sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

VAMOS FALAR DISSO... ÂNGELA GONÇALVES

O MEU AGRADECIMENTO À ÂNGELA GONÇALVES POR PERMITIR QUE ESTE ESPAÇO PARTILHE O SEU TEXTO CRÍTICO.

Criticar não é mandar o outro abaixo porque me apetece ou me sinto dono da razão.
Ajudar não é mostrar pena pelo outro e não levantar o rabo sequer do sofá.
Sempre ouvi dizer que há falta de cultura neste país. No entanto, também descobri que há falta, não de dicionários, mas de pôr os pontos nos is em certos termos e algumas atitudes e valores.
Não costumava perceber o porquê das pessoas não se entenderem, mas acho que começo a chegar a alguma conclusão. Parece que não, mas nos dias de hoje, para além de falta bom senso (nada de senso comum), bom senso e educação mesmo, na nossa sociedade também falta aprender o significado das palavras, a base das bases. E quem diz que só por si a Língua Portuguesa não é cultura?! É cultura sim e, para mim, é também a minha pátria. Será que ainda há por aí quem saiba o que realmente significa ter uma pátria? Eu ainda me orgulho de dizer que a minha Pátria é a Língua Portuguesa. Só não me orgulho da sociedade que me rodeia onde se acham todos diferentes, mas na verdade são todos iguais. Monopolizados e controlados pelas tecnologias, presos ao conhecimento que vão adquirindo apenas na escola e convencidos de que o futuro é garantido sem que se mexa uma palha.
Sinto-me estagnada na Era dos Maias em que a parte dos jovens cultos era escassa. Pois o ciclo fechou e estagnou...
Não sou detentora de todo o conhecimento e muito menos de toda a razão, mas tenho uma opinião bem definida. Gostava de ter a capacidade para poder espalhar conhecimento, educação, valores e sabedoria. Infelizmente é algo que nunca possuirei.
Gostava de ter caído no mundo na altura de Fernando Pessoa, não que essa altura fosse diferente desta, porque não o era... No entanto, era mais fácil saber em que grupo me inserir e saberia que tinha alguém com quem contar para dar uma reviravolta ao Mundo. Podia não ter forças para tal nem voz para gritar tão alto, uma voz que se fizesse ecoar em todos os quatro cantos deste planeta e que, ao voltar para trás trouxesse consigo o grito de glória. Mas sei que iria tentar! Na verdade, todos os dias o tento: às vezes silenciosamente, num dia mentalmente, no segundo deprimindo por falta de forças, mas sempre batalhando para me conseguir, um dia, expressar de forma a que toda a gente me ouça. Mas, antes disso tenho de reunir todas as forças, argumentos, opiniões, conclusões,... tudo o que for necessário para travar uma luta destas. Sei que as palavras nunca se acabarão e que não me querem deixar ficar mal. A única coisa que pode acontecer, é eu pecar por falta de compreensão por parte do público alvo. Ignóbeis, incultos, vidrados em redes sociais e em tudo o que é mesquinho pensando que estão cada vez a socializar mais, mas a tornarem-se todos os dias cada vez mais em máquinas desumanizadas e sem pensamento próprio. Basta! Só quero gritar de desconforto e incompreensão. Antes, aquele que se fechava para escrever (o dito escritor) era considerado maluco, o carente, dramático, que só queria chamar a atenção e era desprezado por todos, hoje temos isso em todas as pessoas só que com a diferença de que, para além de não se aperceberem daquilo que está a acontecer, são mesmo carentes por falta de sentirem o amor da forma real, já só conhecem o materializado, não só por bens, como pelas redes sociais.

