sábado, 30 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO

O quadro de Alice

"Ai daqueles que não morderam o sonho
e de cuja loucura
nem mesmo a morte os redimirá."
Paulo Leminski



"O poeta é um fingidor" disse Fernando Pessoa. Hoje ao me despir da capa que carreguei desesperadamente pela vida, me ocultando de viver o que é de natureza intensa, revi algumas velhas notícias. Porque novidades também envelhecem e morrem. E feito o poeta fingidor também finjo a dor que deveras sinto. Talvez porque tenho aprendido pouco sobre a realidade real, porque a imaginação, esta sim é que foi minha companheira. Pouco entendo dos falsos moralistas que oprimem a liberdade alheia dizendo sempre o que se deve vestir, ler, pensar, falar, escrever... Estranho os que não sabem fingir, os que dizem nunca mentir. Estranho os opressores. E admiro cada vez mais os patéticos, os bobos, os loucos, os inúteis, a gente toda que sabe sorrir e festejar a vida como se a beleza residisse numa alegria breve. Confesso sim: não sou boa de frases de efeito e não me saio bem com competidores, perco sempre. Faço isso desde criança e quando era obrigada a jogar damas, perdia, perdia, fazia sempre questão de perder e por isso ficava feliz. Talvez porque o meu vazio nunca precisara desse tipo de cheia. Amei alguns homens, ah, sim, mas sempre perdi também. Perdoem a comparação. Mas fazia como as damas, já saia perdendo de início. E ao final, meu vazio esvaziado de sentido, enchia-se de dores. Ao entardecer percebo que algumas pessoas são como rede e moinho, redemoinham. Precisam de vento e de pouca certeza, precisam de pouco, um pouco de sereno, um pouco de distância, um pouco de silêncio. Para compreender quem está fora do meu vazio, também preciso sair da roda, deixar que ele veja o meu estado e se entristeça da minha dor e sorria da minha alegria. Preciso me des-centrar para poder o olhar o outro com-paixão. Preciso desejar menos e sonhar mais. Estarei preparada para amar? Não, não há preparação que se justifique. Pego o meu guarda-chuva e entro no quadro de Alice. Alice sim soube amar como ninguém.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK


Sou neta de livreiro e editor, bisneta de dono de sebo, e meu pai por um bom tempo trabalhou em uma gráfica. Percorro o mundo dos livros desde cedo, quintal da minha infância. Sempre me encantou aquelas livrarias enormes, que para mim, eram o meu parque de diversões, o meu sonho de consumo.

E ganhar livros ou esperar por eles, tem sabor de boas lembranças de infância.

Passear pelo sebo do meu bisavô, chegar a casa com a sacola cheia de preciosidades e ainda ganhar um pudim de leite de sobremesa, era o programa que eu não substituía por nada, e lembro de como o meu coração batia feliz ao caminhar pelas ruas barulhentas do centro do Rio de Janeiro, naquele quase estado de deslumbramento.

O tempo fechou o sebo, e os queridos se foram. Mudei de cidade e cresci, levando comigo essas doces lembranças.

E acompanhei livreiros, editoras, gráficas, autores. E todos, em unanimidade, nunca estavam totalmente satisfeitos, sempre havia um se... talvez ... porque...

Acreditava ser exigência de uns, falta de visão de outros, incompetência de alguns e falta de preparo de outros tantos...

E guardei, algumas observações, ideias e projetos para outros tempos, na certeza de que saberia encontrar o ponto de convergência.

E hoje, lembrando de tudo isso, chego a uma observação que me fez parar para escrever: A quase impossível tarefa de conciliar o desejo do autor com o editor.

Qual a dificuldade de ouvir, perceber e fazer exatamente o que o autor deseja?

Ouço, acompanho e vivencio muitas estórias e senti na pele e na alma, por maior empatia que se tenha, a difícil tarefa de ter suas vontades totalmente compreendidas e aceitas por parte da editora. De observadora e questionadora de trabalhos alheios, virei não sei se vítima, mas com um certo incômodo, a autora insatisfeita que luta até o último segundo do tempo para deixar a obra o mais próxima possível do que se imaginou.

Agora o prazo acabou, a editora levou para a gráfica e sinceramente não sei, por mais que se tenha pedido, solicitado, revisado, se está condizente em cada detalhe ao que desejei.

E depois justifico para quem?

Ah, o erro foi meu, que não revisei, da designer que não enquadrou corretamente ou da editora que mudou a seu bel prazer, porque achou que assim estaria melhor?

A quem recorro? A um colo amigo, ao grito silencioso, ou deixo para lá, que no próximo sai como eu quero... E assim se caminha a humanidade. Editoras e gráficas ganhando dinheiro, com os direitos da criação e o criador, vira mero coadjuvante à mercê de outros desejos, que não são o dele.

