Não me recordo de alguma vez ter assistido a tanta
comoção pela entrega de um prémio, como aconteceu após a divulgação do novo
Nobel da Literatura.
Tal como, infelizmente, tem vindo a acontecer na nossa
sociedade, e cada vez com mais frequência, não houve meios termos e as posições
foram quase todas de extremos, algumas roçando o ridículo. Contam-se pelos
dedos de meia mão os argumentos minimamente coerentes usados tanto de um lado
como de outro.
Como não me revi em nenhum deles, senti necessidade de
expor a minha opinião que, vale o que vale, é apenas isso mesmo, mais uma
opinião.
Em primeiro lugar quero dizer que, ao contrário de
muita gente, eu não creio que se tenha aberto uma caixa de Pandora ao atribuir
este galardão a um músico, porquanto o prémio é para o poeta Bob Dylan e não
para o "tocador de harmónica". Por isso descansem os intelectuais
puritanos que não veremos o mesmo acontecer com o Michael Bolton ou o Elton
John.
Por outro lado, temos de ter em atenção que uma coisa
é poesia e outra, bem distinta, são os poemas de canções. Há sempre tendência
para não saber distinguir uma coisa da outra. Infelizmente, são poucos os
músicos que escrevem poesia. Entre esses posso referir dois nomes da lusofonia
que, na minha opinião, podem ser apelidados de poetas pela riqueza literária
das suas obras: Chico Buarque e Sérgio Godinho.
Um dos argumentos que mais me chamou a atenção foi que
Bob Dylan sempre se apresentou como músico e nunca como poeta. Pois bem, podem
acreditar, aqueles que se auto-intitulam poetas raramente o são. Ser poeta não
é um estatuto de auto-proclamação mas sim um estado de aceitação que é
concedida pelos outros através desse epíteto.
Para aqueles que duvidam, embora sem argumentação
capaz e válida, que Bob Dylan está longe de ser um poeta, recordo-vos o filme
Dangerous Minds, com a sensualíssima Michelle Pfeiffer, em que a poesia do novo
Nobel é estudada em paralelo com o popular, mas não galardoado, Dylan Thomas.
Poucos sabem mas o filme foi baseado em factos reais e a poesia de Bob Dylan
serviu mesmo para mudar algumas vidas que, de outro modo, estariam
irremediavelmente perdidas.
Para terminar quero deixar expresso o meu regozijo por
todo o folclore em redor da atribuição deste Nobel da Literatura, pois revela
que, quando o galardoado é conhecido do grande público, ao contrário da maioria
dos anteriores, as massas sentem-se na obrigação de dizer algo, só porque sim.
E isto nunca poderia acontecer com outro Nobel que não o da Literatura.
MANU DIXIT



