Já por diversas vezes defendi (e continuarei a
fazê-lo) que o conceito de qualidade é muito vasto e, por essa razão,
discutível e abstracto. Cada um de nós vai criando padrões de qualidade,
influenciado pelo que lê e pelos gostos e experiências que vai adquirindo ao
longo da vida. Se assim não fosse seria mais fácil determinar o que tem (ou não
tem) qualidade e por consequência teríamos todos o mesmo gosto e, quem sabe,
talvez o mau e medíocre nem existissem.
Em simultâneo com esta definição, desenvolveu-se em
mim, ao longo dos anos, a crença que a qualidade da nossa escrita depende,
entre outras coisas, do que lemos. Não basta ler muito e diversificado, também
é necessário ler qualidade, mesmo a qualidade que não nos atrai tanto. E,
dentro dos meus parâmetros, tenho lido muitos livros de grande qualidade; e não
falo apenas dos clássicos. Existe muita escrita de qualidade por esse mundo
fora que escapa ao olhar da maioria e, por isso, fica quase confinada ao
anonimato.
No entanto, acredito que a qualidade não pode
restringir-se apenas a uma questão de gosto pessoal. Para melhor esclarecer
este meu pensamento vou recorrer à obra de Fernando Pessoa e seus heterónimos.
Não conheço ninguém que seja suficientemente audaz para dizer que existe
mediocridade em algum dos trabalhos deste grande poeta. Conheço sim pessoas que
gostam mais dos textos assinados por Álvaro de Campos ou de Alberto Caeiro,
Ricardo Reis, Bernardo Soares, Vicente Guedes ou outro qualquer heterónimo.
Pode não existir unanimidade quanto ao melhor Fernando Pessoa mas a qualidade
de todos, e do todo, é unanimemente reconhecida. Dito isto, é perfeitamente
lógico que podemos ter os nossos padrões de qualidade mas devemos saber
reconhecer, no que não gostamos, a qualidade existente.
Para personalizar um pouco mais este ponto voltarei a
utilizar o exemplo de um dos melhores livros que li em 2012 - PORTAS MÁGICAS de
Marta Teixeira Pinto. Disse-o várias vezes, as histórias de magia e fantástico
não estão dentro das minhas preferências literárias mas esse facto não me
impediu de reconhecer a qualidade que este livro tem e, em mais de uma ocasião,
referi que não me importaria absolutamente nada ser o autor dessa obra. Não,
não fiquei fã do género mas fico ansioso pelo próximo trabalho da autora.
Outro trabalho que mereceu de mim a mesma afirmação
"não me importaria absolutamente nada ser o autor dessa obra" foi o
livro CIDADE EMPRESTADA de Francisco Valverde Arsénio, editado em 2013. Este,
já dentro do género literário da minha preferência, foi, sem a mínima dúvida,
um dos melhores livros de poesia que tive a felicidade de ler e, não tenho
problema algum em dizer, qualquer dos grandes nomes da poesia sairia
prestigiado sendo o autor deste livro.
Tudo o que escrevi até este momento serve de
introdução para dizer que este fim-de-semana estive a ler um ficheiro pdf que
me foi enviado, por um autor, com o propósito de saber a minha opinião. Pois
bem, sem entrar em grandes detalhes porque o trabalho em questão ainda não está
editado, resta-me dizer que não me importaria absolutamente nada ser o autor
dessa obra. Se o projecto, tal como me foi apresentado, merece o meu respeito e
total apoio pelo facto de ser muito interessante, depois de ler o ficheiro, o
autor merece também a minha mais profunda admiração pela obra que criou.
A minha biblioteca pessoal tem neste momento perto de
1300 títulos (desde os clássicos até às edições de autor). Aprendo imenso com
cada um deles, independentemente da qualidade e tento que isso se reflicta nos
meus próprios trabalhos. Tenho livros de muita qualidade, outros nem pouco mais
ou menos. Gosto de muitos dos livros que tenho, de outros nem por isso. Sou
autor de seis livros. Em dois livros não me importaria absolutamente nada ser o
autor. Acho que em breve o terceiro poderá entrar em fase de produção. Espero
ansioso!
MANU DIXIT






