domingo, 7 de abril de 2013

EU FALO DE... CULTURA LITERÁRIA


Em regra geral, quando se discute literatura, as conversas giram em torno da qualidade do romancista A em comparação com o B, ou a técnica do poeta X em oposição ao Y. Sendo válidas e necessárias, estas abordagens pecam por uma grande incorrecção logo na sua génese que, para a maioria das pessoas, passa despercebida.

É normal, e já me tem acontecido, ouvir alguém dizer que "fulano" tem uma cultura literária muito grande porque conhece quase todos os romancistas importantes e consegue lembrar-se sempre de versos dos poetas essenciais. Isso para mim, apesar de demonstrar algum conhecimento, não é prova de cultura literária.  É evidente que quem tem um vasto saber, no que à escrita criativa diz respeito, consegue sempre passar a imagem de entendido e, aos olhos dos mais desatentos e leigos, transforma-se num género de "expert" cultural.

Mesmo podendo aprender muito com a leitura destes géneros literários, acho que é fundamental para o desenvolvimento cultural de um povo que também se leiam livros com maior assertividade educativa. Estou convicto da importância de se ler sobre ciências, filosofia, história, artes, etc.

Muitos podem dizer que a maioria dessas temáticas são abordadas em romances, contos, novelas e livros de poesia mas a grande verdade é que, por mais informativo ou didático que seja esse livro, as referências a outras áreas do pensamento são simples apêndices ou ferramentas de auxílio aos enredos. 

Ninguém se transforma em grande conhecedor de geografia ou tecnologia aeronaútica só porque leu os livros de Júlio Verne. Ninguém é perito em psicologia por ter lido Dostoievski. Quem leu toda a obra de Pessoa não é especialista em esquizofrenia. Nem quem leu Camões é entendido em mitologia.

Quanto a mim, e não sou o único a pensar desta forma, ter cultura literária é  bem mais do que ler Kafka, Dostoievski, Hemingway, Júlio Verne, Rimbaud ou Herculano, Garrett, Agustina, Pessoa e Camões.

Concordo que se debata as questões que diferenciam cada autor, seja romancista, poeta ou novelista, mas a literatura não se limita a estas vertentes da escrita, mais do foro criativo. O panorama literário é mais vasto e não se é mais culto que os restantes só porque lemos os clássicos.

A cultura literária constrói-se diversificando os nossos hábitos de leitura. Leiam os clássicos, os menos clássicos, os que nunca serão clássicos, mas não se limitem a isso. Expandam o vosso conhecimento lendo ensaios, biografias, livros de arte, ciências, história, filosofia, etc.

Saber nunca ocupou lugar.

MANU DIXIT

 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

EU FALO DE... GRAÇA PIRES


Na sequência do meu artigo anterior, quero falar-vos de uma autora que é para mim uma referência importante e cujo mais recente trabalho, CADERNO DE SIGNIFICADOS, teve a sua sessão de lançamento no passado sábado, dia 30 de Março, na Sociedade Guilherme Cossoul de Campolide.

Graça Pires é um daqueles nomes que, tal como referiu Maria João Cantinho na sua análise ao livro apresentado, não tem a exposição merecida devido à forma discreta como se movimenta no meio literário. Tanto a obra, quinze trabalhos publicados, como a dezena de prémios recebidos, são sinónimos da qualidade da sua poesia.

Tal como referi no meu texto anterior, existem autores que fazem trajectos paralelos aos consagrados mas que nem por isso deixam de ser uma referência importante para os seus contemporâneos. O caso de Graça Pires é sintomático e a prova do que digo está nos nomes que marcaram presença nesta sessão de lançamento. Pessoas como Inês Ramos, Gisela Ramos Rosa, Victor Oliveira Mateus, Maria Teresa Dias Furtado, entre muitos outros autores, não deixaram passar a oportunidade de homenagear esta enorme poeta dos nossos dias. 

Sem entrar em análises aprofundadas sobre a escrita de Graça Pires, limitar-me-ei a dizer que um dos grandes predicados desta autora reside na forma simples como nos transmite os seus pensamentos, ou como disse a própria, e passo a citar: "Eu escrevo de modo que o maior número de pessoas me consiga entender" - fim de citação.

Este seu jeito simples também está bem vincado na forma como interage com os seus leitores e confessos admiradores. Não fazendo distinção entre poetas, mais ou menos consagrados, e os restantes, nem se furtou à troca de palavras com nenhum dos que, pacientemente, esperavam a sua vez pelo tão desejado autógrafo.

