2016 )

A Carta da Terra: poemas (2016) inédito

segunda-feira, 26 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES



Os cinco sentidos anestesiados.
Rotina moderna atroz e sufocante - Chegar em casa, tomar banho, sentar no sofá e relaxar por alguns instantes antes do jantar. Ouvir o barulho sufocante da televisão,o barulho dos carros na rua ou ouvir a playlist que tortura os tímpanos. Ainda no sofá não conseguir se concentrar em nada. Manter-se preso ao celular, colocar o referido por sobre a mesa e comer rapidamente sem saborear o alimento. Sentar novamente no sofá e pegar um livro e não ver nada. Tocar o livro como quem passa a mão sobre qualquer coisa inútil. Não ser capaz de sentir o cheiro singular de um após a chuva. Sentir sono acessando obsessivamente o celular. Ver, ouvir, tocar, cheirar, este o gosto amargo de nosso tempo.
E se chegássemos em casa e olhássemos ao redor e apreciássemos na mobília, a delicadeza dos efeitos das luzes no cômodo, e se não ligássemos a televisão e ficássemos durante cinco minutos em silêncio, sem celular.
E se tomássemos um banho lento e pacífico, sentindo a água correr pelo corpo, de olhos fechados e mente aberta.
E se preparássemos mesmo que rapidamente nossa comida, tocando nas hortaliças e vegetais sem a brutalidade dos autômatos...
E se ouvíssemos os sons misteriosos que o silêncio nos proporciona...
E se realmente sentíssemos o gosto do alimento, um paraíso se abriria certamente.
E se todos pudessem ler romances e livros edificadores...
Uma nova atribuição seria dada aos sentidos.

ABRAÇO DO POETA.

João Ayres

mini-Biografia:

Poeta, ensaísta, romancista, compositor, cantor de samba,jazz e blues.

Parceiro e biógrafo de Delcio Carvalho.