quinta-feira, 31 de agosto de 2017

EU FALO DE... UM PORQUINHO CHAMADO FACEBOOK

Ainda a propósito da recente onda de castigos/interdições/restrições provocadas pelo anonimato que é outorgado aos denunciadores, e depois de ter visto algumas fotos que, segundo os parâmetros do Facebook, não são abrangidas pelo mesmo critério punidor, fiquei a pensar que, entre os responsáveis desta rede social, talvez esteja o porquinho Baby.

Para quem não conhece o personagem, se é que ainda há alguém que nunca tenha visto, pelo menos, um dos filmes, este porquinho tanto escondia o rosto ao ver os cachorrinhos mamarem nas tetas da cadela, como ficava a olhar concentradamente para o rabo das ovelhas.

E o facebook faz exactamente isso. Coloca em acção o seu lado censor para castigar aqueles que ousam ilustrar os seus escritos com fotos meramente de cariz sensual e admite a utilização de fotos de cariz erótico, quase pornográfico, com o argumento: os primeiros mostram mamas e os segundos não, apesar do sugestionamento que as mesmas encerram.

Mas não é só nisto que o Facebook é igual ao porquinho Baby. Tal como a meiga criatura que, para além da ingenuidade, tinha as ideias trocadas e pensava ser dotado de características que a natureza não lhe deu, os responsáveis desta rede social também sofrem desse distúrbio e têm noções erradas sobre o que é prejudicial. Tanto castigam, por "spam", aqueles que partilham apenas cultura, sem verificar a culpabilidade, como permitem a utilização abusiva de verdadeiros spam's e ainda patrocinam descaradamente alguns perfis que nada mais fazem do que criar e difundir vídeos corrompidos e que ao serem visionados, e/ou partilhados, se apoderam das senhas dos utilizadores naífes, que ainda são muitos.

À estupidez do porquinho Baby eu até acho piada, à do Facebook... nem por isso.

MANU DIXIT 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

FALA ÁFRICA... MACVILDO PEDRO BONDE

FILHOS DO VENTO
À cavalo do Mar
Maputo, trinta e um de Julho de 2017
“ (…) Não sei se trouxe a chave”, finalizou o poeta. Seguiu-se a sessão de autógrafos entre beijos, iguarias e fotografias, como é o costume entre os confrades. Diante dos meus olhos estava o banner sorrindo para a multidão que se acotovelava na fila com os títulos dos livros lançados.
Eu ali encostado ao pilar onde inicia a escadaria para o andar de cima do Centro Cultural, apreciava os sorrisos, enquanto segurava a taça e o telemóvel nas mãos. Não sei bem o que dava mais gozo: o vinho que adocicava a língua ou as mensagens que faziam vibrar o telemóvel atado à mão.
Uma certeza: roubou-se a jóia da coroa! Entre os apertos de mãos e acenos, na galeria que albergava os habitantes da palavra, o mestre baila a sua pena.
A verdade é que quis o destino que paríssemos entre os perfis das acácias outras margens, outros sonhos amordaçados pelo tempo. Cavalgamos na colecção dos astros, desposando a quietude da sombra à bola amarrada na cintura da baía dos incautos.
Agora, sinto distante a timidez no sopro. O cavalo navega como um quebra-ondas, desbrava a avalanche pendurada na margem, suga nos labirintos da cidade os olhares sem sal, para que as páginas que teimam em brotar nas colinas do desespero sejam assombradas no hálito do mar.
Há um fardo esquecido nos ombros onde as mangas verdes com sal sentenceiam toda a pretensão de grandeza? Chegou-nos vespertino o Deus restante. De repente as ruas que viviam acomodadas à opacidades acordaram engasgadas pelo carnaval matinal, viram-se obrigadas a bailar no despropósito do verbo. Somos iguais debaixo dos olhos no monte Sião?
Cogito, percorro, por instantes, os vácuos: a pena sem o arrasto de uma língua aberta aos cânticos nas ruas. Folheio os “rostos bafientos e medrosos dos poetas novatos”. Não me fico na memória do click inesperado. Somos formigueiros? Bebo nos gomos da laranja, na distância dos andares onde se ergue o prédio Lopes, para que a infância deixe sorrir apenas seus sonos nos botões na boca.
Então? Certo de que da paisagem agreste pintam-se desdenhos na inocência da idade, bebo dos riscos e uma estrela caída no asfalto já que “da consciência descalça/sem as botas” abre-se uma vaga onde as geografias do rio amotinam os olhares. Entre Maputo e Lisboa a paisagem do poeta. Desperto.
A palavra ajusta-se ao sol que dorme na abóbada do silêncio. Sou um vaga-lume! O poema vertical finge chegar ensaiado na tristeza do olhar e a cor de sangue prende, em si, a imensidão do mar.
Os filhos do vento teimam em viver na extremidade da saudade? Voamos na cadência nocturna para a casa onde todos os sonhos serão materializados. A cerveja e o vinho despertam a magia que flui nos compartimentos da casa. Entre telas e telas, a amizade.
Sei que mais tarde chegará triunfante o saltimbanco, porque dos mesmos barcos ficou-nos a ilha na destreza nos lábios. Mas, não se pode deixar morrer o outro, que aguarda os ventos de Lisboa trazendo da orla do Tejo a sua lavra. No entanto, no seu cordel azul-marinho endeusa o pastor de que deixou escapar o gado nas traquinices da infância.
Hum! Acaloro a minha mão gelada pela garrafa e autografo mais um ensaio. O estudante das terras de Vera Cruz ata às costas uma porção dos filhos do vento. Cansado de mim, abandono a casa com um sorriso nos lábios.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

