domingo, 14 de abril de 2013

EU FALO DE... CRISE


A minha grande dificuldade ao iniciar este artigo foi saber que título lhe dar. Sobre este tema já muito tenho dito e escrito e continuarei a falar dele, tal como diz o velho fado, até que a voz me doa.

Numa época em que, por tudo e por nada, todos se lembram de mencionar a crise como factor disuasor para explicar a sua própria inacção, os sinais que passam são de crise sim, mas de valores morais e de carácter.

A hipocrisia, outrora um defeito vil, mesquinho e condenável, hoje em dia parece ter-se transformado numa das características genéticas principais da generalidade das pessoas.

Já ninguém se importa muito em ter seriedade e lisura na sua forma comportamental e, cada vez mais, parece existir o culto do negativismo e bota-abaixo.

A mentira de perna curta impera como se de um virus se tratasse porque a maioria fecha os olhos quando confrontado com estas atitudes.

Cada vez mais, existe a convicção que todos os meios são válidos para se ganhar notoriedade não interessando se esse destaque é alcançado à base de falsos argumentos e falsas acções.

Nos dias que vivemos deixou de ter validade a velha máxima "À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer". O que mais se vê é quem viva sob a ilusão do parecer quando a realidade é o oposto.

Ostentar virtudes e uma imagem imaculada apenas como maquilhagem parece estar a fazer escola na sociedade moderna e a generalidade das pessoas aplaude.

Mesmo correndo o risco de passar uma imagem de "velho do Restelo" tenho que dizer que não me identifico com esta forma de estar. Fui educado tendo por base valores morais e de comportamento que dão como preferenciais as atitudes positivistas, de tolerância, de honestidade, de transparência, de verdade e, acima de tudo, de saber estar em comunidade. Fui educado a negar valor à hipocrisia, à inveja, à mesquinhez, à mentira e, sobretudo, ao individualismo exacerbado. Sempre me ensinaram a dar mais importância a actos do que a palavras porque estas exigem muitas vezes o benefício da dúvida, enquanto que os actos são deixam nenhuma.

Sem falsos moralismos nem culto da perfeição, porque essa nunca existiu, e porque uma das coisas que menos me custa fazer é dar a mão à palmatória e assumir as minhas acções, mesmo as erradas (que são muitas), não posso deixar de ser crítico perante acções que contrariam as palavras que muitos fazem questão de alardear aos ouvidos dos incautos.

Tal como em outras ocasiões, volto a dizer que não é exigida a presença das pessoas em todos os eventos, para os quais são convidadas, tanto mais que é humanamente impossível fazê-lo. Mas não deixa de ser incompreensível que, quem mais se queixa de falta de eventos culturais, são aqueles que nunca marcam presença em nenhum apesar de, continuamente, afirmarem a intenção de comparecer neste ou naquele.

Dizer é fácil e fica bem aos olhos da generalidade das pessoas. Falar de intenções dá uma imagem empreendedora e de acompanhamento permanente das acções culturais. Mas não existe nada mais definitivo e revelador das acções do que as próprias acções.

Louvar um promotor de eventos pela forma apaixonada como os realiza e promove, falar-lhe da admiração que se tem por todo o empreendorismo, entrega e devoção à causa cultural, não passam de palavras. O maior louvor, a maior admiração que se pode outorgar é marcando presença.

Uma situação recorrente é fazerem-se acusações de “centralismo cultural”, que só se fazem eventos na capital e, quanto muito, no Porto, esquecendo as outras localidades. Normalmente faz-se a tal referência à crise porque “as distâncias são grandes” e “não há dinheiro para deslocações” ou “ainda se viessem aqui ou fizessem mais perto”. Tudo palavras vãs e falsas promessas.

Há quem faça, com muito esforço e amor à causa, que os eventos ocorram de norte a sul do país, levando autores ao encontro das pessoas, reduzindo distâncias e aproximando a cultura daqueles que tanto a exigem. Mas na hora marcada, no dia aconselhado, pura e simplesmente a confirmação de quão hipocrita está esta sociedade. Na hora de retribuir e louvar o esforço de quem é realmente empreendedor surgem as desculpas de sempre: “veio na pior altura”, “é a crise”.

