Em regra geral, quando se discute literatura, as
conversas giram em torno da qualidade do romancista A em comparação com o B, ou
a técnica do poeta X em oposição ao Y. Sendo válidas e necessárias, estas
abordagens pecam por uma grande incorrecção logo na sua génese que, para a
maioria das pessoas, passa despercebida.
É normal, e já me tem acontecido, ouvir alguém dizer
que "fulano" tem uma cultura literária muito grande porque conhece
quase todos os romancistas importantes e consegue lembrar-se sempre de versos
dos poetas essenciais. Isso para mim, apesar de demonstrar algum conhecimento,
não é prova de cultura literária. É
evidente que quem tem um vasto saber, no que à escrita criativa diz respeito,
consegue sempre passar a imagem de entendido e, aos olhos dos mais desatentos e
leigos, transforma-se num género de "expert" cultural.
Mesmo podendo aprender muito com a leitura destes
géneros literários, acho que é fundamental para o desenvolvimento cultural de
um povo que também se leiam livros com maior assertividade educativa. Estou
convicto da importância de se ler sobre ciências, filosofia, história, artes,
etc.
Muitos podem dizer que a maioria dessas temáticas são
abordadas em romances, contos, novelas e livros de poesia mas a grande verdade
é que, por mais informativo ou didático que seja esse livro, as referências a
outras áreas do pensamento são simples apêndices ou ferramentas de auxílio aos
enredos.
Ninguém se transforma em grande conhecedor de
geografia ou tecnologia aeronaútica só porque leu os livros de Júlio Verne.
Ninguém é perito em psicologia por ter lido Dostoievski. Quem leu toda a obra
de Pessoa não é especialista em esquizofrenia. Nem quem leu Camões é entendido
em mitologia.
Quanto a mim, e não sou o único a pensar desta forma,
ter cultura literária é bem mais do que
ler Kafka, Dostoievski, Hemingway, Júlio Verne, Rimbaud ou Herculano, Garrett,
Agustina, Pessoa e Camões.
Concordo que se debata as questões que diferenciam
cada autor, seja romancista, poeta ou novelista, mas a literatura não se limita
a estas vertentes da escrita, mais do foro criativo. O panorama literário é
mais vasto e não se é mais culto que os restantes só porque lemos os clássicos.
A cultura literária constrói-se diversificando os
nossos hábitos de leitura. Leiam os clássicos, os menos clássicos, os que nunca
serão clássicos, mas não se limitem a isso. Expandam o vosso conhecimento lendo
ensaios, biografias, livros de arte, ciências, história, filosofia, etc.
Saber nunca ocupou lugar.
MANU DIXIT




