Ao contrário do pensamento generalizado (e muitas
vezes gritado como se o feito fosse algo extraordinário por estes dias) eu vejo
a minha presença na 85ª Feira do Livro de Lisboa apenas como mais um evento. Em
oposição ao alarido que vejo, por parte de alguns autores, tenho-me limitado a
fazer a divulgação tal como faço nas vésperas dos lançamentos dos meus livros.
Longe vão os tempos em que ser autor com assento na
Feira do Livro era uma efeméride tão prestigiante como receber um prémio
literário. Hoje é algo corriqueiro e banal. Diariamente são inúmeros os autores
que se apresentam para sessões de autógrafos: quase o mesmo número de autores
que limitam-se a ficar sentados, de caneta na mão, numa espera vã pela chusma de
leitores que ilusoriamente podem aparecer. Entre aqueles que conseguem criar
alguma movimentação nas bancas, que as editoras lhes disponibilizaram, estão os
que aparecem com a "camioneta" de familiares e amigos prontos para
fazer desse evento um momento de arraial com a respectiva sessão fotográfica.
Sei que ao lerem este meu artigo, alguns distraídos ou
leitores em diagonal vão passar por cima do que escrevi no primeiro parágrafo e
dizer que estou a ser incoerente ao desvalorizar a importância da Feira do
Livro e, mesmo assim, ser um dos autores com sessão de autógrafos agendada para
esse evento. A esses tenho a dizer que não existe incoerência alguma porque não
estou, com este texto, a desvalorizar a importância da Feira do Livro. Estou é
a contestar a sobrevalorização que tenho visto alguns autores fazerem
(autênticos festivais de ilusão) como se ficar uma hora sentado, de caneta na
mão, a dar meia dúzia de autógrafos, fosse o suficiente para se consagrarem. A
presença numa feira do livro não passa de uma efeméride e, como a própria
palavra sugere, é um acto efémero (de curta duração).
Sim, vou estar na 85ª Feira do Livro de Lisboa, numa
sessão de autógrafos organizada pela editora do meu último livro. Sim, muito
provavelmente estarão presentes alguns amigos da escrita e serão tiradas
fotografias para mais tarde recordar. Pode até acontecer que tenha de dar um ou
outro autógrafo. Mas não estou cego de ilusão. Não criei nem criarei nenhuma
expectativa sobre o que pode acontecer. Não, não cairei na presunção de achar
que depois tudo vai ser diferente, que as coisas vão melhorar e que as vendas
vão disparar. E é isso que eu tenho visto outros fazerem; criarem ilusões
desmedidas.
Ninguém vai conseguir destacar-se apenas por estar
disponível durante uma hora para dar autógrafos numa feira do livro. Da mesma
forma, ninguém ganha notoriedade por aparecer (através de cunhas e não por
mérito) em programas de televisão sensacionalistas - pelo menos em Portugal.
No fundo, este meu artigo é apenas um desabafo de quem
tem os pés bem assentes na terra e sabe que há duas formas de alcançar um lugar
ao sol: por mérito ou por vassalagem. A primeira é difícil de percorrer. A
segunda é mais fácil mas simultâneamente volátil. Em ambas, há que saber
separar a realidade da ilusão e é aqui que a porca torce o rabo quando olhamos
para as atitudes e discursos de certos autores.
MANU DIXIT






