segunda-feira, 4 de março de 2013

AGENDA DA SEMANA


 
DIA 5

22.30h - Um cheirinho de poesia

             Olimpo (bar café) - Porto

 

DIA 6

 

9h - Apresentação do livro infantil HÁ DIAS CINZENTOS de Rui Beato

       EB1/JI DR. Sanches de Brito - A da Perra - Mafra

 

22.30h - Poesia no Olimpo

             Olimpo (bar café) - Porto

 

DIA 7

 

21h - Apresentação do livro ESSÊNCIA DE MULHER de ELÍSIO PINTO

        FNAC Gaiashopping - V. N. Gaia

 

DIA 8

 

15h - Apresentação do livro ENCONTRO-ME NAS PALAVRAS de Maria Antonieta Oliveira

        Centro Multifacetado de Novas Tecnologias - Vidigueira

 

21.30 - Lançamento do livro PINCELADAS AO VENTO de Maria Luisa Osório

           Biblioteca Municipal de Gondomar

 

DIA 9

 

15.30h - Apresentação das antologias A VIDA NUM SONHO e SE SONHAS CONSEGUES

             Biblioteca Municipal do Barreiro

 

17h - Apresentação do livro O PRÉDIO de Miguel Morais

        FNAC Vasco da Gama - Lisboa

 

21h - Apresentação do livro POESIA AO VENTO de Joel Lira

        Casa do Povo - Corroios

 

DIA 10

 

18h - Sessão de autógrafos com Miguel Morais, autor do livro O PRÉDIO

         Livraria Apolo 70 - C. C. Riviera - Carcavelos

 

BRASIL

 

DIA 6

 

18.30 - Lançamento do livro UVA, VINHO E TULIPAS de Vanda Amorim

           Livraria Cultura - Av. Paulista - S. Paulo

 

 

sábado, 2 de março de 2013

PRÉMIO DE POESIA SOLEDADE SUMMAVIELLE



Com o intuito de estimular a criação poética, criar hábitos de leitura e valorizar a expressão literária, o Núcleo de artes e letras de Fafe em parceria com a Editora Labirinto, decidiram instituir o PRÉMIO DE POESIA SOLEDADE SUMMAVIELLE, homenageando assim esta cantora, ceramista e poetisa fafense.

Este concurso de poesia está aberto a inéditos de autores residentes em Portugal, com idade superior a 18 anos e pressupõe a atribuição de um prémio monetário de 500€ e a edição da obra sob chancela da Editora Labirinto.

As obras submetidas a concurso devem ser individuais, inéditas e exclusivamente em língua portuguesa. Cada concorrente só poderá participar com uma obra, tendo a mesma um minimo de 30 poemas. Não existe obrigatoriedade temática.

Os trabalhos a concurso deverão ser enviados até dia 31 de Dezembro de 2013.

Os resultados serão divulgados nos órgãos de comunicação social e disponibilizados nos blogues das entidades promotoras em Fevereiro de 2014, sendo a edição da obra vencedora apresentada em Março de 2014, no âmbito das actividades evocativas do Dia Mundial da Poesia.

Este é apenas um resumo das regras, pelo que, todos os autores interessados em participar neste concurso de poesia devem fazer o pedido do regulamento via e-mail para editoralabirinto@gmail.com indicando no assunto PRÉMIO DE POESIA SOLEDADE SUMMAVIELLE, e fornecendo o endereço para o qual deve ser enviado o folheto com todas as informações sobre o concurso.

Mãos à obra, boas escritas e boa sorte.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

EU FALO DE.... SOLIDARIEDADE AUTORAL


SOLIDARIEDADE AUTORAL

Todos sabemos e sentimos na pele que esta época em que vivemos fica marcada pela feroz concorrência que a sociedade no geral nos obriga a enfrentar em todos os aspectos da vida. Enquanto autor sei e compreendo que aqueles que escrevem querem ganhar o seu espaço mas também tenho consciência que nem todos jogam com as mesmas regras e valores.

Serve o parágrafo anterior de introdução a um tema que já abordei neste blogue, embora numa perspectiva diferente. Nesse artigo falei de autores que nunca são vistos em outros eventos que não sejam os seus ou efemérides das editoras pelas quais editam, neste falarei da falta de solidariedade entre autores e as razões que levam a que dentro do universo de escritores existam filhos e enteados.