Como disse anteriormente, Graça Pires é para mim uma referência e por essa razão lhe dedico um poema, no meu recém-editado POETAS QUE SOU. E esse facto, para grande orgulho deste vosso amigo, foi  mencionado pela autora ao revelar-me que, em conversa com o poeta Victor Oliveira Mateus, outra das minhas referências, abordaram esse meu trabalho e respectivos poemas. No fim da nossa pequena mas gratificante troca de impressões, Graça Pires dirigindo-se a um dos presentes, apontou para mim dizendo, e volto a citar: "Nunca pensei que tivesse um grupo de admiradores tão dedicado" - fim de citação.

Mais palavras para quê? Grandes pessoas têm grandes gestos.                  

MANU DIXIT

 

terça-feira, 2 de abril de 2013

EU FALO DE... AUTORES REFERÊNCIA


Ao longo da história da literatura portuguesa, foram muitos os autores que ganharam, por mérito próprio, o direito a serem apelidados de referências literárias. Nomes como Fernando Pessoa, Aquilino Ribeiro, Camilo Castelo Branco, Miguel Torga, Florbela Espanca, Lídia Jorge, José Saramago, Lobo Antunes, para referir apenas alguns, de uma lista interminável, são bons exemplos de autores referência, cada um no seu género e estilo.

Se por um lado temos aqueles autores que marcaram não só a sua época mas também as que se seguiram, não é menos verdade que, em paralelo, sempre existiram outros com menos destaque ou visibilidade mas com grande influência nos seus contemporâneos.

A generalidade das pessoas sabe que o grande Fernando Pessoa tinha uma forte admiração por Mário de Sá Carneiro, com quem se correspondeu frequentemente, pedindo-lhe, não poucas vezes, opiniões sobre os seus textos. O que a maioria desconhece é que existia um outro autor, quase ignorado nos nossos dias, pelo qual o poeta dos heterónimos nutria um fascínio ainda maior, tendo-o considerado um dos maiores nomes da poesia lusófona de sempre. Opinião partilhada por Teixeira de Pascoes. Ambos se referiam a Domingos Monteiro.

Convém dizer que este autor conseguiu a proeza de ser uma referência, para dois dos maiores vultos da poesia portuguesa, com apenas dois livros editados, o mesmo é dizer, com 18 anos de idade. Só trinta e dois anos depois da edição do seu segundo livro é que editou o terceiro, fazendo mais uma pausa de vinte cinco anos antes do quarto. Talvez por força destes hiatos, o seu nome é pouco conhecido e a importância da sua obra na história da poesia nacional seja vista como quase nula.

No entanto, e voltando um pouco atrás, essa escassez produtiva, pelo menos no que à edição diz respeito, não impediu que fosse para os seus contemporâneos um nome de referência.

Serve este resumido episódio da história para vos dizer que, nem sempre, são os grandes nomes, os mais consagrados, aqueles que mais influenciam uma época. E o exemplo que dei é apenas um dos muitos que poderia dar. Em vez de Domingos Monteiro, eu poderia ter falado de Tomaz Kim ou Mário Saa, só para mencionar mais dois nomes de poetas quase desconhecidos da maioria mas com grande impacto nos processos criativos de outros, cujos nomes são mais familiares nos dias de hoje, casos de Jorge Sena e Ruy Belo.

Puxando um pouco a brasa à minha sardinha, permitam-me que vos transcreva uma passagem do prefácio que o poeta Nuno Guimarães escreveu para o meu livro POETAS QUE SOU, que creio servir na perfeição para ilustrar esta minha tese:

“... Quantas e quantas vezes, são os nomes menos conhecidos que despoletam no poeta uma vontade de escrever. Quantas e quantas vezes, meia dúzia de palavras navegando entre mares encapelados de versos, trazem o sonho e levam o poeta a rabiscar.”

Acrescentarei apenas a minha forte convicção que, em todas as épocas e em todos os estilos literários, existem os grandes nomes que por mérito se transformam em referências mas todos eles beberam de outras fontes menos mediáticas ou visivéis.

 

MANU DIXIT

sexta-feira, 29 de março de 2013

EU FALO DE... CEREJA NO TOPO DO BOLO



Depois do gratificante dia de sábado, apesar do fiasco, e da fabulosa tarde de domingo, rodeado de muitos amigos da poesia, eis que cheguei a casa pronto para dar ao corpo o descanso e alivio que ele me pedia pelo desgaste de tantas horas de viagem durante os dois dias.

Mas antes do guerreiro repousar, impunha-se uma última visita às páginas da net para moderar comentários e responder a algumas mensagens.

 
E como todos os bolos têm mais encanto quando o topo vem enfeitado, faltava a cereja neste bolo chamado fim-de-semana. Essa, encontrei-a num artigo escrito, pelo poeta brasileiro Flávio Morgado, sobre o meu recém-editado POETAS QUE SOU e que passo a transcrever sem mais comentários.

