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sexta-feira, 28 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK


Inspiração e Transpiração – a árdua tarefa da criação de um livro

Ainda me lembro menina, de joelhos ralados, com uma dor no corpo e na alma, escrevendo confidências no meu diário.

E aquelas páginas foram ganhando forma, vida, sentimentos e seguiram-me, por todos os caminhos da vida. A grafia irregular, foi ganhando firmeza, as palavras tímidas, aflorando e quando percebi, as confidências e desabafos, com o passar do tempo, que vai deixando perfumes e marcas, transformaram-se em crônicas, contos, poemas. 

Houve um grande intervalo, em que as palavras calaram. Depois foram utilizadas para trabalho, na obrigação de escrever, apesar do prazer, não podia deixar correr livre e as horas eram escassas para mergulhar intensamente no meu universo particular.

Depois veio o período de transbordamento, escrevia no ônibus, em pé no balcão de uma padaria, no parque, na rua, em qualquer lugar, as palavras me dominavam, invadia, perturbavam para sair e seguir por aí. E nos últimos vinte anos, me revesti de prosa poética e me envolvi com a poesia.

Chego até aqui para mostrar a longa trajetória de vida, da minha escrita. O tempo rasgou papéis, apagou arquivos, recriou frases. Passaram-se 37 anos desde aquele dia, de lágrimas e joelhos ensanguentados até esse momento, do agora, de enviar para a editora o meu primeiro livro.

Foram muitas as tentativas em reunir todas aquelas páginas em um único lugar. Inúmeras situações adiaram esse momento. E agora quase que empurrada pela vida, com o apoio de pessoas muito especiais, aquelas, que nos lêem com e sem palavras, rompi com as amarras que me prendiam e me faziam recuar e soltei o meu livro para ser editado.

A inspiração transformou-se em transpiração.

Que tarefa difícil assumir esse papel de concepção, de construção, de criação, de revisão. Alguns meses lendo, relendo, corrigindo, e sempre encontrando falhas, vírgulas fora do lugar, espaços a mais, letras engolidas, erros... Algumas semanas e dias intensos consumiram meu sono e da designer, mudando a diagramação, tirando esse ou aquele poema que não coube na página, recebendo as correções.

E a página de agradecimento? Acho que foi a mais difícil de todas, como expressar toda a gratidão por todos que fizeram parte dessa construção de minhas palavras e sentir.

E transpirando... Comecei a pesquisa por editoras  que se adequassem ao meu orçamento, mas as exigências de ambas as partes não entravam em sintonia, e o suor escorria por entre as palavras. Quase adiei por mais alguns anos, achando que não estava ainda preparada para essa tarefa de realizar com perfeição, inerente aos fatores que nos envolve.

Em uma manhã pálida e desanimada, ouvi novamente aquela voz: “Vem, chegou a hora”. E fui. De volta para aquele café, em uma cidade distante de mim agora, há dois anos. Voltei no tempo. Cheguei naquele exato momento em que conversávamos sobre sonhos... Uma amiga caminhando para tornar-se editora e eu, desejando o meu livro. Ali foi o ponto de partida.

Disse sim! Com a cara e a coragem, respirei fundo, e enviei o arquivo. E o dia se iluminou. Que preenchimento de alma, e sensação de libertação, ao deixar que esse quase filho, siga pela vida... Tocando outros corações.

Olho para trás, passaram-se vinte anos.

Vinte anos. Para esperar a minha filha crescer e fazer o projeto gráfico e capa. Para o meu parceiro de projetos, registrar no prefácio com perfeição, o que está intrínseco em cada página. E a amiga-editora, que nunca desistiu, do além do seu e do meu sonho, e por tanto tempo, repetiu “Vem...”

Embalada pela melodia de Tom Jobim, (o mestre que me perdoe), mas tem que ser no plural...

"É, só tinha de ser com vocês
Havia de ser prá vocês
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor..."

O livro In-Finita é isso, o meu inspirar e transpirar em todas as formas, de sentir, ser, buscar, compreender, lutar, conquistar, viver a palavra... Amor.

E também um convite: jamais desista de um sonho. Vale a pena esperar por ele.