E nada disto estaria eu a escrever se isto não me afetasse. (Considerem-me egoísta.) Afeta, afeta sim! Não porque eu própria estou presa, mas porque tenho de me prender se quero contactar com os outros que não saem de casa por estarem enjaulados ou porque mesmo em casa me fecho na solidão porque também aqui há jaulas. Sorte dos animais que vivem no jardim zoológico, consegue ser menos solitário e doloroso. E afeta-me ainda mais quando vejo que quero ajudar aqueles que posso, sabendo que também preciso de ajuda e levo com facadas atrás de facadas, porque eu sou caprichosa apenas por querer passar um pouco de tempo fora da tecnologia com aqueles de quem eu mais gosto e que, se não estou online todos se preocupam e se zangam comigo. Mas já pensaram que o melhor da vida é feito offline? Já viram algum nascimento ser feito através de uma impressora? Pois, a vida nem sequer começaria se não nos desprendêssemos de tal perigo tecnológico.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

EU FALO DE... TRISTE REALIDADE

Independente da maior ou menor visibilidade que os meus artigos sobre literatura têm na internet e da maior ou menor regularidade com que os escrevo e divulgo, uma coisa é certa: todos eles têm sido escritos na primeira pessoa e abordam principalmente aspectos negativos. O facto de estar há algum tempo sem escrever não significa que tudo vai bem no "Reino da Dinamarca", bem pelo contrário. Infelizmente, no mundo das artes em geral e no universo literário em particular, existem demasiadas situações a melhorar e, embora não fique chocado ao ser confrontado com elas, fico triste quando elas acontecem e chegam ao meu conhecimento.

Não é raro ler-se, nas redes sociais, "desabafos" de alguns autores quando confrontados com realidades difíceis de entender e para as quais quase nunca recebem explicações plausíveis e coerentes. Por norma, os diversos agentes literários (editores, livreiros, etc) têm enraizado a mesma ladainha, como se fossem todos criados na mesma linha de montagem, e quando são questionados sobre algumas situações atiram as responsabilidades para cima uns dos outros sendo que, como consequência disso, a culpa morre sempre solteira e os autores são aqueles que mais prejudicados ficam.

Como referi no parágrafo anterior, não é raro encontrarmos "desabafos" de alguns autores e isso, por si só, seria motivo para que eu estivesse aqui constantemente a escrever sobre o assunto. No entanto, ao contrário de outras ocasiões em que eu escrevo de forma genérica, desta vez decidi abrir uma excepção e falar de um caso particular que envolve um autor/homem que muito admiro e respeito, não só pela forma como se entrega ao seu ofício mas também pela sua postura na vida. E a admiração não é de agora.

O autor em questão, tendo dedicado quase toda a sua veia criadora à poesia decidiu recentemente enveredar por outro registo literário e fez a sua estreia como prosador. Muitos fazem o mesmo percurso e até aqui não vos contei nada de novo. A novidade; ou dito da melhor forma; a feliz novidade é que em pouco mais de dois meses, através da qualidade da sua escrita, pelo seu empenho, entusiasmo e entrega total à questão literária, o livro esgotou nas livrarias.

Neste momento, os que estão a ler este artigo estarão a perguntar: Mas onde é que está a parte negativa desta história? Pois bem, agora vou saciar-vos a curiosidade:

Então não é que... a editora recusa-se a fazer a segunda edição do livro?!
Então não é que... a editora argumenta que as livrarias não aceitam mais exemplares do livro, por isso não avança para segunda edição?!
Então não é que... a editora argumenta que o autor não é suficientemente consagrado para fazer segunda edição?!
Então não é que... mesmo com imensos pedidos de leitores a editora recusa fazer segunda edição?!

Perante esta situação, no mínimo ridícula, sinto-me na obrigação de formular umas quantas questões e tecer alguns comentários.

1º- Desde quando é que o raio de um livreiro consciente recusa ter na sua livraria exemplares de livros que têm procura e são vendidos?
2º- Que raio de livreiro se mantém impávido e sereno perante pedidos de livros por parte dos clientes?
3º- Que raio de editor é que usa como argumento o facto do "seu" autor ser ou não consagrado para justificar a viabilidade de uma segunda edição quando o livro é notoriamente um sucesso de vendas?
4º- Que raio de editor responsável e com olho para o negócio recusa entrar em segunda edição de um livro quando é o público leitor que está a procurar o livro sem o encontrar?