A generalidade das pessoas sabe que à partida tem de “contribuir” com um determinado valor para poder editar. Quer se queira, quer não, a escrita é um negócio e é perante este cenário que temos de analisar as dinamicas de alguns autores. Existem aqueles que se sujeitam e investem nestas circunstâncias e outros que se recusam a fazê-lo. Entre aqueles que arriscam, alguns não ficam satisfeitos, para não dizer desagradados, e não voltam a editar enquanto outros, apesar de tudo, persistem. Até aqui nada contra.

No entanto, e falando em termos gerais porque conheço alguns autores que se recusam a editar nestas condições mas mantêm o espírito aberto e apoiam os restantes, este cenário inicial provoca em alguns “amargurados” um sentimento de rancor por aqueles que continuam em busca do sonho, em especial os que, aos seus olhos, são escritores “inferiores” a si. Não interessa se escrevem bem ou mal, conseguem editar e isso é suficiente para serem apelidados de “vendidos” ou “comerciais” e acusados de só editarem porque têm dinheiro para o fazer (pasme-se a descoberta), e por isso não lhes merecem qualquer incentivo ou apoio.

Apesar de não concordar com esta postura, consigo entendê-la melhor do que aquela que adiante mencionarei.

Deixemos de lado os autores que não editam ou que após a edição do primeiro livro deixam de editar e concentremo-nos naqueles que o fazem com alguma frequência.

Faz parte da natureza humana criar laços, sejam familiares, profissionais, sociais ou culturais. Nesta lógica é perfeitamente legítimo que entre autores também haja empatias e amizades muito fortes. Da mesma forma, também é natural ver autores que editam numa determinada editora terem contactos mais estreitos entre si do que com autores de diferentes chancelas. No entanto é neste ponto que a porca torce o rabo e muitos autores misturam alhos com bugalhos transformando laços de amizade em grupos quase hermeticamente fechados, sendo que, quem não joga com as suas cores deixa de ser bom escritor e por consequência deixa de contar com o apoio desse grupo. Eu digo “desse” mas existem inúmeros.  

Para ilustrar o que acabei de referir, darei como exemplo uma situação que ocorreu comigo e que sempre desvalorizei, embora o mesmo não possa dizer de algumas pessoas que se aperceberam do que se estava a passar e que tomaram como suas as dores que deveriam ter sido minhas mas que, repito, nunca cheguei a sentir.

O episódio ocorreu no Verão de 2011 após a minha primeira presença na POPULAR FM, onde anunciei em primeira mão que o meu terceiro livro, LICENÇA POÉTICA – duetos lomelinos, seria editado pela Lua de Marfim.

Logo nessa noite foram publicados alguns textos na internet que, apesar de não dizerem expressamente a quem se dirigiam, eram endereçados a mim. No dia seguinte a essa entrevista na rádio, fiz questão de marcar presença num evento e pasmem-se (eu não) algumas pessoas com quem tinha um relacionamento saudável, pura e simplesmente não me falaram, havendo inclusive quem me tenha virado a cara. Há testemunhas disso e durante toda a semana que se seguiu recebi chamadas de pessoas que se aperceberam do ocorrido, tanto na net como no evento e que se sentiam mal perante tudo aquilo. Mas tal como referi anteriormente, toda esta situação mereceu da minha parte uma completa desvalorização.

O mesmo nível de desvalorização que dei em Abril de 2012 a todas as mensagens, chamadas e comentários que recebi quando anunciei que iria apresentar o mesmo livro no Porto a convite da editora Universus.

Para mim sempre foi muito claro que existe uma diferença substancial entre o Emanuel Lomelino – pessoa – e o Emanuel Lomelino – autor. Enquanto o primeiro tem uma postura social uniforme e sem distinções, o segundo encara com realismo todas as situações que o podem beneficiar, a si e à obra.

Sem querer dar importância a algo que não a merece, usei este exemplo para dizer que a generalidade dos autores não consegue ver para além do seu próprio umbigo nem assimilar que existem outros que procuram diferentes saídas, soluções e caminhos quando confrontados com oportunidades de dar outro rumo à sua obra. Infelizmente, para muitos ainda é difícil aceitar que alguém do mesmo meio tenha mais sucesso ou maior visibilidade.

