terça-feira, 28 de maio de 2013

EU FALO DE... UMA FESTA


A VIDA É UMA FESTA

Em primeiro lugar, quero deixar o meu pedido de desculpas, a todos os que acompanham este blogue, pelo longo período de silêncio a que o mesmo esteve remetido. Sem entrar em grandes detalhes, por se tratar de um assunto pessoal, quero também agradecer todo o carinho e amizade que alguns de vós me manifestaram perante o ocorrido. Já sabia de antemão a qualidade dos amigos que tenho mas é sempre reconfortante sentir que existem pessoas do nosso lado nos momentos mais delicados. Obrigado a todos por existirem. 

Tendo em conta que a vida continua, venho, neste novo respirar, falar-vos da grande festa de poesia que aconteceu no passado domingo, no Museu João Mário, em Alenquer.

Na sequência do I Concurso de Poesia AlenCriativos, da respectiva sessão de entrega de prémios e menções honrosas e como resposta à opinião publicamente expressa pelo júri, a editora Universus decidiu, com a devida autorização dos autores, juntar alguns dos poemas que foram a concurso e publicar a antologia AUDAZ FANTASIA. E foi, precisamente, a sessão de lançamento desta obra que levou mais de uma centena de pessoas ao Museu João Mário, em Alenquer, para assistir a uma bela festa, onde a música e a poesia estiveram de braços dados em nome de uma causa maior.

Se, por si só, tanto a música como a poesia seriam motivos mais que suficientes para reunir tanta gente num ambiente cultural e em torno da cultura, este evento ganhou outra dimensão pelo aspecto social que se lhe juntou.

Por decisão dos organizadores do I Concurso de Poesia AlenCriativos, dos responsáveis da editora Universus, dos membros do júri e com a anuência dos poetas envolvidos, parte do valor das vendas desta antologia reverte para a Mithós - Movimento de Apoio à Multideficiência, associação de carácter social.

Num dia ensolarado e com uma vasta gama de eventos espalhados um pouco por todo o país, foi muito interessante verificar as diferentes proveniências de quem marcou presença. Sendo natural que a maioria do público fosse residente nas áreas mais próximas de Alenquer, não posso deixar de referir aquelas pessoas que vieram de vários pontos do país, apenas e só, para assistir a este evento. Posso estar a cometer um engano mas creio que, de todas as regiões, apenas as ilhas não estavam representadas. E foi bonito de ver a interacção do público antes, durante e depois do evento. Se no “antes” e no “depois” é natural existir essa interacção, o envolvimento do público no “durante” acabou por dar um colorido diferente a um ambiente, já de si, festivo.

Não quero terminar sem fazer referência à grande surpresa que foi descobrir o talento de uma jovem que encantou toda a plateia com a sua fantástica voz. Deixo-vos o nome a reter: Cheila Raposo.

Por último, quero felicitar duas grandes impulsionadoras, duas grandes organizadoras, duas grandes animadoras, enfim, duas grandes senhoras que são a génese do grupo AlenCriativos e que, com o seu empenho, muita alma e coração, amor à escrita e à terra onde vivem, deram o exemplo do que se pode fazer quando se unem esforços em nome de uma causa. Parabéns Ana Coelho e Eugénia Ponte.    

MANU DIXIT

quarta-feira, 1 de maio de 2013

ADEUS

O HOMEM PARTE MAS A OBRA FICA. ATÉ JÁ, POETA E AMIGO, NUNO GUIMARÂES

(1960-2013)

terça-feira, 30 de abril de 2013

EU FALO DE... PLÁGIO


Em 2010, logo após eu ter lançado o meu primeiro livro, fui aconselhado por um autor brasileiro a deixar de colocar nos espaços da internet os meus textos originais. Foi-me dito que o simples facto de ter passado a ser autor editado me transformava num alvo mais apetecido para os plagiadores. Segundo as suas palavras, todos aqueles que fazem uso do plágio, para colmatar a sua escassez e preguiça criativas, vêem os textos de autores editados como uma garantia de aceitação por parte das editoras.

Com o capital de experiência que entretanto adquiri, hoje reconheço a ingenuidade da pergunta que fiz perante aquele cenário que me era apresentado. Então as editoras sujeitam-se a publicar plagiadores? A resposta na altura não podia ser mais directa: SIM!

De então para cá, por diversas razões e diferentes circunstâncias que não me interessam revelar, tenho confirmado a veracidade das explicações que me foram dadas na altura. Aquela que mais me surpreendeu mas que infelizmente quase ninguém faz caso é a inexistência de uma cláusula nos contratos editoriais a precaver situações de plágio. Contam-se pelos dedos de meia mão as editoras que estabelecem como cláusula fundamental a responsabilização do autor pela utilização de trabalhos alheios.