Estas são algumas das perguntas para as quais ninguém, em seu perfeito juízo, encontra respostas satisfatórias. Não creio que se possa apelidar alguém de bom gestor de negócios quando se colocam pseudo-entraves ao normal  funcionamento e valorização de empresas (neste caso livrarias e editoras). Não quero acreditar que existem pessoas tão limitadas comercialmente que não conseguem ter o discernimento para agir em conformidade com as necessidades do seu negócio aproveitando uma situação tão evidente de sucesso autoral.

Ninguém no seu perfeito juízo consegue entender a inércia de alguns editores e livreiros perante “produtos” vendáveis. Por muito que nos custe, a grande verdade é só uma... a maioria dos agentes literários são incompetentes sendo que, na generalidade, nem têm ligação alguma ao mundo da cultura a não ser o seu próprio posto de trabalho. Não é compreensível assistir a atitudes tão contra-natura por parte de quem tem nos ombros a responsabilidade de elevar culturalmente um povo. Perante tamanha falta de perspicácia não se venham queixar da inexistência de leitores. Como se prova neste caso, os leitores existem. O que não existe é vontade de ir ao encontro daquilo que os leitores querem ler.

Uma das argumentações que mais me intrigou foi a do “autor consagrado”. Por favor, alguém me explique, como se eu tivesse cinco anos, quando é que um autor deixa de ser desconhecido para se transformar em consagrado. Como é que essa transformação acontece? Quando é que acontece? Será que estou errado se disser que a consagração de um autor acontece pela aceitação dos leitores? Se assim for, como é possível um autor tornar-se consagrado se os editores recusam satisfazer as exigências dos leitores? Como é possível um autor ser consagrado se editores e livreiros recusam-se a vender os livros que os leitores querem ler? Se na música existem os discos de ouro e platina para “premiar” objectivos de vendas, não serão as segundas, terceiras e mais edições a forma de premiar e consagrar os autores que o público quer ler?

Por último e para terminar esta minha dissertação quero endereçar ao meu amigo e colega das letras, Luís Ferreira, os meus parabéns pelo sucesso que o seu romance tem alcançado, e a minha total solidariedade pelo momento menos feliz que está obrigado a viver por inércia, incompetência e falta de visão do seu editor. E digo isto não por ser seu amigo e admirador. Digo isto porque sei que existem muitos outros editores que gostariam de ter no seu catálogo os trabalhos dele e, certamente, dedicariam o género de atenção que o seu romance merece.


MANU DIXIT 




sábado, 1 de março de 2014

VAMOS FALAR DISSO... FILIPE MARINHEIRO

O TOCA A FALAR DISSO É UM BLOGUE QUE GOSTA DE DAR VOZ AOS AUTORES DO UNIVERSO DA LUSOFONIA E QUANDO O AUTOR FILIPE MARINHEIRO ENTROU EM CONTACTO COM ESTE ESPAÇO PARA FALAR UM POUCO DA SUA OBRA, A RESPOSTA NÃO PODIA SER OUTRA. 


Filipe Marinheiro nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982.
É natural e reside em Portugal Cidade de Aveiro. Poeta.

Chegou em Dezembro de 2013 às livrarias o novo livro de Filipe Marinheiro intitulado “Silêncios” pela Chiado Editora. A obra reúne cerca de 270 poemas inéditos em 378 páginas.

Em desdobramentos melancólicos entre poesia em prosa e verso, a realidade poética é uma densa complexificação que devora o universo e é, ao mesmo tempo, devorada por ele.

A escrita desta segunda obra do jovem poeta é pautada pela construção e desconstrução da linguagem, resultando numa poesia de transfiguração e transmutação, caracterizando o sujeito poético como plural, obscuro e enigmático. Léxicos múltiplos, caminhos diversos para dar a conhecer os diferentes acontecimentos da sensibilização, a fim de exprimir o que mais puro existe na existência. Em “Silêncios”, a rebeldia e fragmentação da linguagem quase que hipnotiza a atmosfera envolvente, desenvolvendo uma sobre-realidade alquímica e mística, purificando a própria palavra e o vazio absoluto.

