terça-feira, 2 de abril de 2013

EU FALO DE... AUTORES REFERÊNCIA


Ao longo da história da literatura portuguesa, foram muitos os autores que ganharam, por mérito próprio, o direito a serem apelidados de referências literárias. Nomes como Fernando Pessoa, Aquilino Ribeiro, Camilo Castelo Branco, Miguel Torga, Florbela Espanca, Lídia Jorge, José Saramago, Lobo Antunes, para referir apenas alguns, de uma lista interminável, são bons exemplos de autores referência, cada um no seu género e estilo.

Se por um lado temos aqueles autores que marcaram não só a sua época mas também as que se seguiram, não é menos verdade que, em paralelo, sempre existiram outros com menos destaque ou visibilidade mas com grande influência nos seus contemporâneos.

A generalidade das pessoas sabe que o grande Fernando Pessoa tinha uma forte admiração por Mário de Sá Carneiro, com quem se correspondeu frequentemente, pedindo-lhe, não poucas vezes, opiniões sobre os seus textos. O que a maioria desconhece é que existia um outro autor, quase ignorado nos nossos dias, pelo qual o poeta dos heterónimos nutria um fascínio ainda maior, tendo-o considerado um dos maiores nomes da poesia lusófona de sempre. Opinião partilhada por Teixeira de Pascoes. Ambos se referiam a Domingos Monteiro.

Convém dizer que este autor conseguiu a proeza de ser uma referência, para dois dos maiores vultos da poesia portuguesa, com apenas dois livros editados, o mesmo é dizer, com 18 anos de idade. Só trinta e dois anos depois da edição do seu segundo livro é que editou o terceiro, fazendo mais uma pausa de vinte cinco anos antes do quarto. Talvez por força destes hiatos, o seu nome é pouco conhecido e a importância da sua obra na história da poesia nacional seja vista como quase nula.

No entanto, e voltando um pouco atrás, essa escassez produtiva, pelo menos no que à edição diz respeito, não impediu que fosse para os seus contemporâneos um nome de referência.

Serve este resumido episódio da história para vos dizer que, nem sempre, são os grandes nomes, os mais consagrados, aqueles que mais influenciam uma época. E o exemplo que dei é apenas um dos muitos que poderia dar. Em vez de Domingos Monteiro, eu poderia ter falado de Tomaz Kim ou Mário Saa, só para mencionar mais dois nomes de poetas quase desconhecidos da maioria mas com grande impacto nos processos criativos de outros, cujos nomes são mais familiares nos dias de hoje, casos de Jorge Sena e Ruy Belo.

Puxando um pouco a brasa à minha sardinha, permitam-me que vos transcreva uma passagem do prefácio que o poeta Nuno Guimarães escreveu para o meu livro POETAS QUE SOU, que creio servir na perfeição para ilustrar esta minha tese:

“... Quantas e quantas vezes, são os nomes menos conhecidos que despoletam no poeta uma vontade de escrever. Quantas e quantas vezes, meia dúzia de palavras navegando entre mares encapelados de versos, trazem o sonho e levam o poeta a rabiscar.”

Acrescentarei apenas a minha forte convicção que, em todas as épocas e em todos os estilos literários, existem os grandes nomes que por mérito se transformam em referências mas todos eles beberam de outras fontes menos mediáticas ou visivéis.

 

MANU DIXIT

sexta-feira, 29 de março de 2013

EU FALO DE... CEREJA NO TOPO DO BOLO



Depois do gratificante dia de sábado, apesar do fiasco, e da fabulosa tarde de domingo, rodeado de muitos amigos da poesia, eis que cheguei a casa pronto para dar ao corpo o descanso e alivio que ele me pedia pelo desgaste de tantas horas de viagem durante os dois dias.

Mas antes do guerreiro repousar, impunha-se uma última visita às páginas da net para moderar comentários e responder a algumas mensagens.

 
E como todos os bolos têm mais encanto quando o topo vem enfeitado, faltava a cereja neste bolo chamado fim-de-semana. Essa, encontrei-a num artigo escrito, pelo poeta brasileiro Flávio Morgado, sobre o meu recém-editado POETAS QUE SOU e que passo a transcrever sem mais comentários.

Grata surpresa foi receber o novo livro do poeta português, lusófono, como ele prefere, Emanuel Lomelino. "Poetas que sou" é um livro de rara beleza e instigante reflexão acerca do milenar ofício de poeta. Pensemos no título: já em clara referência à multidão de vozes que o compõe, não deixando de ecoar a conhecida tradição heterónima portuguesa iniciada com Pessoa, mas indo além, chegando ao oportuno limite da homenagem e da metalínguagem. Trazendo para dentro de sua poética a presença de tantos outros que o pegam pela mão. Lomelino quer nos dizer: cada verso é um rastro de tantas outras vozes, remetido sempre ao infinito. Escrever só é possível com (e por) fantasmas.

