terça-feira, 12 de maio de 2015

EU FALO DE... QUALIDADE LITERÁRIA



Já por diversas vezes defendi (e continuarei a fazê-lo) que o conceito de qualidade é muito vasto e, por essa razão, discutível e abstracto. Cada um de nós vai criando padrões de qualidade, influenciado pelo que lê e pelos gostos e experiências que vai adquirindo ao longo da vida. Se assim não fosse seria mais fácil determinar o que tem (ou não tem) qualidade e por consequência teríamos todos o mesmo gosto e, quem sabe, talvez o mau e medíocre nem existissem.

Em simultâneo com esta definição, desenvolveu-se em mim, ao longo dos anos, a crença que a qualidade da nossa escrita depende, entre outras coisas, do que lemos. Não basta ler muito e diversificado, também é necessário ler qualidade, mesmo a qualidade que não nos atrai tanto. E, dentro dos meus parâmetros, tenho lido muitos livros de grande qualidade; e não falo apenas dos clássicos. Existe muita escrita de qualidade por esse mundo fora que escapa ao olhar da maioria e, por isso, fica quase confinada ao anonimato.

No entanto, acredito que a qualidade não pode restringir-se apenas a uma questão de gosto pessoal. Para melhor esclarecer este meu pensamento vou recorrer à obra de Fernando Pessoa e seus heterónimos. Não conheço ninguém que seja suficientemente audaz para dizer que existe mediocridade em algum dos trabalhos deste grande poeta. Conheço sim pessoas que gostam mais dos textos assinados por Álvaro de Campos ou de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares, Vicente Guedes ou outro qualquer heterónimo. Pode não existir unanimidade quanto ao melhor Fernando Pessoa mas a qualidade de todos, e do todo, é unanimemente reconhecida. Dito isto, é perfeitamente lógico que podemos ter os nossos padrões de qualidade mas devemos saber reconhecer, no que não gostamos, a qualidade existente.

Para personalizar um pouco mais este ponto voltarei a utilizar o exemplo de um dos melhores livros que li em 2012 - PORTAS MÁGICAS de Marta Teixeira Pinto. Disse-o várias vezes, as histórias de magia e fantástico não estão dentro das minhas preferências literárias mas esse facto não me impediu de reconhecer a qualidade que este livro tem e, em mais de uma ocasião, referi que não me importaria absolutamente nada ser o autor dessa obra. Não, não fiquei fã do género mas fico ansioso pelo próximo trabalho da autora.

Outro trabalho que mereceu de mim a mesma afirmação "não me importaria absolutamente nada ser o autor dessa obra" foi o livro CIDADE EMPRESTADA de Francisco Valverde Arsénio, editado em 2013. Este, já dentro do género literário da minha preferência, foi, sem a mínima dúvida, um dos melhores livros de poesia que tive a felicidade de ler e, não tenho problema algum em dizer, qualquer dos grandes nomes da poesia sairia prestigiado sendo o autor deste livro.

Tudo o que escrevi até este momento serve de introdução para dizer que este fim-de-semana estive a ler um ficheiro pdf que me foi enviado, por um autor, com o propósito de saber a minha opinião. Pois bem, sem entrar em grandes detalhes porque o trabalho em questão ainda não está editado, resta-me dizer que não me importaria absolutamente nada ser o autor dessa obra. Se o projecto, tal como me foi apresentado, merece o meu respeito e total apoio pelo facto de ser muito interessante, depois de ler o ficheiro, o autor merece também a minha mais profunda admiração pela obra que criou.

A minha biblioteca pessoal tem neste momento perto de 1300 títulos (desde os clássicos até às edições de autor). Aprendo imenso com cada um deles, independentemente da qualidade e tento que isso se reflicta nos meus próprios trabalhos. Tenho livros de muita qualidade, outros nem pouco mais ou menos. Gosto de muitos dos livros que tenho, de outros nem por isso. Sou autor de seis livros. Em dois livros não me importaria absolutamente nada ser o autor. Acho que em breve o terceiro poderá entrar em fase de produção. Espero ansioso!

MANU DIXIT  
 

8 comentários:

  1. Concordo em absoluto, embora, sempre discutível, qualidade é qualidade...eu gosto do que me faz rir, ou chorar, mas se me faz arrepiar, ou dar que pensar...é BOM!!!

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  2. Qualidade é o que converte a literatura em algo tangível e vivo - de outra forma, creio, seria um «cadáver sadio que procria» banalidades. Muito obrigada por este interessantíssimo texto e continuação de muito sucesso e de muitas alegrias.

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    1. Sempre grato pela visita e comentário.

