segunda-feira, 31 de julho de 2017

EU FALO DE... NOVIDADES TOCA A ESCREVER


Durante os últimos meses tenho escrito alguns textos sobre a evolução do projecto resultante da parceria entre o TOCA A ESCREVER, de Portugal, e a IN-FINITA, do Brasil.

Aumentou-se o alcance com a criação de páginas no Facebook, Instagram e Twitter. Adicionou-se a página IN-FINITA (já existente) e acrescentou-se uma maior utilização do blogue TOCA A FALAR DISSO para dar espaço de divulgação a outros géneros literários, que não poesia, e reforçar a vertente de discussão, que sempre foi a ideia central deste blogue, com textos de opinião de vários elementos do universo literário lusófono.

Para que tudo isto funcionasse da melhor forma reforçou-se a equipa e criaram-se departamentos. Esse incremento humano resultou numa maior exposição de todo o projecto e a adesão dos autores foi quase imediata provocando a necessidade de modificar alguns aspectos do projecto.

É sobre uma dessas alterações de fundo que escreverei hoje.

Quase todos já conhecem a história do TOCA A ESCREVER. Um blogue que nasceu no dia 1 de Janeiro de 2010 com o propósito de divulgar poesia lusófona, começando a publicar um poema por dia. No dia do seu sétimo aniversário (1 Janeiro 2017) passaram a publicar-se dois poemas diários. No entanto, a tal adesão, que falei anteriormente, com a chegada de livros de muitos autores, obrigou a nova reformulação e, a partir de amanhã, dia 1 de Agosto de 2017, passaremos a publicar três poemas diários.

Não tem sido fácil gerir este fluxo de interessados e prestar um serviço de qualidade em prol dos autores lusófonos mas, dentro das nossas capacidades e possibilidades, estamos a fazer o melhor que nos é possível.

Tendo em conta que este projecto nasceu, e se manterá, gratuito no serviço que presta, e para que tudo se processe dentro da máxima transparência e seriedade, não abdicaremos de algumas regras básicas, mas essenciais, para que todos possam beneficiar.

O blogue transformou-se em projecto e o seu contínuo crescimento também tem exigido um aumento de dedicação e muitas horas de trabalho, que nunca será recompensado, para além da satisfação de o executar.

Continuamos de portas abertas para todos os autores e editoras que queiram juntar-se a nós, mesmo que tenhamos de voltar a alargar o número de publicações diárias.

Quem corre por gosto não cansa e, apesar de alguns contratempos e forças de bloqueio, não deixaremos de prestar este serviço, em nome da divulgação da literatura lusófona.

MANU DIXIT

domingo, 30 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... TACIANA VALENÇA


Sentiu agonia. Garganta seca. O suor escorria pela testa. Ainda apoiado ao travesseiro pegou o copo. Virou a quartinha. Nada. Vazia. A Mercês já fora mais atenta às suas necessidades. Olhou para ela. A boca bem desenhada, entreaberta, respiração profunda, um descaso para a vida. Não tendo coragem de acordá-la desceu as escadas a contragosto, resmungando aos quatro cantos sobre o inusitado incômodo. Agora só pensava em roupas e jóias.
A cozinha parecia menor do que se lembrava. Serviu-se e deixou-se cair numa cadeira. Olhou à sua volta. Está aí uma parte da casa da qual não se lembrava. Ficou por um bom tempo recordando os dias naquele engenho. Os bolos e biscoitos que Naná fazia para ele quando criança e que tanto gostava. Sempre ao final da tarde segurava-o pelas mãos carregando-o para a cozinha a fim de fazer uma grande farra gastronômica. Ele, depois de muito brincar e com fome de leão ia feliz - por um instante pareceu ouvir o simbora homem -, dito com voz firme e melodiosa. Metia a mão na massa, lambia os dedos dela e dele numa brincadeira cujo gosto nem de longe se comparava ao produto final. Depois de lamber todo o tacho da massa corria para o banho e quando descia a mesa estava posta. Bolo fumegando, queijo, leite. Ah. Isso era incrível. Seus olhos de mel o conduziam fácil fácil e assim também tomava as lições com toda liberdade, já que o pai permitia que estudasse, pois fazia parte da família.
Após a morte do seu pai herdara o engenho com tudo e todos. Sua mãe o deixara ainda criança, vítima de uma tuberculose. Com isso a Naná o criara com todos os mimos. Na verdade era quase uma irmã mais velha, na flor dos seus 20 anos. Traços indígenas, pele macia, cabelos deslizando sobre os ombros, sorriso de fonte a desaguar. A mãe dela havia servido muitos anos à família, uma criada fiel e dedicada, mas com saúde debilitada se foi, deixando a pequena Naná aos cuidados da sua mãe. Ambos órfãos de mãe, ela amadurecera cedo demais por conta da responsabilidade que pesara sobre os ombros, a principal era cuidar dele, pois seu pai não parava, sempre dando as ordens pelo engenho, pulso de ferro. Durante uma cavalgada,um tombo. Jamais voltou a ver seu pai. Restara um ao outro e todos os afazeres do engenho que ela cuidou até que completasse a maioridade. Mostrou-se então uma mulher de luta, cuidando dos empregados e propriedade ao mesmo tempo em que passava tudo para ele.
Os anos seguiram e já formado ele então assumiu tudo que aprendera, deixando para ela os serviços de casa e os empregados. Foi então que resolveu casar com a filha do melhor amigo do pai. Moça bonita, prendada e quieta. Estava na hora. Mercê assumira em parte a organização da casa e Naná já não aparecia, deixando para outros criados os serviços braçais, ficando apenas na administração da mesma e dos empregados do engenho. Ela mudara desde seu casamento e ele nunca soube o porquê.
Aos cinqüenta anos ela manda as ordens vencendo as rabissacas de Mercês que assumiu enfim seu descomando. Eles jamais se viam, já que todas as contas e relatórios, feitos com uma precisão de mestre, eram entregues a ele pelo seu secretário, que, diga-se de passagem, era encantado com ela. Ela não parecia tão mais velha que ele, ao contrário, parecia mais nova que sua esposa. Vê-lo casar foi extremamente triste, apesar de permanecerem na mesma casa.