Grata surpresa foi receber o novo livro do poeta português, lusófono, como ele prefere, Emanuel Lomelino. "Poetas que sou" é um livro de rara beleza e instigante reflexão acerca do milenar ofício de poeta. Pensemos no título: já em clara referência à multidão de vozes que o compõe, não deixando de ecoar a conhecida tradição heterónima portuguesa iniciada com Pessoa, mas indo além, chegando ao oportuno limite da homenagem e da metalínguagem. Trazendo para dentro de sua poética a presença de tantos outros que o pegam pela mão. Lomelino quer nos dizer: cada verso é um rastro de tantas outras vozes, remetido sempre ao infinito. Escrever só é possível com (e por) fantasmas.

Rio de Janeiro, 22 de Março de 2013

Flávio Morgado

 

MANU DIXIT

 

quarta-feira, 27 de março de 2013

EU FALO DE... FIASCO


Uma vez mais, senti a necessidade de escrever na sequência de um artigo anterior porque, por incrível que possa parecer para a generalidade das pessoas, ainda há quem, apesar de letrado, não consiga fazer interpretações correctas daquilo que escrevo.

No meu artigo anterior, sem ter entrado em detalhes, fiz questão de dizer que o evento de apresentação do meu livro, no Porto, tinha sido um fiasco no seu propósito. Pois bem, para aqueles que não sabem qual é o propósito de um evento do género, aqui fica um pequeno esclarecimento.

Quando um autor, editora, ou espaço, se propõe realizar uma sessão de apresentação, tem como finalidade dar a conhecer publicamente uma obra. Em circunstâncias normais, esse evento é pensado para um determinado público alvo, sendo que, na generalidade dos casos, esse mesmo público é conhecedor do trabalho do autor.

Considerando que eu, a editora e o Luis Beirão (responsável  do Olimpo) estivemos perto de um mês a fazer divulgação do evento, junto dos nossos contactos, ninguém se pode queixar de falta de informação e assim justificar a ausência.

Sim, o evento que nos propusemos realizar foi um fiasco! À hora marcada não havia mais ninguém para além de mim, do Luis e da Ana, ambos do Olimpo.

No artigo anterior eu referi que apesar do fiasco, a minha ida ao Porto tinha sido gratificante por ter conhecido duas pessoas fantásticas que, perante o cenário desolador, mesmo para eles, decidiram não perder a oportunidade de ter no seu espaço um autor de poesia e sugeriram-me que dissesse algumas palavras sobre o livro perante as pessoas que ali se deslocariam para um outro evento, este musical.

Foi para um público diferente que eu acabei por fazer a minha apresentação e, embora inicialmente, tenha sentido alguma resistência, o que é natural, aos poucos comecei a notar que estava a ganhar a atenção e o interesse dos presentes, e daí até à interacção total foi um passo. Não, não vendi um único exemplar. Mas nem só de livros vendidos vivem os autores. Aliás, são poucos aqueles que o conseguem fazer, ainda menos os que escrevem poesia. Mais importante foi o que ganhei.

Tenho a consciência que, para muitos outros autores, uma situação semelhante seria razão suficiente para desmotivar. Contudo, eu não sou "outros autores" e é preciso bem mais que um fiasco para me desmotivar. E a prova do que acabo de dizer é que já tenho agendado um evento em Braga, onde falarei de novo sobre o meu livro POETAS QUE SOU, seja para que público for, independente de vender ou não alguns exemplares.

Ao contrário do que já me disseram, ter considerado o evento um fiasco não é, de modo algum, uma ofensa para o Olimpo e seus responsáveis. A esses não aponto um dedo acusador. Não foi por eles que o evento fracassou. A culpa desse fracasso é essencialmente daqueles que tanto apregoam a falta de eventos literários e não aparecem. A culpa é daqueles autores que gritam ao mundo pela solidariedade dos restantes mas não retribuem. A culpa é daqueles que para se mostrarem socialmente activos fazem questão de dizer a meio mundo que vão a mil e um eventos e nos locais ninguém os vê.

Já disse várias vezes, e não me cansarei de repetir, a mim não me incomoda absolutamente nada a ausência, seja de quem for. Sou um positivista por natureza e apenas me pode afectar aquilo que eu deixar. Assim sendo, e para não me alongar mais neste tema, termino deixando um recado a todos os autores: façam-me o favor de não aparecer em Braga, a vossa falta não será sentida, mesmo que tenha de qualificar esse evento como um novo fiasco,no seu propósito.

MANU DIXIT