Enquanto autor, sei quais as dificuldades que outros têm para verem os seus sonhos transformados em livro e por isso não me custa absolutamente nada dar uma mão e ajudar através das ferramentas que tenho ao meu dispor e em algumas circunstâncias comparecer nos eventos para dar uma força extra e incentivar.

Também tenho consciência que o facto de neste momento ter um contrato de edição não quer dizer que sou melhor do que outros nem que continuarei a receber propostas de edição nos mesmos termos ou semelhantes. Pura e simplesmente aproveitei, enquanto autor, uma oportunidade sem que o homem deixasse de tratar todos os outros da mesma forma que até aí.

O mesmo não poderei dizer de alguns individuos que mudam completamente a sua forma de estar quando conseguem entrar em alguns núcleos mais elitistas (os que publicam em editoras maiores e/ou em órgãos ligados às artes) muitas vezes evitando misturar-se com os demais em público. Por acaso conheço um que fica embaraçadissimo quando me encontra em eventos de “amigos” seus.

Aqueles que me conhecem e convivem mais de perto comigo sabem o quanto fico satisfeito quando outro autor consegue alcançar voos mais altos, mesmo mais altos que os meus.

Mas, como referi no início deste artigo, vivemos numa sociedade em que quase é exigida competição e a maioria das pessoas actua em conformidade esquecendo que estamos todos no mesmo barco, independente da chancela pela qual editamos e das condições em que o fazemos.

Por minha parte, podem ter a certeza que continuarei, dentro das minhas possibilidades, a dar destaque a todos os autores lusófonos, seja na divulgação de eventos, com presenças nas sessões de lançamento e apresentações, ou utilizando os meus espaços da internet para lhes dar maior visibilidade. Tenho a certeza que ajudando outros a crescer também o Emanuel Lomelino autor cresce.


MANU DIXIT

 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

FALA AÍ BRASIL... FLÁVIO MORGADO


 
 
Inicia-se hoje mais uma rúbrica que pretende dar-nos a conhecer um pouco daquilo que se faz no Brasil a nível literário.
O meu agradecimento ao poeta FLÁVIO MORGADO pelo seu contributo no enriquecimento deste blogue
 
 
Diria o poeta Mário Quintana, que “quem faz um poema abre uma janela”. Pois sim, Bruno Cattoni, um dos grandes poetas destes tempos, não só pertence a essa linhagem, como sabe a poesia como uma das mais potentes formas de se chegar ao outro. Talvez a única justa: a única que dizendo o poeta, também deixa emergir a alteridade do leitor. Cattoni sabe salvar afogados.

Poeta, ativista e jornalista, Cattoni nasceu no Rio de Janeiro, e é autor de mais de seis livros de poesia. Dono de “um verso largo, de ritmo quase bíblico, de alta densidade emotiva e inquietação social”, como diria seu contemporâneo, o poeta Salgado Maranhão, Cattoni nos dá a oportunidade de conhecer aqui um pouco de sua poética.

Com muito prazer, eu vos apresento, Bruno Cattoni.

 

1 - Cattoni, por quê a poesia como forma de expressão?


A poesia me alcançou antes que eu pudesse expressar, em outro gênero, a linguagem transcendente. É o veículo que chegou onde eu estava esperando condução. Veio da sensibilidade da meninice, da relação subjetiva com os animais, as plantas, as pedras e as paisagens. Passageiro das noções sem palavras, quando desembarquei no mundo do estudo e do trabalho, adquiri vocábulos e imagens para contar a aventura da minha percepção dramática de um planeta belo, onde moram as famílias, regaço do amor humano; e os cachorros, gatos, cavalos, vacas, coelhos, pássaros, peixes e répteis, fiéis depositários do meu amor à vida. Mas não sou um poeta rural ou telúrico. Foi no ambiente urbano que senti a necessidade destas lembranças, enquanto levava a minha poesia para formatar-se na festa das ruas, nos encontros numerosos e na socialidade exaltada. Descobri, assim, que a poesia é o meu veículo e que conduz ao sublime, movido à energia vivencial, contida em qualquer tempo e em qualquer espaço.


2 – Sua poesia é muito marcada pelo ativismo político. Num primeiro momento você foi militante do Partido Comunista, e hoje tem um importante trabalho poético em relação à defesa dos Direitos Humanos. Como é a relação, nesse caso, entre poesia e alteridade? É possível alcançar o outro?