Suas mãos deslizaram nos cabelos daquele menino-irmão, ajeitando o paletó. Parecia vê-lo ir para a forca. Adoeceu durante dias, sumida dentro dos lençóis.
Voltou a si quando percebeu o sol entrar pela fresta da janela. Havia passado o resto da madrugada no passado, na cozinha, junto aos que perdera um dia. O sono se foi com a Lua. Abriu a janela da sala e recebeu a brisa d’uma manhã com sabor de saudade.
Cantarolando Naná entrou na sala agarrada ao seu livro de contas tomando um susto quando o viu ali, de janela aberta parecendo sonâmbulo. Sentindo a presença de alguém ele se virou. Uma sensação estranha o tomou. Reconheceria aqueles olhos em qualquer tempo. Os anos não passaram para ela. O mesmo ar brejeiro, olhar vivo. Algumas mulheres são assim, não precisam de adornos. Talvez ela tivesse mesmo sangue indígena. Ele sim, aos 41 anos estava muito abatido tentando dar conta das exigências da mulher que, por não ter filhos, aporrinhava-o em busca de novidades da cidade grande para comprar. Ela olhou desconfiada, mas de repente pareceu também voltar no tempo e ver aquele meio-irmão que durante anos sentiu falta. Algo a fez correr para seus braços sem pensar. Ele então a abraçou percebendo que também sentira falta dela durante esses anos, dos cuidados, do carinho, da voz. Ela não mudara quase nada. Enfim confessou que havia descido para tomar água e que havia se lembrado dos lanches na cozinha. Ah, como também sentia saudades, disse ela. Agarrou então suas mãos e, sendo ainda muito cedo, correu puxando-o para a cozinha. Faremos um bolo! Tomado de surpresa ele riu com sua vivacidade. A mesma Naná de sempre. Correu a buscar os ovos, trigo açúcar. Vamos, me ajude homem! Há muito não se sentia assim. Correu a ajudá-la.
A colher de pau escorregava da sua mão e com seu sorriso de luz ela o ajudava a mexer. Vestido acinturado, ancas perfeitas. Deus, ela é quase minha irmã. Atrás dela ele já não pensava no bolo. Naná sentia o calor das suas pernas. Mexiam a massa. Mexiam, mexiam, mexiam. Sentiu saudades dele, não mais do menino. Virou-se disfarçando o nervosismo. Hora de provar a massa. Dedos melados recordavam a brincadeira. Línguas seguiam os caminhos da massa. Forno aceso aguardava. Escorria então pelo decote onde ele buscava desesperadamente os anos que deixara passar. Bocas, dedos, forno quente... Nas madrugadas se seguiram as receitas, ambos felizes inventavam deslizes. Mercês, cheia, de dinheiro, viajava em suas compras.