ADRIANA FALA DE... WAGNER MARTINS DOS SANTOS


Um menino chamado amor

Adotei de Vinícius de Moraes como tatuagem de alma:
“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.” A minha tem sido de grandes encontros e a cada dia fico mais feliz com as pessoas imensas que cruzam o meu caminho, que vão se chegando e quando percebo, instalaram-se no cantinho do coração. Começou com a idéia de uma entrevista, que virá em breve, mas quando recebi a apresentação do autor, achei melhor, publicar na íntegra a biografia. E como tive a honra de sua presença em um evento produzido pela In-Finita, fiquei encantada pela beleza poética, na árdua tarefa em deixar a alma exposta, quando o corpo não permite a mobilidade.
D. Maria, é a voz, os braços e as pernas do filho, e além de emocionar, encheram o ambiente de luz.
Esse menino, fã de Cora Coralina, tem muito o que brilhar e tocar diversos corações. E essa dupla, mãe e filho, não só apresentam poesias, eles irradiam amor.

Sou Wagner Martins dos Santos, nasci no ano 1993, tenho paralisia cerebral desde nascença. Na adolescência descobrir a literatura, assim em 2014  lancei meu primeiro livro de poesias, daí em diante participo de vários saraus, eventos voltados a literatura, e cultural, já fui o escritor homenageado na primeira FLIPE - Feira Literária da Periferia, faço várias palestras, sou integrante da ONG Deficiente Eficiente que atua em minha cidade, e no mês de setembro/2016, eu fui um dos ganhadores do PRÊMIO DE RECONHECIMENTO CULTURAL "MESTRE SAÚBA." Enfim, o escrever me completa! Nasci, em 17 de abril de 1993 e resido até hoje em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco. E por causa da negligencia médica adquiri a deficiência nomeada: Paralisia Cerebral, a qual atingiu muito a minha coordenação motora, e por causa da ausência dela, eu tenho pouco controle para me equilibrar: ficar de pé, andar, essa me faz falar com muita dificuldade, e me impede de pegar em vários objetos... Às vezes sinto-me bastante oprimido dentro do meu próprio corpo, minha limitação me castiga sem cessar; mas esse empecilho me estimula a fazer algo que os demais que estão ao meu redor não fazem. Comecei a criar textos depois que ganhei um livro de história infantil, então nesse momento brotou dentro do peito o prazer da literatura, eu nem sabia ler direito, e ditava para um amigo escrever, ele mesmo ilustrava as nossas pequenas historinhas, era essa a nossa diversão!... Passaram-se os anos, e adquiri o computador, esse me auxilia bastante, foi aí que senti de verdade tudo ao meu alcance para fazer um livro, e fiz vários, mas não publiquei nenhum deles. Apresentaram-me a poesia de forma rapidíssima, quando estava fazendo o 1º ano na escola, foi o bastante para me cativar. Fui atrás dos livros que infelizmente a minha cidade não supriu a minha sede pela literatura, eu e a minha mãe sempre íamos à outra cidade a fim de pegar emprestado alguns livros, me tornei mais um fascinado por eles, e de tanto ler poesias, resolvi escrever as minhas com o intuito de expressar algo de dentro, de bom, as pessoas que estão ao meu redor, a minha página no facebook e o meu site, são a minha forma de interagir e transmitir a quem vai ler, a nossa vida, o nosso coração.


BAILARINA DE ALMA

Vi Uma folha
Dando piruetas,
E mais piruetas
No ar,
Numa performance
Suave,
Improvisada pelo vento
A lhe guiar,
No palco da minha vista,
Assim eu apreciei
O espetáculo da natureza!...
Lembrei de você,
Bailarina de alma:
Com espírito solto,
Bailando por aí, aonde tocar
A festiva canção da alegria,
A sua pessoa a dançar,
e a vibrar como uma criança,
na leveza da tal folha,
numa performance da vida,
no palco do meu coração...
 E eu fico encantado contigo,
cheio de emoção,
assistindo o jeito de você,
ser você
nesse espetáculo de improvisação!

- Wagner Martins

Até breve!
Adriana Mayrinck

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

CARTA À POETA PATRÍCIA PORTO

Carta à poeta...

