terça-feira, 3 de abril de 2018

EU FALO DE... HIATO CONSCIENTE



Quando me perguntam sobre o meu futuro, enquanto autor, sou obrigado a responder que não há nada previsto ou planeado.

É público (pelo menos nos círculos onde me movimento e partilho os meus escritos) que não pago para editar e tenho material suficiente para satisfazer qualquer convite que apareça. No entanto, como podem testemunhar todos aqueles que estiveram presentes na sessão de lançamento do meu último livro - POLICROMIA PARA CEGOS (trabalho a duas vozes com o poeta Jesús Recio Blanco) -, manifestei a minha intenção de fazer um hiato consciente e não voltar a editar tão cedo. Não sei quantificar esse período, podem ser dois, três, quatro... oito anos, ou mais.

Cheguei a esta decisão depois de ponderar bastante sobre o percurso que fiz até aqui, o material que tenho e aquilo que podem ser os meus próximos passos a nível criativo.

Desde a primeira hora – entenda-se: desde o primeiro livro editado – tenho bem claro no espírito, e na mente, que um autor deve ser inovador ou, pelo menos, deve mostrar evolução, de um livro para outro. Tenho-o conseguido como atestam as diferenças, mais ou menos notórias, dos oito que já editei.

Por outro lado, acredito que todos os autores, com o passar do tempo, têm a obrigação acrescida de contribuir para o desenvolvimento e proliferação dos aspectos culturais, fazendo uso da experiência para incrementar o interesse do público leitor. Mal ou bem, também contribuí nessa vertente, com textos de opinião (sempre baseados nos meus conceitos e pensados pela minha cabeça) e com diversos trabalhos, seja na edição de outros autores, na organização de eventos ou na divulgação que sempre fiz.

Quanto aos aspectos da criação literária, tendo em consideração o que já está em livro e o que, apesar de escrito, ainda se encontra na gaveta, tenho a convicção profunda que posso ir mais além e fazer muito mais coisas sem necessitar repetir fórmulas ou processos. As ideias abundam, a capacidade (sem falsas modéstias ou exagerados auto-elogios) existe e a vontade de criar não se esgotou.

Aquilo que me leva a fazer este hiato, na edição, é não querer sujeitar mais trabalhos ao anonimato que os círculos onde me movo oferecem. Tendo em conta que, ao contrário de outros, também me recuso prestar vassalagem, noutros círculos, para que a visibilidade daquilo que escrevo aumente, resta-me ficar quieto no meu canto e limitar-me a criar sem objetivos nem expectativas no que à edição diz respeito.

Se há algo que me distingue da grande maioria dos autores é a minha total ausência de pretensão em querer editar para ver o meu nome nas prateleiras das livrarias. Sempre disse: edito porque escrevo; não escrevo para editar. Tive a “sorte” de suscitar interesse junto de algumas editoras (cada uma com as suas razões) e, apesar de ter livros disponíveis em livrarias (físicas e online), nunca foi esse o objetivo que me moveu e, como o pensamento se mantém, o que daí resultou manifesta-se agora como insuficiente. Por isso, resolvi “dar um tempo” e centrar as minhas atenções noutros aspectos, mais relevantes na minha vida actual, e ajudar outros autores, pré e pós edição. Mas isso é matéria para outros textos.

Ao longo do meu percurso de autor propus-me seguir um caminho, abstendo-me de repetir fórmulas ou fixar, a minha condição de criador, única e exclusivamente num modelo de escrita. A diversidade, a experimentação e o ecletismo sempre me seduziram mais, e nunca me deixei estagnar pelos elogios e palmadinhas nas costas, bem pelo contrário, tive sempre presente em mim que a minha escrita poderia agradar a vários públicos, em momentos e circunstâncias distintas, e que, todo esse trajecto, seria entendido como parte de um processo natural.

Apesar da lucidez da ideia base, confesso que não levei em consideração um factor que poderia ter, e teve, grande impacto nos resultados obtidos: a obstinação dos autores pelos grupos de influência e consequentes jogos de interesse. Não tendo características de liderança, também não tenho, no ADN, genes que me permitam ser servo; menos ainda daqueles, em cujas opiniões e comportamentos nunca me revi, e que, ao contrário do que apregoam, não estão, nem querer estar, em condições de dar a mão ou abrir portas, apenas pelo mérito. E, se não for por merecimento, recuso prémios, palanques e holofotes. E o preço de vassalagem também não pago porque, por mais incrível que pareça, gosto da responsabilidade de assumir as minhas ideias, mesmo que erradas, em vez de carregar a culpa de ter seguido o caminho indicado por outros.

MANU DIXIT

6 comentários:

  1. Amigo, Gostei da sua contextualização, quem quer que escreva deve ser o que é, e não aquilo que os outros pretendem. Um abraço, boas leituras e melhores escritas, ... mesmo que seja para a gaveta. Estou um pouco nesse caminho, ... mesmo que não publique tenho que escrever, ... porque isso faz parte de mim.

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  2. Fantástico texto no qual me revejo muito. Muito grata pela partilha.

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  3. Se soubesse escrever como tu, escreveria este mesmo texto.

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