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  3. Olá, Emanuel! Concordo com o que escreves sobre «qualidade literária» e, como tu, considero que a qualidade do que escrevemos passar por lermos muito, em vários géneros (não apenas nos que mais nos atraem) e de várias fontes (dos autores consagrados aos desconhecidos). Obrigada pela tua referência a «Portas Mágicas» (que me apanhou de surpresa!) e por seres o exemplo vivo do que esperava que acontecesse com o meu livro (isto é, que fosse apreciado por leitores que não contam o género fantástico entre as suas preferências literárias). Resta-me dizer que fiquei com muita vontade de ler o livro não editado que referes no teu artigo e que espero que, em breve, o mesmo possa ser publicado. Beijinhos

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    1. Olá Marta. Infelizmente nem toda a gente consegue entender como é importante o exercício de leitura no aperfeiçoamento daqueles que escrevem.
      Se não fosse justa e sentida, não faria referência ao grande livro que escreveste e tem encantado quem o leu.
      Quando a edição do livro for um caso consumado, certamente voltarei a falar dele.
      Beijo.

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  4. Caríssimo,

    Este é um tópico espinhoso...

    Falas em relação à escrita, mas como esse não é o único mundo em que me movo, arrasto-te para um ainda mais difuso: a música.

    Se a escrita, que é algo concreto, feito com palavras, se presta a mil interpretações, a música, na sua essência dependente apenas do interprete, porque a música escrita, por si só, é estéril e ouvir um computador a debitar na perfeição uma pauta é completamente diferente de ouvir a mesma pauta interpretada por um músico de excelência, o que signiofica que a perfeição nem sempre é aquilo que se deseja.

    Posto isto, há generos músicais de que gosto, há outros que nem tanto.
    Há musicas que ouço que são absolutamente aberrantes em termos de qualidade mas que me dizem qualquer coisa e me divertem. Diria que as músicas são boas por causa disso? Não! O facto de eu gostar não implica que tenha qualidade.
    Depois há outras, obras geniais que eu não consigo engolir de maneira nenhuma. Dou-te um exemplo de um compositor clássico, Bela Bartok. Qualidade extraordinária e um tormento para os meus ouvidos...

    Portanto, os meus gostos pessoais não se conjugam necessariamente com aquilo que tem qualidade. O reconhecimento da qualidade de uma obra é um processo racional, o gostar de uma obra nem tanto. E esta distinção é importante.

    Há quem defina a qualidade por aquilo que gosta ou deixa de gostar. Isso é, para mim, talvez sinal de um ego demasiado exacerbado. Ter gostos pessoais como unidade de medida da qualidade de algo é no mínimo estranho, porque nesse caso teremos 7 biliões de escalas diferentes, algumas com mais afinidade entre si, outras diametralmente opostas, mas todas válidas.
    Por outro lado, separar a qualidade dos gostos pessoais parece-me fazer mais sentido.
    Por exemplo, no geral (não vou entrar no particular) não gosto de bossa nova, que um género musical que só ouço amarrado a uma cadeira e amordaçado. E no entanto é um género musical riquíssimo. Porque é que não gosto? Simplesmente porque não.

    Apreciar a qualidade do que lemos, ou mesmo do que escrevemos, "do lado de fora" é um excelente exercício de humildade e mesmo de melhoramento pessoal. Afinal, gostamos sempre do que fazemos (ou pelo menos, gostamos sempre daquilo que nos atrevemos a divulgar), mas isso não dá qualidade ao que fazemos...
    ...e mesmo a falta de qualidade não impede de todo que mais alguém possa gostar...
    ...tal como a extrema qualidade de uma obra não implica directamente que alguém goste dela...
    ...basta ver o exemplo de "Mau tempo no canal"... :D

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    1. Companheiro, Esta tua dissertação vai ao encontro do que defendo sobre qualidade. Tal como digo no terceiro parágrafo, a qualidade não pode ficar restrita ao nosso gosto pessoal. Como dizes, e muito bem, há coisas que não gostamos e isso não significa falta de qualidade. É por acreditar que o conceito de qualidade é demasiado abrangente que eu acho que nesta matéria nunca existirá unanimidade, mais ainda porque a generalidade das pessoas confunde, precisamente, qualidade com gosto pessoal.
      Quanto ao aperfeiçoamento dos autores... acho que "consumir" criações alheias, seja qual for o registo e independentemente da qualidade ou falta dela, acaba sempre por ser um exercício válido para o tal aperfeiçoamento, e isso não implica perdermos a nossa individualidade, bem pelo contrário, acho que até ajuda a definir-nos como autores.
      Grato pelo teu testemunho.
      Abraço.

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