domingo, 27 de novembro de 2016

EU FALO DE... SOLIDARIEDADE ENTRE AUTORES


Ao longo dos anos, muito tenho escrito sobre a discrepância entre o que grande parte dos autores diz e aquilo que faz. Já por diversas vezes escrevi sobre a tremenda falta de solidariedade que existe no universo da escrita e senti, todas as vezes, estar a pregar no deserto.

Muitos interpretaram as minhas palavras como sendo um desabafo de carácter pessoal resultante da minha experiência aquando das apresentações que fiz fora do meu circulo natural, nomeadamente quando estive duas vezes no Porto e uma em Braga. Essa interpretação não podia estar mais errada.

Em todas as vezes que abordei este tema dei como exemplos essas minhas experiências como forma ilustrativa da mensagem que pretendia passar.

Desta vez darei como exemplo o que se passou neste Sábado em Lisboa e que afectou sobremaneira a afluência de público no evento de uma autora vinda do Porto.

Sinto-me completamente à vontade para o fazer pela simples razão que, ao longo destes anos, cruzei-me apenas duas vezes com esta autora em eventos sem que houvesse sequer troca de palavras.

Mais à vontade fico se disser que estive no evento apesar do mau tempo e das limitações próprias de quem está desempregado há três anos, sem direito a subsídios, e sem dinheiro para gastar em transportes.

Tenho perfeita consciência que podia ficar quieto no meu canto e evitar voltar a passar a imagem de enfant terrible, irreverente, desbocado e má-língua, no entanto, valores maiores se levantaram quando quase no final do evento ouvi algumas das coisas que foram ditas à autora e que, perante a inocência que lhe reconheço, a levarão certamente a pensar que a escassa afluência de público se deveu a uma sobreposição infeliz de eventos e a escolhas óbvias que as pessoas fizeram na hora de escolher ir a outro em detrimento deste evento.

Não tenho problema algum em dizer que nada disto foi ao acaso porque já assisti a situações semelhantes e afirmo com todas as letras que, em parte, foi propositado.

A sobreposição de eventos é a coisa mais natural neste universo da escrita porquanto existem inúmeras editoras e autores com lançamentos e apresentações e, convenhamos, é completamente impossível conjugar tudo sem que as sobreposições aconteçam.

O que já não é tão natural, mas norma, é assistir-se ao prolongamento propositado de eventos para que as pessoas não tenham tempo de sair de um e marcar presença noutro, logo de seguida. O que não é natural, mas norma, é fazer de tudo para agradar a autores enquanto eles dão retorno e tentar prejudicá-los quando deixam de o fazer.

Mas se o que escrevi anteriormente não chegar para fazer prova de como foi propositada a fraca afluência, posso sempre usar como argumento o facto de, neste caso, estarmos a falar de eventos que começaram com duas horas de diferença e três quilómetros de distância. Mais, alguns dos que marcaram presença estiveram num outro evento que começou com as mesmas duas horas de diferença mas tiveram de atravessar a ponte e a cidade inteira (15 kms) para acompanhar e prestigiar esta autora.

Como disse anteriormente, cruzei-me apenas duas vezes com esta autora em eventos e nunca interagimos mas há coisas que não esqueço, e uma dessas foi a sua presença num evento, realizado no IPO do Porto, sem que conhecesse o autor da obra, para além das redes sociais. O autor em causa é da zona de Lisboa mas isso não a impediu de aparecer. E da mesma forma que o fez nessa altura, também eu quis agora homenageá-la, com a minha presença, no seu evento realizado fora do seu circulo natural. E como me soube bem aquele: "eu conheço esta cara mas não sei de onde" e após reconhecimento: "não esperava a tua presença".

No final do evento e porque tinha que ANDAR duas horas de regresso a casa, furei a fila dos autógrafos para me despedir da autora e desejar felicidades mas apenas fui capaz de lhe dizer: "Já conhecia a tua inocência. Mais tarde entenderás o que quero dizer".

E aquilo que quero dizer é que a fraca afluência não se deveu à sobreposição de eventos. Simplesmente, uns não quiseram aparecer e outros fizeram tudo para que mais gente não aparecesse. É assim, de hipocrisia, que se constrói a solidariedade entre autores.

MANU DIXIT

sábado, 26 de novembro de 2016

EU FALO DE... RIMA FORÇADA


Independentemente das temáticas, existe uma questão que é, quase sempre, aflorada nas tertúlias, ou em conversas sobre poesia, e exemplo perfeito para abordar uma tese que defendo há algum tempo.

Quando se fala da rima na poesia, muitos autores, para justificar a sua não utilização, dizem não ter paciência para escrever com rimas e que a maioria, daqueles que as usam, só faz rima forçada. Mas depois, para consubstanciar essa opinião, dizem que são usadas sempre as mesmas, como por exemplo: amor/dor, paixão/coração, carinho/caminho, lua/tua/nua, etc.