DRIKKA INQUIT

quarta-feira, 26 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO

Sebos: a resistência com todas as letras

A livraria no Brasil, de uma forma geral, é hoje uma boutique de livros. Lembrando a ironia tão peculiar de Nelson Rodrigues, que tão bem dizia que “toda unanimidade é burra”, esta é uma constatação, de fato, quase unânime. Claro, sem ofender às boas livrarias que resistem bravamente à avalanche das novidades, cada vez que entro em certas duas ou três livrarias de shopping e olho aquelas mesas-vitrines com aquela quantidade enorme de livros que já foram vendidos aos milhões mundo afora, sou convidada a sentir certa náusea.
Não vejo diferença entre esse tipo de estabelecimento e a sapataria do andar de baixo. O sujeito olha, sente aquele já conhecido comichão do consumo e acaba levando para casa o mais recente título, sem que isso faça muito sentido pra ele. “É o último lançamento, você não pode perder essa oportunidade de colocar na sua estante”. E o sujeito, mais consumidor que leitor, mais colecionador que leitor, compra mais um para não ler, ou para ler enviesado, achando inclusive que se perder aquele título ficará out do “mercado fresco dos livros contemporâneos”, formado por celebridades editoriais, youtubers, apresentadores de TV, atletas… Afinal, não é mais necessário saber escrever para lançar livros.
O que nos resta para além das livrarias e do consumo sem freios? O que resta para os que não têm acesso a esse consumo? Bibliotecas? Como formar o leitor que não participa desta festa do consumo, no tempo em que se fecham boas bibliotecas e não há investimentos nas escolas públicas?
Sei, à flor da pele, que nas escolas públicas, pelo menos, naquelas onde estudei e trabalhei, biblioteca sempre foi um depósito de livros didáticos desatualizados, vigiados por professores afastados de suas salas de aulas, provavelmente por problemas de ordem mental e emocional.
E a internet? Tem porcaria, é claro, mas tem também muita gente boa no desconhecimento parcial ou total. Dá uma alegria ao entrar em blogs e sites e ler gente escrevendo bem por aí. Então, viva a sinestesia e o café, que nos mantêm firmes e alertas! Viva a capacidade de alcance transversal do ciberespaço, que não nos deixa mais isolados na morte – quase literal – do autor.
Mas voltando ao fio dessa meada e às livrarias, gostaria de exaltar a existência e a persistência dos sebos. Aquele lugar aonde os verdadeiros viciados em livros não se cansam de ir, mesmo que o nariz fique todo esfolado de tanta renite. Ah, um viva imenso aos sebos! Deveríamos abraçar coletivamente os sebos assim como fazemos com árvores e lagoas. Faria um bem danado à natureza humana, tão saturada de clichês. A cidade agradeceria e as crianças, sedentas por leitura, também.
Vou parar de escrever para aplaudir agora mesmo – de pé – o bom e velho sebo com seus bons e velhos clássicos, verdadeiras adegas centenárias de literaturas finíssimas, como Camões, Dante, Dostoiévski e tantos mais, assim como os brasileiros de ótima safra, Machado, Guimarães Rosa, Lima Barreto, Sousândrade, Manuel Bandeira, além do tanto de literatura infanto-juvenil que encontramos no caminho.
Eu sou realmente um bicho de sebo. Sempre me perco e me encontro na minha garimpagem particular por iguarias de letras pequenas e consumo difícil. Os da Tiradentes e do Catete são ótimos. Sou capaz de tirar a fórceps um velho exemplar de Graciliano Ramos ou José Lins do Rego entre um amontoado de tesouros. Como pirata ou fantasma, escavo títulos e me confundo com velhas assombrações. Mergulho no absurdo em direção oposta. E saio de lá sempre confortada.
Precisamos levar as crianças aos velhos relicários do mundo da leitura, antes que o último deles encerre nossas buscas por preciosidades. E torcer para que novos tempos e novas oportunidades de leitura surjam nas tantas imprevisibilidades do cotidiano.
Patrícia Porto
mini-Biografia: Patricia Porto


Graduada em Literaturas Brasileira e Portuguesa, Doutora em Políticas Públicas e Educação, professora e poeta, publicou a obra acadêmica "Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura” e os livros de poesia "Sobre Pétalas e Preces" e "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos". Participou, ainda, de coletâneas no Brasil e no exterior, integra o coletivo Mulherio das Letras e é colaboradora do portal da ANF (Agência de Notícias das Favelas).

segunda-feira, 24 de julho de 2017

EU FALO DE... COISAS QUE DIZEM E PERGUNTAS QUE FAÇO


Sempre que, em conversa entre pessoas ligadas ao universo da escrita, independentemente do envolvimento de cada um, alguém fala sobre as motivações deste/a ou daquele/a, dá-me uma tremenda vontade de rir; umas vezes pela inocência demonstrada, outras pela efervescência acusatória, outras até pela incoerência entre o que se diz e o que se faz.

