quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... ANDREA SANT ANNA (V)


Os dias correm feito lobos... traiçoeiros, sorrateiros a nos iludir, e com fome... o tempo nos engole ferozmente. Deixa-nos por vezes, e não raramente, vestígios indignos, por outras, retalhos de sonhos. As cidades e lugares cada vez mais parecem-se com a caverna escura de Platão... O "Ensaio sobre nossa cegueira " já estreou. Nossa cegueira vem sendo sacudida com visões apocalípticas que fazem, literalmente , tudo tremer. Incrível viver nesses tempos!!! Tendo sempre sido solar e otimista, agora testemunhando o fim das coisas, a falência, os escombros, os retrocessos, as marcas de derretimento das certezas civilizatórias... Testemunhas com o peito oprimido pela dor de ver. Ver, presenciar, dói. Porém,  não  ver nos torna ridículos e patéticos. Somos ridículos e patéticos ainda quando vemos. Difícil deixar de sê-lo com a forja de mil anos a nos limitar em nossa ignorância. Nossa barbárie. Estupefação. Indignação. E por que não? Coragem. Vejo coragem em meio ao caos. Vejo beleza e nobrezas possíveis. Vejo poesia, enlevo e desejo também, vejo. Possibilidades de nascer da lama, como a flor de lótus, ressurgindo do nada que nos tornamos.

Eis, aí. Uma esperança.

mini-Biografia: Andrea Sant Anna

Mãe, avó, contadora de histórias, arte-educadora, ceramista, oficineira, Terapeuta Corporal

Expressar-se é curar-se. Me interessam coisas de cura e expressão. Arte e saúde. Coisas de dentro e de fora. Coisas com as próprias mãos , como desenhar, tocar, escrever, modelar, massagear, comunicar, acarinhar, cuidar, acolher, nutrir.  Me interessam as pessoas, sobretudo, as crianças , melhor momento dos humanos! 

Não sei bem o que fazer  com tudo isso, mas vou fazendo.

E indo ...

E expressando,  criando

E me curando...

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES (XII)

Tragédia número 5

Era um churrasco de família com cortes de carnes nobres e bebida de excelente qualidade. Ele estava feliz pelo fato de que ia comemorar seu aniversário com as tais pessoas que lhe eram caras.

Ele que percebe que a esposa está um pouco ou consideravelmente tensa naquela dia. Ela que o trata de maneira hostil antes do tal churrasco. Ela que se tranca no quarto e diz que não está bem ou que vai ficar bem logo e pede para que ele a deixe em paz. Ela que esta a falar com alguém ao telefone. Ele que está louco para ouvir aquela conversa no substantivo extensão. Ele que apedreja Madalena em seus delírios primitivos de bom cristão ledor assíduo da Bíblia Sagrada. Ele que agride o Messias com dois socos na boca do estômago por haver ressuscitado Lázaro.

Ela que desliga o tal telefone e que sai da palavra quarto e diz que está pronta para ir em terceira conjugação ao substantivo churrasco.

Ele que sabe muito bem que o substantivo churrasco deriva do espanhol socarrar que é um um verbo que significa chamuscar ou queimar e que  por sua vez deriva do basco sukarra que aponta para algo que está em chamas como sua alma incendiada agora por aquele tanto de carne apetitosa com largos quadris e seios fartos que está à sua frente e que tem mais de tantos mil anos e que descobriu o fogo ao lado daqueles homens há tantos mil anos que sentiam pela primeira vez a maciez daquela carne com os tais resquícios que ficavam presos entre seus dentes incertos.

Ele que liga novamente quando o casal estava saindo e ele o marido que atende ao telefonema e ele o tal homem que havia conversado com a tal mulher que diz que apenas havia ligado de novo para desejar uma boa festa, 
E
Ele que xinga o tal homem do outro lado da linha que prontamente desliga o telefone, pois não podia imaginar que o marido estivesse ao lado ou próximo da mulher.

Ele que consternado não perde a linha e ela que no corredor pergunta quem era e ele que diz que não era nada, apenas engano.