Minha consciência não é passiva. Não me encerrei, solitário, no labirinto das contradições instaladas pela antropofagia capitalista, e quis libertar-me da impotência diante de relações absurdas de dominação e sujeição do homem no âmbito de um sistema político-filosófico fratricida.

A manutenção do lucro privado como motor da economia acarreta rivalidades entre as pessoas e entre os países. Rivalidades que conduzem ao desperdício e à competição estéril. As tensões entre as nações mais desenvolvidas e as que estão em desenvolvimento geram conflitos que não amenizaram, décadas depois do colonialismo. E esta cartilha macroeconômica é ensinada, sub-repticiamente, na publicidade, nas escolas e nos ambientes de trabalho todos os dias, o que fomenta, no tecido social, a disputa e o ódio entre os cidadãos.

No contexto de emancipação do homem, reside em cada um a mudança da sociedade capitalista. Mora em nós o gesto primordial de transformação da realidade exclusivista e competitiva, a partir da solidariedade humana. Por isso não entreguei minha ação a uma organização acima de meu livre-arbítrio, mas juntei minhas forças com as de irmãos em pensamento. Não faço poesia, nem trabalho em jornalismo ou no ativismo de direitos humanos, para derrubar o capitalismo, nem para implementar o que considero desejável, o socialismo - um ideário que também sofreu distorções mas que prega a distribuição da riqueza, não a sua concentração.

Escrevo atuando e atuo escrevendo para conscientizar sobre a utopia de um outro mundo possível, quem sabe melhor para todas as correntes de pensamento, que um dia se complementarão para preservar o ser humano e seus valores espirituais. A história da luta dos indivíduos é sangrenta, sim, em muitos momentos, mas é também reparadora e redentora no caminho do respeito e do amor ao próximo. Não há um roteiro que se deva transmitir para a realização deste destino comum a todos. Neste caso, não movo meus anseios a bordo da poesia, mas tomo outro bom transporte - a dor - que está circulando por todos os cantos onde estamos momentaneamente esquecidos por obra e desgraça do egoísmo e da vaidade, dois flagelos da natureza humana muito bem instrumentalizados pelos capitalistas.

Tenho muito a dizer, poeticamente, para me colocar ao alcance e no alcance do outro. Agora, recorro a Emmanuel Lévinas, o filósofo da alteridade. Vale a pena prestarmos mais atenção nas mulheres para entrever nelas o feminino, enquanto a alteridade é a sua natureza. E talvez a crise ontológica do ser, que provoca a celebração do idêntico e o desprezo pela diferença, chegue ao fim quando se optar por ser femininamente, "outramente", para além da essência e de todo conhecimento totalizante e totalitário.


3 – Até onde a poesia dá conta? Uma outra atividade que exerce é a de fundador de uma importante Organização Não Governamental, o Grupo Pela Vidda. Como age essa organização? Entende a poesia como um complemento a esse ativismo?

A poesia não dá conta de muita coisa, no sentido de ser insuficiente para todas, ou mesmo para algumas das lutas que devemos enfrentar. Houve gloriosas exceções. “España en el corazón", de Neruda, fez uma revolução nas trincheiras de combate ao franquismo. Exemplares do livro eram jogados dos aviões para levantar o moral dos combatentes da liberdade. E surtiu efeito. Também fizeram bom serviço os poemas de Maiakovski, Brecht, Lorca. Dos brasileiros Castro Alves, Thiago de Mello e Moacyr Félix. Dos cubanos Nicolás Guillén e José Martí. Do poeta palestino Mahmoud Darwish. Tantos outros, em várias épocas e pátrias. 

A poesia dá conta, certamente, no sentido de noticiar os suplícios dos heróis, a resistência de um povo, a impostura e a ignomínia dos obscurantistas. Sim, isto ela faz. Por isso, para mim, foi e é mais importante ser poeta do que escrever poemas. Para ajudar na integração, na dignidade e na valorização dos doentes de aids. Para denunciar o trabalho escravo com meus companheiros do Movimento Humanos Direitos. Para compor as ações de mobilização do Fórum Social Mundial, que reúne ativistas que trabalham pela paz e pela liberdade. Também o jornalismo considero um ativismo, para apontar os abusos de todos os tipos e manter vigilância pela democracia e pela liberdade de expressão. Sempre há um poeta onde é preciso. Sempre versos serão lembrados quando a luta recrudesce e a vida corre perigo. Enxergar além de seu tempo e além das aparências faz do poeta um bom auxiliar, aqui na Terra, do trabalho incansável dos anjos.