Quando me dizem que "este editor faz a coisa por dinheiro", surgem-me sempre duas perguntas:

1ª - O propósito principal de um negócio não é fazer dinheiro?
2ª - Se estão preocupados com o dinheiro que os editores fazem, por que razão continuam a pagar aos editores para editar?

Quando me dizem que o valor que pagaram por uma antologia foi demasiado, surgem-me mais duas perguntas:

1ª - Por que as compram?
2ª - Por que continuam a pagar para participar em antologias?

Quando me dizem que, este/a ou aquele/a, é um vendido/a porque entra em antologias de várias editoras, apetece perguntar:

1º - Então, mas eles receberam para participar?
2º - Desde quando os autores têm obrigação de participar apenas nas antologias de uma só editora? 

Quando me dizem que, este/a ou aquele/a, troca de editora como quem troca de camisa, dá vontade de perguntar:

1º - Desde quando um autor assina contratos vitalícios?
2º - A ser verdade que trocam editoras como quem troca de camisa, isso quer dizer que trocam de camisa poucas vezes ao ano?

Quando me dizem que os autores não compram os livros dos outros autores, pergunto sempre:

1º - Mas os autores escrevem para outros autores ou para leitores?
2º - Já compraste algum dos meus livros?

Quando me dizem que o livro, deste/a ou daquele/a poeta, nunca deveria ter sido editado porque escreve mal, dá vontade de perguntar:

1º - Por que compraste o livro?
2º - Se escreve assim tão mal por que o/a chamas de poeta?

Quando me dizem que é preciso ter cuidado com este/a ou aquele/a porque anda muito próximo da concorrência, dá vontade de perguntar:

1º - Não seria mais proveitoso apoiarmo-nos uns aos outros em vez de andarmos em disputas que só prejudicam?
2º - Mas afinal, os autores andam nisto por paixão ou por quererem ser melhores que os restantes?

Eu podia continuar com muitos mais exemplos mas já está suficientemente fastidioso.

A verdade é que estas pessoas nem se apercebem das lacunas e incoerências das suas próprias contestações e continuam a barafustar pelo simples acto de o fazer e porque “toda a gente o faz”, sem pararem um pouco para pensar e analisar convenientemente todas as situações que as incomodam.

Quanto a mim, as minhas opções são claras e públicas e não é por as dizer com frequência e acreditar nelas que vou julgar nem condenar as opções dos outros.

Eu recuso-me pagar, seja em livro individual ou colectivo, mas aceito que outros pensem de forma diferente e, por isso, continuo a dar várias alternativas sempre que me pedem uma opinião sobre em que editora devem publicar. Já me ofereceram dinheiro para direccionar autores para determinadas editoras, sei quem o faz, mas se aceitasse estaria a ser incoerente comigo mesmo e eu prefiro dormir de consciência tranquila. Para além disso, como acredito que cada um deve pensar pela sua própria cabeça, limito-me a apresentar as diversas possibilidades. Também continuarei a divulgar projectos antológicos de modo a dar conhecimento deles, deixando aos autores a tarefa de decidir por si mesmos o interesse, ou falta dele, em participar.

Do mesmo modo, e pelas mesmas razões, não me choca quando um autor decide editar por uma chancela diferente, do seu livro anterior. Muito menos me choca que participem em múltiplas antologias de diferentes editoras porque, diz-me a razão, desse modo alargam a sua esfera de público.

E, o que acabei de defender anteriormente, também se aplica a colaborações em outros projectos. Dentro da minha disponibilidade, tento participar sempre que sou solicitado para integrar projectos relacionados com literatura. E nem me preocupa minimamente se alguma dessas minhas colaborações afecta ou choca outros com quem tenha colaborado anteriormente. Tampouco me interessa se existem conflitos de interesses entre os mentores e/ou promotores de diferentes projectos. Eu não defino as minhas colaborações pelas amizades ou inimizades dos outros.