Sim, o país está envolto numa enorme crise mas, ao contrário do que tanto se apregoa, essa crise é de valores morais e de comportamento. A maior crise que este país atravessa é de falta de vergonha e hipocrisia.

Apesar da minha assumida laicidade, sempre acreditei que Portugal tinha sido poupado por Deus no que a catástrofes diz respeito. Ao longo da história da humanidade todos os povos sofreram e ainda sofrem essas catástrofes. Alguns países sempre tiveram de lidar com as condições climatéricas difíceis e a época das monções ceifa vidas atrás de vidas. Noutros sempre existiu e existirá instabilidade cultural e económica que se refletem nas constantes e quase ininterruptas guerras tribais, étnicas e globais. Em determinados locais têm de lidar em permanência com secas extremas, vulcões, tornados, ciclones, tsunamis, contaminações de vária ordem, etc. Em Portugal não há nada disso. Este país foi poupado? A resposta é não! A grande catástrofe que Deus destinou ao nosso país é o povo que cá colocou.

MANU DIXIT

quinta-feira, 11 de abril de 2013

EU FALO DE... VOZES MOTIVACIONAIS



Todos os autores que arriscam apresentar o que escrevem, fora da sua zona de conforto, procuram factores motivacionais que justifiquem a continuidade produtiva. Aqueles que se preocupam em dar aos seus trabalhos um fio condutor, idealizando um rumo e dando à sua escrita, para além de características que a identifiquem, alguma coerência, sentem a necessidade de ouvir aqueles que os lêem. O retorno dos leitores é, portanto, fundamental.

Tal como fiz em outras ocasiões, usarei na abordagem desta temática a minha própria percepção e experiência, enquanto autor, para melhor conseguir explicar as ideias que aqui defendo. E faço-o porque as minhas verdades não são universais, cada um tem a sua, ou como diz Gisela Ramos Rosa: “A verdade é uma experiência íntima”. Adiante.

Os que acompanham a poesia que escrevo, já me ouviram falar, inúmeras vezes, daqueles que, desde a primeira hora, têm estado do meu lado e a quem eu sempre estarei agradecido pelo grande apoio e motivação que me dão.

No entanto, quando falo dessas vozes motivacionais, não me refiro a todos aqueles que se limitam a louvar a escrita, antes pelo contrário. Os alvos desse epíteto são aqueles que animam nas horas de desânimo mas também apontam defeitos nos momentos de euforia. Os que mais motivação me transmitem não são aqueles para quem tudo o que escrevo é bom e bonito, mas sim os que, quando a inspiração anda arredia, me dizem “avança, vai em frente, melhores dias virão”, e sabem apontar defeitos, indicar caminhos e apresentar alternativas sempre que detectam fragilidades nos meus textos. Vozes motivacionais são aquelas que sabem fazer o que atrás mencionei mas de forma construtiva. Fazem-no porque acreditam na validade do meu trabalho e é essa crença que me motiva a prosseguir esta caminhada pelo mundo da escrita.

Como exemplo do que acabo de dizer quero partilhar convosco uma situação que aconteceu alguns anos atrás. Estava eu a dar os primeiros passos na internet, publicava a minha poesia num blogue e o sonho de editar estava adormecido pelas frustrações de anos. Um dia, após postar um poema, recebi uma mensagem por mail de um senhor, que acompanhava o blogue com alguma assiduidade, no qual me era sugerida, através de argumentos fundamentados e sugestão de alternativas, uma pequena modificação no texto. Convencido da legitimidade do reparo e aceitando como válida uma das sugestões, fiz a alteração recomendada e ainda hoje, digo-o sem qualquer problema, esse poema, que incluí no meu primeiro livro, é um dos mais referenciados por quem me lê.

Este pequeno episódio - poderia dar outros exemplos idênticos - fez-me reflectir na necessidade de ouvir opiniões exteriores, o mesmo é dizer isentas, sobre tudo o que escrevo. Por essa razão, sempre que termino de escrever algo, faço questão de o mostrar a alguém, fora do meu ciclo mais próximo, e assim recolher informações que me ajudem a melhorar a cada texto.