A força motriz da sua obra concentra-se nesse excesso do sensível, duplamente graça e maldição. Se por um lado, confere acesso a mundos mágicos e ao encanto dos sentidos pela sensibilidade e imaginação, por outro lado, exponencia o sofrimento, a angústia, a dor, a revolta causada pela violência da opacidade e agressividade do mundo, realidade insuportável que estremece o seu universo poético. Poesia de deambulação, vigília inquieta, procura ofegante de espaço vital, grito infinito da fragilidade extrema do ser humano nesta subtil inércia das forças.

O leitor é arrastado por um turbilhão de sentidos, em desvios múltiplos, num excesso imagético — despido e desamparado encontrará a verdade do ser. Apesar de uma poesia marcadamente desassossegada e melancólica, a tónica da mensagem de Filipe Marinheiro é esperança de resolução do mundo pela suavidade, beleza e pelo amor.

Para que se possa melhor conhecer este autor, o único caminho é lê-lo, atravessar a obra para encontrar os seus próprios “Silêncios”.

É possível encontrar uma forte influência dos poetas: Al Berto, Herberto Helder, Artur Rimbaud, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa, Lautréamont, Paul Verlaine, Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire, Paul Bowles, Antonio Gamoneda, entre outros...


OPINIÃO ACERCA DE "SILÊNCIOS"

«A intenção era apenas ler um, e acabei por ler todos, experimente é bem possível que lhe aconteça o mesmo.
A sua poesia, a sua crítica revestida por um inconformismo constante. Vem abalar alguns pilares que apesar de corroídos se vão mantendo, cheios de pensos rápidos. Sem ninguém se aperceber ou apercebendo-se e não querendo admitir, estes pilares se não tiverem uma reestruturação, um restauro afim de preservar o que de bom ainda têm, acabarão por cair. Não gosto do cenário. Eles deverão continuar de pé, não com o material degradado e desgastado pelo tempo e curado com pensos rápidos, e sim com uma intervenção cirúrgica que lhe forneça sangue novo. Desejo-lhe muitos leitores e Parabéns Filipe :) adorei e um bem haja à Chiado Editora :)»
Leitora Paula Duarte

 ENTREVISTA

Filipe Marinheiro nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982.
É natural e reside em Aveiro.

Em Dezembro de 2013, publiquei o meu segundo livro, “Silêncios”, com a Chiado Editora.

Livro que cria náusea e dor no leitor, ao reviver todas as experiências de vida e de morte e o seu questionamento. “Silêncios” ondula entre o tom alegre e o melancólico. Evoca uma linguagem de pureza e suavidade que abre vórtices para o tangível e o intangível, entre passagens viscerais até atingir percepção absoluta da beleza inimaginável. Dá ar e vida, sangue e respiração… e essa respiração é dicotómica: tanto é ofegante como também abranda, dando pois uma vida e um pulsar do coração a objectos e coisas invisíveis e inanimadas.

Ao percorrer essa beleza que é palpável e impalpável, rasa como que num estilhaço, todos os elementos da natureza e todas as suas paisagens. Uma poesia irrequieta, recalcada, vivenciada numa doçura triste que flutua entre o oxigénio e o dióxido de carbono do dia e da noite.

Poesia em estado selvagem, rebelde. Cada poema que faço é uma busca incessante do silêncio definitivo, alegoria para o local da paz. Procuro rebentar com toda as canonicidades de alguma da literatura actual.

Para mim, só existe o acto de escrita enquanto escrita em si, como pensamento livre. Tudo o resto é literatura… e o acto de leitura e interpretação deve ser igualmente livre, cada pessoa deve tirar a sua própria ilação, procurar os seus próprios silêncios. O mesmo poema poderá ser límpido ou compacto, dependendo dos olhos de quem o lê.

