quarta-feira, 28 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... CRISTINA LEBRE



LACUNA

Sonho com você por toda a noite
e acordo, plena de nós dois;
travas se soltam
correntes se arrebentam,
madrugada exala
amor.
E diante do nosso beijo lento,
imagem de um momento intenso,
toda uma gente
se cala.
Acordo, percebo meu corpo
ele emana a energia do desejo
e se alimenta do capítulo de uma história
que não fecha,
não fecha.
Um dia há de concluirmos
a pecha dessa energia
que até parece insana
despertar te lembrando na cama
a cana, ainda não quebrada
a torcida, de forma alguma esmagada,
uma luta interna, te amar, te esquecer,
uma causa ainda não julgada
um delírio a entorpecer.
Decerto a única trave
que ainda fecha meus olhos
e pela qual gastaria
minutos densos
do meu precioso tempo.
Cada um deles seria
pérola, diamante, esmeralda
até tocar o seio dessa alvorada
em que o sonho invoca
o até agora não resolvido
sentimento.

@Cristina Lebre - 21/01/17

mini-Biografia: Cristina Lebre


Formada em Jornalismo pela UFF, e pós-graduada em Letras, Cristina Lebre escreve desde criança, mostrando sempre uma sensibilidade aguda para o drama do ser humano e da natureza, enquanto toca os corações de muitos com seus versos livres e cheios de grande emoção. Possui dois livros publicados, “Olhos de Lince”, lançado em 2008, e “Marca d’Água”, de 2014.  Sua poesia transporta o leitor ao mundo lúdico, lírico e belo da geração atual de poetas brasileiros.

terça-feira, 27 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... SÍLVIA SCHMIDT



Sonho

Mas o sonho é mais completo que a realidade esta me afoga na inconsciência” C. Lispector
“Ai esses sonhos que não terminam nunca, sempre me trazendo quem na realidade não pode estar comigo”, pensava Maria ainda deitada entre coberta por lençóis 170 fios, limpinhos, e cheirosos como as lavandas de Provence. Esticou os pés alongando-se e permaneceu mais um pouco imóvel, querendo as sensações que vinham de seu mais profundo.
“Encontravam-se no meio da noite, isso lá era hora”, pensava em si, mas não perdia a oportunidade sagrada de amá-lo.
Ele chegava-lhe quase sempre esbaforido, trazendo uma pasta de projetos na mão direita... Casaco de nylon na outra. Era um hiperativo sem tempo pra nada, amante das artes visuais, o notebook a tiracolo. Feliz a procurava em busca de algum aconchego, tempinho espiritual sem questionamento, quando deitavam-se juntos.
Certa noite, Maria estava em trânsito na mesma mega cidade, portanto próxima fisicamente de João, nessa noite ele apareceu-lhe em espírito , apenas usando a roupa de baixo.
“Que surpresa”, Maria limpou os olhos, sentiu o coração pulsando-lhe forte entre os seios... ele amável a empurrava afetivamente mais para perto da parede num colchão de solteiro colocado ao lado da cama do sobrinho que generoso, emprestara-lhe o quarto, e sem que ela sequer ou ainda mal tocasse o seu corpo denso, quente... João desapareceu subitamente nos segundos que se seguiram. Maria ficou sobressaltada e atônita. Ela o percebeu ansioso nessa aparição. Não viria assim em cuecas visitar-lhe, se não fosse por tanto desejo, pensava consigo ao relembrar, no dia seguinte, ao despertar, toda nítida sensação que tivera durante esse encontro, até porque não havia intimidade para eles nas agruras do cotidiano. Sentiu-o ali e isso era afinal o que importava e voltou a dormir. Querendo-o inquestionavelmente.
Vez por outra viam-se em astral , ele como era: alto, corpo delgado em musculatura firme, sorriso largo , movimentos rápidos e afetuosos, barba por fazer cabelos escorridos na testa, tez clara.
“Venha, deitar-se ao meu lado”, chamando-a para mais uma noite de amor, relaxado numa rede de fios rústicos.
Maria deitou-se com gentileza, podia sentir- lhe o tempero o cheiro, algo quente tomava conta daquele momento quase virtual. Sabiam que seria rápido e intenso. Ele um poeta, um poeta icônico.
Maria firmou a cabeça em seu ombro largo, e isso bastava, ele ainda em seu terno e gravatas, não desnudo como apareceu a ela em encontros anteriores. Veio-lhe para descrever-lhe poses homossexuais que tirariam o fôlego de Maria, incrédula com demonstrações que seguiam aos gestos:
“Assim, veja”, dizia ele, “é uma penetração gay: eu abro as pernas, encostado num apoio e ele me penetra, eu sou o passivo”.
Ela olhava e ouvia-o com a certeza de que a verdade vinha a tona, e sem medo ela o sentia mais do que nunca em sua intimidade revelada com sublime coragem, eram mais que namorados eram amigos confidentes. Maria o respeitou sem tocá-lo naquela noite, numa das mais reveladoras onipresenças.
Parece que essa verdade jamais se anunciaria no plano das densidades reais não com tamanha exatidão. Algumas verdades só podem acontecer no instante da inconsciência, nas sincronias da alma, assim seguiram firmes em seus sentimentos.
Não se viam muito no dia a dia, mas sentiam-se no plano do etéreo, contavam um com o outro e revelavam-se a cada noite. Mais se viam, mais se declaravam.
“Eu te amo”, e se beijavam como seres que tinham a certeza de que um era para o outro, amantes perfeitos.
“Eu quero me casar com você”, e continuavam a se beijar, inclinados naquela poltrona de um voo que transitava entre as nuvens brancas de uma Ilha no Atlântico Sul, bem conhecida de ambos...
“Olha João, veja pela janelinha... ali, bem ali... ta vendo entre aquele campo de futebol e a plantação de eucaliptos, era minha casa, casa onde morei por dez anos.” Maria apontava tomando o assento de João, como que querendo vazar espaço aéreo... João recebeu-a novamente em seus braços, beijando-a com paixão.
O tempo_ espaço desse romance era este mesmo, inconstante, ainda assim Maria seguia todas as noites para seu quarto sempre com a mesma incógnita... Estaria ou não com seu amor onírico? Não sabia. Nada era previsível no sentido do cronológico, o último deles se dera em uma quadra de uma cidade colonial desconhecida, de casas baixas e coloridas, ele vindo de viagem como sempre... Ela andando sem objetivos definidos pela calçada desuniforme quanto mais caminhavam, mais sintonia com os passos que despontavam a sua frente. Sabiam estar ali, viram-se e aproximaram-se... João a tomou nos braços, ela quis resistir ele insistiu. Aproximando-a mais de si enquanto aos poucos ela cedia... Saudade, era saudade... Ela não tinha dúvida e também não saberia explicar o que pulsava em seu pensamento, suspirava baixinho o abraço forte recebido naquela esquina de um lugar qualquer nos interstícios de um plano vago, que volatilizava pelos sentidos carregados e dormentes, aos poucos vivificados pela presença de sons, aromas da manhã de primavera, brilhos solares que presentificavam-se para mais um dia que insistia em despertá-la do evanescente, roubando-os para outra dimensão.
in Encontros - uma cartografia do tempo.
Silvia Schmidt, 2017