Quando digo que busco opiniões fora da zona de conforto e ciclo mais próximo não estou com isto a desvalorizar as capacidades avaliadoras de quem lida comigo mais de perto mas, convenhamos, na maior parte das vezes essa proximidade inibe as pessoas de me transmitirem com mais objectividade as suas percepções.

Seja como for, e para terminar esta dissertação, resta-me dizer que é extremamente importante que cada autor procure filtrar, de todas as opiniões recebidas, aquelas que, com critério e racionalidade, podem ser uma mais-valia e manter essas vozes motivacionais activas e presentes no momento de criar. A evolução de um autor também depende disso.

MANU DIXIT

terça-feira, 9 de abril de 2013

EU FALO DE... EXERCÍCIOS CRIATIVOS


De um modo geral, as pessoas que gostam de escrever, seja em que registo for, fazem-no descontraidamente e sem propósito algum para além do simples prazer que o acto proporciona. Ao escrever, há quem encontre uma forma de catarse, um veículo condutor de reflexão ou mero exercício lúdico. Seja qual for a razão que leva alguém a escrever, é quase um dado adquirido que, com o passar do tempo, a acumulação de escritos e a evolução natural de quem escreve, cada um procure limar arestas e assim aperfeiçoar o seu estilo. Fazem-se experiências, incursões em géneros e temáticas distintas do habitual e, não raras vezes, buscam-se melhorias nos intercâmbios e parcerias. É nestes dois últimos aspectos que quero focar-me.

Um dos exercícios que me habituei a fazer passa por escrever tendo por base outras formas de arte: pintura, fotografia ou escultura. Não sobre o que vejo nessas imagens mas o que me inspiram. Com este género de exercício, busco diferentes abordagens para temáticas que me são próximas e para outras onde normalmente não me aventuro. É interessante verificar que, na maior parte das vezes que me proponho a estes exercícios, a diversidade vocabular dos meus textos aumenta, por exigência do objecto inspirador, e essa característica reflete-se, posteriormente, na poesia que escrevo.

Num patamar menos individualista está um outro exercício criativo, muito popular na blogosfera e nas redes sociais; o dueto. Embora grande parte do que é feito neste campo tenha mais de afectividade do que importância lírica, não é menos verdade que pode ser um estímulo importante não só para o acto de escrever mas também na busca de soluções inovadoras na escrita de cada um. Os desafios que se colocam num dueto nem sempre são afirmativamente correspondidos, por diversas razões, mas creio que o manancial de experiência que se adquire é importante, assim o entenda cada autor.

Ambos os exercícios que referi, têm particularidades muito próprias e os resultados não serão pérolas de escrita, no entanto, a sua função primordial é ajudar na busca de novos caminhos, novas soluções e aperfeiçoamento. Nem tudo o que escrevemos é qualitativamente aceitável mas é possível melhorar e uma das formas de o fazer é por tentativa e erro, e nesta perspectiva é melhor errar nestes exercícios do que em textos que se querem definitivos e definidores de uma obra.

MANU DIXIT

domingo, 7 de abril de 2013

EU FALO DE... CULTURA LITERÁRIA


Em regra geral, quando se discute literatura, as conversas giram em torno da qualidade do romancista A em comparação com o B, ou a técnica do poeta X em oposição ao Y. Sendo válidas e necessárias, estas abordagens pecam por uma grande incorrecção logo na sua génese que, para a maioria das pessoas, passa despercebida.

É normal, e já me tem acontecido, ouvir alguém dizer que "fulano" tem uma cultura literária muito grande porque conhece quase todos os romancistas importantes e consegue lembrar-se sempre de versos dos poetas essenciais. Isso para mim, apesar de demonstrar algum conhecimento, não é prova de cultura literária.  É evidente que quem tem um vasto saber, no que à escrita criativa diz respeito, consegue sempre passar a imagem de entendido e, aos olhos dos mais desatentos e leigos, transforma-se num género de "expert" cultural.

Mesmo podendo aprender muito com a leitura destes géneros literários, acho que é fundamental para o desenvolvimento cultural de um povo que também se leiam livros com maior assertividade educativa. Estou convicto da importância de se ler sobre ciências, filosofia, história, artes, etc.