Eu não digo para fazerem como eu faço. Eu afirmo e reafirmo que cada um deve agir de acordo com as suas convicções e ideais. Posso não concordar mas tenho que aceitar, por questão de coerência. Pode parecer um paradoxo, no entanto, ao contrário do que algumas pessoas já disseram e continuam a fazê-lo, não sou paladino da verdade, bem pelo contrário. Tenho é esta mania de defender a minha mas, ao contrário de outras vozes, isso não implica, da minha parte, falta de respeito pelas verdades dos outros. Tanto mais que debater as coisas só é possível se existir divergência.

Eu vejo o universo da escrita como um só corpo e acredito que todos os projectos são importantes na difusão da nossa língua e não concorrência porque os autores não devem competir mas sim unir esforços para benefício de todos. Depois cabe aos leitores decidir sobre a validade dos trabalhos de cada um dos autores. E menciono os leitores porque esses devem ser sempre o foco principal dos autores. Se não existirem leitores não faz sentido continuarmos a editar o que escrevemos.

Só que existe muito boa gente (digo, boa, no sentido irónico do adjectivo) que ainda não percebeu que ser autor não é vender mais que os outros; não é ser mais bajulado ou bajulador que os demais; não é ser parte de um rebanho nem vitimar-se. Ser autor é contribuir para o fortalecimento da nossa identidade cultural; é apoiar e, havendo possibilidade, colaborar no máximo de iniciativas que elevem e promovam a nossa língua e cultura. Enfim, ser autor é muito mais que olhar o próprio umbigo. Ou será que estou errado?

MANU DIXIT

sábado, 22 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK

A chama invisível queimava e crepitava em meu pensamento por horas seguidas, enquanto eu ardia no inconformismo do meu ser. Percorro pelo espaço de egos e ecos, desde quando me fiz pertencer ao mundo das artes, seja produzindo, participando ou observando.

E a incoerência nisso tudo, é que no universo, em que a sensibilidade e o ser são a expressão máxima para a criação, seja ela na poesia, pintura, música, ou qualquer outro movimento literário ou cultural, é onde a banalidade, a pequenez e a futilidade do humano, se expandem de forma nem sempre óbvia, mas crescente.

Donos do mundo e da verdade, por terem o dom divino do encantamento, creditam e ditam aos pobres mortais que apreciam e se deixam envolver, a ditadura do EU.

Há décadas atrás, a vida pública daquele que detinha esse dom de professar a arte, era certificada ao ultrapassar o limite das fronteiras, do tempo, e só dominava outros espaços com talento comprovado por obras avaliadas pela crítica especializada, fã clube presencial, e análise de mercado.

Sigo por anos intermináveis, artistas de diversas formas, acreditando na eternidade da boa arte e aprecio esses gênios que foram capazes de superar o limite do tempo, com o esforço, inspiração, transpiração e talento para hoje fazerem jus ao título e nome que carregam.

Mas a era da comunicação invadiu o intervalo entre a coerência, a construção, a obra, a criação, e transformou qualquer palavra em poesia, qualquer livro em bestseller, qualquer músico em personalidade, qualquer pessoa em autor, qualquer artista em famoso, e qualquer pintura em obra de arte.

Sou aberta a todas as formas de expressar o que transborda da alma, e acho que o ser humano tem todo o direito de fazê-lo, e defendo isso, dentro dos limites que esse novo tempo não determinou. Mas cá entre nós, essa janela para o mundo não é para “todos”.

Uma postagem nas redes sociais e todos são venerados e aplaudidos nos bastidores invisíveis do quem tem mais curtidas e seguidores. E intrinsecamente legitimam, sem critérios, quem é ou não senhor do universo artístico ou literário, pelo menos naquele espaço que circula e dá voltas por todos os continentes.

E nos bastidores, ah, o circo é montado e por todos os lados, tapetes estendidos, também são puxados, em um piscar de olhos, na cadeira reservada para que o amigo menos talentoso, mas vantajoso, possa ocupar para o segundo de flashes e postagens firmarem a notoriedade daquele instante. Alguns olhares mais atentos e éticos observam silenciosamente, o burburinho que se alastra igual rastilho de pólvora, no disse-me-disse que circula, no ar que sufoca e abafa verdades.

Academias de letras aceitando semianalfabetos, autores despreparados, atores inexpressivos, exposições fotográficas registradas por celular, livros mal editados, compositores desacertados, cantores desafinados, jornalistas então... nem comento. Postam um vídeo aqui, um texto ali, e são aclamados. Produtores que fazem qualquer evento, superlotando o espaço, sem a responsabilidade com as vidas humanas, sem certificação e vistoria.