Taciana Valença

Mini-Biografia:
Taciana Valença Administradora (Universidade Federal de Pernambuco), escritora, produtora cultural, editora da Revista Perto de Casa (Recife/PE/Brasil) e Diretora Social da União Brasileira de Escritores.


sábado, 29 de julho de 2017

EU FALO DE... LIVRO DO SONHO, DA SAUDADE E DA DESILUSÃO

Antes de qualquer outra consideração, direi que não foi sem surpresa que, em Maio, recebi uma mensagem privada da autora Goreti Dias a perguntar sobre as condições de participação no blogue TOCA A ESCREVER. Acompanho há alguns anos, tal como faço com muitos outros autores, a escrita desta autora no site Escritartes e sei do impacto que os seus poemas têm em muitas pessoas. Por isso, foi com agrado que encarei o interesse desta autora em ver o seu trabalho divulgado no meu blogue. E digo no meu blogue porque, aquando deste contacto, ainda não era pública a eminente parceria TOCA A ESCREVER/IN-FINITA e o respectivo alargamento das plataformas de divulgação que hoje, e cada dia mais, estão a consolidar-se.

Inteirada das condições, a autora manifestou interesse em ver dois dos seus livros serem divulgados. Um deles é este LIVRO DO SONHO, DA SAUDADE E DA DESILUSÃO, cuja divulgação decorrerá até Outubro.

Como disse, acompanho a escrita de Goreti Dias há algum tempo e, mesmo nunca tendo ocasião de ler os seus livros anteriores, sabia de antemão o cuidado que empresta aos textos que cria e, sabia também, estar na presença de alguém com método e disciplina muito específicos; o que pude atestar na conversa, via chat, que mantive com a autora.

Sei da sua predilecção pelas temáticas associadas ao amor e daí não estranhar este seu trabalho. No entanto, seria injusto não referir que, LIVRO DO SONHO, DA SAUDADE E DA DESILUSÃO, é mais que um livro de poesia, baseado nas vertentes do amor; é também uma construção lúcida, com princípio, meio e fim, com todos os elementos edificados de forma pensada, madura e, acima de tudo, trabalhada.

Este livro acaba por se transformar numa viagem, aos sentimentos de todos nós, que nos obriga a ponderar sobre cada uma das sensações com que nos deparamos, em questões amorosas, ao longo da vida. Mas, não se entenda o que acabei de expressar como sendo mais do mesmo, isto é, este livro aborda uma temática exaustivamente usada, no entanto, serve de prova que, por muito que já se tenha escrito sobre o amor e tudo o que lhe é inerente, há sempre algo a acrescentar, mais não seja, pela forma como se produz essa abordagem.

O discurso simples, que não simplista, empregue pela autora neste seu trabalho, acaba por marcar a diferença, pelo menos no que à sua produção criativa diz respeito e, não creio estar incorrecto nesta análise, demonstra que é possível escrever sobre amor sem recorrer aos lugares comuns nem aos populismos; tão em moda nos autores actuais.

Recomendo vivamente este LIVRO DO SONHO, DA SAUDADE E DA DESILUSÃO, de Goreti Dias. Boas leituras.

MANU DIXIT

sexta-feira, 28 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK


Inspiração e Transpiração – a árdua tarefa da criação de um livro

Ainda me lembro menina, de joelhos ralados, com uma dor no corpo e na alma, escrevendo confidências no meu diário.

E aquelas páginas foram ganhando forma, vida, sentimentos e seguiram-me, por todos os caminhos da vida. A grafia irregular, foi ganhando firmeza, as palavras tímidas, aflorando e quando percebi, as confidências e desabafos, com o passar do tempo, que vai deixando perfumes e marcas, transformaram-se em crônicas, contos, poemas. 

Houve um grande intervalo, em que as palavras calaram. Depois foram utilizadas para trabalho, na obrigação de escrever, apesar do prazer, não podia deixar correr livre e as horas eram escassas para mergulhar intensamente no meu universo particular.

Depois veio o período de transbordamento, escrevia no ônibus, em pé no balcão de uma padaria, no parque, na rua, em qualquer lugar, as palavras me dominavam, invadia, perturbavam para sair e seguir por aí. E nos últimos vinte anos, me revesti de prosa poética e me envolvi com a poesia.

Chego até aqui para mostrar a longa trajetória de vida, da minha escrita. O tempo rasgou papéis, apagou arquivos, recriou frases. Passaram-se 37 anos desde aquele dia, de lágrimas e joelhos ensanguentados até esse momento, do agora, de enviar para a editora o meu primeiro livro.

