Correndo o risco de me tornar repetitivo e assumindo
essa condição como uma certeza quase adquirida, vejo-me obrigado a voltar a
escrever sobre uma situação que, infelizmente e para desgosto de quem ama a
cultura e os eventos culturais, parece ter-se instalado nos hábitos
comportamentais das pessoas.
Invariavelmente e à falta de melhor argumentação,
tenho de repisar a ideia que a tão propalada crise, mais que económica e
financeira, está na falta de valores morais, de carácter e, nos tempos mais
recentes, de saber estar em sociedade, com tudo o que isso implica.
Apesar da minha condição de apologista da quebra dos
preconceitos rígidos e castradores que a sociedade sempre nos tenta impingir,
tenho a noção que existem e devem continuar a existir algumas regras, mais não
seja, para um funcionamento social saudável.
Eu, enquanto cidadão e sem prescindir dos direitos
inerentes à minha condição de individuo, não posso esquecer que sou parte de um
todo. E esta ideia não deve nem pode ser exclusividade do meu pensamento.
Sem falsos moralismos, porque a perfeição é uma utopia
e, como todos os conceitos, cada um de nós se define de forma diversa, é com
tristeza que verifico o quanto o culto do individualismo se tem tornado
importante para muita gente e que esse exacerbar do EU começa a estar de mãos
dadas com a falta de respeito para com os outros.
Os parágrafos anteriores servem de nota introdutória
para o relato de alguns acontecimentos que testemunhei no último evento
literário em que marquei presença e que, como disse anteriormente, parecem
começar a fazer parte dos hábitos comportamentais das pessoas.
Em primeiro lugar e único facto que menciono com
exactidão cronológica, já são poucos aqueles que estranham o retardar do começo
dos eventos. Creio não estar a cometer nenhuma heresia se disser que julgo
nunca ter estado num evento literário que tenha começado à hora marcada. Existe
sempre uma qualquer razão para adiar mais uns minutos o começo das sessões. Não
querendo aliviar ou aligeirar este tipo de situações recorrentes, porque os
maus hábitos são de evitar, sempre digo que o facto de se tratar da
apresentação de uma antologia com autores de vários pontos do país e,
inclusive, do Brasil, acarreta alguns problemas de logística que, quer se
queira ou não, dificilmente conseguem ser contornados, nomeadamente a afluência
de amigos e familiares de muitos autores. Neste particular não posso calar o
meu desconforto ao verificar que são os próprios autores, quais noivas ciosas
dos protocolos, os culpados pelo atraso do início do evento por, imagine-se,
chegarem mais tarde do que os seus “convidados”. Talvez a melhor solução seja
aceitar apenas autores do outro lado do Atlântico, uma vez que a representante
brasileira foi das poucas pessoas que chegaram antes da hora prevista, tendo
vindo de propósito para este evento. Adiante.
Menos aceitável ainda e para mim bem mais chocante é o
carácter hipócrita e a falta de respeito que alguns autores evidenciam com cada
vez maior regularidade. Aceito a existência de pessoas que, ao ver os seus
trabalhos em antologias ou colectâneas, se sintam dominados por sentimentos de
extrema realização e, por que não dizê-lo, uma ponta de vaidade. Até acho isso
natural. O que eu jamais posso aceitar é que esse deslumbramento seja
manifestado de forma tão desrespeitosa como aconteceu no último Domingo. Não
serei o único a sentir alguma repulsa pelo comportamento daqueles que, até ao
momento de serem homenageados no mais puro silêncio e respeito por parte dos
outros autores, mantiveram a seriedade mas não foram capazes de retribuir, nas
mesmas condições, quando eram os outros a receber o mesmo tratamento, ora com
conversa sussurrada, ora com abandonos e regressos constantes à sala onde
decorria o evento. A falta de respeito tomou dimensões tais que um dos autores,
Fernando Jorge Benevides, na hora de ler um dos seus trabalhos, teve de reiniciar
a leitura três vezes devido ao barulho das conversas na sala.
No entanto, pasme-se, o ponto alto da falta de
educação e respeito aconteceu no momento em que duas jovens, com um talento
imenso, se preparavam para mais um número musical e foram brindadas com a
debandada quase geral da assistência. Motivo... “fumar um cigarrinho e beber um
café porque a sessão já vai longa”, como me sussurrou ao ouvido um dos tão
pontuais autores.
Posso até concordar com quem disser que algumas destas
situações podem ser evitadas pelos organizadores dos eventos e, neste
particular, reservo as minhas sugestões para uma conversa, para a qual desde já
me disponibilizo, a ter com a representante da editora, caso seja esse o seu
entendimento, e aqui sinto-me em perfeitas condições e com o distanciamento
suficiente para emitir as minhas opiniões porque não faço parte dos autores
antologiados nem sequer sou autor desta editora; se o fosse a minha reacção
seria bem mais enérgica.
No fundo, e regressando com o fio à meada, aquilo a
que assisti é demasiado mau para que as culpas sejam atribuídas única e
exclusivamente à editora. Aquilo que se pretendia como uma festa de poesia e
de poetas acabou, independente de alguns momentos belos e emotivos, por se
transformar numa feira de vaidades onde, sem qualquer ponta de civismo, se
passearam bastantes egos exacerbados num desfile de hipocrisia, má conduta e
falta de educação.
Sim, meus amigos, estamos em crise. Mas é uma crise de
valores morais e de saber estar em sociedade.
MANU DIXIT