Se, por um lado, concordo que muitos escrevem versos de forma forçada, por outro, discordo nos exemplos que são dados porquanto a rima forçada tem muito pouca relação com as combinações utilizadas. Aquilo que provoca a rima forçada é o caminho que se faz para chegar à rima. Por essa razão é que existe uma ligação muito forte entre a rima e a métrica. Escrever com esses dois elementos é meio caminho andado para se escrever rimas não forçadas (vejam-se os sonetos de Florbela e Bocage). No entanto, também é possível rimar de forma natural sem utilizar a métrica (atente-se em Torga).

Quando digo "caminho que se faz para chegar à rima" estou a falar das enormes assimetrias que se criam entre os versos de um poema para que a rima possa aparecer. Muitas vezes lêem-se poemas mesclados com versos curtos e longos e logo se percebe que isso se deve à tentativa de usar uma determinada rima. A rima não é forçada por si mesma mas por tudo o que a antecede.

Usar o argumento das "mesmas combinações" é errado. Quanto muito, a utilização sistemática das mesmas combinações é uma falta de originalidade.

E, cá entre nós que ninguém nos ouve, acho que, quem usa o argumento da falta de paciência para escrever poemas rimados, está apenas a ocultar o facto de não saber escrever rimas sem que elas saiam forçadas.

MANU DIXIT

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

EU FALO DE... EXTREMISTAS RADICAIS


Uma das características humanas mais marcantes e vulgares nos dias de hoje é o extremismo. Estamos a viver um tempo em que deixou-se de praticar a moderação e desapareceu a capacidade de compreender e aceitar visões distintas.

Neste contexto, não será estranho que também se assista nas artes à proliferação de opiniões radicais defendidas com base na famosa frase "Bushiana": «Ou estão comigo, ou estão contra mim».

Ultimamente, tenho assistido a um aumento considerável de textos em que se advoga que a poesia já não se compadece com rimas, métricas e algumas temáticas. Esses textos, por si só, não encerram mais relevância que aquela que deve ser dada a uma opinião, seja ela qual for. O que choca é ver alguns desses eruditos modernos vomitar postas de pescada, de forma ofensiva e pouco construtiva (ao contrário do que sustentam), em comentários que fazem aos poemas de terceiros.

A falta de competências académicas impede-me de escrever teses ou tratados, com fundamentos claros e precisos, que desmontem o radicalismo dessas opiniões, no entanto, a capacidade de pensar pela minha cabeça, permite-me colocar, à consideração de todos, alguns argumentos óbvios que justificam as razões pelas quais esses opinadores caem no ridículo.

Em primeiro lugar, dizer que um poema rimado, com métrica e que aborde, por exemplo, a temática do amor (tão querida dos poetas), já não é poesia é cair na suprema asneira de considerar que Camões, Bocage, Florbela, Torga, entre outros, deixaram de ser poetas. Isso é ridículo. Dizer que rima, métrica e algumas temáticas já não fazem parte da poesia é negar que grande parte do acervo de Pessoa seja poesia. Isso é ridículo.

Em segundo lugar, considerar que os derivados do romantismo, nascido no século XIX, são os únicos e verdadeiros poetas é negar a importância de todos os outros movimentos artísticos que ajudaram a consolidar a grandeza da poesia e a fazer que a mesma tenha uma história rica, pela influência que tiveram nas tremendas modificações que as sociedades sofreram ao longo dos séculos. Isso é ridículo.

Alardear que a única e verdadeira via é a corrente romântica é contradizer as bases fundadoras do próprio romantismo. E isso, para além de ridículo, é uma demonstração de incoerência.

Mas mais ridícula é a forma extremista com que estes eruditos da modernidade passam a sua mensagem. Ao invés de se limitarem a tornar públicas as suas opiniões e, através delas, angariarem para a sua causa os outros autores, estes senhores da única e verdadeira via, andam activamente a espalhar ofensas e a denegrir tudo o que não estiver dentro dos parâmetros das suas teses radicais, com o argumento que o fazem de forma construtiva e em nome da grandeza e elevação da arte poética.

A grandeza da arte poética eleva-se com base na tolerância e respeito pela diferença. A grandeza da arte poética eleva-se com a capacidade multifacetada dos agentes criadores e das suas criações. A grandeza da arte poética eleva-se no momento em que cada autor tem a liberdade de escolher a via que pretende, os passos que quer dar no seu percurso e a forma que acha mais adequada para fazer passar a sua mensagem.

Por último e porque acredito piamente neste argumento, a poesia não é privilégio nem propriedade de alguns eruditos. A poesia é de todos.

MANU DIXIT

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

EU FALO DE... VIOLINOS AO LUAR

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR CHIADO EDITORA
Saibam mais da autora neste link
Saibam mais do livro neste link
Conheçam a editora neste link

Na medida do possível, faço questão de acompanhar muitos autores e através das leituras vou, entre outras coisas, formando a minha opinião sobre a escrita de cada um deles.

É o caso desta autora cuja escrita sempre mereceu, da minha parte, uma opinião favorável. Nos textos avulsos, que tive a oportunidade de ler, encontrei todos os elementos que considero imprescindíveis na boa poesia.

