quinta-feira, 13 de outubro de 2016

EU FALO DE... NEM MESMO SOSSEGADO NO MEU CANTO

Uma das coisas mais valorosas que aprendi, pela educação de berço, foi pensar pela minha cabeça e defender, com frontalidade e honestidade, os meus princípios, independentemente das consequências que daí pudessem advir.

Tenho plena consciência que, tal como em outros aspectos da vida quotidiana, também no universo da escrita, do qual faço parte desde 2008, então apenas como mero elemento observador, esta minha postura nem sempre foi considerada positiva; prova disso são os inúmeros "desencontros" com autores e/ou editores. No entanto, e mais uma vez, por educação de berço, sempre encarei esses episódios como algo natural mas sem dar mais importância do que aquela que os mesmos tinham.

Admito que poderia, em alguns momentos, ser menos incisivo, menos mordaz, até mesmo, menos acutilante, mas, verdade seja dita, se agisse dessa forma estaria a trair tudo aquilo que sou enquanto homem. Por outro lado, esta mesma forma de estar também me brindou com amigos e algumas outras afinidades, baseadas no respeito e não na concordância absoluta com a minha postura.

Do mesmo modo que não me coíbo de dizer, alto e bom som, as minhas opiniões, também sei remeter-me ao silêncio, sempre que acho ser necessário. Aliás, quando o faço é por ter a certeza que, a quem muito prega, pode acontecer uma de duas coisas; torna-se repetitivo e completamente previsível, e desse modo a mensagem não passa; ou limita-se a falar sozinho, que é como quem diz: prega no deserto.

Estando eu numa destas fases em que prefiro reservar-se ao silêncio e deixar a minha irreverência descansar um pouco, surge-me a prova que nem mesmo sossegado no meu canto as pessoas me esquecem. As pessoas não entendem que o meu silêncio não significa que tenha deixado de ter uma opinião porquanto, pior do que não opinar é não ter opinião alguma.

Mas, dizia eu, estando em fase mais comedida e pouco interventiva, eis que, ontem, numa conversa com um autor, disse-me o próprio, em jeito de queixume envergonhado, que pretendia que eu fosse o prefaciador do seu último livro e que só não me convidou para essa tarefa porque a pessoa responsável pela editora o desaconselhou a agir desse modo.

Se, por um lado, compreendo e até aceito a relutância desse/a responsável editorial em ver o meu nome associado a um dos seus produtos, já fica mais difícil entender como é que um autor sujeita a sua vontade, se é que ela realmente existiu, aos caprichos de terceiros. Pelo menos esse/a responsável guia-se pelos mesmos preceitos que eu: diz o que pensa e age pela sua cabeça. O mesmo não se poderá dizer do autor.

Queixam-se de ouvir o que não gostam mas, nem mesmo sossegado no meu canto, me deixam.


MANU DIXIT 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

EU FALO DE... SIMPLESMENTE POESIA

SAIBAM MAIS DO LIVRO NESTE LINK

Regra geral, quando falamos com autores sobre os processos criativos e os conceitos de poesia ficamos com uma ideia mais ou menos clara daquilo que cada um escreve. Por isso, na hora de lermos os seus livros, já sabemos de antemão o que esperar, e normalmente, se nos surpreendemos, é pela negativa. Contudo, existem excepções à regra.

Serve o parágrafo anterior para vos apresentar um livro que me surpreendeu positivamente, não tanto pelo conteúdo mas mais pela discrepância entre o que li e as poucas conversas que tive (todas em ambientes tertulianos) com o autor.

Nos encontros de autores, escutarmos sempre aquelas velhas máximas: "Escrevo o que me vem da alma", "A minha poesia vem de dentro", "Escrevo o que sinto e vejo", "Escrevo sobre o que me rodeia". Diz-me a experiência, de muitos eventos literários, que quando alguém profere uma destas frases é como se dissesse: "Os poemas que escrevo são todos iguais e se lerem o primeiro, o da página vinte ou o da cem, vão ter as mesmas sensações". E autores desses temos aos milhares. Basta estar atento ao que se vai editando para perceber essa realidade.

Quando, no final de uma dessas tertúlias, Luís Sequeira Lopes me entregou o seu livro e pediu que escrevesse uma crítica, confesso, com a franqueza habitual, ter pensado que SIMPLESMENTE POESIA seria mais um daqueles livros, que tantas vezes me passam pelas mãos, com um conteúdo enfadonho e cuja leitura seria penosa. Com a mesma franqueza assumo o quanto estava enganado.