E por essas e outras, nessa era digital, caminha-se para a banalidade da expressão artística e cultural, onde todos são o que desejam, só porque se olham no espelho e decidem, e aquele amigo solidário curte e partilha, e assim nasce, quando menos se percebe, um deus ou deusa crepitando nas brasas da suposta e momentânea fama, criada para ser extinta minutos depois... ou não.


Até onde vai o limite do ser criador... E nós, até onde permitimos conduzir a perpetuidade do belo, do legítimo, da arte, nesse clicar de curtidas instantâneas, jogando mais lenha na brasa que surgiu para ser apenas... cinzas.

DRIKKA INQUIT

sábado, 15 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... TACIANA VALENÇA

A RESPONSABILIDADE DO ESCRITOR

Existe um vídeo do nosso Ariano Suassuna onde ele diz: “Se usamos a palavra genial com Ximbinha, o que dizer de Beethoven?

Pois é assim que tenho percebido a introdução tanto de novos cantores e compositores como de novos escritores. O que se vê é que na facilidade desse  mundo onde tudo se tornou tão en passant, qualquer pessoa pode ser tudo o que quiser, não importa se faz bem feito, com responsabilidade e propriedade  ou não. Sempre haverá alguém para aplaudir, claro, alguém que não entende de música ou de literatura. Porque os que entendem, estudam e se preocupam não são enganados. Mas lembrando uma outra frase, dessa vez do Nelson Rodrigues: Os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos. Apesar da rudeza da frase, sinto dizer que ele tinha toda razão. Se os que aplaudem, aplaudem qualquer coisa por pura ignorância, os que fazem farão qualquer coisa e serão chamados de grandes, de maravilhosos, brilhantes e etc. Assim, grande parte da humanidade estará fadada a ouvir e ler qualquer coisa e pior, achar bom.

Quando falo da responsabilidade de um escritor é porque estou mais envolvida com eles e o que tenho visto é muito pouca preocupação com o que se escreve e, principalmente, com o que se publica. Hoje tenho apenas dois livros publicados, infantis, mas que não comercializei por me achar ainda muito imatura para tal. Tenho livros prontos de poesia, fazendo um de crônicas. Mas estão lá, maturando, sendo vistos e revistos.  Fiz oficina literária com Raimundo Carrero, um grande escritor, várias vezes premiado, por duas vezes. Quanto mais faço, treino e escrevo, mais percebo que ainda falta alguma coisa, que o público merece ler algo bom e não qualquer coisa feita para encher meu ego de vãs vaidades, que também pode marcar minha escrita como ruim para o resto da vida.

Acho que sim, podemos e devemos incentivar novos escritores. Qualquer um pode escrever bem, desde que leve a sério o compromisso com seus futuros leitores e consigo mesmos. Perpetuar a literatura é algo grandioso, mas feito irresponsavelmente pode ser uma grande catástrofe para nossa literatura.

Como sempre disse Carrero: leiam os bons, escreva, escreva e escreva. Fazer oficinas, ler grandes autores, treinar diariamente, pedir opiniões. Tudo isso feito com a devida constância só poderá ter um ótimo resultado. 

Os leitores e futuros escritores agradecerão o empenho.

Taciana Valença

Mini-Biografia:


Taciana Valença Administradora (Universidade Federal de Pernambuco), escritora, produtora cultural, editora da Revista Perto de Casa (Recife/PE/Brasil) e Diretora Social da União Brasileira de Escritores.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

EU FALO DE... FEIRA DO LIVRO DE AUTOR DE VILA FRANCA DE XIRA


Na foto: Vítor Costeira e Emanuel Lomelino

Por sugestão do poeta Alexandre Carvalho, membro da Associação Alves Redol, aceitei participar, como autor, na Feira do Livro de Autor, realizada nos dias 28 e 29 de Abril, no Mercado Municipal de Vila Franca de Xira.

Em primeiro lugar, aceitei este convite, não por achar-me com os méritos suficientes, enquanto autor, para participar em eventos do género, tampouco o fiz com a esperança de retirar grandes proveitos, mas porque acredito que um dos deveres dos autores é auxiliar aqueles que, com poucos meios mas muito empenho, se entregam às hercúleas tarefas de proporcionar formas honestas e descomprometidas de dar visibilidade a uma das vertentes mais importantes em qualquer sociedade: a cultura.