mini-Biografia: Silvia Schmidt

Sílvia Schmidt nasceu em São Paulo mas morou no Nordeste e Sul do
Brasil. Desde que deixou Florianópolis em 2000 transformou-se em uma verdadeira
nômade digital, explorando novas cidades, países e culturas, sempre em busca de
liberdade, independência e inspiração.
É graduada em Letras- Português Inglês e respectivas Literaturas ,
Comunicação e Semiótica na PUC/SP , Sociologia e Política/ USP, e
Ontopsicologia em SC.
Ministrou aulas de Literatura Brasileira por quase 20 anos mas precisou
ir além:
“Com mais maturidade e intensa criatividade, hoje, busco na carreira de
escritora e editora, o mesmo resultado obtido em sala de aula, e meu foco
principal é trabalhar numa linguagem multimidiática e
contemporânea (concretismo), uma psicologia revolucionária (ontológica).
Busco na realidade vivida (auto ficção) e nas trocas culturais o público jovem e
feminino em transcendência.” Comenta a autora ,Sílvia.
Abaixo projetos em processo para lançamento que serão realizados através
do selo Símbol@Digital , editora sob sua concepção e direção desde 2014.

Duty Free : romance ( 2000)
Start:poesias concretas (2000)
Papo Intimo: diálogos( 2009)
Empadão Goiano: romance ( 2011)
Cobalto: poesias selecionadas( 2012)
EnCONTrOS: contos ( 2012)
UNO: romance em progresso (2014)
Des voyageurs infatigables: ensaio ( 2016 )

A Carta da Terra: poemas (2016) inédito

segunda-feira, 26 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES



Os cinco sentidos anestesiados.
Rotina moderna atroz e sufocante - Chegar em casa, tomar banho, sentar no sofá e relaxar por alguns instantes antes do jantar. Ouvir o barulho sufocante da televisão,o barulho dos carros na rua ou ouvir a playlist que tortura os tímpanos. Ainda no sofá não conseguir se concentrar em nada. Manter-se preso ao celular, colocar o referido por sobre a mesa e comer rapidamente sem saborear o alimento. Sentar novamente no sofá e pegar um livro e não ver nada. Tocar o livro como quem passa a mão sobre qualquer coisa inútil. Não ser capaz de sentir o cheiro singular de um após a chuva. Sentir sono acessando obsessivamente o celular. Ver, ouvir, tocar, cheirar, este o gosto amargo de nosso tempo.
E se chegássemos em casa e olhássemos ao redor e apreciássemos na mobília, a delicadeza dos efeitos das luzes no cômodo, e se não ligássemos a televisão e ficássemos durante cinco minutos em silêncio, sem celular.
E se tomássemos um banho lento e pacífico, sentindo a água correr pelo corpo, de olhos fechados e mente aberta.
E se preparássemos mesmo que rapidamente nossa comida, tocando nas hortaliças e vegetais sem a brutalidade dos autômatos...
E se ouvíssemos os sons misteriosos que o silêncio nos proporciona...
E se realmente sentíssemos o gosto do alimento, um paraíso se abriria certamente.
E se todos pudessem ler romances e livros edificadores...
Uma nova atribuição seria dada aos sentidos.