Foram muitas as tentativas em reunir todas aquelas páginas em um único lugar. Inúmeras situações adiaram esse momento. E agora quase que empurrada pela vida, com o apoio de pessoas muito especiais, aquelas, que nos lêem com e sem palavras, rompi com as amarras que me prendiam e me faziam recuar e soltei o meu livro para ser editado.

A inspiração transformou-se em transpiração.

Que tarefa difícil assumir esse papel de concepção, de construção, de criação, de revisão. Alguns meses lendo, relendo, corrigindo, e sempre encontrando falhas, vírgulas fora do lugar, espaços a mais, letras engolidas, erros... Algumas semanas e dias intensos consumiram meu sono e da designer, mudando a diagramação, tirando esse ou aquele poema que não coube na página, recebendo as correções.

E a página de agradecimento? Acho que foi a mais difícil de todas, como expressar toda a gratidão por todos que fizeram parte dessa construção de minhas palavras e sentir.

E transpirando... Comecei a pesquisa por editoras  que se adequassem ao meu orçamento, mas as exigências de ambas as partes não entravam em sintonia, e o suor escorria por entre as palavras. Quase adiei por mais alguns anos, achando que não estava ainda preparada para essa tarefa de realizar com perfeição, inerente aos fatores que nos envolve.

Em uma manhã pálida e desanimada, ouvi novamente aquela voz: “Vem, chegou a hora”. E fui. De volta para aquele café, em uma cidade distante de mim agora, há dois anos. Voltei no tempo. Cheguei naquele exato momento em que conversávamos sobre sonhos... Uma amiga caminhando para tornar-se editora e eu, desejando o meu livro. Ali foi o ponto de partida.

Disse sim! Com a cara e a coragem, respirei fundo, e enviei o arquivo. E o dia se iluminou. Que preenchimento de alma, e sensação de libertação, ao deixar que esse quase filho, siga pela vida... Tocando outros corações.

Olho para trás, passaram-se vinte anos.

Vinte anos. Para esperar a minha filha crescer e fazer o projeto gráfico e capa. Para o meu parceiro de projetos, registrar no prefácio com perfeição, o que está intrínseco em cada página. E a amiga-editora, que nunca desistiu, do além do seu e do meu sonho, e por tanto tempo, repetiu “Vem...”

Embalada pela melodia de Tom Jobim, (o mestre que me perdoe), mas tem que ser no plural...

"É, só tinha de ser com vocês
Havia de ser prá vocês
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor..."

O livro In-Finita é isso, o meu inspirar e transpirar em todas as formas, de sentir, ser, buscar, compreender, lutar, conquistar, viver a palavra... Amor.

E também um convite: jamais desista de um sonho. Vale a pena esperar por ele.

DRIKKA INQUIT

quinta-feira, 27 de julho de 2017

EU FALO DE... A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR


Muito tenho falado da divulgação que faço nos meus blogues e da recente parceria, que tem aumentado a visibilidade e o interesse no projecto TOCA A ESCREVER/IN-FINITA.

Tenho feito, talvez com menor regularidade do que seria justo, alguns agradecimentos, tanto aos autores que colaboram, como às editoras que patrocinam (Editora UniVersus, Edições OZ, Edições Vieira da Silva, Chiado Editora) no entanto há mais gente envolvida e cujo contributo tem sido essencial no crescimento que temos tido.

Também tenho agradecido aos que ultimamente têm colaborado no projecto, desde o início da parceria TOCA A ESCREVER/IN-FINITA, Adriana Mayrink (In-finita, correspondente de autores brasileiros), Julia Mayrinck (In-finita, arte e design) e José Manuel Martins Pedro (correspondente de autores africanos).

E como me prezo, não só da boca para fora, mas também por actos, de prestar o devido reconhecimento a quem o merece, chegou a hora de dar a César o que é de César e alargar o meu agradecimento a todos aqueles que, de forma altruísta e com plena aceitação, permitem que utilize os seus espaços com este propósito de divulgar a lusofonia; falo dos responsáveis/administradores dos diversos grupos de Facebook, onde partilho os textos lusófonos, que, com toda a justiça, passo a mencionar:

MARIA ISABEL RODRIGUES - grupos - Amantes da Poesia; Amigos que gostam de Amantes da Poesia

JOSÉ AFONSO - grupo - Amigos da Poesia

ANA PORTUGAL - grupo - Bloga-me que eu adoro

MARIA JOSÉ LACERDA - grupo - UniVersus dos livros

DANIEL BRAGA - grupo - Leituras e poetas da lusofonia

LUÍS MIGUEL RICARDO - grupo - Leitores em rede

CAROLINE OLIVEIRA - grupo - Eu leio de tudo (projecto author)

