sábado, 23 de dezembro de 2017

FALA ÁFRICA - MACVILDO PEDRO BONDE (XVI)

Discurso a propósito do lançamento da Descrição das Sombras
ODE AO TRABALHO
Quero agradecer em primeiro lugar a Fundação Fernando Leite Couto (FFLC) por ter decido, em boa hora, criar um prémio literário em parceira com a Trassus mobiliário. Agradeço também a minha família pelo suporte, ao Djive pela capa do livro, ao Andes por aceitar esse desafio, aos meus amigos e aos escritores que deram parte de si para dar prestígio a esta primeira edição.
Quando nos chega este momento, em que somos obrigados a destapar o véu, ficamos indefesos sem saber onde esconder a ansiedade. Venho a esta casa falar da poesia e do seu valor para mim. Assim, regresso à carta, com mais de uma década, que o meu amigo Adolfo Sapala, vencedor do prémio TDM de 2006 na categoria de poesia, escreveu sobre a nossa visão poética.
“O caos, meu caro, o caos é tudo. Passou a hora da lógica e do sonho. Chegamos finalmente à hora do tédio desregrado. […] Continuemos, pois, a acender o facho da nossa poesia. A nossa literatura precisa do nosso aguilhão. Se nós adormecermos, quem irá sacudir as almas deste tempo? É a nossa Hora. Aquele que entre nós não fizer a sua parte talvez nunca se possa perdoar a si próprio nos tempos futuros.”
Meus confrades, este prémio que me foi concedido legitima um trabalho desenvolvido pelo colectivo Arrabenta Xithokozelo. O mesmo reflecte um percurso de angústias, sofrimento e sonhos, sendo o Modaskavalu o leitmotiv para seguir uma ideia, ainda que de forma inconsciente, no início, iluminou a nossa presença.
A actividade da escrita implica paciência, domínio da linguagem, ritmo, musicalidade e, sobretudo, humildade para ouvir e compreender as dinâmicas da vida. É um acto solitário, que exige corpo e alma. Estou aqui porque acreditei naquela odisseia. Tive paciência, soube esperar enquanto os meus dedos erectos na escrivaninha, horas a fio desnudavam o poema no céu nocturno das acácias rubras.
Talvez hoje tenha mais sentido ter meus livros nas prateleiras. Creio ter um melhor entendimento do processo criativo. Mais do que escrever, é ter noção do que escrevo e sobreviver ao questionamento da voz interna nas horas silenciosas.
Como disse Rimbaud “só com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens.” Para mim, a poesia deve ser o lugar onde encontramos a paz. Viver poeticamente é ter o olhar aberto para os pequenos gestos, imagens e sabores. O meu amigo Djive tem dito “nada acontece por acaso”. Eu sou fruto de muitos acasos. Tenho de admitir que foi duro ver novos livros e autores nas prateleiras e continuar a viver o anonimato: a viver sempre um sonho adiado.
Entretanto, é preciso vincar que vai uma distância da finalização do trabalho à sua publicação. Ou seja, a escrita e a publicação não são sinónimos. Devo salientar que somos um país com uma tradição poética invejável, que nos possibilita ter o chão com o qual tecemos os nossos versos. Do lirismo ao hermetismo, a poesia moçambicana tem o seu lugar de eleição.
Daí eu acreditar na poesia como redentora do espírito humano. Para Höderlin “a poesia é portadora da esperança”. Foi por essa esperança que Craveirinha apresentou-se como port-parole de uma nação que ainda não existe, para mostrar o seu posicionamento em relação a uma determinada realidade. Eu acredito que a poesia continua a representar a esperança numa sociedade marcada por inúmeros eventos trágicos: a incerteza, o medo, a solidão e a inversão de valores.
No dizer de Juan Ramón Jiménez “é a qualidade da eternidade que um poema poderá deixar em quem o lê sem a ideia de tempo”. É essa qualidade de eternidade que procuro deixar na minha poesia, porque a poesia tem o papel de construir um outro imaginário, a produção de uma visão sobre o mundo ou a reconfiguração de imagens.


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

ADRIANA APRESENTA... ANA COELHO

Ana Coelho, é uma daquelas pessoas que carrega a poesia no olhar, na alma e em suas ações. Ainda do outro lado do oceano, admirava aquela alegria, entusiasmo e generosidade em partilhar sentimentos e palavras. As segundas-feiras eu tinha aquele encontro marcado, em seu programa LIVRO ABERTO  www.radioalenquer.pt  para sorver poesia e me sentir mais próxima das terras lusas. O tempo passou rápido e agora, bem mais próxima da autora e conhecendo  todo o seu trabalho e envolvimento com a literatura, incentivo aos jovens, e tudo o que faz em Alenquer para fomentar a arte e a cultura, tornou-se ainda mais admirada e querida e agradeço pelo carinho ao aceitar o convite, e poder partilhar sua obra e divulgá-la na Assessoria Literária da In-Finita.