Patricia Porto, quando os poetas se dão palavras, as mãos vão junto. Atitude nada fácil nesses tempos de recuos, de olhar o mundo através das frestas e se julgar participante da gira.

Sorte nossa, poeta, você seja oposta a tudo isto. Seu verso pega pelo pescoço, tanto esgana quanto afaga. Traz pra vida. Me arrisco afirmar que a alma de “Diário de viagem para espantalhos e andarilhos” esteja na página 18, mais precisamente no verso: “Viajar é ser estrada’.

Me arrisco porque é imprudente prever seus caminhos, que vão do acalanto – o poema “Maria Judite”, à página 35, não me deixa mentir – ao hard punk rock: “Transberro”, na 124,comprova o que digo.

Patrícia, te penso música sempre que te leio. Tantã, telecoteco, coco, carimbó, curimba:

“Se o tempo é fraco eu bato
faço da madeira um barco
se o tempo é forte eu danço
vestido de temporal...”.
Taí a prova no poema “Gira”, página 165.
E quando me julgo refeito dos espantos da viagem você me oferece um poema: “Janela IV: das conversas com Teobaldo”. Ora, poeta, justo eu, de falar pensativo, tão rápido e pouco? Você abre o meu poema coma a palavra “abismos” e fecha com “invisível”. No coração do poema os versos: “A vida é curva / É pingo de sal na ferida acesa...”

Sei muito bem como é isso, poeta, esse não se dar pausa no sonho nem na carne, que nos aguardam (e lá vamos!) aos encantos das outras viagens...

Admirado e agradecido abraço 

Délcio Teobaldo


domingo, 27 de agosto de 2017

EU FALO DE... AGENDA BEM COMPOSTA


Por norma, entre a segunda quinzena de Julho e a primeira de Setembro, as actividades associadas ao universo literário costumam, também elas, entrar de férias e são mesmo escassos os lançamentos ou apresentações. Mas este ano tem sido diferente e excepção à regra.

Para este fenómeno muito vem contribuir a maior abertura, da Feira de Agosto de Grândola, às questões literárias, e o período de funcionamento da Feira do Livro do Porto, que começa no dia 1 de Setembro.

Excepcionalmente e devido ao número invulgar de solicitações, também eu anteciparei e minha rentreé, que começará logo no dia 3 com o convite que me foi feito para marcar presença, como autor, numa tertúlia poética, englobada nas festividades de inauguração e reabertura ao público (após mais de cem anos encerrado) do Palácio Baldaya em Lisboa.

Depois estarei, como divulgado inúmeras vezes, no dia 9, no CCB para dar uma palestra sobre o que é ser poeta na era digital.

No dia 16, estarei no Palácio da Independência, no 4º Encontro de Poetas de Língua Portuguesa, organizado pela, mentora do projecto, Mariza Sorriso.

Ainda em Setembro (22) e por solicitação de uma autora, farei a apresentação do seu livro na Casa de Angola.

Mas as actividades não cessam e logo no início de Outubro (7) estarei na apresentação de um dos livros da colecção Status Quo, que organizei.

No fim-de-semana 21/22 de Outubro, estarei primeiro em Alenquer para dar mais uma palestra, desta vez em defesa do género literário poesia, inserido no LiterAl - II Encontro Literário de Alenquer, num painel composto também por Jaime Rocha (dramaturgo) e Isabel Stilwell (romancista histórica), e no dia seguinte na apresentação da antologia comemorativa do I Concurso Literário Edições Vieira da Silva, dedicado ao mini conto, em que desempenhei algumas funções tanto como coordenador do concurso como organizador e revisor da antologia.

E enquanto preparava este texto apareceu a confirmação de mais um evento que não posso faltar, lançamento de outro dos livros da colecção Status Quo, este em Novembro.

E assim, com a agenda bem composta e cheia de solicitações, começarei mais cedo a aparecer em eventos literários e, creio não estar enganado, este último terço do ano prevê-se muito agitado para os meus lados. Vai-se lá saber porquê!

MANU DIXIT

sábado, 26 de agosto de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK


Apenas uma palavra.

A vida tem dessas coisas que não se explica. A palavra saudade sempre esteve presente na minha vida, como segundo nome. E é uma das mais belas que considero da língua portuguesa. Pelo que traduz, pelo que significa, pela sonoridade.

No meu sentimento, saudade era saudade e sem necessidade de grandes explicações. Mas ao receber de presente de Laura Areias, portuguesa, escritora, ficcionista, poetisa e jornalista, em uma manhã de nostalgia, dois livros de Alfredo Antunes, falando justamente sobre o tema, até sorri, intrigada, com a coincidência dos títulos: Saudade e Profetismo em Fernando Pessoa e A Saudade alma da alma portuguesa.

Embevecida desde o prefácio, mergulhei com sede nesse oásis de conhecimento, da alma do Fernando Pessoa, que também é inserido no segundo livro, e da pesquisa e sentimento do autor, que tanto eu me identifiquei.