INTENÇÃO - ACABAR COM AQUELA FARSA DE UMA VEZ POR TODAS.
FRACASSO  - A NÃO REALIZAÇÃO DO ATO DEVIDO AO FATO DE QUE NUTRIA PROFUNDA CONSIDERAÇÃO PELA FAMÍLIA DA ADÚLTERA EM POTENCIAL.




segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO (XXI)

O desassossego e a invenção nos (in)visíveis



Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura. 
Roland Barthes


nas paredes
em despudor de silêncio
a litania do invisível

no cio do limo
a sinfonia do mofo
lavra
o
segredo
da
rachadura


         É nas trincheiras da arte poética do cotidiano que encontraremos novos signos de resistência estética para a poesia. Prova disso é o livro de estreia de Carlos Orfeu, “(in)visíveis cotidianos”, que se desdobra páginas-corpo-poemas em múltiplos olhares que atentam para os “pequenos nadas”, expressão tão bem criada por Michel Maffesoli. Não foi à toa que a leitura das cenas cotidianas, dos frames que o poeta nos apresenta em versos densos e concisos, me levou a dialogar com lugares que refletem a relação entre o poder e o cotidiano, assim como também me fez pensar na relação do homem comum com o invisível corriqueiro. São reflexões que me fazem dialogar com a sociologia, a história, a história dos oprimidos, dos excluídos. Por isso, na leitura de “(in)visíveis cotidianos” não é simples apartar do aspecto crítico e literário da leitura o aspecto sociológico que há na cotidianidade. São poemas sobre o “tempo presente”, sobre a rotina, os pedaços do mundo, os vestígios da vida, os fragmentos que se amontoam como cruzes, estradas, corpos, urgências perfiladas por uma faixa humana também esquecida, abandonada, in-visibilizada. E intuo que na voz do poeta há também outros ditos no desvão das imagens – como palimpsestos, um volume sempre por-vir, uma nova urdidura entre a palavra e a espera.

Há no livro um mundo imagético a ser desvendado pelos leitores, há um convite que leva o olhar a funcionar como pausa.


no cio do limo


Carlos Orfeu parte do instante para o eterno como se parasse o tempo, o mantivesse em suspenso, e transformasse aquele momento num vórtice que une o todo.

Assim os poemas se conectam num livro-corpo que é também devir. E ler os (in)visíveis é aguçar os sentidos, conhecer as camadas para ouvir “a sinfonia”.


a lâmina ceifando a vida em seivas


               Feito a ninfa Eco - repito “seivas” e vou dedilhando as imagens que o poeta me apresenta. Na minha andarilhagem corro o risco da errância, e dialogo com mais imagens do cotidiano, as de Manuel Bandeira, Mário Quintana, Maria Helena Latini, Líria Porto e outros que me fizeram debruçar o corpo e a alma, todos os sentidos expandidos, para a importância desses significantes, numa outra dinâmica com este cotidiano. Carlos Orfeu chega para compor este painel de poetas e se une aos que ousaram dizer muito com menos, ver muito onde se vê menos, ser bastante sem desprezar esse menos. Porque há nesta arte - uma punção de vida, uma potência na vivência com “os pequenos nadas” e que precisa ser desvelada a partir de uma outra recepção, a que não exclui as  aventuras e as delicadezas do habitual - no seu trágico e belo, seja na voz, no silêncio. Mas para isso será preciso compreender uma lógica avessa à que nos faz perder os sentidos com  excessos.  Será preciso pousar o olhar no tempo íntimo das coisas, no tempo elástico das sensações do corpo, da casa, da rua, do urbano, desse nada que é tanto.

corto cebolas
com olhos ensopados

de águas esquecidas  

por Patrícia Porto



domingo, 10 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... SÍLVIA SCHMIDT (IV)