Rio de Janeiro, 22 de Março de 2013

Flávio Morgado

 

MANU DIXIT

 

quarta-feira, 27 de março de 2013

EU FALO DE... FIASCO


Uma vez mais, senti a necessidade de escrever na sequência de um artigo anterior porque, por incrível que possa parecer para a generalidade das pessoas, ainda há quem, apesar de letrado, não consiga fazer interpretações correctas daquilo que escrevo.

No meu artigo anterior, sem ter entrado em detalhes, fiz questão de dizer que o evento de apresentação do meu livro, no Porto, tinha sido um fiasco no seu propósito. Pois bem, para aqueles que não sabem qual é o propósito de um evento do género, aqui fica um pequeno esclarecimento.

Quando um autor, editora, ou espaço, se propõe realizar uma sessão de apresentação, tem como finalidade dar a conhecer publicamente uma obra. Em circunstâncias normais, esse evento é pensado para um determinado público alvo, sendo que, na generalidade dos casos, esse mesmo público é conhecedor do trabalho do autor.

Considerando que eu, a editora e o Luis Beirão (responsável  do Olimpo) estivemos perto de um mês a fazer divulgação do evento, junto dos nossos contactos, ninguém se pode queixar de falta de informação e assim justificar a ausência.

Sim, o evento que nos propusemos realizar foi um fiasco! À hora marcada não havia mais ninguém para além de mim, do Luis e da Ana, ambos do Olimpo.

No artigo anterior eu referi que apesar do fiasco, a minha ida ao Porto tinha sido gratificante por ter conhecido duas pessoas fantásticas que, perante o cenário desolador, mesmo para eles, decidiram não perder a oportunidade de ter no seu espaço um autor de poesia e sugeriram-me que dissesse algumas palavras sobre o livro perante as pessoas que ali se deslocariam para um outro evento, este musical.

Foi para um público diferente que eu acabei por fazer a minha apresentação e, embora inicialmente, tenha sentido alguma resistência, o que é natural, aos poucos comecei a notar que estava a ganhar a atenção e o interesse dos presentes, e daí até à interacção total foi um passo. Não, não vendi um único exemplar. Mas nem só de livros vendidos vivem os autores. Aliás, são poucos aqueles que o conseguem fazer, ainda menos os que escrevem poesia. Mais importante foi o que ganhei.

Tenho a consciência que, para muitos outros autores, uma situação semelhante seria razão suficiente para desmotivar. Contudo, eu não sou "outros autores" e é preciso bem mais que um fiasco para me desmotivar. E a prova do que acabo de dizer é que já tenho agendado um evento em Braga, onde falarei de novo sobre o meu livro POETAS QUE SOU, seja para que público for, independente de vender ou não alguns exemplares.

Ao contrário do que já me disseram, ter considerado o evento um fiasco não é, de modo algum, uma ofensa para o Olimpo e seus responsáveis. A esses não aponto um dedo acusador. Não foi por eles que o evento fracassou. A culpa desse fracasso é essencialmente daqueles que tanto apregoam a falta de eventos literários e não aparecem. A culpa é daqueles autores que gritam ao mundo pela solidariedade dos restantes mas não retribuem. A culpa é daqueles que para se mostrarem socialmente activos fazem questão de dizer a meio mundo que vão a mil e um eventos e nos locais ninguém os vê.

Já disse várias vezes, e não me cansarei de repetir, a mim não me incomoda absolutamente nada a ausência, seja de quem for. Sou um positivista por natureza e apenas me pode afectar aquilo que eu deixar. Assim sendo, e para não me alongar mais neste tema, termino deixando um recado a todos os autores: façam-me o favor de não aparecer em Braga, a vossa falta não será sentida, mesmo que tenha de qualificar esse evento como um novo fiasco,no seu propósito.

MANU DIXIT 

  

segunda-feira, 25 de março de 2013

EU FALO DE... 48 HORAS DE UMA VIDA



Sempre acreditei que a felicidade acaba por ser mais que o produto final de uma equação composta por diversas variantes; bons e maus momentos, instantes de satisfação e descontentamento, períodos de harmonia e revolta, fogachos de bem estar e instabilidade, etc. Ser feliz é saber reconhecer cada um dos factores atrás mencionados e desfrutar ao máximo cada segundo da vida. A felicidade não é um sentimento pleno e permanente, bem pelo contrário, ela é-nos servida em fragmentos e devemos ser nós a juntá-los para no fim sabermos qual o grau de felicidade que nos cabe na vida.