Quando, em virtude da minha parceria com a Chiado Editora, chegou-me às mãos o livro VIOLINOS AO LUAR, de Maria dos Santos Alves, fui acometido por uma curiosidade apreensiva porquanto uma das coisas que aprendi, com o tempo, é que a percepção que temos de um poema depende muito das circunstâncias e da forma como o lemos. Muitas vezes uma boa ou má leitura pode beneficiar ou prejudicar o poema e nem sempre os poemas mantêm as características quando colocados em livro, seja pela mediocridade dos outros poemas, por colocação e encadeamento errados ou simplesmente por incoerência do todo. Mas o inverso também é verdadeiro e a minha expectativa residia precisamente nessa dúvida.

A resposta aos meus anseios apareceu durante a leitura e as dúvidas deram lugar à maior das certezas. A qualidade, que reconheço na escrita de Maria dos Santos Alves, está bem presente e, para além dos fundamentos essenciais da boa poesia, também fui brindado com um excepcional equilíbrio e tremenda coerência na forma como os poemas estão distribuídos pelo livro.

Ler VIOLINOS AO LUAR é acompanhar uma sinfonia de bem escrever que nos embala e faz sonhar. Ler a poesia que, Maria dos Santos Alves, nos oferece neste livro é viajar nos braços de uma melodia e deambular a compasso pelos sons mais puros na companhia de claves de sol e colcheias. A cada poema sentimos a existência de uma harmonia única que nos transporta, de corpo e alma, para o centro de uma orquestra de sentires e vivências. Cada verso é um recital de salmos e ritmos e cada pausa é uma serenata a tudo o que nos une e define aos olhos da natureza.

Enfim, VIOLINOS AO LUAR é, simplesmente, um dos melhores livros de poesia que li em 2016. Recomendo sem reservas.

MANU DIXIT

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

EU FALO DE... A ORIGINALIDADE NO MEU PERCURSO



Quem acompanha o meu trabalho enquanto autor sabe que não me dedico a uma só fórmula, pelo contrário. Procuro que a versatilidade que uso a nível temático também exista na elaboração dos textos. Quero com isto dizer que da mesma forma que escrevo poesia sobre qualquer tema também faço questão de alternar entre os diversos estilos; umas vezes uso a rima (em quadras, tercetos, ou sextilhas), outras vezes escrevo com a estrutura dos sonetos (embora não escreva sonetos), outras ainda uso o estilo livre (sem rima) mesmo que utilize as estrofes convencionais.

No entanto, esta faceta versátil fica quase na totalidade restrita ao acto de criação porquanto no momento de reunir os textos, e transformá-los em possível livro, tenho o cuidado de dar prioridade à coerência do todo. Passo a explicar:

Exceptuando os dois primeiros livros editados, "Amador Do Verso" e "Aprendiz De Poeta", que foram compostos por poemas escritos ao longo de quase vinte anos, com temáticas e estilos diversos e sem uma linha condutora pré-concebida, todos os outros cinco têm características muito próprias que foram pensadas exclusivamente para eles.

O "Licença Poética [duetos lomelinos]", como o próprio nome indica, é um livro de duetos que, por si só, explica a natureza de excepção que justificou a sua criação.

Já o "Poetas que sou" foi cozinhado durante dois anos e consiste na reunião de poemas que escrevi para homenagear muitos dos poetas (consagrados ou não) cuja escrita é uma referência para mim.

O "Novo Respirar" surgiu um pouco de pára-quedas por influência de um incidente de saúde, sobre o qual senti necessidade de escrever, ao qual adicionei um conjunto de poemas sobre o acto de criação poética, que tinha escrito com outra finalidade mas que, por razão de estilo, acabou por encaixar na perfeição.

O "Impulsações" é um livro que reúne textos, dedicados ou inspirados por mulheres, escritos ao longo de quase cinco anos e que têm a particularidade de terem sido criados com estrutura de soneto (não são sonetos).

O último a ser editado, "Génesis", surgiu de um convite para integrar uma pequena colecção com edição limitada. Tendo em conta que este seria o meu sétimo livro decidi incluir vinte seis pequenos poemas que já tinha escrito (também com outra finalidade) e que se caracterizam pela circunstância de, todos eles, terem onze versos com sete sílabas gramaticais, ou seja, cada poema tem setenta e sete sílabas gramaticais. Sendo o sétimo livro...

Creio ser apropriado dizer, por todas as razões e mais alguma, que este é, até agora e em todas as vertentes, o meu livro mais minimalista. E digo "até agora" porque tenho finalizados, entre outros, três livros de poesia de influência oriental; para além dos que estão em construção.

Fiz esta explanação, sobre o que já editei, para dizer que tento, na medida do possível e dentro das minhas capacidades e limitações, dar um cunho de originalidade ao que vou editando. Ser original custa e é muito difícil porquanto proliferam autores, estilos e tendências, no entanto, é possível marcar a diferença se nos dermos ao trabalho de definir directrizes e emprestar coerência na hora de reunirmos os textos para um livro. Desta forma evitamos que todos os nossos livros sejam iguais e criamos, nos leitores, um grau de expectativa e curiosidade sobre o que editaremos a seguir.

MANU DIXIT