ARLETE PIEDADE - grupo - Poetas de todo o mundo

ISIDRO SOUSA - grupos - Letras Lusófonas - Autores Lusófonos - Autores Luso-brasileiros - Poesia Luso-brasileira

MARCO BARRANCOS - grupo - Outros Autores

PEDRO NOBRE – grupo – Ao Encontro da Poesia

MARIA GOMES - grupo - Palavra Cantada

MARIA EUGÉNIA PONTE - grupo - AlenCriativos

ANA COELHO - grupo - Livro Aberto-Rádio Voz de Alenquer

CIDÁLIA VENTURA - grupo - Poiesis

e também ao grupo Poesia do mundo - que não tem administradores e/ou moderadores.

Existem ainda outros, onde esporadicamente divulgo poemas de autores cujos livros pertencem às chancelas ligadas a esses grupos. Não seria ético da minha parte ocupar esses espaços com uma divulgação mais generalizada, sem as devidas autorizações.

Seja como for e porque já devia este reconhecimento público, aqui deixo expresso o meu agradecimento a todas estas pessoas que também têm a sua quota de responsabilidade no crescimento do projecto TOCA A ESCREVER/IN-FINITA. Bem-hajam.

E uma vez mais, deixo a porta aberta a todos aqueles que queiram colaborar no projecto, sejam autores, editores, divulgadores, promotores e organizadores de eventos, livreiros e responsáveis/administradores de outros grupos que se disponibilizem para ajudar na divulgação dos autores lusófonos.


MANU DIXIT

quarta-feira, 26 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO

Sebos: a resistência com todas as letras

A livraria no Brasil, de uma forma geral, é hoje uma boutique de livros. Lembrando a ironia tão peculiar de Nelson Rodrigues, que tão bem dizia que “toda unanimidade é burra”, esta é uma constatação, de fato, quase unânime. Claro, sem ofender às boas livrarias que resistem bravamente à avalanche das novidades, cada vez que entro em certas duas ou três livrarias de shopping e olho aquelas mesas-vitrines com aquela quantidade enorme de livros que já foram vendidos aos milhões mundo afora, sou convidada a sentir certa náusea.
Não vejo diferença entre esse tipo de estabelecimento e a sapataria do andar de baixo. O sujeito olha, sente aquele já conhecido comichão do consumo e acaba levando para casa o mais recente título, sem que isso faça muito sentido pra ele. “É o último lançamento, você não pode perder essa oportunidade de colocar na sua estante”. E o sujeito, mais consumidor que leitor, mais colecionador que leitor, compra mais um para não ler, ou para ler enviesado, achando inclusive que se perder aquele título ficará out do “mercado fresco dos livros contemporâneos”, formado por celebridades editoriais, youtubers, apresentadores de TV, atletas… Afinal, não é mais necessário saber escrever para lançar livros.
O que nos resta para além das livrarias e do consumo sem freios? O que resta para os que não têm acesso a esse consumo? Bibliotecas? Como formar o leitor que não participa desta festa do consumo, no tempo em que se fecham boas bibliotecas e não há investimentos nas escolas públicas?
Sei, à flor da pele, que nas escolas públicas, pelo menos, naquelas onde estudei e trabalhei, biblioteca sempre foi um depósito de livros didáticos desatualizados, vigiados por professores afastados de suas salas de aulas, provavelmente por problemas de ordem mental e emocional.
E a internet? Tem porcaria, é claro, mas tem também muita gente boa no desconhecimento parcial ou total. Dá uma alegria ao entrar em blogs e sites e ler gente escrevendo bem por aí. Então, viva a sinestesia e o café, que nos mantêm firmes e alertas! Viva a capacidade de alcance transversal do ciberespaço, que não nos deixa mais isolados na morte – quase literal – do autor.
Mas voltando ao fio dessa meada e às livrarias, gostaria de exaltar a existência e a persistência dos sebos. Aquele lugar aonde os verdadeiros viciados em livros não se cansam de ir, mesmo que o nariz fique todo esfolado de tanta renite. Ah, um viva imenso aos sebos! Deveríamos abraçar coletivamente os sebos assim como fazemos com árvores e lagoas. Faria um bem danado à natureza humana, tão saturada de clichês. A cidade agradeceria e as crianças, sedentas por leitura, também.
Vou parar de escrever para aplaudir agora mesmo – de pé – o bom e velho sebo com seus bons e velhos clássicos, verdadeiras adegas centenárias de literaturas finíssimas, como Camões, Dante, Dostoiévski e tantos mais, assim como os brasileiros de ótima safra, Machado, Guimarães Rosa, Lima Barreto, Sousândrade, Manuel Bandeira, além do tanto de literatura infanto-juvenil que encontramos no caminho.
Eu sou realmente um bicho de sebo. Sempre me perco e me encontro na minha garimpagem particular por iguarias de letras pequenas e consumo difícil. Os da Tiradentes e do Catete são ótimos. Sou capaz de tirar a fórceps um velho exemplar de Graciliano Ramos ou José Lins do Rego entre um amontoado de tesouros. Como pirata ou fantasma, escavo títulos e me confundo com velhas assombrações. Mergulho no absurdo em direção oposta. E saio de lá sempre confortada.
Precisamos levar as crianças aos velhos relicários do mundo da leitura, antes que o último deles encerre nossas buscas por preciosidades. E torcer para que novos tempos e novas oportunidades de leitura surjam nas tantas imprevisibilidades do cotidiano.
Patrícia Porto
mini-Biografia: Patricia Porto