4 – Você é um poeta que passou pelo comunismo em um período ditatorial (1964 – 1985), passou pela poesia performática (valorizando a oralidade), chegou a uma poesia que busca dar voz aos que não a tem, e ao mesmo tempo, é elogiado por poetas renomados como Thiago de Mello e Ferreira Gullar por seu rigor no trabalho com a palavra. A palavra se transformou na sua poesia ao longo dessa trajetória? Qual a importância da palavra na sua poesia hoje?


De início quero dizer que meus poemas todos tiveram uma motivação política, mesmo quando falavam do amor por uma mulher. Isto porque considero o amor um ato político de transformação da realidade. Um poema de amor atinge em cheio um coração que precisa ser salvo do esquecimento e do desencanto. Salvar um coração é salvar uma vida, e salvar uma vida é um ato político enquanto alistamento, convocação, chamado. Também proclamo que o amor é um ato ético que disciplina e organiza não só a realidade, mas também a fantasia, para que se possa desejar com mais responsabilidade. O desejo, o delírio, o sonho, contidos no poema, eram impactantes nos versos da juventude, porém longínquos e inofensivos. Hoje eu vejo no meu verso todos os sonhos encarnados, mesmo os impossíveis. O rigor com a palavra é causa e efeito desta incorporação. O poeta aperfeiçoou a mágica do seu ofício e instila o desejo com mais virulência e verossimilhança.

Aqui, para explicar melhor, recorro a Octávio Paz, o poeta mexicano. O homem transforma a matéria, qualquer que seja sua atividade. A transmutação consiste em fazer os materiais abandonarem o mundo cego da natureza para ingressar no das obras, no mundo das significações. É desta ordem o destino da palavra na mão dos poetas. Mas para ter capacidade de transmutar as palavras é preciso medir a quantidade de desejo que há no bruxo, não só o talento para a mágica.

Por intermédio do poema, caldeirão e cadinho de toda esta alquimia política, ética e estética, o contato da realidade com a fantasia produziu uma reação química em que, no final, realidade e fantasia deixam de existir, para o surgimento de uma nova dimensão dialética da palavra.

Quanto à poesia falada, sendo mais presencial, menos trabalhada, guarda o frescor da verdade, a pureza do inconsciente. Não pode ser falseada. Esta é a vantagem e eu parei de publicar livros, em certa época da minha vida, só para não conspurcar este frescor e essa pureza. Mas com a maturidade, tive necessidade de deixar gravações na pedra e filhos no ventre, e não só mensagens soltas no vento ou bandeiras de seda desfraldadas. Interessante que, aos 55 , vejo meus poemas de juventude como os meus melhores em termos de resolução conceitual. Hoje resolvo formalmente com mais acerto e o acerto tornou-se até mais espontâneo. Antes não tinha tanta comunicação com os deuses. Hoje converso com os espíritos com mais naturalidade.


5 – Passando por essa gama de experiências, deve restar ao poeta um acúmulo de possibilidades e entendimentos perante algumas circunstâncias. E de alguma forma, hoje aos 55 anos, sua poesia já começa a deixar um legado, passa a ser uma referência. Como analisa o panorama atual da poesia feita no Brasil? O que diria a um poeta que inicia carreira?


A referência é o apelo social. Mesmo quando estou falando da angústia da existência ou da conquista amorosa, eu deixo traços de um projeto de sociedade humana solidária. Este é o legado possível. Sensibilizar as novas gerações para que utilizem a poesia para o bem do próximo, e não para chamar a atenção para si. A poesia refloresta o idioma e contribui para elevar a autoestima de uma nação, fortalecendo uma cultura. Lavrar versos só para refletir no vazio, exaltar o ego e desabafar as contrariedades resulta num gesto monástico ultrapassado e em desacordo com as demandas da luta pela construção de uma humanidade livre e desejante.  Como disse o poeta Mário Faustino, se a poesia for olhada como uma coisa de maus palhaços ou ruins carpideiras, a sociedade estará em perigo. A sociedade em que poetas não cumprem o seu dever. A poesia não é um passatempo, mas se tiver de ser, é bem mais útil e construtiva, como brinquedo mesmo, do que os videogames da modernidade digital.