A poesia é um jogo de estados de espírito… aliás, eu não sei o que é a poesia, não sei defini-la. O acto de escrever poesia é simplesmente um jogo de estados de espírito reflectidos num espelho metido para dentro e para fora. A palavra e a linguagem são meros instrumentos. Dialogando diariamente com ela, espero continuar sem saber o que é a poesia e muito menos o que é ser-se poeta! Se pela força da vida algum dia souber defini-los, estarei louco ou morto.

Filipe Marinheiro


“Estou à disposição de muito poucas pessoas, detesto as horas profanas quando estou com elas por estar.
É perturbante o meu desgaste ininterrupto apelando à figura diabólica entre crueldade assombrosa e decifráveis homenagens presas aos sustos lúcidos desses diálogos (perguntas-respostas, respostas-perguntas, suposições enfadonhas, inamovíveis, ninguém sabe bem o que é, o que são, para que servem?).

Por isso, é-me trágico, tampouco penoso. Gosto então dessa mestria, quase utópica, de meditar dentro do permanente Silêncio, tocar-lhe na sua essência com o sorriso dum arco-íris... expressar, apreciar, ouvir, tocar, escutar, ser um anónimo para fora e dentro brotando qualquer coisa, chorar, ver apenas... quero o Silêncio, o Silêncio, nada mais, nada menos. Amar, desamar, viver na simplicidade, fazer o certo!”
in “Silêncios”, FM, Chiado editora, pág. 327



“Após chutar a dita estética frágil
descreio na cega literatura violentíssima
para mim inexistente
– destrutiva, desfigurada, falecida, mas precisa!
Nem tampouco me comovem as contradições
d’arte emaranhada em muitos contornos decalcados
– um recalcamento absurdo, improdutivo, um salto num vazio absorto...
renego-me profundamente... renego-me, renego-me! aller à Rimbaud... ... …”
in “Silêncios”, FM, Chiado editora, pág. 199

 Obrigado.
para mais infos:



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

VAMOS FALAR DISSO... MARIA FÁTIMA SOARES

OS MEUS AGRADECIMENTOS À ESCRITORA MARIA FÁTIMA SOARES PELA PRONTIDÃO COM QUE RESPONDEU AFIRMATIVAMENTE AO MEU DESAFIO 


CONJECTURANDO
Hoje há de tudo. Cursos de escrita criativa, de como devemos falar, andar, mexer, sentar, comer, olhar, amar e… Como se duas pessoas não soubessem no início de tudo, sem ninguém explicar nada, como proceder e encaixar-se, de modo a chegarmos a hoje. Concordo com o aperfeiçoamento contínuo! O interesse inesgotável sobre todos os assuntos e a inquietação inerente a cada um, mas creio, com uma convicção marcada, que quem não nasce com um pouco de tinta diluída no sangue (de modo a fazer entoar as letras como um cântico imortal, de beleza infinita) ficará sempre aquém, dos “mestres,” a quem pouco ou nada foi ensinado, mas descoberto a pulso… Genuinamente lhes foi “metido” no sangue, aquando das características, de quem viriam a ser e frequentem-se os cursos que se frequentarem, nunca se deixará de ser uma parca semelhança ainda que isso contrarie, nos doa e custe a admitir. Nem todos nasceram para “génio.” Nem todos nascemos com o “dom!”

