Como referi num artigo anterior, seja qual for o
estilo de escrita, é fundamental que cada autor ganhe o hábito de exercitar a
sua arte tendo em vista o melhoramento e evolução. Nesse artigo fiz referência
a exercícios com forte componente de estímulo exterior ou sugestionamento. Hoje
quero falar-vos de outros de carácter mais individualista e apetência criativa
que, pela sua especificidade, permitem aos autores exercitarem-se vocabularmente.
Sendo, por natureza, considerados géneros menores da
poesia, dois dos exercícios que vos quero falar hoje não são tão fechados e
rígidos, bem pelo contrário, e acabam por ser mais acessíveis aos prosadores.
O primeiro, e talvez o menos desconhecido, é o
acróstico. Nesta composição, o autor deve partir de uma ou mais palavras-chave
(colocadas verticalmente) e desenvolver um texto coerente, como se tratasse de
uma definição, em que cada verso começa por uma das letras da palavra ou
palavras-chave.
Dou-vos um exemplo simples, sem grandes floreados
técnicos:
A ssim
M orremO s
R omânticos
Este género de exercicio permite, no entanto, textos
de maior complexidade como este meu poema de 2009:
DISCURSO III (2009)
D isposição prosaica de hostil
engano
E mprego abusivo de ilusórios
motesU fana indiferença do sacro profano
S inónimos ocultos de outras sortes
E rradas pronuncias extra culturais
R uminações de palavras ignoradas
R efrear de ímpetos em tudo banais
A lienação por tentativas falhadas
T estemunhas de acções possíveis
A menizar da sublevação plebeia
M arginalizar o afamado problema
B eligerância entre seres passíveis
E stupro de valiosa e crente ideia
M etida na margem deste poema
Num patamar diferente mas também de grande utilidade estimulativa está o tautograma, composição poética cuja regra principal é que todo o texto seja composto de palavras iniciadas com a mesma letra. Exemplo:
A Ana acorda ansiosa
adora amoras azuladas algumas, azedas, arrepiam
ainda assim atira-se
às amoras azuladas.
Sendo mais exigente pela limitação proposta, o tautograma é flexível e permite a utilização de artigos definidos, preposições e pronomes. Exemplo:
Quando as tropas de Junot chegam a Alpiarça
O capitão de Villepin junta-as na praça
E com o seu vozeirão feroz não disfarça
O quanto odeia os portugueses: - Que raça!
Nas ruas não há vivalma nem sinal da populaça
- Onde se meteu este povo? Onde anda a gentaça?
Seus olhos de águia estancaram numa vidraça
Onde se afilavam os rostos da mulheraça
Villepin dirigiu-se ao casebre de argamassa
Vislumbrou uma bela e encantadora louraça
E na sua voz de trovão perguntou: - Que se passa?
Ao seu sotaque carregado, a moça achou graça
E respondeu afoita. - Nada digo, faça o que faça!
O capitão enfurecido faz-lhe um gesto de ameaça
Ela não se intimida: - A nossa vida já é uma desgraça!
Villepin admira a coragem da menina “olhos de garça”
E pede gentilmente um pouco de pão, ela dá uma carcaça
- É tudo o que temos para dar, a comida é escassa!
Mas Villepin é um homem avisado e vê a fumaça
Ouve o crepitar da lareira e cheira a carne que assa
E sorrindo diz: - Ma Cherie, eu não tolero trapaça!
Ele sente que a moça desarma: - Não há por aí vinhaça?
Ela sorri e responde: - Só se vós beberdes pela cabaça!
Nesse instante ouviu-se um grito, tremenda arruaça
Villepin vê um soldado atrás de uma moça descalça
Como um predador atrás de uma presa que caça
Depressa a alcança e com seus fortes braços a enlaça
A moça tenta livrar-se do soldado de farta bigodaça
Mas este depressa é ajudado por um comparsa
A menina de Villepin murmura: - Vai haver desgraça!
E grita para o capitão francês: - Acabe com esta farsa!
- Quoi? - pergunta Villepin quase enfeitiçado: - Ah ça!
E grita para os soldados com a sua voz que trespassa
Agradecida, a moça loira serve-lhe vinho numa taça.
Os exemplos estão dados! Agora cabe a cada um de vós dar uso, ou não, a estes e outros exercícios. Força nas canetas e muita inspiração!
MANU DIXIT