E descobri tantas vertentes e formas em que a saudade está presente, como palavra, como sentimento, como representatividade da alma lusíada, como linguagem, como arte, como vida, como manifestação, como filosofia. No espaço do tempo, saudade não representa só o passado, transcende também para o futuro. A saudade da infância lírica, a saudade profética, e a cada capítulo, dois livros, distintos e ao mesmo tempo tão interligados, admirei imensamente a capacidade quase genial desse autor, professor, pesquisador, doutor na arte da saudade, em vivência, pesquisa e escrita.

Nas mais de 500 páginas, de Saudade e Profetismo em Fernando Pessoa, descobri-me envolvida por um sentimentalismo e saudade imensa pelo Poeta, e todas as suas faces e intimidades. Pessoa tem uma forma muito particular de integrar-se na temática saudade, constante em suas cartas e poemas, essa sensação de estrangeiro e apátrida, é o que mais me comove, quando mergulho em seu lirismo saudoso, assim, fazendo-me quase confidente e cúmplice, partilhando as mesmas impressões. “A minha pátria, é onde não estou”.

E já que a saudade continuará sempre inefável e estranha, como cita o autor, em A Saudade, alma da alma portuguesa: passado e futuro deixam de ser percebidos como contrários, ao refluírem em um presente alargado e circular. A saudade não deixa morrer o passado enquanto vai imobilizando o futuro. Gera-se uma tendência de eternização...

“Porque o presente é todo o passado e todo o futuro” como escreveu, Àlvaro de Campos.

Esse sentimento tão difícil de definir e intraduzível, essa ausência quase presença de tempos, pessoas, momentos e que a alma lusíada sabe expressar quase que concretamente na poesia, no fado, no Tejo, na filosofia, na religiosidade, na arquitetura, na história e principalmente por sua gente, onde se faz o eco do coração e da alma portuguesa, que chega até nós...

Do lado de cá do oceano.


DRIKKA INQUIT

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO


Os filhos esquecidos da educação

No Brasil, a lei sempre pode justificar os meios e os fins. Para fazer e para não fazer. Para desdizer ou maldizer. Ouço que a lei existe em todo o mundo, em todos os Estados – de direitos ou exceção. Por isso sempre me questiono sobre a verdade. Lei e verdade andam desde sempre juntas, para o bem ou para o mal. E será que vale a pena discutirmos o que é a verdade hoje? Será que estamos preparados para esta discussão ou será que estamos dançando no escuro, como se ainda estivéssemos na Caverna de Platão à espera de alguma luz?

Na Grécia Antiga, era a mitologia que explicava os acontecimentos através de narrativas heroicas. Aquiles e Odisseu são heróis coletivos e fundadores. O que mais importava naquele tempo era a narrativa, porque por ela se conhecia os homens. Pela narrativa, chegávamos à fundação dos povos. Pela narrativa, um povo dizimava o outro e fundava um novo princípio. No poema épico, Aquiles se banha de sangue e seu elmo simboliza a força contra o inimigo, Agamenon. Estamos diante da Ilíada, uma narrativa sangrenta de combate e terror, de vida e morte. Sempre me apavoro quando leio a Ilíada e nunca vi um filme que pudesse dar conta da grandiosidade de Homero naquela narrativa de bravura e força. Também me apavoro quando leio o Rei Lear, de Shakespeare.

São narrativas em que a verdade se diluí na ficção, na arte e, mesmo assim, nos coloca diante das nossas ruínas mais profundas ou diante das nossas estranhezas humanas mais inquietantes, e nada é mais verdadeiro que a ficção do poder para narrar a verdade sobre o poder e a vontade de poder. O que parece diametralmente oposto e paradoxal se une nas pontas do contorno de mundo como “aletheia”, que significa “o não esquecimento” ou, para muitos, a busca da verdade.

Somente com o surgimento da filosofia, a verdade passa ser o centro de uma nova narrativa de mundo. “No início, era o verbo”. Verdade e verbo se confundem nessa nova narrativa. O peso da palavra como verdade parece então relembrar a relação de irmandade entre Zeus e Hades, irmãos e deuses, o primeiro da Origem, o segundo, dos Infernos. Novamente a dicotomia cede, não por vontade, espaço para o ambíguo do homem. O que é verdade? Ela existe sem a contaminação do não-ser-verdade ou do parecer-verdade ou até-que-se-crie-uma-outra-verdade?

Para os pré-socráticos, ou seja, antes de Sócrates e de sua maiêutica, ou antes de um pensamento que nos chega até os dias de hoje, a transformação era o que regia o fluxo da narrativa. Quando Heráclito diz que a única coisa certa é o devir, é a mudança, ele abre o caminho do pensamento para o plenamente humano. A narrativa segue esse fluxo entre a vida e a morte. Tudo que nasce um dia deve morrer. Nada é imutável.