 

Uma mostra de dois poemas do autor:

 

Unhas sujas

Tempo esgarça, tempo não passou
Que ele é farsa, transposta a massa
E o peso dos anos, depois da evolução.
O vento da praça tem poeira
Já não encontro palavra na nevasca
Vislumbro um deus que dança sem tempo
Nenhuma mudança me basta.
Não há o que mudar, para onde
Quando o tempo é novo e a ré me embaça
Pratos cravados na areia
Comeremos o esquecimento.
Ventre digere o que caçávamos
Que vivente abatemos?
Como posso lembrar de mim com fome
Se tempo algum se insere no que fui
Nuvem, bruma, uma espuma na fumaça
Mãos levitam numa procura escassa
Têm as unhas sujas de cavar o tempo
O que ficou foi como jaça
Rachaduras na memória que se espaça
Tempo esvanece, inda que tempo nasça.
 
[“Osso (na cabeceira da avalanche)”, 7Letras, 2005]

 

Quinta Parte

O amor não é se ver livre de todos os laços!
Quero usar a parábola de Edith para mostrar
Que amor não é se livrar do que está ao lado.
É compartilhar a combustão das lidas em nós,
Não sou eu que faço, o fazer me faz e refaz.
 
Se eu estou doente, a Humanidade adoece.
Ao me curar, salvo um órgão do corpo geral.
O lúcido lírio não quer um prêmio de honra,
Sua honra é violar o lixo, e de lá demonstrar:
 
Ninguém tem de sofrer mais do que sofre.
 
Então, meu sonho perto está de todo sonho
Menos pelo conteúdo que pela força do ato.
Sonho com meus desejos, outro com os dele,
Mas sonhar é uma coragem, tal como amar.
Não sonhar, covardia inconcebível, a saber.
 
Se uns não sonharem, outros vão sofrer,
Se uns sofrerem, só alguns vão sonhar.
Sofrer pelos nossos sonhos é dividi-los,
Logo não sofreremos, por desnecessário
E sonharemos sempre, por imperativo.
 
Sonhar não é bom nem ruim, é o mais real
Amar não é tão bom nem ruim, é ser livre
E ao sermos livres, soltamos as jornadas
Para a qual já partimos — tentar o sonho
É como entrar no lixo, livres para amar.
 
Amor funda a origem, e dela redunda
Ser mais, quando nada esperamos ser,
Falar quando mais nada temos a falar,
Abrindo-se à inutilidade consequente,
Efetuando o ato gratuito, e de repente.
 
Relativo, dúbio, volátil, incompleto,
Invicto, justo, perfeito e duradouro,
Ele serve ao seu jogo mais secreto,
A trama da possibilidade que sana
Quando o amor se perde. Ou não se ganha.
 
[“Silêncio de girassóis”, 7Letras, 2007]

 

*Flávio Morgado é poeta e autor do livro “Um caderno de capa verde” - 7Letras, 2012

 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

AGENDA DA SEMANA

DIA 26

22.30H - Um cheirinho de poesia
               Olimpo (bar café) - Porto

DIA 27

22.30H - Poesia no Olimpo
               Olimpo (bar café) - Porto

DIA 28

18.30H - Lançamento do livro SEMINAL de Gonçalo Salvado
               Galeria António Prates - Lisboa

18.30H - Lançamento do livro O ANO SABÁTICO de João Tordo
               Livraria Barata - Lisboa

DIA 1

11H - Apresentação do livro infantil A MENINA PEQUENA E A SENHORA GRANDE de Ana Vítor
          Escola secundária Padre António Macedo - Vila Nova de Santo André

21H - Apresentação do livro A VIDA DE PERNAS PARA O AR de Carla Oliveira
          Biblioteca pública da Horta - Açores

DIA 2

15H - Apresentação do livro O SENTIDO DA VIDA de Madalena Matias
          Salão paroquial de Olhão - junto à Igreja Matriz - Olhão

18.30H - Apresentação do livro CLARIDADE de A.M.Catarino
            Livraria Arquivo - Leiria

18.30H - Lançamento do livro PATRIMÓNIO BUKOWSKI de Fernando Esteves Pinto
               Guilherme Cossoul de Campolide - Lisboa

DIA 3

16H - Apresentação do livro infantil O FATO E A GRAVATA de Carlos Nuno Granja, ilustrado por LUISA DAVET
          Casa da Contacto - Ovar