Ao longo destes últimos três anos, já tive nas mãos contratos de edição de várias chancelas e apenas em duas ocasiões a editora salvaguardava contratualmente qualquer implicação recorrente de plágio ou violação de direitos autorais indevidos, sendo que uma dessas vezes foi ontem.

De uma forma que creio natural, durante este meu percurso como autor, tenho-me movimentado com alguma regularidade pelos bastidores literários e deparado com casos de plágio que, com maior ou menor dificuldade, têm sido detectados. Dentro deste lote, aquilo que mais me incomoda é a completa falta de ética de alguns autores que, mesmo tendo conhecimento da prevaricação e aproveitando a tal inexistência de cláusula dissuasora, decidem editar obras plagiadas. Por outro lado, acho que é inaceitável que um editor se sujeite, por omissão contratual, a compactuar com este género de situações. Isto para não falar daqueles que, sabendo de antemão que a obra é plagiada, temos um caso recente e muito comentado, conseguem demonstrar a verdadeira natureza do seu envolvimento no panorama literário.

O mais chocante, se é que ainda há quem se sinta chocado com estas coisas da literatura, é saber que existe um autor bem mediático que usando de algum engenho mas pouca correcção, tem construído a sua obra à base de material alheio, recolhido em bibliotecas e acervos históricos de jornais e publicações regionais, dando como sua propriedade intelectual todo e qualquer texto anónimo encontrado. Chegando a cair no rídiculo de dar como seus alguns textos com datas anteriores ao seu próprio nascimento. Tanto ou mais grave é a complacência de uma chancela que fecha os olhos a isto apesar da responsabilidade que tem no panorama editorial português.

Perante este cenário, não é de admirar que existam opiniões muito corrosivas contra o universo de autores e editores, pondo-os todos no mesmo saco,  mesmo aqueles que, contra tudo e contra todos, tentam fazer um trabalho honesto e eticamente correcto. Como se costuma dizer: paga o justo pelo pecador.

MANU DIXIT

 

sábado, 27 de abril de 2013

EU FALO DE... EXERCÍCIOS CRIATIVOS II


Como referi num artigo anterior, seja qual for o estilo de escrita, é fundamental que cada autor ganhe o hábito de exercitar a sua arte tendo em vista o melhoramento e evolução. Nesse artigo fiz referência a exercícios com forte componente de estímulo exterior ou sugestionamento. Hoje quero falar-vos de outros de carácter mais individualista e apetência criativa que, pela sua especificidade, permitem aos autores exercitarem-se vocabularmente.

Sendo, por natureza, considerados géneros menores da poesia, dois dos exercícios que vos quero falar hoje não são tão fechados e rígidos, bem pelo contrário, e acabam por ser mais acessíveis aos prosadores.

O primeiro, e talvez o menos desconhecido, é o acróstico. Nesta composição, o autor deve partir de uma ou mais palavras-chave (colocadas verticalmente) e desenvolver um texto coerente, como se tratasse de uma definição, em que cada verso começa por uma das letras da palavra ou palavras-chave.

Dou-vos um exemplo simples, sem grandes floreados técnicos:

A ssim
M orrem
O s
R omânticos

Este género de exercicio permite, no entanto, textos de maior complexidade como este meu poema de 2009:

DISCURSO III (2009)

D isposição prosaica de hostil engano
E mprego abusivo de ilusórios motes
U fana indiferença do sacro profano
S inónimos ocultos de outras sortes
 
E rradas pronuncias extra culturais
R uminações de palavras ignoradas
R efrear de ímpetos em tudo banais
A lienação por tentativas falhadas
 
T estemunhas de acções possíveis
A menizar da sublevação plebeia
M arginalizar o afamado problema
B eligerância entre seres passíveis
E stupro de valiosa e crente ideia
M etida na margem deste poema
 
Num patamar diferente mas também de grande utilidade estimulativa está o tautograma, composição poética cuja regra principal é que todo o texto seja composto de palavras iniciadas com a mesma letra. Exemplo:

 

A Ana acorda ansiosa
adora amoras azuladas
algumas, azedas, arrepiam
ainda assim atira-se
às amoras azuladas.
 
Sendo mais exigente pela limitação proposta, o tautograma é flexível e permite a utilização de artigos definidos, preposições e pronomes. Exemplo:

 
O Paulo precisa passar pelo portão que permite passear pelo prado. Passo a passo, pontapeia pedras, projecta pedrinhas, pula pedregulhos, pisa poças pondo os pés perfeitamente paralelos. Passeando pelos prados, Paulo, paulatinamente, percebe a presença de Pedro, parceiro preferido das patifarias. Que par!