E há tantos que nascendo com ele, não se funde ali, nos caracteres escritos mas noutra forma qualquer de “expressão” que se deve alimentar. Sem continuar a lavrar numa teimosia, de que todos somos quem gostaríamos, ou pretendemos ser. Não sou contra cursos, ou estudos, diga-se. Não, sou! Só se chega a um discurso “brilhante” ou capaz, após aturada leitura, procura, análise exaustiva do que os outros fazem! Pensam e contrapondo as nossas próprias ideias e estilos. Mas muito negócio se faz, com tudo e um tudo, de um todo, visível na etimologia (sentido límpido, cristalino, para que está direcionado) ou maviosamente velado, que serve para se diluir no encanto, que pode derivar unicamente, em ganhar-se dinheiro. A literatura, penso eu, é a filha bastarda das artes. Será sempre a menos querida, sendo de entre todas quiçá a mais brilhante. Que me perdoem os pintores, todos os ramos na pintura inseridos. A dança, com a deusa música, como patrona. E tantos filhos e sobrinhos, que foram crescendo por aí ao longo dos tempos, fruto de ligações legítimas ou fortuitas delas (artes) com cada artista, por consequência, cada amante, seu… Que breve as esqueceu ou trocou! Chamou a si, como paixão única. Indelével, as imprimiu na carne, tornando-as eternas à custa de muito. Muito mesmo. Sacrifício de tudo! Incompreensão de bastante. Sangue suor lágrimas como uma guerra pessoal, que muitas vezes se trava solitário, contra tudo e todos ( ou quase) que descrêem. Não são sensíveis a ponto de compreender porque se ama… Assim!

E a Literatura é tanto, para mim e muitos, que podia escrever eternamente sem chegar a uma conclusão pacífica e conclusiva num ponto final, de… Fim! A literatura é antes de mais, como tudo a que nos propomos e assim deve ser, AMOR, mas formação de espírito. Essa, ninguém a adquire ou “vende,” se não se nasce com ela. Não se adquire em nenhuma banca de mercado, curso de faculdade, ou ensino “avulso” de como “se faz”… Quando o nosso cérebro e o coração. A alma! É que nos deve comandar, os dedos e produzir obras de admirar. A literatura é acima de tudo respeitarmo-nos. Respeitar os outros. Nenhuma arte traduz tão bem o comportamento e o que é “devido,” como outros “braços” da literatura (psicologia, filosofia etc) mas também contornável, numa revolta massiva e construtiva, que as letras possibilitam ao pensamento! Ao sentimento, que se constrói duma realidade que se sente, e por vezes rebenta num… “Sei que não vou por aí!” É não só amar o próximo, porque houve um Deus que mandou, mas exatamente porque o homem/mulher que somos, entende assim! Acha que ele merece. É não invejar, provocar, armadilhar, maldizer, desvalorizar. Não comparecendo. É ouvir. Combater pelo mesmo fim e querer estar ao lado! Ser escritor é ser sensível, mais que a maioria. Amar as letras e o mundo e querer para os outros, o que queremos atingir. Seja isso o sucesso ou a merda em larga escala. Muita! Como se diz no teatro. E que se “partam todas as pernas do mundo!” Seja aplaudido, de pé, quando alguém entoa um poema em viva voz. Proclama um excerto de texto. É estar lá! Nos eventos dos outros, não só que gostemos que apareçam nos nossos. Estar calado e atento. Se possível, embevecido e enlevado, (não pedirei tanto…) Porque nos merecem respeito. E admiração. Aplauso! O nosso foco total. Orgulho em ser parceiro, ou somente conhecer de vista. Chegar à fala… É saber como agir e às claras! Não se chegar a ninguém unicamente para tirar proveitos e depois esquecer. Só para nos esclarecermos de quais os passos a dar futuramente, para nos promovermos de seguida e “ultrapassar” e minar! Isso é acoitar-se na mais desprezível atitude de quem não é de bem. Servir-se de quem nos serviu e não mais valorizar essa ajuda é não só ingrato, mas indigno. Adulá-los e manobrá-los e depois cuspi-los, porque já nos posicionámos do centro nevrálgico da “coisa.” Poderia condenar todo o oportunismo e cinismo. Toda a velhacaria e profunda anomalia que são alguns, nestes meandros da escrita. Como os haverá noutros locais (e nas variadas artes), mas não o faço. Não o merecem! Não mais que esta citação lógica, do quão ignóbil é, quem assim procede. Quem se presta a roubar um livro, quando nunca ninguém lhe disse que seria obrigado a comprá-lo. Só o convidou para ali, pelo prazer de compartilhar um momento bonito, não pela vaidade ou supremacia. Porém há quem nunca seja belo e consequentemente, transforme em feio, tudo aquilo em que toca. Há muito, muito que me levaria a ser idosa e de cabelos brancos, sem ver o tempo a passar, e continuaria a escrever para explicar, nunca conseguindo fazê-lo!