Ana Coelho nasceu a 20-11-1969, é casada e tem 2 filhos. É natural de Angola, vive em Alenquer desde os 5 anos, terra que sente como sua terra natal.

Desde cedo que a literatura é mais que uma paixão, em complemento do eu que a preenche.

Em 2008 começou por mostrar os seus trabalhos em sites e blogues.

Livros editados:
2010 - Nuances de um Silêncio a Dois (poesia) em parceria com José António Antunes ( marido), com a chancela da Edita-me.
2011 - O Tacto das Palavras (poesia) com a chancela da Edita-me.
2014 - Metamorfose ao Luar & Esboços da Consciência, 2 Romances num livro com a chancela da UniVersus.
2015 - Sem-abrigo, Escolha ou Destino? Romance com a chancela da Edita-me
2017 - As folhas após o vendaval ( poesia) da coleção Status Quo Edições Vieira da Silva
Membro da Academia Virtual de Poetas de Língua Portuguesa – secção de Portugal, com assento na cadeira Natália Correia
Tem participações em várias Antologias.
Trabalha voluntariamente em prol da literatura, algo que é feito com Alma e Coração. Fundadora do grupo AlenCriativos com outra amiga escritora Alenquerense, desenvolvem várias iniciativas como; concursos, tertúlias e antologias para divulgação geral da literatura.
Sente especial motivação em revelar novos autores. Apresenta na Rádio Voz de Alenquer o programa “Livro Aberto” todo o programa de sua autoria.
Como sociedade civil sente dentro de si a responsabilidade em dar aos outros, colaborando em associações com trabalho voluntário, porque sentir outros sorrisos é melhor que sorrir sozinha.


Podem acompanhar a autora neste link

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES (XIV)

Tragédia número 7

Ele então não deixou que o tal indivíduo adentrasse aquele pátio no qual o tal churrasco estava sendo realizado em gerúndio. Ele que sabe muito bem que o substantivo gerúndio deriva do latim gerundium que diz de uma ação que está em andamento ou que ainda não terminou.Ele que jamais deixaria que o tal amante adentrasse aquele pátio no qual o tal churasco estava sendo realizado em gerúndio. Ele com a faca de churrasco à mão, ele a imprensar o tal indivíduo contra o poste e a insistir para que ele conte tudo sobre a tal esposa adúltera.
Ele que diz para o referido, o tal marido tal, que ela disse que ele não dá no coro, vale dizer, que é sexualmente competente, mas que ela diz que precisa de muito mais, precisa de sexo ardente, com fantasias mirabolantes.
O tal marido tal que quer saber acerca da duração daquele caso. O tal amante que diz que não vai mais responder a nenhuma pergunta e vai embora. O tal amante tal que diz que não vai mais inportuná-lo com nada, pois não sabia que ele estava prestes a se casar.
O tal amante tal que diz que ela não sabia se queria casar ou não. O tal amante tal que reclama agora em voz baixa e diz em gerúndio que a tal faca está machuncando a sua barriga.
Ele que sussura no ouvido direito do tal amante a origem da palavra barriga. Ele que diz que a palavra barriga se origina do latim barrica ainda de origem obscura. Ele que diz ainda que barriga se origina do latim pantex que significa ventre e também intestinos. Ele que diz que barriga aponta igualmente para saco, bolsa de couro ou fole em Belg no inglês arcaico. Ele que ainda diz que barriga deriva do Quimbundo Mbunda significando nádega ou quadris.
Ele sussurando coisas como estas no ouvido do tal amante que fecha os olhos e e caminha em sua mente atormentada carregando em suas mãos os intestinos, as bolsas de couro e as nádegas num misto de sangue e de dor.

INTENÇÃO DO MARIDO DA ADÚLTERA.
TER UM DIA TRANQUILO NUM CHURRASCO EM FAMÍLIA.
FRACASSO:
TEVE UM DIA TERRÍVEL EVITANDO QUE O AMANTE ADENTRASSE AQUELE CHURRASCO.