 
Como podem verificar, este acaba por ser um exercício muito mais adaptável aos prosadores pela dificuldade rimática que encerra, embora não seja de todo impossível fazer um tautograma rimado. Já li textos lindíssimos escritos neste registo.

 
Por último quero fazer referência aos poemas de rima única cujo maior mestre foi Ruy Belo. Este grande nome da poesia portuguesa deixou algumas pérolas neste registo e, apesar da inexistência de regra rimática, fazia questão de utilizar apenas advérbios como rima. Tal como fiz com o acróstico, dou-vos um poema meu, de 2009, como exemplo:

 
EXERCÍCIO III (2009)
 
Quando as tropas de Junot chegam a Alpiarça
O capitão de Villepin junta-as na praça
E com o seu vozeirão feroz não disfarça
O quanto odeia os portugueses: - Que raça!
Nas ruas não há vivalma nem sinal da populaça
- Onde se meteu este povo? Onde anda a gentaça?
Seus olhos de águia estancaram numa vidraça
Onde se afilavam os rostos da mulheraça
Villepin dirigiu-se ao casebre de argamassa
Vislumbrou uma bela e encantadora louraça
E na sua voz de trovão perguntou: - Que se passa?
Ao seu sotaque carregado, a moça achou graça
E respondeu afoita. - Nada digo, faça o que faça!
O capitão enfurecido faz-lhe um gesto de ameaça
Ela não se intimida: - A nossa vida já é uma desgraça!
Villepin admira a coragem da menina “olhos de garça”
E pede gentilmente um pouco de pão, ela dá uma carcaça
- É tudo o que temos para dar, a comida é escassa!
Mas Villepin é um homem avisado e vê a fumaça
Ouve o crepitar da lareira e cheira a carne que assa
E sorrindo diz: - Ma Cherie, eu não tolero trapaça!
Ele sente que a moça desarma: - Não há por aí vinhaça?
Ela sorri e responde: - Só se vós beberdes pela cabaça!
Nesse instante ouviu-se um grito, tremenda arruaça
Villepin vê um soldado atrás de uma moça descalça
Como um predador atrás de uma presa que caça
Depressa a alcança e com seus fortes braços a enlaça
A moça tenta livrar-se do soldado de farta bigodaça
Mas este depressa é ajudado por um comparsa
A menina de Villepin murmura: - Vai haver desgraça!
E grita para o capitão francês: - Acabe com esta farsa!
- Quoi? - pergunta Villepin quase enfeitiçado: - Ah ça! 
E grita para os soldados com a sua voz que trespassa
Agradecida, a moça loira serve-lhe vinho numa taça.
 
Os exemplos estão dados! Agora cabe a cada um de vós dar uso, ou não, a estes e outros exercícios. Força nas canetas e muita inspiração!

MANU DIXIT

quinta-feira, 25 de abril de 2013

EU FALO DE... LÍDIA BORGES

 

Mais uma vez é com grande orgulho que vejo uma das passoas, cuja escrita muito admiro, ser galardoada com um prémio literário, neste caso o Prémio Maria Ondina Braga - poesia 2013

A escritora/poetisa Lídia Borges, autora do livro NO ESPANTO DAS MÃOS - O VERBO, viu o júri do referido prémio agraciar a sua obra inédita, SEMENTES DAQUI, com unanimidade dos votos, num universo de 57 trabalhos propostos a concurso.

Quando questionada sobre a importância de receber esta distinção, Lídia Borges disse que esta atribuição vinha aquietar algumas das dúvidas que tinha em relação à sua escrita, nomeadamente, no que à qualidade dizia respeito.

Conhecendo a poesia, desta autora de Braga, e sendo um assumido admirador desde que travei contacto com a sua escrita em 2009, devo dizer que apenas me surpreende a demora no reconhecimento que merece.

Tal como fiz questão de expressar em mensagem enviada à autora, mal soube desta atribuição, fico muito contente por saber que o meu gosto pela sua escrita não é um mero capricho pessoal mas sim uma opinião partilhada e há muito devida.

Lídia Borges tem uma forma de escrever muito marcada pela simplicidade de discurso apesar dos conceitos e ideias abordados serem, nitidamente, alvo de depurada reflexão. Demonstrando uma apetência pelos temas de carácter humanista, não deixa de ser visível o cuidado em revelar a alma universalista do seu EU poético dando-lhe importância igual à que dá aos elementos da natureza, que também marcam a sua poesia, tão a seu gosto.

Finalizo este meu artigo reforçando os meus parabéns à autora Lídia Borges, pelo prémio recebido, desejando-lhe que muitos mais se sigam. A qualidade da sua poesia é digna de tamanhas distinções.

MANU DIXIT