Para começar tenho de dizer que o título SIMPLESMENTE POESIA não poderia estar mais bem entregue. Este é de facto, e com toda a propriedade, um livro de poesia, do princípio ao fim. Com uma estruturação lógica e sólida, os poemas são-nos apresentados de forma honesta; equilibrados, coerentes e com uma riqueza vocabular cada vez mais rara. Cada poema respira por si só em cenários montados para cada um deles, ou como diz, e bem, a prefaciadora: "... dando origem à criação de dissemelhantes poemas". Para além disso, as temáticas jamais se atropelam (como tantas vezes acontece noutros livros), o que, salvo melhor opinião, lhe confere uma mais-valia importante.

Ao ler esta primeira obra, de Luís Sequeira Lopes, e tendo em conta as suas intervenções nas tertúlias, chego à conclusão que, através da leitura dos seus poemas, passei a conhecer mais e melhor o autor, porquanto, tal como disse anteriormente, existe uma tremenda discrepância entre os discursos nas tertúlias e os poemas deste livro. O mesmo é dizer: Luís Sequeira Lopes diz as mesmas frases comuns e as mesmas velhas máximas que a quase totalidade dos autores mas escreve como poucos.

Só consigo explicar esta discrepância afirmando que estamos perante alguém que apenas se liberta completamente quando tem a caneta na mão (ou em frente ao ecrã do computador) e que na presença de outros autores (nem todos mais experientes mas mais ousados) revela a sua faceta mais introvertida.

Quem escreve com a qualidade demonstrada neste SIMPLESMENTE POESIA tem, indubitavelmente, uma voz própria e não pode, nem deve, explicar a sua poesia e os conceitos que a regem com lugares comuns ou frases batidas. Quem traz à estampa um verdadeiro livro de poesia como este deve sentir-se mais seguro de si, na presença de outros autores, e lembrar-se que não é o volume da obra nem a extensão da mesma que faz um bom autor, é a qualidade. E essa não falta em SIMPLESMENTE POESIA.

MANU DIXIT


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

EU FALO DE... III ENCONTRO DE POETAS DE LÍNGUA PORTUGESA

Quem acompanha a minha forma de estar no universo da escrita sabe que, apesar de ser cidadão português, sempre me considerei um autor lusófono. Seguindo essa condição, quando em 2013 a poeta Mariza Sorriso me falou do seu projecto de lusofonia, não tive qualquer dúvida em disponibilizar-me para colaborar, dentro das minhas capacidades e no que pudesse ser útil.

A ideia original transformou-se numa feliz realidade abraçada por algumas pessoas e o projecto ganhou corpo de evento em Setembro de 2014. Assim nasceu o I Encontro de Poetas de Língua Portuguesa. 

Ao contrário de muitas outras boas ideias, a continuidade deu-se como desejado e em Setembro de 2015 foi possível dar vida ao II Encontro de Poetas de Língua Portuguesa, com a novidade do mesmo ser celebrado em eventos realizados no Brasil e em Portugal e da adesão dos participantes ter aumentado substancialmente.

Com esse reforço moral confirmou-se a validade do projecto e ficou desde logo definido que havia margem de manobra suficiente para crescimento. O III Encontro de Poetas de Língua Portuguesa veio provar essa análise e, mantendo a multiplicidade de eventos do ano anterior, voltou-se a constatar um aumento considerável na participação dos autores, em 2016.

Foi bonito ver a Sala Nobre do Palácio da Independência cheia de autores, em representação de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e Timor. Foi bonito presenciar o quanto uma língua pode servir de motivo aglutinador e de intercâmbio entre as diversas sensibilidades, diferentes sotaques e distintos modo de estar. Foi bonito assistir a esta união da lusofonia. Foi bonita a festa e o contributo de cada um dos presentes. Foi bonito o III Encontro de Poetas de Língua Portuguesa e é um orgulho fazer parte de algo com tamanha beleza.


MANU DIXIT 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

EU FALO DE... EMPRESTA-ME A PALAVRA


Regra geral, é complicado escrever umas quantas palavras sobre a obra de um autor que conhecemos sem evitar que as mesmas se façam escutar como meros elogios de amizade, no entanto, não podia deixar passar a oportunidade de, correndo o risco de ser entendido de forma incorrecta, tecer algumas considerações sobre o mais recente trabalho do poeta e amigo António MR Martins.