Graduada em Literaturas Brasileira e Portuguesa, Doutora em Políticas Públicas e Educação, professora e poeta, publicou a obra acadêmica "Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura” e os livros de poesia "Sobre Pétalas e Preces" e "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos". Participou, ainda, de coletâneas no Brasil e no exterior, integra o coletivo Mulherio das Letras e é colaboradora do portal da ANF (Agência de Notícias das Favelas).

terça-feira, 25 de julho de 2017

FALA ÁFRICA - MACVILDO PEDRO BONDE

MOMENTO CULTURAL
Ao Luís Carlos Patraquim, Maputo, 13 de Julho de 2017
Entrei sala a dentro e as cadeiras reclamavam a aclamação de quem transporta entre os alvéolos a poética. Dos meus passos tremidos sacrifiquei os ruídos do silêncio para não despertar a malta que escutava as palavras embargadas do dono de Ualalapi. Lancei meus olhares aos assentos para acomodar meus ossos. Tropecei na varanda onde as amizades constroem sonhos diante da margem, onde o verso e a prosa se cruzam.
O sítio continuava com algumas clareiras porque a cidade anda entre homenagens e lançamentos. Parece que o “demónio” do nosso tempo não estava presente “ali” para marcar o seu território nas prateleiras que estendem a sua vasta produção. Khossa na sua parcimónia sangrava episódios de outros carnavais.
Entre conversas e expectativas chegou o momento “cultural”. O trovador junto a seus acólitos cantou na simplicidade do acto a trajectória de um Luís que se metaforiza ao sabor do vinho. Chamo à fala o dono da Rabhia. Que momento é este? Rimos porque já andamos a ouvir, algures, estas sandices.
Do Xipamanine às memórias da urbe, estão as acácias em flor. Os sorrisos fazem-se presentes e esquecemos o episódio ao sabor do discípulo do velho A. Machavele. Meus olhos não deixam de fitar o Luís. Ali estava o poeta calçando os óculos, a idade já a pesar na armadura dos dissabores.
Como cantou o declamador afamado da pérola do índico “morrer é viver, viver é morrer”. Enquanto destilava suas memórias, os papéis iam a conta-gotas assinalando a hora do mestre. Andarilho do mundo, preso às suas convicções, caixeiro-viajante ou viageiro entre os hemisférios, pousou sua boca no microfone como quem abraça os gelados da infância.
Com a erudição que atravessa a língua declara que toda a poesia é de circunstância. A plateia ávida deixa-se embalar pelo ensejo. Com a peculiaridade com que sorve o papel evidencia que as coisas surgem por acaso. Agarrado ao meu telemóvel, rio comigo porque ando aos alaridos na busca desse elixir que me escapa entre os dedos.
Quando dei por mim, a sala bailava com outro olhar, porque os verdadeiros leitores estavam ali compondo os degraus, como disse o poeta “…para fazer chorar as pedras da calçada”.

Breve biografia
M.P.Bonde nasceu a 12 de Janeiro de 1980 em Maputo. Foi membro do projecto (JOAC) e do colectivo Arrabenta Xithokozelo. Em 2017 lançou a sua primeira obra literária “Ensaios Poéticos” pela Cavalo do Mar.

Podem reler o texto que José Manuel Martins Pedro, o nosso correspondente de autores africanos, nos escreveu sobre este autor neste link



segunda-feira, 24 de julho de 2017

EU FALO DE... COISAS QUE DIZEM E PERGUNTAS QUE FAÇO


Sempre que, em conversa entre pessoas ligadas ao universo da escrita, independentemente do envolvimento de cada um, alguém fala sobre as motivações deste/a ou daquele/a, dá-me uma tremenda vontade de rir; umas vezes pela inocência demonstrada, outras pela efervescência acusatória, outras até pela incoerência entre o que se diz e o que se faz.