E tento sentir de novo aquele sabor do pudim de leite, e a sensação de que aquele mundo encantado, foi criado apenas para nos enriquecer culturalmente, perpetuar a riqueza de uma língua, preencher o insaciável, fazer viajar por experiências jamais imaginadas e, principalmente, nos incentivar a sonhar.

Mas na minha ingenuidade juvenil, nem ousava imaginar que, por trás das histórias e das belas capas, travava-se uma guerra de incoerências, desacertos e vaidades que, só agora, consegui perceber e sentir, esse sabor, não tão doce.

DRIKKA INQUIT


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

EU FALO DE... NEGLIGÊNCIAS

Entre muitas coisas, sobejamente conhecidas pela maioria daqueles que acompanham o que escrevo, há uma que me tem fascinado ultimamente, embora não seja recente, e não creio que venha a ser alterada, uma vez que está umbilicalmente ligada à incoerência comportamental dos autores, e não só.

Baseando-me apenas na experiência, de quase dez anos a acompanhar eventos literários, estou cansado de ouvir, e ler, sobre a falta de iniciativas pró-cultura. A bem da verdade, mesmo eu, em determinada altura, tive a ousadia de proferir esse género de queixas. No entanto, depois de muito falar e escrever sobre o assunto, dei conta que afinal essas iniciativas existiam mas acabavam por morrer com o tempo por falta de aderência daqueles que por elas reclamavam.

Falo em particular das tertúlias e dos certames de promoção de autores e livros.

Se, sobre as primeiras, muito tenho escrito e falado, especialmente pelo facto da generalidade confundir tertúlia com sarau, e por essa via, após a constatação do que é efectivamente uma tertúlia, deixam de aparecer porque esse género de eventos não lhes dá o brilho que procuram nem lhes promove o que tentam impingir, já sobre os certames, custa-me entender as razões que levam os autores a abdicar deles.

E trago este assunto à baila, neste momento, porque se aproxima mais uma edição da feira do Livro de Autor de Vila Franca de Xira e, tendo em consideração o que aconteceu na anterior (em dois dias, apenas três autores compareceram), não deixa de ser revelador do quanto, os autores, apenas se limitam a protestar por falta de apoios e formas de promoverem as suas obras, mas quando lhes surge uma oportunidade, fingem que não a vêem ou demonstram falta de interesse absoluto.

Eu até gostava que a afluência neste certame viesse a contradizer e a deitar por terra este meu texto. Seria um óptimo sinal de que as coisas estariam a mudar. No entanto, não creio que isso venha a acontecer e tenho pena que os autores não se apercebam que ao negligenciarem este género de eventos estão, pura e simplesmente, a fazer com que aquilo, cuja existência tanto reclamam, deixe mesmo de existir.

MANU DIXIT

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES

A indústria da massificação se baseia nestes movimentos que bloqueiam qualquer tentativa de se respirar de forma diferente.

Práticas cotidianas como ficar em casa com o celular, a televisão e o rádio desligados por algum tempo, como a leitura de um livro seja ele digital ou físico que sugere um sentar confortável na poltrona ou no sofá, constituem verdadeiras subversões em relação à velocidade predatória sugerida por este maquinário catastrófico.

Cozinhar a própria comida procurando opções saudáveis, eis um exercício relaxante que nos coloca frente a frente com nossos pensamentos e também entra em conflito com este mundo repleto de ruídos assustadores e vãos.


In Crônicas de um olhar diferenciado - Atrocidades Cotidianas

terça-feira, 26 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... TACIANA VALENÇA

VIDEOCONFERÊNCIA

O Pior de ter que acordar cedo numa segunda-feira, depois de um domingo ensolarado e divertido, é ter que estar às 9h na videoconferência da empresa ouvindo, em alto e bom som, o "superintendente" falar para mais de 50 gerentes as palavras "teje" e "seje" numa empáfia e elegância de dar arrepio  na alma.

Fico imaginando como aquele sujeito chegou ali falando daquele jeito. Claro, estou sendo radical, é óbvio que ele tem "outras habilidades" que compensam que ele "seje" tão "ingnorante" e que "esteje" naquela posição tão "previlegiada". Sim, porque isso é um PREvilégio (algo que ninguém prevê, rsrs). Desculpem, é que às vezes temos que rir mesmo pra não entrar em depressão.


Fico pensando em meus pais que gastaram tanto em bons colégios para que eu falasse direitinho e tivesse ao menos alguns privilégios diante da vida... Mas, fazer o que? E já que não posso fazer nada a respeito, tenho mesmo é que rir da minha P____ falta de competência!