António MR Martins é um dos autores cuja vasta obra editada acompanho desde o início. Ao longo dos anos, e a cada livro colocado nos escaparates, este poeta de mão cheia, tem brindado os seus leitores com uma poesia inconfundível. Independentemente das temáticas e dos géneros utilizados no acto de criação, a escrita que nos apresenta tem uma forte marca identitária que o separa dos restantes. Comummente, esta característica, é designada por "voz própria" e é através dela que os autores se distinguem, ganham algum destaque pela diferença e se transformam em referência, pela capacidade de influenciar/inspirar as criações de outros autores.

Neste novo trabalho (EMPRESTA-ME A PALAVRA) António MR Martins, quis elevar a fasquia e proporcionar aos seus leitores um verdadeiro manual de como escrever sob influência/inspiração de outros autores mantendo a "voz própria". Por outras palavras, neste livro o autor, que conquistou com a sua obra o estatuto de referência, cria os seus textos em redor de fragmentos de obras de outros autores, que são as suas referências.

À primeira vista, e para aqueles que simplesmente escrevem, esta pode parecer a mais fácil das formas de criação; puro engano. Para realizar-se algo desta índole são necessárias muitas horas de leitura, pesquisa e trabalho exaustivo com as palavras. Este género de empreitadas exige grande conhecimento das obras e dos autores e uma enorme capacidade de filtrar, entre as informações recolhidas, o essencial e transformá-lo em material relevante para a construção de novos textos.

Em resumo, EMPRESTA-ME A PALAVRA acaba por ser quase um livro de diálogos, entre António MR Martins e todos os autores cujos versos/frases utilizou como epigrafes. De um lado temos uma miríade de autores e suas "sentenças" e do outro temos António MR Martins a contribuir com a sua "voz própria".

Um livro que recomendo vivamente.

MANU DIXIT  


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

EU FALO DE... TERTÚLIAS VERSUS SARAUS


Um dos aspectos que caracteriza o ser humano é a capacidade/necessidade de estar permanentemente em contacto com os seus semelhantes.

Desde o momento que nascemos, passamos a fazer parte de uma família e, por consequência, à sociedade, e ao longo da vida vamos tentando a inserção em vários grupos, quase de forma natural. Todos nós frequentámos a escola e tivemos as nossas turmas, depois passámos a trabalhar e passámos a fazer parte de um grupo restrito de pessoas lá da empresa. E passámos a pertencer à ordem dos advogados, dos engenheiros, dos médicos, dos enfermeiros, aos sindicados ou inscrevemo-nos como sócios de clubes desportivos e/ou culturais.

Esta busca pela integração em diversos grupos justifica, por si só, o aparecimento de colectividades, clubes restritos e/ou organismos com características específicas e particulares.

Neste contexto e dando seguimento a iniciativas que remontam a séculos passados, surgiram duas espécies de eventos culturais, com conceitos e objectivos distintos. Falo das tertúlias e dos saraus.

Ignorando os aspectos sociais-elitistas que estiveram na génese de ambos os movimentos e cingindo-nos apenas às fórmulas, devemos ter em conta que os saraus surgiram com base mais performista e as tertúlias com cunho de debate. Isto é, enquanto nas tertúlias os intervenientes dialogavam sobre temáticas específicas e limitavam-se a argumentar sobre o assunto dessa tertúlia, nos saraus era possível escutar música, ouvir poesia e assistir a pequenas peças de teatro. Enquanto nas tertúlias variavam, a cada encontro, o tema a discutir e incentivavam o aparecimento e intervenção de novos tertulianos, nos saraus não havia rigidez temática mas as performances limitavam-se a dois três "artistas" da moda.

Serve esta pequena e resumida comparação para explicar a proliferação errada das tertúlias e o quase desaparecimento dos saraus, sendo que o aumento de um e a diminuição de outro devem-se, única e exclusivamente ao desconhecimento, daqueles que os promovem e/ou frequentam, sobre como cada um deles deve ser organizado. A confusão é tal que, hoje em dia, dá-se o nome de tertúlia a todo e qualquer encontro de autores e depois, aqueles que aparecem para uma verdadeira tertúlia são confrontados com saraus de poesia onde, regra geral, se assiste a um desfile de vaidades por membros de um grupo específico, quase elitista.

Felizmente ainda há verdadeiras tertúlias onde podemos exprimir as nossas opiniões sobre temas específicos sem nos preocuparmos com a nossa condição de autor e/ou leitor. E eu, como tertuliano que me quero e considero, não perco a oportunidade de chamar os "bois pelos nomes" e aponto o dedo de peito aberto.

MANU DIXIT