No século XX, ou muito tempo depois de Heráclito, Antônio Gramsci vai dizer que “se o velho morre e o novo não nasce, neste interregno ocorrem os fenômenos mórbidos mais diversos”. O que foi o século XX? O que se tem se tornado o século XXI? Tempos de dissolução da verdade e do verbo, do questionamento da própria ideia de linguagem enquanto verdade. O Rei Lear está novamente vivo e morto, e a cobiça e a intriga entre suas duas filhas provocam a sua derrocada, sua destruição. Os tempos do século XX são incertos. Não há mais lugar para as certezas definitivas. A narrativa se fragmenta. Está em pedaços.

Aqui, neste cruzamento da minha narrativa, é que entra O filho de Saul, os filhos de ninguém, os filhos de Antígona, quando me fazem pensar sobre o lugar do discurso e da retórica na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Quando me fazem pensar no lugar do signo como verdade na lei ou ainda no lugar da verdade como lei. Não à toa, Nietzsche se debruçou sobre este tema e não à toa foi citado numa verborragia insana de homens que se colocam em pedestais de deuses e são mitificados por boa parte da população brasileira atualmente. Nietzsche, que foi um crítico severo do conceito de verdade, questionou os seus determinismos ou quem falasse ou praticasse o poder em nome dela.

Por isso mesmo a palavra não deveria se sobrepor à coisa humana. Na LDB, a sigla EJA (Educação de Jovens e Adultos) aparece como uma abreviatura e um símbolo linguístico de um determinado segmento e não de outro, que é substancialmente composto apenas por jovens e adultos. Ensino básico e ensino superior se separam dicotomicamente também pela palavra. Por isso quando falamos ou escrevemos sobre a EJA, ainda não estamos falamos sobre o universo dos cotistas, ainda não estamos falamos sobre a formação do novo docente brasileiro, nem conseguimos falar sobre a diversidade, a heterogeneidade e de toda uma rede complexa de questões que ficam ali, barradas na porta pela dicotomia do signo, porque precisamos antes falar da morte da EJA.

Outra questão é que a juventude é hoje um nó naquilo que muitos desejariam só “EA”, ou Educação de Adultos. Se eu tenho o ECA como estatuto e defino a partir de uma região mórbida – e não mais emancipatória – de que o jovem de 15 anos deve passar a estudar no turno da noite, e eu não sou mais Aquiles, nem Rei Lear, eu me torno a morbidez de uma gestão autoritária e excludente que habita muitas escolas. Há um sujeito que conduz esse predicado como regra. E esse sujeito só se torna abstrato na narrativa, quando culpabilizo o sistema em vez de nomear os gestores que agem morbidamente em nome da lei.

Trabalhei por anos diretamente com o alunos do Centros de Recursos Integrados de Atendimento ao Adolescente (Criaad-Degase) e sempre me perguntava: “de quem sãos esses filhos? Por que me sinto tão vazia e impotente? Por que não consigo trazê-los pra mim?”. Eram tantas as camadas de exclusão, que eu, ali, professora de língua portuguesa, me questionava sobre o meu próprio lugar no mundo e sobre aquele dever e devir.


Foi assim que, pensando nessas questões trazidas primeiramente pela sala de aula, fui assistir O Filho de Saul, um filme belíssimo em sua dureza de linguagens e na própria dureza que nos seca a língua. É um filme quase sem palavras, porque elas não dariam conta da vida e da morte que permeia a narrativa de Saul, que faz parte dos SonderKommandos, judeus que ficavam responsáveis pela limpeza da câmara de gás em campos de concentração nazista. Saul está em Auschwitz e, um dia, entre mortos que chegam em volume, encontra seu filho – ou quem poderia ser seu filho. Assim como uma Antígona, em sua tragédia ou na nossa tragédia humana, Saul corre contra o tempo e a morte para realizar o rito fúnebre de enterrar o corpo desse filho – ou o seu próprio corpo ou ainda, o corpo da narrativa.

Lembrei de um aluno muito jovem, de 16 anos, já com passagem pela polícia. Sandro era o nome dele. Sandro era meu aluno da EJA, sexta série naquela época. Um dia, Sandro desapareceu, desapareceu da escola, despareceu da mãe-Antígona, desapareceu de seu território. Eliane era o nome da mãe de Sandro que ficou dias, meses, procurando o corpo do filho para enterrar na sua tragédia única e de muitos. Ninguém se interessou o bastante. Um dia, Eliane também desapareceu, deixou de ir à escola, e eu só posso sentir muito por não ter um final para contar.