Já perdi a conta às vezes que ouvi autores queixarem-se das poucas iniciativas que possibilitam uma maior difusão das suas obras, no entanto, basta estar atento às actividades de associações locais para se perceber que não são tão poucas quanto isso. E se mais não há, isso deve-se apenas ao desinteresse demonstrado por aqueles que simplesmente se queixam.

Nestes últimos dias tive muito tempo para pensar neste assunto e cheguei a uma triste mas indesmentível verdade: aqueles que apenas se lamuriam, só consideram boas iniciativas, para divulgação e difusão das suas obras, aqueles certames, de pompa e circunstância, como as Feiras do Livro de Lisboa e Porto ou eventos como o Correntes de Escrita da Póvoa de Varzim e negligenciam a importância das actividades locais, logo, menos mediáticas. E, aqui puxo dos galões da minha conhecida sinceridade, não podiam estar mais enganados na forma de pensar. Os grandes certames, os grandes eventos, as grandes feiras, são importantes apenas para aqueles autores que têm, atrás de si, grandes máquinas promocionais que lhes fazem o trabalho de sapa, que os de menor visibilidade não têm e dificilmente terão ao seu dispor.

Acho que, no fundo, esse pensamento enraizado na mente de muitos autores é, mais que falta de humildade, uma tremenda falta de senso por não terem os pés bem assentes no chão e andarem iludidos com as promessas que lhes fizeram e com os sonhos que, outros, souberam alimentar em seu proveito.

Sirvo-me da reflexão anteriormente exposta para ilustrar a reacção, quase premonitória, que tive quando, antes do início da Feira do Livro de Autor, estando em conversa com o outro autor presente (Vítor Costeira) e dois membros da Associação Alves Redol, nos foi informado que mais cinco ou seis autores tinham confirmado a sua presença no evento. Informação essa que, tal como “profetizei”, não se concretizou.

Escusado será dizer qual era o estado de espírito dos elementos da Associação quando confrontados com a dura realidade.

E assim, no primeiro dia, lá ficámos nós (eu e o Vítor Costeira) a transformar em realidade menos penosa, todo o esforço e dedicação daqueles que tomaram a iniciativa de criar este certame literário. No segundo dia tivemos a companhia da autora Maria Luz e, entre visitas de amigos e leitores dos três autores, fez-se a festa à moda dos “poucos mas bons”.

É evidente que as expectativas dos organizadores foram goradas, no entanto, ficaram a saber que todo o esforço e dedicação não caiu em saco roto porque três autores decidiram, e bem, prestigiá-los marcando presença e sendo os pioneiros daquilo que, quem sabe, no futuro, possa vir a ser um evento com maior adesão de autores e assim transformar-se num certame de referência na zona de Vila Franca de Xira. Assim o entendam outros autores para que estas associações não desmoralizem e continuem a ajudar na divulgação e promoção da cultura.

MANU DIXIT

segunda-feira, 24 de abril de 2017

EU FALO DE... CULPAS E DESCULPAS


Ser autor não se resume ao acto criativo. Existem responsabilidades às quais não se pode virar costas e que aumentam na exacta medida do crescimento do autor e do impacto da sua obra. Quanto mais se cria maiores são os cuidados a ter e um autor não deve, nem pode, furtar-se a assumir as responsabilidades que lhe cabem.

Esta deveria ser uma regra seguida por todos os autores/criadores, no entanto, a distância entre os deveres de um autor e o que se pratica na realidade do dia-a-dia é abismal. A generalidade deixa-se enlear pelos próprios limites e recusa-se a fazer mea culpa, por erros cometidos, preferindo sacudir as responsabilidades para ombros alheios.

Poderia dar inúmeros exemplos mas restringir-me-ei a apenas um, pela frequência com que testemunho este género de situações e comportamentos.

Ao longo do tempo tenho sido, de acordo com a minha consciência (certo ou errado, outros o dirão), uma voz crítica sobre o modo como muitos editores e/ou aspirantes a editores tratam o objecto livro; seja na concepção, elaboração, promoção ou divulgação. Para quem ama os livros, e os consome como quem respira, é triste ver algumas edições amputadas de esmero e brio.

No entanto, nem tudo se deve ao desleixo - para não dizer indiferença - dos editores ou aspirantes a... Muitas vezes os culpados das falhas, que os leitores observam, são os autores que, de forma inconsciente ou talvez não, sacodem a poeira dos ombros e apontam o dedo a quem é mais fácil apontar. E embora, junto de leigos e outros desatentos, os argumentos possam parecer não deixar dúvidas sobre o foco gerador das falhas, a verdade é que muitas vezes a responsabilidade do erro, quanto muito, deveria ser repartida entre editores e autores.