Comoção

Foi de comoção minha experiência após ler Canção da Liberdade de Jade Rainho-moça linda que conheci em seus e meus tantos caminhos nas estradas da existência. Em uma manhã de Domingo dia de feira -na pequena vila de Caeté Açu no Parque Nacional da Chapada Diamantina-BA- ano de 2014-15. Foi uma conexão imediata. E depois na Festa Literária de Paraty ano em que as mulheres em auto publicações tornaram este evento um dos mais impactantes e inclusivos- a festa como festa na FLIP 2017.
Jade ave transformando vida em versos ousados [a fuga do centro do conforto]
ao mirar novos lares e universos [a transformar e transmutar-se] em canção em ritmo em criativas janelas.
Quando da primeira leitura o sentimento foi tal que precisei parar de ler este livro de poder- meus olhos eram apenas lágrimas em cascatas- o que deveríamos ser.
Cascatas, rios riachos e flores aves e afetos em versos encaixados encadeados ritmos das canções d’almas- pachamamas- peregrinas e viandeiras. Elaborados em sua visualidade em espaços também livres na folha de papel pólen bold 90G- folhas que a escolheram e escolhidas foram por suas mão de poeta: “Um livro Mágico feito de aprendizados como ela mesma nos lembra em sua contracapa
– ela uma - andorinha dourada- “abrigando entre as asas pedaços do céu”.
Agora em minha segunda e completa leitura – neste final de beleza pungente – eu sucumbi novamente a esta comoção a esta voz plena em pausas em explosão.
Coube-me neste universo nestes cantos o mundo aos quais ela generosamente nos transporta:
Vêneto, Itália verão de 2009
Cuyabá outubro de 2010
Ponta da Liberdade, Algarve Portugal
Porto Alegre
Penápolis
Budapeste
Largo Santa Cecília, centro São Paulo
Ligúria, Itália
Caeté Açu verão de 2015[aqui nosso tempo e nosso espaço de encontro]
Nestes lugares o seu tempo-espaço de vida [a física quântica nele inscrito]
“na impulsão original
inaugura a nova física
ilumina os mistérios
do cosmos”
Jade Rainho um pássaro de asas quebradas sua alma sua palma porque acrescenta na forma no sentido nesta amplitude impensável em um livro pocket- imensidões e potências reavivadas em significados. E a janela então seus braços abertos sua inteligência concreta [trabalho com o sentido visual- significante- a parte material do signo linguístico] em
] ] ] ] ] ] ] ] ] ] abro a janela [ [ [ [ [ [ [ [ [ [
Assim como em O APRENDIZ DE SIGNIFICAÇÕES
OU PALAVRAS REGADAS AO VENTO
Para Manoel de Barros
Livro síntese Canção da Liberdade versos universais abertos para o Amor
“Amor maior que mentira de pescador” que síntese essa- que síntese- neste
vasto repertório metalinguístico [espanhol inglês tupi guarani grego italiano]
enfim poiésis no sentido platônico [“ poiésis expressa o sentido geral do verbo poiéo,
que significa produção, fabricação, criação.
Livre e leve como uma pena- presente na obra.
Gratidão [somente para os que entendem]

Por Sílvia Schmidt
escritora editora poeta

Referência neste link



sábado, 9 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... TACIANA VALENÇA (XI)

TPM

Sei que mulher é bicho estranho mesmo. Esquisito. Uma doideira. Quem quiser que tente entender. Eu, por ser uma, não me dou a esse trabalho. Às vezes chego a ser hilária sem nem me dá por conta. Mas, especialmente alguns dias no mês, realmente, a “porca torce o rabo”. Num dia como esses, tive um acesso; isso mesmo, aquilo foi um acesso de raiva, uma explosão, uma não sei o quê e nem por que. Comecei a falar, falar, falar... reclamei até das chamadas do telejornal. No dia seguinte meu filho perguntou se estava melhor. Perguntei:

- Melhor de que meu lindo? (na maior calma do mundo)

Ele falou de tudo que eu tinha dito no dia anterior e realmente vi que ficou muito preocupado. Então procurei explicar da melhor forma que pude, o que era TPM. Ele ouviu, perguntou e aparentemente, entendeu. Fiquei feliz por ter conseguido explicá-lo. Depois de alguns dias, ouvi perguntando a avó se ela tinha TPM. Ela sorriu e perguntou se ele sabia o que era isso. Ele disse que sabia, que a mãe havia explicado. Então perguntou o que era. Ele disse:

- Terrorista, Poderosa e Monstruosa. 

Fiquei arrasada!