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

PATRÍCIA PORTO FALA DE ... ALÊ MOTTA



“Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. 
Como então posso estar louco?” […]
Edgar Allan Poe  


Ainda na contemporaneidade, Edgard Allan Poe, Piglia, Borges, Cortazar... são alguns nomes que influenciaram o que podemos entender como crítica do conto. Guardando cada qual sua peculiaridade teórica, convergiam na ideia do poder da síntese associado à qualidade literária. No mais, a teoria do conto é um caldo repleto de considerações teóricas completamente opostas e até díspares. Uma das significativas definições de conto foi defendida por Cortazar e diz perto ao apelo à síntese dessa narrativa:

Mas se não tivermos uma ideia viva do que é o conto, teremos perdido tempo, porque um conto, em última análise, se move nesse plano do homem onde a vida e a expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, se me for permitido o termo; e o resultado dessa batalha é o próprio conto, uma síntese viva ao mesmo que uma vida sintetizada, algo assim como um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade numa permanência.


Ora, para escrever menos seria preciso escrever mais. Pois cortar na carne, encontrar soluções complexas e intensidade como enfatizava Poe, ou trabalhar com a “unidade de efeito”, o caráter de sugestão, não guiar o leitor a um desfecho único, todos esses são elementos imprescindíveis à escrita do conto.

Estreitando esse universo de “fugacidade na permanência”, chegamos aos contos curtos, narrativas breves, inquietantes, argutas e com alto domínio de síntese,  podendo até mesmo não chegar ao final de uma página. Um trabalho delicado de artificie das palavras - aquele que mantém a lâmina de corte sempre afiada. E esta qualidade peculiar da lâmina, assim como o uso de um dinamismo narrativo tão apropriado ao nosso atual contexto – paradoxal e caótico nas relações - são princípios instigantes que poderemos encontrar no livro de contos “Interrompidos”, de Alê Motta, lançado, neste ano de 2017, pela Editora Reformatório.

Na sua narrativa, a autora traz elementos essenciais ao conto, do qual se ocupa a teoria literária mais ampla, e também ao microconto, novo gênero que exige a dinâmica do próprio movimento da narrativa como pré-texto, uma câmera em suspenso constante, pendular, nervosa que segue de muito perto os personagens. Nos textos curtos da autora, há o conciso e o corte, a intensidade e a sugestão, o efeito de unidade e a permanência. A autora maneja com maestria seus instrumentos cirúrgicos, numa precisão necessária. São contos que mesclam o prosaico com o urbano, histórias urgentes e agudas sobre situações cotidianas e familiares.

Alê Motta imprime impacto, força, constrangimento, humor e até mesmo boa dose de sadismo como mecanismos da narrativa. As cenas, incidentes, tragédias vão se sucedendo numa tensão crescente.  Lido de uma sentada, o livro lembra por vezes um afogamento – cada conto é uma submersão, cada intervalo entre os contos, uma subida para respirar. Há um sentimento de agonia, de luta, de necessidade e mergulho. E uma obra que consegue causar tais sentimentos é uma obra a ser lida e merecidamente notada.

Podem adquirir neste link


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... BÁRBARA LIA (VI)

lindo ano que termina enleado em grãos de estrelas

2017 foi o ano de "As filhas de Manuela". Um ano enleado em delicadeza pleno de encontros poéticos e trocas e muita alegria.

O romance foi lançado em três cidades: na Feira do Poeta em Curitiba, na Patuscada em Sampa e na Casa da Cultura da cidade de Peabiru (cidade onde vivi a infância).

Neste ano (sabático) em que me dediquei apenas aos meus escritos, muitas coisas suaves e belas.

- um e-book lindo no projeto da Revista Gueto - "uma brasa acesa de amor e morte".

- Uma homenagem no recital - CuTucando a inspiração, capitaneado pelo poeta Geraldo Magela, no Teatro TUC - Curitiba.

- Um texto para Paul Klee na Revista Mallarmargens.

- Minha Poesia por duas vezes na Revista InComunidade

- Um encontro com alunos que conheceram minha obra e me chamaram até lá para um encontro, entrevista, leitura de poemas, uma manhã de chuva linda e totalmente mágica, lá no colégio Abraham Lincoln em Colombo.

- Uma participação em um evento poético - Zoona II - Américas Transitivas.

- Um passo para edição de um novo romance (não o convidei ao meu corpo), que passou para a fase final do Concurso de Criação Literária Kazuá.

- Buffet de Poesia, projeto do poeta Carlos Barros, uma nova edição do primeiro projeto de poesia que integrei em 1997,

E outros momentos que esqueço, eu sempre esqueço algo. 

No final a vida parece calma, como se estivesse estancada, mas enumerando assim:
foi um ano bem agitado.


assessoria literária In-Finita