Como disse anteriormente, vou limitar-me a um simples exemplo de erro crasso presente nos livros que se editam e que, com muita pena minha e de quem gosta de ler, é cada vez mais frequente: erros de grafia e ortografia.

Quem é que, ao alertar um autor para a existência de um erro no seu livro, não recebeu como resposta algo do género: "Se a editora fizesse uma revisão isso não acontecia."

É evidente que à editora cabe a responsabilidade de limar as arestas daquilo que é produzido pelo autor, no entanto, para o erro lá estar alguém teve de o cometer, e esse só pode ser o autor. No entanto, e porque nesta questão existem outros factores a ter em consideração, hoje em dia muitas editoras, na hora de fazer o seu "orçamento", colocam duas opções ao dispor dos autores: um valor com revisão e outro sem revisão. Não é preciso ser um génio para compreender que, a generalidade dos autores, opta pela versão menos dispendiosa com a desculpa de ser um desperdício gastar mais para rever o que, à partida e pelas diversas revisões feitas por si, não tem erros. Depois, aquando do confronto com a realidade, é que se fala em colocar trancas no que já está arrombado.

Concordo que a editora deve fazer o trabalho que lhe compete mas, a partir do momento em que são colocadas duas possibilidades ao autor e aceitando este uma delas, o autor não pode isentar-se de responsabilidades. E argumentar que este tipo de erros prejudica a imagem da editora é uma falsa questão, porquanto não são meia dúzia de exemplares de um livro - quem diz meia dúzia diz duas dezenas - que vão manchar a imagem seja de quem for, tendo em conta que esta situação normalmente ocorre com autores que simplesmente editam para amigos e familiares e pouco mais e as editoras sabem reconhecer as particularidades de cada caso. No dia em que se voltar a editar para leitores em vez de o fazer para público próximo do autor, quem sabe, aí as coisas mudem e eu não ofereça tanta resistência a este último argumento. Mas isso são contas de outro rosário... voltemos ao essencial.

Peguemos no assunto por outro prisma. Ignoremos, por instantes, que as editoras se furtam a uma tarefa que lhes compete e centremo-nos naquilo que os autores mandam para as editoras. E aqui chegados eu sou obrigado a perguntar: Que culpa têm as editoras que um autor (infelizmente não é só um) não saiba distinguir "pudesse" de "pode-se"; "dissesse" de "disse-se"; "à" de "há"; ou que escreva "caiem"(não do verbo «caiar»), "traiem", "saiem", ou ainda, que não saiba colocar correctamente uma vírgula?

Como disse no início desta dissertação, os autores têm de assumir os seus erros e ter uma atitude de maior responsabilidade perante aqueles que os lêem, mesmo que sejam só familiares e amigos e pouco mais. Ser autor não é só criar. Ser autor é assumir a responsabilidade de ser parte integrante de uma vertente importante no desenvolvimento dos povos: a cultura.

Há que assumir as culpas e deixarem-se de desculpas!

MANU DIXIT

terça-feira, 29 de novembro de 2016

EU FALO DE... DEMOCRACIA NA POESIA


A cada dia que passa mais me convenço da veracidade de uma tese que tenho vindo a defender nos últimos tempos: a beleza da poesia está no seu carácter democrático.

A poesia é tão democrática que não olha a condição social, género, idade, credo ou cor. Ela tanto pode ser escrita por um pobre como por um abastado; por um erudito ou por um rústico; por homens ou mulheres; por uma criança como por um ancião; por católicos, muçulmanos, ateus e agnósticos; brancos, pretos ou amarelos.

A poesia é tão democrática que não recusa temáticas. Alberga todas as opiniões, sejam elas dogmas ou utopias, e é isenta de preconceitos. Tanto pode falar de amor como de ódio; guerra ou paz; pode ser abstracta ou concreta; simples ou composta. 

A poesia é tão democrática que ignora demografias, latitudes e longitudes. Ela pode ser escrita por um citadino ou por um campestre, por um africano, europeu ou asiático.

A poesia é tão democrática que permite, a cada autor, escrever sobre o que entender e como entender, empregando no poema as suas convicções e ideais, sem qualquer restrição.

A poesia é tão democrática que permite, a cada um de nós, escolher os poetas que queremos ler, dentro dos nossos parâmetros e idiossincrasias.

