quarta-feira, 4 de julho de 2018

DEZ PERGUNTAS A... ANGELI ROSE


1 - Como se define enquanto autora e pessoa?

Como um barco à vela que se deixa levar pelo oceano da fantasia, ora à deriva, ora com leme direcionado para terras longínquas a serem descobertas dentro e fora de mim.

2 - O que a inspira?

Alguma experiência significativa, que pode ser desde a leitura de um romance, de algum filósofo, passando por m paixão (correspondida ou não!), à observação da simplicidade presente na brincadeira de uma criança. Em realidade, acho que é um instante intenso sentido em algum acontecimento que pode tornar aquele momento uma eternidade, o que é suficiente para querer buscar palavras inspiradoras para outrem.

3 - Existem tabus na sua escrita? Porquê?

Acho que sim. Estaria mentindo se dissesse que não. Existem limites, talvez por ignorar em alguns momentos a potência humana, para o bem e para o mal. Mas vejo positivamente esses limites, porque eles transformam-se em desafios, aqueles desalinhos necessários para investigar a potência da língua em que se escreve e da experiência humana. Isso ajuda a viver e fazer literatura. É “lutar com as palavras”, uma “luta vã”, como queria o poeta Carlos Drummond de Andrade.

4 - Que importância dá às antologias e colectâneas?

Como professora, acredito que tenham uma função de democratização do acesso à literatura, naquele sentido que o professor Antonio Cândido tão bem provocou: o direto à literatura; algo de fundamental importância para a formação humana. Como escritora, mulher, ”parda” como me registraram em meu país (Br),de família simples sem tradição intelectual,proletária da educação,penso que as antologias são uma oportunidade de compartilhar um “espaço”,o do livro,com outros poetas e escritores,também uma chance de ler e ser lida em meio ao mercado editorial tão irregular e indisciplinado como está o atual,já que passa por uma mudança relevante com o advento da cibercultura e suas redes sociais,com escritores se autopublicando aos montes a cada dia,assim como com a abertura autorias compartilhadas como a literatura digital/eletrônica tem provocado.Por outro lado, penso que para a crítica literária e cultural,as antologias são um desafio porque os motivos que as tem organizado não seguem mais necessariamente os princípios que as regiam em séculos passado.

5 - Que impacto têm as redes sociais no seu percurso?

Todos. Como escritora, mantenho um “MEMORIAL DIALÓGICX” na rede social FACEBOOK, sob um pseudônimo: capitu nascimento.Mas já fui blogueira também.Tenho a oportunidade de entrar em contato com muitos escritores e pesquisadores,através das redes sociais,mas sem deixar isso tomar meu tempo de leitura.Como pesquisadora,intrigam-me as associações,alguns princípios em voga em prol ou não da literatura,tais como as comunidades de leitores.Por outro lado,fico perplexa e vejo com certo receio a dificuldade para lidar com a convivência virtual e presencial. Como professora,sou fã dos youtuber por um lado,daqueles que são despojados na forma de resenhar livros e apresentar suas leituras.São jovens, em sua maioria,bastante desenvoltos e conscientes quanto à importância da leitura de fôlego para a formação de um pensamento crítico.E como cidadã,que inclui tudo isso e mais alguma realidade,me sinto desafiada a tolerar mais do que imaginaria e menos do que gostaria.Ainda tenho vontade de arriscar mais em termos de recursos tecnológicos que algumas redes sociais oferecem,principalmente, no que diz respeito ao uso de imagens e de sons em movimento,associados à palavra.Eu frequento as redes sociais,poucas e pouco,porém a cada dia mais restrita aos meus interesses profissionais,porque na medida do possível,ainda prefiro preservar minha relações com os laços de intimidade.

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita?

Um ponto negativo da escrita é a escrita; um ponto positivo da escrita é a escrita. Podem parecer tautológicas ou vazias tais considerações, mas é que de fato,lidar com a escrita num mundo em que ela já não é a protagonista,como o foi no século XIX,isto é,como todos os clássicos universais que formaram alguns que decidiram escrever é algo “negativo”,desafiador,eu diria.Ao lado disso,ou por isso mesmo,a escrita(literária) está num momento em que é fascinante relacioná-la tão intensamente com outras linguagens,com efeitos de acoplagem,subtração,superposição,etc.Enfim,no nosso tempo,nesse tempo em que estamos,continua sendo instigante a escrita e por que negativo e positivo faz-nos sentir o que está vivo em nós,quer pela memória,quer pela imediatez que o mundo digital proporciona em termos de criação e recepção.Agora pensando mais,acho que o negativo é o autor e o positivo é o leitor,sem que estes estejam em personas diferentes obrigatoriamente.

7 - O que acredita ser essencial na divulgação de um autor?

Primeiro que seja lido por quem vai divulgá-lo. Isso tem sido um pouco difícil, dado o volume de publicações com o qual os editores e divulgadores costumam lidar. Ser lido criticamente, de maneira que se conheça a potencialidade daquela literatura a ser veiculada, o que é uma maneira de estar pronto para as oportunidades que podem surgir, independentemente dos meios e espaços já estabelecidos para essa atividade de divulgação. Ou, ouvir, ler, quem já leu o autor e é fonte confiável, e quando digo confiável, penso no leitor ou crítico que não se deixa tomar por grupos e guetos literários (as patotas). Há outros aspectos mais práticos que tocam a questão do divulgador, como ser bem relacionado, conhecer os canais acessíveis e que dão visibilidade a autores (as), no entanto, penso que gostar do que faz ter curiosidade pela experiência humana e interessar-se por literatura é o que pode resultar em êxito para a atividade de divulgação. Posso estar sendo um pouco idealista e fora da realidade, já que o estado de crise em que permanentemente nos encontramos nesse campo editorial e literário não dá muitas escolhas para os profissionais do ramo. Talvez. Mas prefiro pensar na divulgação como algo orgânico nas relações voltadas para a circulação da literatura.

8 - Quais os projectos para o futuro?

Isso é curioso. Pensar nisso é curioso, porque tenho a impressão de estarmos vivendo um estado de coisas em que somos exigidos a pensar em futuros (possíveis e impossíveis) e não mais num futuro. Lidamos com temporalidades tão diversas em nosso cotidiano que o futuro parece, por vezes,ter sua medida encurtada e já se anunciar como o agora;de outra feita,apresenta-se tão distante e inexequível a nós que se confunde com sonho ou utopia.Se posso falar em projetos,quero poder continuar a escrever e a publicar,experimentando textualidades que ainda não pude ou não quis.Mas há um romance para sair,o que é algo mais concreto em relação à escrita.Ah! Quero também poder conhecer e estar mais com pessoas que gostam de estar com as outras, para falar sobre poesia, ler poesias, enfim...

9 - Sugira um autor e um livro!

Nossa! Que questão difícil!Vou me arriscar a dizer uma mulher porque também é importante militar e viver a sororidade como ação afirmativa do momento: “Outros jeitos de usar a boca”, Rupe Kaur; (e desobediente que sou, não vou perder a oportunidade) A hora da estrela,Clarice Lispector.

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Você viveria numa ilha deserta? O que faria nela? Sim. Sim! Como o mestre José Saramago adoraria viver numa Lanzarote como ele o fez. Mas gostaria de ter um parceiro como o escritor português conquistou e uma boa e rápida internet, claro. E levaria os livros, os bichos e os notebooks, para escrever e convidar amigos, vez por outra, e fazer um sarau regado a vinho.

Acompanhem, curtam e divulguem esta e outros autores através deste link

1 comentário:

Toca a falar disso