É por ter em mim esta definição e a ela somar a minha capacidade de ver as todas as coisas pela positiva que considero este fim-de-semana que passou um dos melhores deste ano. Apesar de, em 48 horas, ter dormido umas doze e passado outras tantas em viagem (só não andei de avião), o resto do tempo, mesmo com altos e baixos emocionais, acabou por ser enriquecedor, motivante e, acima de tudo, um enorme fragmento de felicidade.

Sem entrar em demasiados detalhes, afirmo que a minha ida ao Porto para apresentar o livro POETAS QUE SOU, tendo sido um fiasco como propósito, foi muito gratificante pela qualidade humana das pessoas que conheci. Tenho de fazer um enorme agradecimento ao Olimpo por me ter aberto as suas portas, sem deixar de referir que tanto o Luís, como a Ana, são dois seres humanos fantásticos, não só pela disponibilidade demonstrada, mas também pela atenção, carinho e respeito que tiveram por mim, e acima de tudo, pelo amor à camisola que é evidente na forma de estar de cada um deles. Bem hajam.

Continuando a omissão de detalhes, resta-me falar de Domingo e do grande dia que me foi proporcionado por diversas pessoas numa junção de esforços e boa vontade, que me permitiram, para além de testemunhar mais um fantástico momento de cultura, sentir na pele todo o carinho que nutrem por mim, o respeito pelo autor e principalmente a consideração que têm pelo homem.

Já aqui referi, num artigo anterior, que tenho bem definidas as linhas que separam o autor da pessoa que lhe empresta o corpo, assim sendo e chegados a este ponto, devo dizer que, dissertações, relativas ao homem, à parte, o autor Emanuel Lomelino cresceu muito este fim-de-semana por mérito de outros autores.

Foi com enorme satisfação pessoal que ontem vi duas amigas da escrita serem agraciadas, com casa cheia, numa iniciativa que a todos engrandeceu, mas que sem o esforço, dedicação e empenho de ambas, nunca seria possível realizar e levar a bom porto. Parabéns MARIA EUGÉNIA PONTE e ANA COELHO pelo êxito do I Concurso de Poesia AlenCriativos.

Por outro lado, o autor Emanuel Lomelino também cresceu, por ter visto outras duas amigas receberem a honra de fazerem parte de um júri que, perante um elevado número de trabalhos postos a concurso, soube criar as condições necessárias para que a imparcialidade dos resultados fosse notória e não deixasse margem para qualquer dúvida. Parabéns MARIA JOSÉ LACERDA e SUSANA MAURÍCIO pela qualidade dos poemas que agraciaram.

Por último, o autor Emanuel Lomelino também cresceu, e muito, por ver mais três amigas da escrita, pelas quais nutro um grande carinho, serem distinguidas pela sua escrita. Parabéns NANDA ROCHA e MARIA DE FÁTIMA SOARES, pelas menções honrosas, e RITA FARIAS pelo 3º lugar.

Contas feitas, somados todos os momentos deste fim-de-semana, dando a importância que cada coisa merece e juntando o valor que algumas acções (detalhes que não mencionei) me merecem, só posso dizer... nas últimas 48 horas fui um homem feliz.

 

MANU DIXIT

quinta-feira, 21 de março de 2013

DEZ PERGUNTAS A ... GONÇALO MARTINS

Tendo em conta a proximidade do lançamento da maior antologia de poesia que se edita actualmente em Portugal, este vosso amigo achou interessante ouvir Gonçalo Martins, fundador e chefe de administração da Chiado Editora e grande responsável pela antologia Entre o sono e o sonho que este ano teve a sua quarta edição. Desde já o meu agradecimento ao Gonçalo Martins pela enorme disponibilidade demonstrada, apesar da sua agenda preenchidíssima.
 
1 - Enquanto editor, como vê o panorama literário nacional, tendo em consideração o rácio autor / número de leitores?
Apesar do péssimismo vigente em quase todas as àreas da vida económica e cultural portuguesa, é um facto que existem cada vez mais Autores e nunca se leu tanto como agora! Este fenómeno tem de ser visto à luz de uma prespectiva multi-plataforma, isto é: Livros, redes sociais, blogues, e-books, etc...
Enquanto editor, é fundamental perceber que os principais actores deste paradigma são os Autores e os Leitores, independentemente do rácio que cada um representa. No entanto, para vários dos actores secundários, entre os quais os editores, especialmente numa altura de rápidos avanços culturais e tecnológicos, existem enormes riscos mas também enormes oportunidades.