A poesia é democrática o suficiente para que tanto os autores como os leitores não o sejam.

A poesia é democrática... os seus criadores e leitores... quase nunca.

MANU DIXIT

domingo, 27 de novembro de 2016

EU FALO DE... SOLIDARIEDADE ENTRE AUTORES


Ao longo dos anos, muito tenho escrito sobre a discrepância entre o que grande parte dos autores diz e aquilo que faz. Já por diversas vezes escrevi sobre a tremenda falta de solidariedade que existe no universo da escrita e senti, todas as vezes, estar a pregar no deserto.

Muitos interpretaram as minhas palavras como sendo um desabafo de carácter pessoal resultante da minha experiência aquando das apresentações que fiz fora do meu circulo natural, nomeadamente quando estive duas vezes no Porto e uma em Braga. Essa interpretação não podia estar mais errada.

Em todas as vezes que abordei este tema dei como exemplos essas minhas experiências como forma ilustrativa da mensagem que pretendia passar.

Desta vez darei como exemplo o que se passou neste Sábado em Lisboa e que afectou sobremaneira a afluência de público no evento de uma autora vinda do Porto.

Sinto-me completamente à vontade para o fazer pela simples razão que, ao longo destes anos, cruzei-me apenas duas vezes com esta autora em eventos sem que houvesse sequer troca de palavras.

Mais à vontade fico se disser que estive no evento apesar do mau tempo e das limitações próprias de quem está desempregado há três anos, sem direito a subsídios, e sem dinheiro para gastar em transportes.

Tenho perfeita consciência que podia ficar quieto no meu canto e evitar voltar a passar a imagem de enfant terrible, irreverente, desbocado e má-língua, no entanto, valores maiores se levantaram quando quase no final do evento ouvi algumas das coisas que foram ditas à autora e que, perante a inocência que lhe reconheço, a levarão certamente a pensar que a escassa afluência de público se deveu a uma sobreposição infeliz de eventos e a escolhas óbvias que as pessoas fizeram na hora de escolher ir a outro em detrimento deste evento.

Não tenho problema algum em dizer que nada disto foi ao acaso porque já assisti a situações semelhantes e afirmo com todas as letras que, em parte, foi propositado.

A sobreposição de eventos é a coisa mais natural neste universo da escrita porquanto existem inúmeras editoras e autores com lançamentos e apresentações e, convenhamos, é completamente impossível conjugar tudo sem que as sobreposições aconteçam.

O que já não é tão natural, mas norma, é assistir-se ao prolongamento propositado de eventos para que as pessoas não tenham tempo de sair de um e marcar presença noutro, logo de seguida. O que não é natural, mas norma, é fazer de tudo para agradar a autores enquanto eles dão retorno e tentar prejudicá-los quando deixam de o fazer.

Mas se o que escrevi anteriormente não chegar para fazer prova de como foi propositada a fraca afluência, posso sempre usar como argumento o facto de, neste caso, estarmos a falar de eventos que começaram com duas horas de diferença e três quilómetros de distância. Mais, alguns dos que marcaram presença estiveram num outro evento que começou com as mesmas duas horas de diferença mas tiveram de atravessar a ponte e a cidade inteira (15 kms) para acompanhar e prestigiar esta autora.

Como disse anteriormente, cruzei-me apenas duas vezes com esta autora em eventos e nunca interagimos mas há coisas que não esqueço, e uma dessas foi a sua presença num evento, realizado no IPO do Porto, sem que conhecesse o autor da obra, para além das redes sociais. O autor em causa é da zona de Lisboa mas isso não a impediu de aparecer. E da mesma forma que o fez nessa altura, também eu quis agora homenageá-la, com a minha presença, no seu evento realizado fora do seu circulo natural. E como me soube bem aquele: "eu conheço esta cara mas não sei de onde" e após reconhecimento: "não esperava a tua presença".

No final do evento e porque tinha que ANDAR duas horas de regresso a casa, furei a fila dos autógrafos para me despedir da autora e desejar felicidades mas apenas fui capaz de lhe dizer: "Já conhecia a tua inocência. Mais tarde entenderás o que quero dizer".

E aquilo que quero dizer é que a fraca afluência não se deveu à sobreposição de eventos. Simplesmente, uns não quiseram aparecer e outros fizeram tudo para que mais gente não aparecesse. É assim, de hipocrisia, que se constrói a solidariedade entre autores.

MANU DIXIT