Quando me dizem que "este editor faz a coisa por dinheiro", surgem-me sempre duas perguntas:

1ª - O propósito principal de um negócio não é fazer dinheiro?
2ª - Se estão preocupados com o dinheiro que os editores fazem, por que razão continuam a pagar aos editores para editar?

Quando me dizem que o valor que pagaram por uma antologia foi demasiado, surgem-me mais duas perguntas:

1ª - Por que as compram?
2ª - Por que continuam a pagar para participar em antologias?

Quando me dizem que, este/a ou aquele/a, é um vendido/a porque entra em antologias de várias editoras, apetece perguntar:

1º - Então, mas eles receberam para participar?
2º - Desde quando os autores têm obrigação de participar apenas nas antologias de uma só editora? 

Quando me dizem que, este/a ou aquele/a, troca de editora como quem troca de camisa, dá vontade de perguntar:

1º - Desde quando um autor assina contratos vitalícios?
2º - A ser verdade que trocam editoras como quem troca de camisa, isso quer dizer que trocam de camisa poucas vezes ao ano?

Quando me dizem que os autores não compram os livros dos outros autores, pergunto sempre:

1º - Mas os autores escrevem para outros autores ou para leitores?
2º - Já compraste algum dos meus livros?

Quando me dizem que o livro, deste/a ou daquele/a poeta, nunca deveria ter sido editado porque escreve mal, dá vontade de perguntar:

1º - Por que compraste o livro?
2º - Se escreve assim tão mal por que o/a chamas de poeta?

Quando me dizem que é preciso ter cuidado com este/a ou aquele/a porque anda muito próximo da concorrência, dá vontade de perguntar:

1º - Não seria mais proveitoso apoiarmo-nos uns aos outros em vez de andarmos em disputas que só prejudicam?
2º - Mas afinal, os autores andam nisto por paixão ou por quererem ser melhores que os restantes?

Eu podia continuar com muitos mais exemplos mas já está suficientemente fastidioso.

A verdade é que estas pessoas nem se apercebem das lacunas e incoerências das suas próprias contestações e continuam a barafustar pelo simples acto de o fazer e porque “toda a gente o faz”, sem pararem um pouco para pensar e analisar convenientemente todas as situações que as incomodam.

Quanto a mim, as minhas opções são claras e públicas e não é por as dizer com frequência e acreditar nelas que vou julgar nem condenar as opções dos outros.

Eu recuso-me pagar, seja em livro individual ou colectivo, mas aceito que outros pensem de forma diferente e, por isso, continuo a dar várias alternativas sempre que me pedem uma opinião sobre em que editora devem publicar. Já me ofereceram dinheiro para direccionar autores para determinadas editoras, sei quem o faz, mas se aceitasse estaria a ser incoerente comigo mesmo e eu prefiro dormir de consciência tranquila. Para além disso, como acredito que cada um deve pensar pela sua própria cabeça, limito-me a apresentar as diversas possibilidades. Também continuarei a divulgar projectos antológicos de modo a dar conhecimento deles, deixando aos autores a tarefa de decidir por si mesmos o interesse, ou falta dele, em participar.

Do mesmo modo, e pelas mesmas razões, não me choca quando um autor decide editar por uma chancela diferente, do seu livro anterior. Muito menos me choca que participem em múltiplas antologias de diferentes editoras porque, diz-me a razão, desse modo alargam a sua esfera de público.

E, o que acabei de defender anteriormente, também se aplica a colaborações em outros projectos. Dentro da minha disponibilidade, tento participar sempre que sou solicitado para integrar projectos relacionados com literatura. E nem me preocupa minimamente se alguma dessas minhas colaborações afecta ou choca outros com quem tenha colaborado anteriormente. Tampouco me interessa se existem conflitos de interesses entre os mentores e/ou promotores de diferentes projectos. Eu não defino as minhas colaborações pelas amizades ou inimizades dos outros.

Eu não digo para fazerem como eu faço. Eu afirmo e reafirmo que cada um deve agir de acordo com as suas convicções e ideais. Posso não concordar mas tenho que aceitar, por questão de coerência. Pode parecer um paradoxo, no entanto, ao contrário do que algumas pessoas já disseram e continuam a fazê-lo, não sou paladino da verdade, bem pelo contrário. Tenho é esta mania de defender a minha mas, ao contrário de outras vozes, isso não implica, da minha parte, falta de respeito pelas verdades dos outros. Tanto mais que debater as coisas só é possível se existir divergência.