2 - Sabendo de antemão que qualidade é um conceito abstrato e demasiado lato, que características deve ter uma obra para preencher os requisitos exigidos pela vossa linha editorial?
Para ser publicada pela Chiado Editora uma obra tem de ter interesse para os leitores, ainda que seja apenas um nicho, e ser viável financeiramente. Estamos no mercado para fazer a diferença, publicando livros que as pessoas gostem, e tornando a vida dos leitores melhor.

3 – Em percentagem, a Chiado Editora publica mais autores que a procuram ou autores que aborda? Porquê?
95% das publicações da Chiado Editora são de Autores que, em primeira instância, nos apresentam originais. Isto acontecee porque nos são apresentados mensalmente cerca de 600 projectos editoriais, enquanto nós, enquanto editores, convidamos mensalmente uns 3 ou 4 Autores a publicar connosco.

4 - Quais as razões principais para que a generalidade dos autores tenha encargos tão elevados na edição das obras?
Apenas posso falar pela Chiado Editora. No nosso caso, e apesar das largas dezenas de obras que publicamos mensalmente, cada obra é uma obra, e as condições de publicação são discutidas caso a caso. O objectivo é sempre que, no final, Autor, Leitores e editora fiquem satisfeitos.

5 - Entre as editoras que mais publicam autores desconhecidos e primeiras obras, a Chiado Editora é aquela que, à primeira vista, tem uma estrutura maior. De que forma esse aspecto a beneficia em relação às outras?
A Chiado Editora não tem parado de crescer e a estrutura tem acompanhado essa tendência. A nossa estrutura actual, de cerca de 50 pessoas no total, entre editores, marketeers, logística, organizadores de eventos, designers, paginadores, revisores, etc... é aquela que consideramos adequada neste momento para fazermos um excelente trabalho com cada um dos livros que editamos, e mantermos o espírito aberto para a inovação constante.

6 - As editoras mais pequenas, ou dito de outra forma, as editoras que não têm atrás de si os grandes grupos editoriais, não teriam a ganhar se unissem esforços entre si? Essa interacção não as beneficiaria?
Sem dúvida! No início deste trajecto contactei com inúmeras editoras para realizarmos sinergias vantajosas para ambos em áreas como a impressão, distribuição, etc... Obtive poucas respostas e as que obtive foram negativas ou inconclusivas. Existe uma enorme vontade de defender o pouco que se tem, em lugar de pensar a edição de forma empresarial, com riscos e oportunidades.  

7 - Qual o conselho que dá aos seus colegas editores no sentido de um crescimento semelhante ao vosso?
Tenho 33 anos, ainda estou no início, não me vejo no direito de dar conselhos a ninguém.

8 - Nos 4 anos de existência, a Chiado Editora cresceu ao ponto de ter entrado em vários mercados internacionais. Quais as vantagens que daí advêm para os autores portugueses?
As vantagens são imensas. Desde logo, porque todos os livros publicados em Português, sejam de Autores portugueses ou brasileiros, que vendam 3.000 exemplares em Portugal e/ou no Brasil, independentemente do género ou do Autor, recebem um significativo investimento da Chiado Editora que os traduz para Espanhol e Inglês e os publica pelas respectivas chancelas da Chiado nesses países: Chiado Editorial (Espanha) e Chiado Publishing (Reino Unido, Irlanda e Estados Unidos).

9 – Este ano teremos o volume IV da Antologia ENTRE O SONO E O SONHO. Isso significa que esta obra tem sido mesmo representativa do que melhor se escreve em português ou passou a ser uma imagem de marca da editora?
Ambas as permisas são verdadeiras! A antologia foi um projecto em que me envolvi pessoalmente. A obra é cada vez mais democrática, cada vez mais abrangente, têm sido publicados na mesma poetas fantásticos, alguns pela primeira vez. Por outro lado, é o próprio público e são os Autores que ano após ano soliticam um novo volume da obra.

10 – Quais os vossos objectivos para o futuro próximo e que podem os autores portugueses esperar da Chiado Editora?  
Somos a Editora que mais livros publica em Portugal, queremos crescer até ser a Editora que mais livros vende. Ainda suma, e sem falsa modéstia, queremos, em 5 anos, ser a maior editora em Portugal. Nos mercados internacionais querermos ser uma editora com uma palavra importante, creio que somos já a única editora do mundo a públicar em 15 países e 5 línguas diferentes. Os Autores podem esperar uma editora sólida, arrojada, e, terminando como comecei, que sabe que o Autor e o Leitor são as peças mais importantes do meio literário.