Mas eu posso falar da sensação que tive com o final do filme e da saga de Saul. Um vazio, uma sensação de afastamento e dor ao mesmo tempo. Os filhos de Saul ou o filho de Eliane, por mais que eu me importe, eles não são meus filhos. Eles são filhos de quem? E a palavra e a lei, por mais emancipatórias que possam ser, não dão conta de desfazer ou me absolver dessa verdade. Por mais que eu me engajasse como professora do Sandro, não poderia e não pude mudar aquele desfecho trágico. Mas, ainda assim, eu posso e nós podemos pensar sobre os filhos de Eliane, os filhos de ninguém, os filhos de Saul, os filhos dos outros – e quem sabe, podemos até mudar algo, como uma palavra, um discurso que caminhe no fluxo da nossa própria narrativa na contra-corrente da verdade cínica, da verdade abusiva, da pós-verdade que reluz como ouro.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

FALA ÁFRICA... MACVILDO PEDRO BONDE

Entre o juízo estético e empírico: é ainda possível pensar poesia hoje?
 “Mestre das horas invulgares, companheiro do crepúsculo sedento contra os agiotas da palavra, que pecado original nos espreita quando se perde a inspiração do poema genial? Os aedos da televisão sujam a praça de loucos, palco onde os transeuntes procuram o mel. A glória, a dádiva, perdem o fulgor de outros carnavais, choram na retina desarmada o bolo prometido em tempos de fome. Mestres! A solidão é um prato vazio recheado de talheres ocos para o alimento que foge do calor. Ou é apenas um lugar esparso no coração do homem?” In: Ensaios Poéticos, 2017, M. P. Bonde

Fazer uma comunicação em volta das artes é sempre um enorme desafio. Como iniciar o texto? Que elementos trago comigo, para afirmar que a poesia não é pensada nos dias de hoje, conhecido como pós-modernidade? Os valores que conhecemos sobre determinadas coisas, estão hoje confinados a certos arquétipos académicos, e podem não responder às massas que são intoxicadas por novas formas de olhar o mundo.

Mais, do que respostas venho carregado de interrogações visto que no dizer de Rimbaud “O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos”. Como ser vidente numa sociedade que olha de esguelha para o poeta, pela forma como se apresenta?

O neoliberalismo e a pós-modernidade empurram-nos para o grutesco, onde aplaude-se a mediocridade sem pudor. Como argumenta Nietzche sobre a arte “o mundo criado pela arte é uma aparência ou uma ilusão que, contudo, não nega a realidade, não a desvaloriza, não a submete a juízos morais, mas unicamente transfigura a matéria sensível, colocando o mundo para lá do bem e do mal”. É sobre a submissão de juízos que pretendemos neste breve encontro reflectir.

Penso que o poeta será sempre o farol com o qual uma sociedade se espelha para a construção dos seus sonhos. Neste sentido, a poesia deve constituir o alicerce para a construção social e elevação de valores.

O juízo estético cria múltiplas acepções. Um dos pensadores mais discutidos sobre o tema é Emmanuel Kant Para o filósofo, o juízo estético: “é a forma de comunicarmos em palavras e conceitos um sentimento: o sentimento da beleza. O juízo estético exprime o que acontece quando temos uma experiência estética, ou seja, traduz um sentimento que experimentamos ou vivemos ao contemplar um objecto”(Kant, 1995)[2]. Quer dizer, o juízo estético reflecte a nossa visão sobre o mundo a partir da arte que produzimos. Ele traduz um sentimento, que pode ser visto como a representação da nossa experiência como artista, no caso vertente, o poeta. Kant é de opinião que o juízo estético é universal.

Entretanto, em Schopenhauer, afirma que o conhecimento estético é objectivo, pois dado por meio da objectivação das ideias, mas que parte de um sujeito cognoscente “puro”, por isso despido de qualquer referência a objectos que se relacionam entre si no domínio do conhecimento científico e do senso comum, por meio das modalidades do princípio de razão. Trata-se, pois, de uma representação de tipo especial, um sujeito puro que se refere a um objecto também “puro”, isto é, destacado quer das cadeias causais das representações intuitivas, quer das cadeias dedutivas das representações abstractas. A este sujeito é atribuída a qualidade de génio, pelo tipo especial de conhecimento que propicia, através da ideia estética que realiza a fusão sujeito e objecto, só possível no caso da ausência da mediação pelo princípio de razão. (Cacciola, 2012:33). A poesia tem esse mérito de transcender a razão e cruzar saberes.

Pode ser que a forma mais simples de definir o juízo estético seja de Martindale (2000), que resume em pura contemplação, não possui interesse ou desejo, não quer atribuir um conceito fixo, é um juízo livre na sua essência; são verdadeiros juízos individuais. 

Chegados a este ponto, podemos concluir que juízo estético pode ser a representação dessa inquietação a partir da arte que produz o belo. Os objectos criados pelo processo criativo reflectem uma determinada realidade em função de um contexto, o sentimento do artista.

Sobre este ponto, Lukács (1978), defende que a arte tem o poder de realizar uma leitura correcta do contexto social e ter uma apreciação exacta do momento presente. Ela deve estar centrada na busca incessante de estar ligado à vida quotidiana e buscar suas maiores conquistas e transformações, afinal, é para o quotidiano que se vive.

De que quotidiano devemos falar? Os meios de comunicação cultivam diariamente a mediocridade? A violência entra nas nossas casas sem pedir licença. Os artistas convidados às luzes da ribalta brindam-nos com o sexismo do século XXI e o conteúdo deixado no porta-bagagens do automóvel.