ABRAÇO DO POETA.

João Ayres

mini-Biografia:

Poeta, ensaísta, romancista, compositor, cantor de samba,jazz e blues.

Parceiro e biógrafo de Delcio Carvalho.

domingo, 25 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ANDREA SANT ANNA


"Logo ali, na esquina do caos...
Essa crise falada, noticiada, prevista, orquestrada pela mídia, no mínimo nos faz refletir sobre o consumo excessivo e sobre a mentira social da civilização em que vivemos. Penso que com apenas 1/3 da grana que já foi investida para salvar bancos, resolveria a fome e a miséria gritantes neste mundo. A grana que se gasta em armamentos serviria à todos em alimentos.
Quanta estupidez humana! E tudo parece tão velho e surrado! Os mesmos erros, a mesma ganância predatória, a mesmíssima mesquinhez... E eu? Mais uma idiota apenas, pensando que estou acima deste lodo fétido... rs ... ilusão! Sou parte dessa lama e provavelmente cheiro como todos, à merda inconsequente!
No entanto, ainda sou capaz de me espantar e mesmo ainda emocionar-me com pequenas e simples coisas, , um beija-flor, um esquilinho lépido passando batido , com o vermelho pássaro Tiê, sangue bom! Ou, uma canção que me faça estremecer e sentir um descompasso no ritmo do meu coração... cantos de cigarras, sapos, grilos, corujas e pássaros... Tudo isso e outras coisitas mais me tocam tão fundo quanto a desilusão com o mundo... Contradições, as de sempre... Sensações que me deixam ausente...
Estou indo para mais algum lugar e uma vez mais sinto-me abandonar algumas cascas pelo caminho. Os fios brancos proliferam em minha titubeante cabeça e já perco alguns dentes e juízo. Sim, sou capaz de perder todo o juízo a qualquer momento! Toda a minha capa de lucidez esconde sempre, ou tenta, a mais aguda loucura disfarçada em um sorriso elegante ( nem tanto) de capa de revista fútil. Sou ridícula em minha falsa elegância. Sou infantil em meus disfarces, apesar da clara passagem do tempo pelos meus poros, pêlos, corpo e alma. Não sou mais capaz de sorrir alegre e levemente por muitas vezes, embora o faça. Tornou-se mais raro e é o preço caro da perda inevitável da inocência.
Somos uma grande mentira. Mas, digo isso, sem peso. Apenas reconheço uma tela ilusória que não é a Verdade Absoluta. Não mesmo."    Andrea Sant Anna - 2011

mini-Biografia: Andrea Sant Anna

Mãe, avó, contadora de histórias, arte-educadora, ceramista, oficineira, Terapeuta Corporal
Expressar-se é curar-se. Me interessam coisas de cura e expressão. Arte e saúde. Coisas de dentro e de fora. Coisas com as próprias mãos , como desenhar, tocar, escrever, modelar, massagear, comunicar, acarinhar, cuidar, acolher, nutrir.  Me interessam as pessoas, sobretudo, as crianças , melhor momento dos humanos! 
Não sei bem o que fazer  com tudo isso, mas vou fazendo.
E indo ...
E expressando,  criando
E me curando...

sábado, 24 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK

A caminhada começa sempre com um primeiro passo, para o lugar, o desejo, o sonho, o encontro, o projeto, o objetivo.
Existe a vontade e a direção que impulsionam, mas inerente a isso, algo maior conduz.
E se deixarmo-nos levar... surpresas agradáveis podem fazer parte desse caminhar.
E assim, dando passos certos, firmes, às vezes hesitantes, vamos percorrendo estradas, pontes, oceanos.
Caímos em abismos, atravessamos desertos, vendavais, redemoinhos, tempestades, mas com alguns arranhões e cicatrizes, o entusiasmo, o acreditar, o ideal, aliam-se ao tempo e ao ponto onde devemos chegar e estar.
Com o autor também acontece o mesmo, temos a ideia, o impulso, a primeira palavra... mas o que vai se desenvolver a partir daí, é como começar uma viagem, cheia de aventuras por terras desconhecidas.
É para esse caminhar, essa aventura que convido a todos a participarem desse espaço bem brasileiro, com sabor tropical, caloroso e extremamente rico da nossa cultura, tão colorida, cheia de nuances, tons, ritmos, palavras...

E faço um convite aos moldes do nosso mestre da literatura Guimarães Rosa:
"Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia"

Vamos acompanhar, participar, divulgar, e nos deixar envolver por esse abraço da arte da escrita, com a participação de autores, poetas, escritores,
nesse cantinho bem brasileiro, aqui, no FALA AÍ BRASIL ...


Um abraço, do lado de cá, do oceano!