Há outra coisa importante e ligada a quem escreve, que depõe todas as suas esperanças em alguém que lê, mas não só! Depõe num outro, que o promove. E assim: Todo o editor DEVIA ser um pai! Tendo esse papel, jamais condenar ao fracasso. Favorecer. Escolher. Dividir. Apenas promover, uns. Entender, escutar e Amar que não equitativamente. Fazendo-o com o mesmo fervor e orgulho ao “filho” mais dotado, do que o mais “desajeitado.” Até ao controverso e revoltado. Porque todos somos, a nosso modo, brilhantes. Temos a nosso modo, valor. Que não sejamos uns… Lapidados! Outros só polidos. Porque se nascemos iguais. Iguais devem ser as oportunidades. E lealmente atribuídas.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

EU FALO DE... LARÁPIOS

Ontem em conversa com uma autora, fiquei a saber que no dia do lançamento do seu mais recente trabalho, aquando do balanço final sobre as vendas, o editor foi confrontado com uma diferença entre o dinheiro em caixa e os livros em falta. Tendo em conta que já não é o primeiro caso que chega ao meu conhecimento, sou impelido a tecer algumas considerações sobre esta situação que parece começar a ser recorrente. E, meus amigos, não estamos a falar de um ou dois livros mas de números bem superiores.

Como tenho afirmado várias vezes, o facto de comparecermos num evento não nos obriga a comprar seja o que for. Sendo verdade que as vendas nos eventos são importantes, não é menos verdade que a simples presença é muito gratificante para o autor. E neste assunto sinto-me perfeitamente em condições de poder opinar neste sentido porque, em primeiro lugar, já aconteceu em eventos meus aparecerem pessoas para simplesmente me darem um abraço sem terem comprado o livro, em segundo lugar e devido à minha condição de desempregado, nem sempre me é possível comprar o livro, mas isso não me impede de aparecer nos eventos.

Analisando cruamente a questão e colocando-me no lugar de cada um dos afectados tenho de dizer que:

a) não gostaria de estar na pele dos editores na hora de se verem confrontados com este género de situações. Acredito que deve ser tremendamente frustrante e incómodo ter de informar os autores que alguém pegou em livros sem pagar.

b) não gostaria de estar na pele das pessoas que ficam nas bancas a vender os livros e no final ficar a saber que alguém, com um acto incorrecto, para não dizer criminoso, colocou a sua honestidade e competência em causa.

c) não gostaria de estar na pele de um autor ao receber esta noticia porque, em circunstâncias normais, as pessoas que aparecem são, aos seus olhos, gente boa e insuspeita.

d) quanto aos infractores... nem consigo imaginar-me a fazer algo semelhante. No entanto devo dizer que estes actos nada mais são do que um aproveitamento da boa fé da pessoa que está a vender, uma enorme indiferença pelo trabalho de várias pessoas que fazem muito em prol da cultura, muitas vezes por mera carolice, e uma tremenda falta de respeito, para não dizer traição, ao autor, afinal o motivo principal para estarem num evento.

Para finalizar e sem querer fazer o papel de moralista porque sou perfeito nas minhas imperfeições, resta-me dizer que não encontro razões que justifiquem estes actos. Acredito que é mais vergonhoso ROUBAR um livro do que aparecer no evento e sair tal qual se entrou. Mas isso digo e faço eu porque gosto de andar de cabeça erguida.

Acho que vou começar a ficar de olho nas bancas não vá aparecer alguém que prefira andar com os olhos no chão.


MANU DIXIT