Eu vejo o universo da escrita como um só corpo e acredito que todos os projectos são importantes na difusão da nossa língua e não concorrência porque os autores não devem competir mas sim unir esforços para benefício de todos. Depois cabe aos leitores decidir sobre a validade dos trabalhos de cada um dos autores. E menciono os leitores porque esses devem ser sempre o foco principal dos autores. Se não existirem leitores não faz sentido continuarmos a editar o que escrevemos.

Só que existe muito boa gente (digo, boa, no sentido irónico do adjectivo) que ainda não percebeu que ser autor não é vender mais que os outros; não é ser mais bajulado ou bajulador que os demais; não é ser parte de um rebanho nem vitimar-se. Ser autor é contribuir para o fortalecimento da nossa identidade cultural; é apoiar e, havendo possibilidade, colaborar no máximo de iniciativas que elevem e promovam a nossa língua e cultura. Enfim, ser autor é muito mais que olhar o próprio umbigo. Ou será que estou errado?

MANU DIXIT

domingo, 23 de julho de 2017

FALA ÁFRICA... SOBRE HELENA CENTEIO

 (José Manuel Martins Pedro - correspondente de autores africanos)

Hoje, venho apresentar-vos uma escritora e amiga que conheci recentemente, mas que a sua escrita cheia de sentires, desde o início me prendeu pela forma sensível como flui de dentro dela e se projeta nas “stórias” que conta.

Falo da autora Helena Centeio e do seu livro “Stória, Stória” (Contos tradicionais de Cabo Verde – Ilha do Fogo).

Helena Centeio, nasceu em Cabo Verde em 1971, na Ilha do Fogo. Filha de Carlos Eugénio Centeio (Carlitos) e Ernestina Centeio (Auzina) ambos da Ilha do Cabo, sendo a mais velha de 7 irmãos. Helena tem dois filhos Wilson Barbosa e Eduardo Menezes. Em 1980 emigrou para Portugal onde tirou o curso de animadora socio-cultural, auxiliar de educação e frequentou também a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Trabalha pontualmente como Produtora de eventos de cultura africana, audiovisuais e spots publicitários. Atualmente é contadora de “stórias” em várias escolas, bibliotecas e universidades séniores. Coordena o caboverdesite.com e a página do Facebook “Cabo Verde Portal”

Ler e interagir com este “Stória Stória” é deveras gratificante e intenso, perante tudo o que nos vai sendo apresentado, por isso, antes de falar do seu livro, vejamos o que é a tradição oral

Tradição oral
é a transmissão de saberes feita oralmente, pelo povo de geração em geração, isto é, de pais para filhos ou de avós para netos. Estes saberes tanto podem ser os usos e costumes das comunidades, como podem ser os contos populares, as lendas, os mitos e muitos outros textos que o povo guarda na memória (provérbios, orações, lengalengas, adivinhas, cancioneiros, romanceiros, etc). Também são conhecidos como património oral ou património imaterial. Através deles cada povo marca a sua diferença e encontra-se com as suas raízes, isto é, revela e assume a sua identidade cultural.

E conforme a autora escreve no seu livro (Stória, Stória), no tempo em que era criança em Cabo Verde, não havia eletricidade e como não tinha televisão, sobrava tempo na noite para gastar, ao luar ou na escuridão quase absoluta. Lembra também que chegavam pessoas vindas de longe só para ouvirem “stórias” contadas pelos mais velhos, como sua mãe e que algumas vezes, ela recebia até umas moedinhas! Formavam-se as rodas no chão misturadas por miúdos e graúdos. Os contos eram como o abrir de uma janela na mente para um mundo lindo e maravilhoso, cada um à sua maneira e onde na tela da noite se pintavam cenas mirabolantes e fantásticas que maravilhavam a todos. De conto em conto se passava assim um espólio inesgotável de tradição e uma mensagem rica que misturava os continentes Europeu e Africano, como sempre acontecera de geração em geração. Na amálgama de sentires e interiorizações, Helena Centeio quantifica tudo quanto de relevante se possa dizer sobre as palavras e de tudo quanto as mesmas envolvem. E foi assim que pensou em escrever as “stórias“ para preservar a cultura tradicional, testemunho para as gerações futuras. A sua herança cultural foi-lhe contada em crioulo Caboverdiano, língua que une esse povo em todo mundo.

José Manuel Martins Pedro
  (correspondente de autores africanos)
  

Lisboa, 23 de Julho de 2017