A poesia nos dias de hoje

Se Baumann defendeu que “vivemos tempos líquidos” em função da falta de alicerce entre os homens, a poesia neste momento vive de os choques constantes, porque as editoras não editam e os leitores tem outras prioridades, típicas de uma sociedade de consumo e sem capacidade de reflexão sobre os seus hábitos e atitudes.

Tive a sorte de fazer parte do colectivo Arrabenta Xitokhozelo onde divulgamos Literatura, e a poesia em particular, de qualidade independentemente da sua corrente ou época. Os nossos eventos estavam as mesmas pessoas. Os amigos e amantes das artes e letras que encontrávamos nas artérias da cidade defendiam a sua continuidade dada a qualidade do projecto mas, muitos deles não apareciam aos eventos.

Como conviver com esse contra-senso? Os meios de comunicação abriram espaços de divulgação de artes e cultura e muitos jovens aproveitaram e tem aproveitado esses meios para promover os seus textos. Que conhecimento estético tem os dinamizadores desses programas? Que critérios utilizam para convidar os protagonistas? Como a poesia poderá sobreviver, se a mediocridade dos textos é vendida a escala nacional?

A respeito da sociedade de consumo em que estamos envolvidos, Rahde (2007), defende que a pós-modernidade, sem dúvida, vem trazendo maior liberdade, maiores possibilidades de argumentações, se formos educados a questionar para obtermos compreensão maior da complexidade que nos cerca, sem os padrões e regras rígidas que regiam alguns aspectos da arte na modernidade, com a qual ainda convivemos. É preciso, portanto, conviver e melhor aceitar estas contradições que nos cercam.

No entanto, não temos capacidade ou vontade de questionar. A verdade é ofertada a partir de programas televisivos, redes sociais, programas radiofónicos. Tudo o que passa nesses meios constitui verdade para as massas. Daí que o poeta deve ser sempre esse elemento que interroga, prevê novas formas de olhar o mundo a sua volta, projecta caminhos. Como refere Vasquez (1999), dissolveram-se cânones de reflexões estéticas sobre a beleza, uma das categorias da estética, e novas categorias passaram a fazer parte do pensamento estético, a ironia e o grotesco passam a ter novos significados.

A poesia sob influência do neoliberalismo e da pós-modernidade como algo menor, frustrando o meu conceito de belo absorvido em Kant, Pessoa, Baudelaire, Rimbaud, Rilke, Herberto Hélder, Knopfli, Patraquim ou White. Contudo, existe uma geração de jovens como Sangari Okapi, Mbate Pedro, Chagas Leve, Leo Cote, Andes Chivangue, Álvaro Taruma, que continua essa dura luta pela sobrevivência, dado que a poesia, hoje, ganha valores derivados da alteração dos cânones que acreditamos no passado. Temos de sobreviver para que a nossa visão do juízo estético acoplado a experiência possa se reinventar. A poesia representa um espaço de emancipação da sociedade[3]. Como argumenta Rahde, (2007), se ainda pudermos cultivar uma harmonia estética interior, ela poderá, sem sombra de dúvida, levar-nos à apropriação de uma percepção maior do mundo, num processo de reconhecimento, de compreensão e de interpretação. É por essa razão que acreditamos ser absolutamente necessário o desenvolvimento harmónico interior do ser humano e da percepção de si mesmo.

Termino com uma opinião de Walter Benjamin: “o que faz com que uma coisa seja autêntica é tudo o que ela contém de originariamente transmissível, desde sua duração material até seu poder de testemunho histórico” (Figueiredo & Oliveira, 2005).

Bibliografia CACCIOLA, Maria Lúcia. Sobre o génio na estética de Schopenhauer. In: ethic@ – Florianópolis, v. 11, n. 2, p. 31 – 42, Julho de 2012.
LUKÁCS, George. Introdução à estética marxista. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1978 KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
MARTINDALE Colin. Estética e cognição. In FRÓIS, João Pedro. Educação Estética e Artística: abordagens transdisciplinares. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000. RAHDE, Maria Beatriz Furtado. DALPIZZOLO, Jaqueline. Considerações sobre uma estética contemporânea. In: Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação. e-compos, Abril de 2007 - 2/16
VASQUEZ, Adolfo Sanchéz. Convite à estética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
[1]Comunicação apresentada no debate sobre as artes e literatura, no âmbito da divulgação dos livros editados pela editora Cavalo do Mar.
[2] KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
[3] Como no passado (a luta pela autodeterminação e a poesia de combate, ou no pós-independência com o conflito dos 16 anos), a poesia pode ser o lugar onde o poeta torna-se vidente, mostrando os caminhos para a construção social do cidadão.




quarta-feira, 23 de agosto de 2017

EU FALO DE... O BURRO QUE SOU E O BURRO QUE NÃO SOU

Sobre o colecção Status Quo, que coordenei a pedido da Edições Vieira da Silva, e na sequência do que deixei em suspenso no primeiro texto que escrevi, tenho algumas coisitas para dizer.