Muitos podem dizer que a maioria dessas temáticas são abordadas em romances, contos, novelas e livros de poesia mas a grande verdade é que, por mais informativo ou didático que seja esse livro, as referências a outras áreas do pensamento são simples apêndices ou ferramentas de auxílio aos enredos. 

Ninguém se transforma em grande conhecedor de geografia ou tecnologia aeronaútica só porque leu os livros de Júlio Verne. Ninguém é perito em psicologia por ter lido Dostoievski. Quem leu toda a obra de Pessoa não é especialista em esquizofrenia. Nem quem leu Camões é entendido em mitologia.

Quanto a mim, e não sou o único a pensar desta forma, ter cultura literária é  bem mais do que ler Kafka, Dostoievski, Hemingway, Júlio Verne, Rimbaud ou Herculano, Garrett, Agustina, Pessoa e Camões.

Concordo que se debata as questões que diferenciam cada autor, seja romancista, poeta ou novelista, mas a literatura não se limita a estas vertentes da escrita, mais do foro criativo. O panorama literário é mais vasto e não se é mais culto que os restantes só porque lemos os clássicos.

A cultura literária constrói-se diversificando os nossos hábitos de leitura. Leiam os clássicos, os menos clássicos, os que nunca serão clássicos, mas não se limitem a isso. Expandam o vosso conhecimento lendo ensaios, biografias, livros de arte, ciências, história, filosofia, etc.

Saber nunca ocupou lugar.

MANU DIXIT

 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

EU FALO DE... GRAÇA PIRES


Na sequência do meu artigo anterior, quero falar-vos de uma autora que é para mim uma referência importante e cujo mais recente trabalho, CADERNO DE SIGNIFICADOS, teve a sua sessão de lançamento no passado sábado, dia 30 de Março, na Sociedade Guilherme Cossoul de Campolide.

Graça Pires é um daqueles nomes que, tal como referiu Maria João Cantinho na sua análise ao livro apresentado, não tem a exposição merecida devido à forma discreta como se movimenta no meio literário. Tanto a obra, quinze trabalhos publicados, como a dezena de prémios recebidos, são sinónimos da qualidade da sua poesia.

Tal como referi no meu texto anterior, existem autores que fazem trajectos paralelos aos consagrados mas que nem por isso deixam de ser uma referência importante para os seus contemporâneos. O caso de Graça Pires é sintomático e a prova do que digo está nos nomes que marcaram presença nesta sessão de lançamento. Pessoas como Inês Ramos, Gisela Ramos Rosa, Victor Oliveira Mateus, Maria Teresa Dias Furtado, entre muitos outros autores, não deixaram passar a oportunidade de homenagear esta enorme poeta dos nossos dias. 

Sem entrar em análises aprofundadas sobre a escrita de Graça Pires, limitar-me-ei a dizer que um dos grandes predicados desta autora reside na forma simples como nos transmite os seus pensamentos, ou como disse a própria, e passo a citar: "Eu escrevo de modo que o maior número de pessoas me consiga entender" - fim de citação.

Este seu jeito simples também está bem vincado na forma como interage com os seus leitores e confessos admiradores. Não fazendo distinção entre poetas, mais ou menos consagrados, e os restantes, nem se furtou à troca de palavras com nenhum dos que, pacientemente, esperavam a sua vez pelo tão desejado autógrafo.

Como disse anteriormente, Graça Pires é para mim uma referência e por essa razão lhe dedico um poema, no meu recém-editado POETAS QUE SOU. E esse facto, para grande orgulho deste vosso amigo, foi  mencionado pela autora ao revelar-me que, em conversa com o poeta Victor Oliveira Mateus, outra das minhas referências, abordaram esse meu trabalho e respectivos poemas. No fim da nossa pequena mas gratificante troca de impressões, Graça Pires dirigindo-se a um dos presentes, apontou para mim dizendo, e volto a citar: "Nunca pensei que tivesse um grupo de admiradores tão dedicado" - fim de citação.

Mais palavras para quê? Grandes pessoas têm grandes gestos.                  

MANU DIXIT