Reitero a minha satisfação por ter conseguido levar a bom porto esta tarefa que me foi entregue e reafirmo o meu contentamento pela confiança que em mim depositaram - tanto a editora como os autores.

No entanto, tal como escrevi então, este projecto acabou por revelar-se agridoce porque nem tudo correu bem e, tal como fiz na altura junto dos autores, assumo as minhas responsabilidades por inteiro e dou a cara por todos os erros, mesmo os cometidos por terceiros.

O meu maior erro, e que servirá de aprendizagem para futuros projectos, foi não ter acompanhado mais em detalhe cada passo, após o envio do material para a editora. Errei ao esperar que as falhas, que entretanto ia detectando, fossem resolvidas e, acima de tudo, assumidas por quem as cometeu. O meu erro foi pensar que todos os envolvidos se dedicariam a este projecto com a mesma paixão e entusiasmo que eu e os autores. Isso não voltará a acontecer. Não voltarei a cometer esse erro.

Quando falo em terceiros, não estou a referir-me aos responsáveis da editora que, gabo-lhes a paciência, tiveram de ouvir-me protestar constantemente. Quando falo de terceiros, estou a referir-me a uma equipa de paginadores que, durante todo o tempo, demonstrou poucas qualidades para além de incompetência. E, não tenho problema algum em afirmar, sofrem de uma liderança bacoca, sem sentido de responsabilidade e tremenda falta de brio profissional.

Mais grave ainda, para mal do "líder", que teve a ousadia de querer falar comigo pessoalmente - como se eu me intimidasse por falar com chefias - foi ter tentado mandar-me areia para os olhos como se, a minha parca formação e escassos conhecimentos informáticos, fizessem de mim um retardado que come gato por lebre.

Sim, sou um burro a nível de informática... mas não sou burro o suficiente para acreditar que alterar o suporte digital de um ficheiro altera todo o ficheiro a ponto de mudar os textos de sítio. Quanto muito, digo eu que sou o burro informático, os últimos versos de um poema ficam juntos ao título do poema seguinte. Mudar o suporte de um ficheiro não altera a ordem dos poemas nem repete poemas.

Sim, sou um burro a nível informático... mas não sou burro suficiente para deixar que um "líder" incompetente defenda a incompetência da sua equipa que, vai-se lá saber por que razões, decidiram alterar as estruturas do ficheiro e colocar, ao contrário do original, poemas de dupla página na mesma folha.

Sim, sou um burro a nível informático... mas não sou burro suficiente para não detectar erros tão grosseiros e deixar passar em claro, sem reclamar.

E tudo isto aconteceu a propósito dos três primeiros volumes da colecção. E tudo o que escrevi nos três parágrafos anteriores foi o que eu disse ao "líder" da paginação, na presença dos responsáveis da editora. E disse também que, se voltasse a receber os ficheiros pdf naquelas condições, não me custaria absolutamente nada voltar a falar com os autores, que convidei para a colecção, pedir-lhes desculpa por os ter feito perder tempo com este projecto e, simplesmente, cancelar tudo.

Acto contínuo a esta minha postura: não voltei, sequer, a receber os ficheiros finais, que foram enviados directamente aos autores restantes, sem passar pelo meu crivo. Consequência disto: na altura da Feira do Livro de Lisboa, uma das autoras ficou desolada com o resultado final do seu livro, completamente diferente do que havia ficado estipulado entre mim e ela.

Por muito que os editores não tenham culpa directa no sucedido, eu não podia deixar de lhes apontar o dedo por terem deixado de me enviar os ficheiros para aprovação e compactuarem com a incompetência da equipa de paginadores.

Mas para grandes males, grandes remédios e o ficheiro desse livro foi reformatado e reenviado para impressão correcta.

Sim, estou tremendamente orgulhoso do resultado final da colecção Status Quo. Foram muitas horas de dedicação, de contacto com os autores, de revisão aos textos, de negociação com alguns autores para se chegar ao melhor livro possível, de fazer ponte entre autores e editora, de acompanhar o processo (enquanto me foi permitido), de defender os interesses dos autores junto da editora.

Não, não fiquei completamente satisfeito porque foram muitas horas desperdiçadas a remendar incompetências, muitas horas a rever trabalhos de paginação mal executados, foram muitas horas de conversa desnecessária quando tudo poderia ter sido feito com tranquilidade e em muito menos tempo. Não posso ficar completamente satisfeito quando o objectivo de ter toda a colecção pronta a tempo da Feira do Livro de Lisboa foi por água abaixo porque, vai-se lá saber as razões, uma equipa de paginação decidiu fazer um trabalho de auto-recriação e mais não fez que demonstrar aptidões de incompetência.

No fim de tudo isto, sobra-me a confiança dos editores e dos autores e a experiência. No futuro outras experiências me esperarão, certamente.

MANU DIXIT